Muito do que os geofísicos sabem sobre o interior da Terra provém da análise de ondas sísmicas dos terramotos. O conhecimento dos segredos internos da Lua proveio de lançar sondas contra ela e analisar as ondas de choque que se propagavam através dela.
Os astrofísicos descobriram agora uma forma de passivamente analisar a propagação de ondas ao longo de asteróides de modo a compreender a sua estrutura.
Um novo estudo realizado usando os dados de há quatro anos da missão NEAR-Shoemaker indicam que um conjunto de vibrações causadas pela colisão com outro asteróide tiveram um papel crucial na compreensão da constituição estrutural de Eros.

Vista da superfície de Eros em que são visíveis áreas de regolitos,
em que é visível a dissipação de algumas crateras mais pequenas.
Crédito: NASA
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Esta ideia foi inicialmente colocada em 2001, mas era meramente especulativa. Neste momento, um especialista diz que a hipótese é bastante sólida e conta-nos uma história da composição de Eros. Ainda mais importante, dizem-nos que é possível obter o mesmo tipo de informações de forma passiva
Eros tem 33 quilómetros de comprimento e cerca de 13 quilómetros de largura. É sem dúvida o asteróide mais conhecido e mais estudado. A missão NEAR-Shoemaker mapeou a superfície de Eros em detalhe durante 2000-2001, antes dos seus operadores terem provocado um impacto dramático da sonda com a superfície do asteróide, naquilo que constituiu a primeira aterragem num asteróide.
Como qualquer asteróide, Eros tem andado a deambular pelo Sistema Solar desde a sua formação há cerca de 4,500 milhões de anos.
Nos primeiros tempos do Sistema Solar, quando este continha uma maior quantidade de rochas e pedras livres entre os grandes corpos, as colisões eram relativamente frequentes. Alguns grandes asteróides tornaram-se mais pequenos, enquanto algumas pequenas rochas se foram aglomerando e crescendo. Muitos desses objectos inicialmente livres acabaram por cair na Terra e nos outros planetas do Sistema Solar, servindo para aumentar ligeiramente a sua massa.
Os asteróides remanescentes que permanecem, encontram-se essencialmente entre Marte e Júpiter ou para lá de Neptuno e contam-nos a história da formação do Sistema Solar. Mas há necessidade que os astroísicos tenham meios de entender a sua linguagem, com um alfabeto de crateras e fracturas e uma gramática baseada largamente na composição mineral e densidade.
Entre as particularidades mais intrigantes de Eros encontra-se uma cratera de impacto com 7.6 quilómetros de diâmetro que os cientistas determinaram que foi feita recentemente. Outra característica interessante é que em cerca de 40% da sua superfície todas as crateras até cerca de 0.5 quilómetros de diâmetro desapareceram.
Uma superfície lisa tem intrigado os cientistas desde que a NEAR aterrou naquele asteróide.
O novo estudo levado a cabo pelo investigador Peter Thomas da Universidade de Cornell elaborou uma teoria estabelecendo que as crateras que desapareceram não poderiam ter sido cobertas por material ejectado no impacto recente. Mais ainda, os locais das crateras "apagadas" sugerem que foram sendo dissipadas pela existência de ondas internas geradas pelo impacto.
Se esta hipótese estiver correcta, pode permitir uma ideia para determinar como é que o asteróide é constituído. Os cientistas têm conjurado desde há muito tempo se os asteróides seriam de rocha sólida ou, como é provável nalguns casos, apenas meros aglomerados de pedras que após muitas colisões acabaram por ficar unidas gravitacionalmente.
"As nossas observações indicam que o interior de Eros é suficientemente coeso para transmitir ondas sísmicas ao longo de muitos quilómetros e as centenas de metros mais externas deverão ser constituídas de material realtivamente não coeso," escrevem Thomas e o seu colega Mark Robinson da Northwestern University, no seu artigo publicado na revista Nature do dia 21 de Julho..
O material exterior não coeso serão regolitos, que na Terra é chamada poeira e no nosso satélite natural é chamada poeira lunar.
"Pela primeira vez os autores apresentam evidências convincentes que tornam as suas conclusões mais do que conjecturas razoáveis," diz Erik Asphaug, um cientista da Universidade da California, que não esteve envolvido no estudo.
Estas descobertas são passíveis de alterar a forma como os asteróides são estudados: Os cientistas têm usado as crateras como formas de comparar a superfície mais antiga com a superfície exposta de fresco dos asteróides. Uma superfície lisa pode ser um sinal de que o asteróide teria sofrido clivagem recente ou então que a sua superfície tinha sido recentemente recoberta.
"Os dados agora divulgados vêm pôr em causa o hábito de datar a superfície do asteróide pelo número e tipo de impactos observáveis " escreve Asphaug numa análise separada da revista.
Segundo Asphaug, um monte de pedra amorteceria as vibrações durante um impacto, o que deixaria mais pequenas crateras intactas, o que levaria a considerar a superfície do asteróide mais velha segundo os métodos convencionais de análise.
Eros, embora tenha uma superfície de partículas soltas, é suficientemente sólida na sua região mais interna, pelo menos em parte desta para transmitir as ondas sísmicas de forma eficiente.
A descoberta sugere que as crateras de impacto mais novas e de maiores dimensões, como a que se observa em Eros, podem ser usadas para analisar dados sísmicos. Eventualmente o interior de outros asteróides poderão ser analisados só pelo mapeamento da sua superfície. "O trabalho de Thomas e Robinson também cria uma nova forma de olhar para os asteróides", disse Asphaug.
Talvez até se possa activar uma técnica passiva.
Na sequência do sucesso da recente missão Deep Impact da NASA que lançou uma pequena sonda contra o cometa Tempel 1, Asphaug pensa que seria útil um projecto similar em que antes fossem colocados sensores sísmicos para mapear o interior durante a colisão.

Imagem da superfície de Eros da sonda NEAR em que se
observa uma larga extensão lisa de material sedimentar.
Crédito: NASA/JHUAPL/SCIENCE
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Links:
Página na Nature de acesso ao artigo de Thomas e Robinson, bem como ao comentário de Asphaug:
http://www.nature.com/nature/journal/v436/n7049/edsumm/e050721-10.html |