NOTÍCIAS ASTRONÓMICAS - N.º 6
17 de Março de 2004
SEDNA LEVANTA POSSIBILIDADES DE OUTRO PLANETA COM O TAMANHO DA TERRA NO NOSSO SISTEMA SOLAR
 

O nosso canto da galáxia ficou um pouco mais estranho esta semana com a descoberta de Sedna, o objecto mais distante do Sistema Solar conhecido. Agora os astrónomos estão a perguntar-se como lá chegou.

A ideia mais intrigante é que possa haver outro mundo tão grande como a Terra, uma disputa gravitacional à espreita no canto inexplorado do sistema solar.

Eis o problema: os cientistas não conseguem perceber como Sedna, que tem cerca de três quartos do tamanho de Plutão, veio a ter uma tão estranha órbita à volta do Sol. O percurso de Sedna é altamente elíptico. Varia entre 76 UA (UA - unidade astronómica: distância média entre a Terra e o Sol, à volta de 150 milhões de quilómetros) quando está mais perto do Sol e 1,000 UA quando está no afélio (ponto mais afastado do Sol). Os cientistas sugerem que outro objecto com o tamanho da Terra possa ter algo a ver com o facto de Sedna ter esta órbita tão estranha.


Localização e órbita do novo objecto, em contexto com as órbitas do Sistema Solar, asteróides conhecidos e objectos da cintura de Kuiper, como também a hipotética Nuvem de Oort, orbitando o Sol.
Crédito: NASA/JPL - Caltech/R. Hurt (SSC-Caltech)

Michael Brown, o astrónomo do California Institute of Technology que levou à descoberta de Sedna, disse que o cenário mais provável envolve o Sol ter nascido num enxame estelar, e as estrelas que estavam na altura mais próximas do sistema solar -- mesmo assim a mais de 10,000 UA de distância -- foram responsáveis pela ejecção de objectos como Sedna.

Alguns astrónomos não envolvidos na descoberta apoiam a ideia que Sedna foi atraído para fora por uma estrela. Mas outros não acreditam na explicação. Brian Marsden, director do Minor Planet Center em Cambridge (onde novos objectos do sistema solar são catalogados), Massachussets, acredita que tenha sido um "objecto planetário", talvez entre 400 e 1,000 UA.

"Talvez haja mais que um planeta por aí", disse Marsden. "Quem sabe? Mas supondo que seja algo com a massa da Terra, talvez até mais. Uma aproximação poderia atirar este objecto (Sedna) de uma órbita mais ou menos circular para uma outra mais excêntrica."

Marsden diz que tal cenário deixa em aberto a questão de como um planeta com o tamanho da Terra se possa ter formado tão longe do Sol, onde a matéria bruta deveria ser escassa, de acordo com a corrente teoria.

Brown disse que um planeta com o tamanho da Terra é uma possibilidade. Mas os cálculos da equipa põem-no a 70 UA. "Nós pensamos ser improvável, porque o teríamos já encontrado", comenta Brown.

Alan Boss, um teórico de formação de planetas do Carnegie Institute em Washington, DC, concorda que a passagem de uma estrela ou de uma densa nuvem de gás sejam a causa mais provável para a órbita de Sedna. Boss disse que seria "difícil de imaginar" a formação de um objecto com o tamanho da Terra num sítio onde essa interacção possa ter acontecido.

Mas Brown disse que há ainda uma região do espaço não explorada, que constitui cerca de 20% do céu, ainda não pesquisada por objectos com o tamanho da Terra que orbitariam a 70 UA e presumivelmente no plano principal do sistema solar. É a região em direcção ao brilhante centro galáctico, que é mais difícil de procurar. Brown também concluiu que a sua equipa está a considerar fazer essa busca.

Se a ideia de Marsden estiver correcta, e houver um planeta com o tamanho da Terra a algumas centenas de unidades astronómicas de distância, teria facilmente escapado à detecção pelos métodos actuais. De qualquer maneira, isto não envolveria uma "Terra" vulgar. Qualquer objecto para lá de Plutão seria gelado e não suportaria vida.

Como nota, os astrónomos têm opiniões divergentes quanto ao classificar Sedna como um planeta. Muitos argumentam que Plutão nunca deveria ter sido catalogado como planeta, porque é mais como Sedna e outros objectos para lá de Neptuno -- pequenos e com órbitas invulgares. No entanto, a verdade é que não existe uma definição astronómica para o termo "planeta". Mas a União Astronómica Internacional deixou bem claro em anos recentes que Plutão, embora muitos astrónomos agora o suportem, não lhe será retirado o título de planeta. Não é conhecido o que chamar a objectos do tamanho da Terra encontrados para lá de Neptuno numa órbita circular, mas não seria difícil de considerá-los como planetas.

Alan Stern do Southwest Research Institute acrescenta outra peça ao puzzle. Stern pensa que poderão haver objectos do tamanho da Terra na nuvem de Oort, a região mais distante do sistema solar. A equipa de Brown disse que acredita que Sedna seja apontado como o primeiro objecto da anteriormente teórica Nuvem de Oort. O reservatório distante de pequenos objectos gelados pensa-se que exista, com base nas órbitas de alguns cometas que aparecem no sistema solar interior de vez em quando, e depois desaparecem para o espaço profundo. No entanto, ninguém sabe o que existe na Nuvem de Oort.


A Nuvem de Oort, os limites exteriores do nosso Sistema Solar. Aí residem os cometas, que de vez em quando se aproximam do Sol e podem ser visíveis da Terra.
Crédito: Calvin J. Hamilton

"Eu acredito que seja provável", disse Stern em relação a possíveis objectos com o tamanho da Terra na Nuvem de Oort. Nos primeiros anos do sistema solar, explicou, objectos tão massivos como a Terra pensa-se que terão colidido com Urano e Neptuno. As simulações por computador mostram que a maioria dos hipotéticos objectos do tamanho da Terra "seriam ejectados da região dos planetas exteriores, não acumulados em Urano e Neptuno, e por isso um dia poderíamos encontrar estas relíquias geladas na Nuvem de Oort."


Diagrama do Sistema Solar (não está à escala).
Crédito: Nature
(clique na imagem para ver versão maior)

Encontrar mundos tão distantes seriam um desafio monumental. A Nuvem de Oort diz-se que se estenda até metade da distância da próxima estrela conhecida.

Links:

SEDNA:
http://www.gps.caltech.edu/~mbrown/sedna/
http://www.spitzer.caltech.edu/
http://www.newscientist.com/news/news.jsp?id=ns99994780
http://skyandtelescope.com/news/article_1214_1.asp
http://tsf.sapo.pt/online/ciencia/interior.asp?id_artigo=TSF143305
http://www.nasa.gov/home/hqnews/2004/mar/HQ_04091_sedna_discovered.html

Equipa de cientistas:
http://www.gps.caltech.edu/~mbrown/
http://www.gps.caltech.edu/~chad/
http://www.ifa.hawaii.edu/faculty/jewitt/kb.html

 
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
       
 

Um anómalo sinal do SETI: SETI League
Ninguém sabe com certeza o que causou este sinal. Existe uma pequena possibilidade de ter origem extra-terrestre. As brilhantes cores do fundo azul indicam que um sinal anómalo foi recebido aqui na Terra por um rádiotelescópio envolvido no SETI. O tempo é o eixo vertical do gráfico, e a frequência o horizontal. Embora este forte sinal nunca tenha sido positivamente identificado, os cientistas aí encontraram muitos atributos característicos duma origem mais mundana e terrestre. É possível que seja proveniente de uma invulgar modulação entre um satélite de GPS e uma fonte terrestre desconhecida. Muitos destes sinais espaciais permanecem por identificar. Até hoje, nenhum sinal foi forte o suficiente ou durou o tempo necessário para ser ambiguosamente identificado como tendo origem a partir de uma inteligência extraterrestre.
Ver imagem em alta-resolução

 
       
 
 
EFEMÉRIDES:
 

Dia 17/03: 76º dia do calendário gregoriano. Em 1958 foi lançada a primeira nave espacial a energia solar (Vanguard 1). Aproveite a noite para espreitar a Nebulosa de Oríon através de binóculos, tentando observar as nebulosidades.

Dia 18/03: 77º dia do calendário gregoriano. Em 1965, Alexei Leonov fazia o primeiro "passeio" espacial. Aproveite a noite para observar com binóculos as famosas estrelas Alcor e Mizar da constelação de Ursa Maior.

 
 
CURIOSIDADES:
 
O primeiro instrumento parecido com um foguete pode ser traçado até aos Gregos no ano de 400 A.C., quando Archytas de Tarentum construiu um pombo de madeira a vapor.
 
 
VIAGEM AO ASTRO-CIBERESPAÇO:

 
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Publicado por: Miguel Montes e Alexandre Costa
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