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BOLETIM ASTRONÓMICO - EDIÇÃO N.º 434
De 23/07 a 25/07/2008
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  ESTAREMOS NO CENTRO DE UM VAZIO CÓSMICO?
   


A nuvem molecular Barnard 68.
Crédito: Equipa FORS, telescópio de 8,2 metros Antu do VLT, ESO
(clique na imagem para ver versão maior)

Em larga escala, o Universo é homogéneo e isotrópico. Isto significa que, não obstante o seu lugar no cosmos, à excepção da ocasional nebulosa ou enxame galáctico, o céu nocturno terá aproximadamente sempre o mesmo aspecto. Naturalmente existem algumas 'discrepâncias' na distribuição das estrelas e das galáxias, mas geralmente a densidade de um dado local será a mesma que outro a centenas de anos-luz de distância. Esta suposição é conhecida como o Princípio Copernicano. Ao invocar o Princípio Copernicano, os astrónomos previram a existência de uma elusiva energia escura, acelerando a separação entre as galáxias, e assim expandindo o Universo. Mas digamos que esta suposição básica está incorrecta. E se a nossa região do Universo for única, por estarmos situados num local onde a densidade média é muito menor que as outras regiões do espaço? Subitamente as nossas observações da luz de supernovas de Tipo Ia não são anómalas e podem ser explicadas pelo vazio local. Se fosse este o caso, então a energia escura (ou por exemplo outra qualquer substância exótica) não seria necessária para explicar a natureza do nosso Universo.

A energia escura é uma energia hipotética que se pensa permear todo o Cosmos, provocando a expansão observada do Universo. Acredita-se que esta estranha energia corresponde a 73% de toda a energia-massa (isto é, E=mc^2) do Universo. Mas onde está a prova dessa energia escura? Uma das ferramentas principais ao medir a expansão do Universo é a análise do desvio para o vermelho de um objecto distante com brilho conhecido. Num Universo recheado de estrelas, qual é o objecto que produz um brilho "padrão"?

As supernovas Tipo Ia são conhecidas como 'velas padrão' exactamente por essa razão. Por mais longínquas que estejam no Universo observável, explodem sempre com a mesma quantidade de energia. Em meados da década de 90, os astrónomos observaram distantes supernovas Tipo Ia um pouco mais ténues do que o esperado. Com a suposição básica (pode ser uma visão aceite, mas é mesmo assim uma suposição) de que o Universo obedece ao Princípio Copernicano, esta diminuição de brilho sugeria a existência de uma força no Universo que provocava não só uma expansão, mas uma expansão acelerada do Universo. Esta força misteriosa ficou com o nome de energia escura e a ideia de que existe em abundância pelo cosmos e explica estas observações é agora aceite pela comunidade científica. (Existem muitos outros factores que explicam a existência da energia escura, mas este é o factor principal.)


A formação de uma supernova Tipo Ia.
Crédito: NASA ESA, A. Field (STScI)
(clique na imagem para ver versão maior)

Uma nova publicação escrita por Timothy Clifton, da Universidade de Oxford no Reino Unido (co-autores Pedro G. Ferreira, astrofísico português, e Kate Land), investiga a sugestão controversa de que o largamente aceite Princípio Copernicano está errado. Talvez até habitamos uma região única do espaço onde a densidade média é bem menor que a do resto do Universo. As observações de supernovas distantes subitamente não necessitariam da energia escura para explicar a natureza do Universo em expansão. Nenhumas substâncias exóticas, nenhumas modificações da gravidade e nenhumas dimensões a mais.

Clifton escreve que poderia explicar as observações das supernovas se vivêssemos numa região extremamente rarefeita, quase no seu centro, e este vazio poderia ser numa escala da mesma ordem de magnitude que o Universo observável. Se fosse o caso, a geometria do espaço-tempo seria diferente, incluenciando a passagem da luz de maneira diferente do esperado. O autor vai mais além ao dizer que qualquer observador tem uma grande probabilidade de se encontrar numa região deste tipo. Mas num Universo inflacionista como o nosso, a probabilidade da geração de tal vazio é baixa. No entanto deve mesmo assim ser considerada. Situarmo-nos no meio de uma região única no espaço violaria o Princípio Copernicano e teria grandes implicações em todas as facetas da cosmologia. Seria, literalmente, uma revolução.

O Princípio Copernicano é uma das pedras angulares da cosmologia. Mas como suposição que é, deve ser aberta ao escrutínio. Claro está, qualquer boa ciência não deve ser idêntica à religião, onde uma suposição (ou crença) se torna inquestionável. Embora o estudo de Clifton é por agora só especulativo, levanta algumas questões interessantes acerca do que sabemos sobre o Universo e se estamos dispostos a testar as nossas ideias fundamentais.

Links:

Notícias relacionadas:
Artigo científico no Ianl.arXiv.org (formato PDF)
New Scientist
Discover Magazine

Princípio copernicano:
Wikipedia

Supernovas:
Wikipedia
NASA
Projecto cosmológico de Berkeley

Universo:
Universo (Wikipedia)
Idade do Universo (Wikipedia)
Estrutura a grande-escala do Universo (Wikipedia)
Big Bang (Wikipedia)
Cronologia do Big Bang (Wikipedia)

 
  ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
       
  Foto  
As galáxias espirais em colisão de Arp 271 - Crédito: Gemini Observatory, GMOS-South, NSF
O que irá acontecer a estas galáxias? As galáxias espirais NGC 5426 e 5427 estão a passar perigosamente próximo uma da outra, mas é provável que sobrevivam à colisão. Mais frequentemente, quando as galáxias colidem, uma grande galáxia "come" uma galáxia muito mais pequena. No entanto, neste caso, as duas galáxias são muito semelhantes, cada uma esplêndida espiral com grandes braços e um núcleo compacto. À medida que as galáxias se aproximam durante as próximas dezenas de milhões de anos, as suas estrelas muito provavelmente não irão colidir, embora novas possam nascer na revolução gasosa provocada pelas forças das marés. Uma inspecção mais detalhada da imagem, tirada pelo telescópio de 8 metros Gemini-Sul no Chile, mostra uma ponte de material momentaneamente ligando os dois gigantes. Conhecidas colectivamente como Arp 271, o par em interacção cobre uma área de aproximadamente 130.000 anos-luz e situa-se a 90 milhões de anos-luz de distância na direcção da constelação de Virgem. Possivelmente, a Via Láctea irá também colidir com a nossa vizinha Galáxia de Andrómeda, daqui a 5 mil milhões de anos.
Ver imagem em alta-resolução
 
 
 
 
 
EFEMÉRIDES:

Dia 23/07: 205.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1972, os Estados Unidos lançavam o satélite LandSat 1.

Observações: Aproveite a noite para observar o lindo semi-círculo de estrelas da constelação da Coroa Boreal.

Dia 24/07: 206.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1969, a Apollo 11 regressava à Terra em segurança caindo a cápsula com os astronautas em segurança no Oceano Pacífico.

Observações: Espreite esta noite pelo seu telescópio e observe Júpiter. Quantos satélites conta? Se faltar algum, consegue determinar qual?

Dia 25/07: 207.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1973 era lançada a sonda russa Mars 5.
Em 1984 a cosmonauta russa Svetlana Savitskaya torna-se a primeira mulher a caminhar no espaço ao abandonar a estação Salyut 7.

Observações: Lua em Quarto Minguante, pelas 19:42.

 
 
CURIOSIDADES:

Os nomes das luas de Júpiter são os nomes mitológicos das suas amantes.
 
 
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