Os astrónomos encontraram as primeiras evidências de fracturas na crusta de uma estrela de neutrões. A estrela estalou quando foi sacudida pelo maior "estrelamoto" jamais registado, anunciaram os investigadores durante a última semana.
Em Dezembro passado, astrónomos do mundo inteiro seguiram a explosão que provocou este abalo. A erupção foi enorme. Durante os primeiros 200 milisegundos a estrela libertou tanta energia quanta a que o Sol produz em 250,000 anos. A explosão foi o acontecimento mais brilhante jamais registado fora do Sistema Solar.

Impressão de artista das fracturas numa estrela de neutrões.
Crédito: NASA
Agora os cientistas usaram dados recolhidos de vários satélites para fornecer a primeira evidência observacional de que a explosão provocou na estrela fracturas com vários quilómetros de comprimento. Os cientistas esperam que estas fracturas possam constituir janelas para o estudo do misterioso interior das estrelas de neutrões.
Existem milhares de estrelas de neutrões na VIa Láctea, e muitas destas possuem campos magnéticos biliões de vezes mais fortes que o da Terra, sendo os mais fortes chamados magnetares.
Este magnetar em particular (SGR 1806-20) está rodeado pelo campo magnético mais forte que é conhecido no Universo. Isto poderia explicar porque é que o "estrelamoto" (causado quando a estrela de neutrões deixou de aguentar o crescimento das tensões magnéticas no seu interior) foi tão intenso.
Pensa-se que o interior de um magnetar (tal como o dos seus congéneres mais fracos, os pulsares) seja uma mistura líquida densa de neutrões, protões e electrões em estado degenerado, o que faz delas incríveis condutores de electricidade. Dado que possui as características de um fluido, tem movimentos internos. O campo magnético dos magnetares gira em redor da estrela e todo este movimento interno de cargas interfere com a forma do campo magnético, enrolando-o como se pode fazer com um elástico de borracha.
Mas o exterior do magnetar não é tão maleável. A crusta é feita essencialmente de ferro. O campo magnético passa através dela em alguns pontos, o que não é um problema para as estrelas de neutrões normais. Mas no caso dos magnetares, o campo interage com o núcleo e vai evoluindo de forma errática o que provoca enormes tensões na crusta. Eventualmente as tensões poderão acumular-se até um ponto em que a crusta racha.
Neste magnetar a primeira racha que se formou tem cinco quilómetros de comprimento, uma dimensão significativa se pensarmos que a estrela de neutrões só tem 10 quilómetros de diâmetro. A radiação escapou-se através da fractura causando um acréscimo inicial de radiação detectável.

Localização do magnetar SGR1806-20.
Crédito NASA
Embora a grande erupção tenha sido apenas no início, existem evidências de fracturas que se terão continuado a formar pelo facto da radiação ter continuado a ser emitida em pulsos irregulares.
"Não é para mim claro se será um conjunto de fracturas grandes ou uma multitude de fracturas pequenas" disse
Steve Schwartz do Imperial College de Londres. "O meu palpite é que seja uma muito grande que foi seguida por várias pequenas que continuam a formar-se."
O que isto significa para a SGR 1806-20 não é claro, mas as fracturas parecem ser mais uma forma de aliviar as pressões internas a que a estrela estava a ser sujeita que propriamente um sinal de que a estrela se esteja a desintegrar.
"O resultado das fracturas é o desenrolamento dos campos magnéticos interiores e exteriores," disse Schwartz. "Isto tem muito pouco efeito na estrela em si mesma, a não ser pelo facto de que o enrolamento do campo demorará algum tempo a ocorrer de novo."
SGR 1806-20 está a 50,000 anos-luz de distância na direcção de Sagitário, mas a erupção foi de tal modo intensa que "cegou" temporariamente alguns satélites e alterou ligeiramente o topo superior da atmosfera terrestre durante algum tempo. Um evento semelhante num magnetar colocado a 10 anos-luz de distância destruiria a camada de ozono. No entanto, não há razões para preocupações pois o magnetar mais próximo está a 13,000 anos luz de distância.
Links:
SPACE.com:
http://www.space.com/scienceastronomy/050927_star_cracked.html |