De acordo com os cientistas, quando a sonda Huygens aterrou em Titã, aterrou num local relativamente macio de material semelhante a neve ligeiramente condensada.
Mas para alcançar esse local macio, a Huygens teve que descer por uma traiçoeira atmosfera onde os ventos atingiam os 430 km/h, as temperaturas baixavam até aos -200º C, e onde os relâmpagos eram algo de normal.
Quase um ano depois da sonda ter aterrado na maior lua de Saturno, os cientistas estão ainda a estudar as enormes quantidades de dados enviados. Na passada Quarta-feira, os cientistas anunciaram as suas mais recentes descobertas numa série de sete relatórios publicados "on-line" pela revista Nature.

Impressão de artista da sequência da descida e aterragem da sonda Huygens em Titã.
Crédito: C. Carreau/ESA
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Os achados providenciam uma melhor compreensão de algumas das características básicas de Titã, um mundo envolto em "smog" que há muito que escapava o escrutínio humano, até que a Huygens e sua nave-mãe, a Cassini, se juntaram para uma série de observações.
O local de aterragem
A superfície de Titã foi revelada à medida que Huygens descia pelas nuvens e ligava o seu Radiómetro Espectral e de Imagem de Descida (DISR). Ao passo que estas imagens não mostravam lagos de hidrocarbonetos líquidos que muitos cientistas esperavam, mostravam, sim, sinais de líquidos fluentes sobre a forma de variações de brilho em torno dos limites dos "lagos" e uma "linha costeira", bem como o que parecem ser encostas esculpidas por escoamentos líquidos.

Vista, do instrumento DISR, de Titã a 8 km de altitude.
Crédito: ESA/NASA/Univ. do Arizona
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Vista, do instrumento DISR, de Titã a 1.2 km de altitude.
Crédito: ESA/NASA/Univ. do Arizona
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Imagens tiradas depois da aterragem revelavam pequenas pedras e calhaus, e que a topografia geral da região era razoavelmente plana, variando apenas mais ou menos um metro em altura. As imagens e outros instrumentos puseram de parte a presença de extensos nevoeiros de metano ao nível da superfície, no local de aterragem.

Vista da superfície de Titã.
Crédito: ESA/NASA/Univ. do Arizona
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Esta não era dura nem macia como algodão. Ao invés, tinha características semelhantes a argila molhada, neve ligeiramente condensada, ou areia seca ou molhada, na qual a sonda se afundou um pouco antes de aterrar. A composição dos vapores à superfície perto da sonda mostraram que esta estava molhada por metano, que evaporou à medida que a quente sonda aterrava no frio solo. A superfície era também rica em compostos orgânicos - tais como cianogénio ou etano - não detectados na atmosfera.

O instrumento HASI registou a assinatura do impacto da sonda.
Crédito: ESA/AS/UPD/OU (ESA/NASA/UofA)
Alguns cientistas especularam que uma maré tinha mesmo na altura acabado e que a sonda tinha aterrado numa ainda molhada praia.

Impressão de artista que coloca a Huygens aterrar numa praia de Titã.
Crédito: ESA/C. Carreau
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Super-ventoso
Os cientistas há muito que suspeitavam que a atmosfera de Titã se movia em torno do planeta mais depressa que a própria rotação do mesmo - uma característica física conhecida como superrotação e previamente observada em Vénus. Agora, dados do instrumento DISR da Huygens e da Experiência de Vento Doppler confirmaram que as nuvens recheadas de metano em Titã têm de facto uma superrotação.
Enquanto que as nuvens mais altas - cerca de 120 km acima da superfície - giram em torno do planeta a velocidades de aproximadamente 430 km/h, as velocidades de vento gradualmente descem à medida que nos aproximamos da superfície. Aqui temos ventos geralmente fracos, pouco mais que uma dezena de metros por segundo, observados nos últimos 5 km da descida.

Velocidade do vento e direcção, retirado a partir do DWE e do DISR.
Crédito: ESA/NASA/Univ. do Arizona
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A sonda passou por uma outra região de velocidades de vento quase nulas, entre as altitudes 100 e 60. Os cientistas não conseguem ainda explicar este facto.
Atmosfera
Durante a sua descida, a Huygens estudou pela primeira vez, em primeira mão, quais os compostos existentes na atmosfera de Titã. A atmosfera é constituída principalmente por nitrogénio e metano, mas os cientistas não sabiam donde estes originavam - chegaram na sua forma presente ou eram originalmente parte de outras moléculas, quimicamente alterados para os estados observados hoje em dia.
O gás argon 36 foi detectado pelo Espectómetro de Massa Cromatógrafo Gasoso em muito pequenas quantidades, e os cientistas dizem que isto indica que o nitrogénio estava originalmente presente como parte do amoníaco. Também, a antiga atmosfera do planeta era pelo menos cinco vezes mais densa em nitrogénio do que é agora, sugerindo que algum deste gás foi perdido para o espaço.

A sonda Huygens descendo pela atmosfera de Titã.
Crédito: ESA
As relações entre os isótopos de carbono também indicam que a atmosfera está a perder metano, e que deve existir algum método periódico de reabastecimento, embora nenhum tenha sido observado. Alguns pesquisadores previram que deveria existir um grande reservatório de metano à superfície (ou à subsuperfície) que reabasteceria a atmosfera, embora também isso não tenha sido observado. Também ausente das observações estão os sinais das chuva de metano, que os cientistas acreditavam cobrir a superfície do planeta.
Poderá ser que os cyrovulcões - semelhantes aos vulcões terrestres, excepto que expelem água líquida e amónia a partir de reservatórios à subsuperfície - estejam a providenciar, tanto a atmosfera como a superfície com nitrogénio e metano.
"As teorias actuais explicam que existe uma região de mistura entre água-amónia no estado líquido a uma certa profundidade por baixo da superfície de Titã - o equivalente ao magma na Terra," diz o co-autor do estudo, Andrew Ball. "Esta é uma possível fonte para a renovação do metano em Titã."
Amontoados de aerosóis, temperaturas baixíssimas, e talvez alguns relâmpagos
O instrumento ACP (Aerosol Collector and Pyrolyser) analisou as partículas à medida que atravessava as nuvens e registou a presença de compostos orgânicos contendo nitrogénio, que podem incluir os grupos amino, imino e nitrilo - componentes-chave na formação de proteínas aqui na Terra.
Estas partículas também se agrupam, talvez providenciando uma base para a formação de nuvens, e afectando as temperaturas e velocidades do vento pela atmosfera. Também caem como uma espécie de calma chuva orgânica na superfície de Titã, escrevem os cientistas, e podem produzir um manto global com uma espessura potencial de mais ou menos um quilómetro.
Os cientistas também usaram o Instrumento de Estrutura Atmosférica da Huygens (HASI) durante a descida para medir a temperatura da atmosfera desde as camadas superiores até à superfície. A temperatura à superfície ronda os -180 graus Celsius, quente o suficiente para a existência de lagos e rios de gás natural líquido. As temperaturas atmosféricas variam entre os -200 graus Celsius nas maiores elevações - 1400 km acima da superfície - até aos -100 graus Celsius na estratosfera, cerca de 40 km acima da superfície.
O instrumento HASI também detectou actividade eléctrica semelhante à assinatura dos relâmpagos. Esta foi observada por volta dos 60 km de altitude, que é também a região onde a velocidade do vento baixa até quase zero.
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Primeiras medições "in situ" feitas na atmosfera de Titã - ESA
USA Today
Reuters
Time
ABC News
Discovery Channel
PhysOrg.com
CNN
MSNBC
Titã:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia
Cassini-Huygens:
Site da NASA
Site da ESA
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