O nosso canto da galáxia ficou um pouco mais estranho esta semana com a
descoberta de Sedna, o objecto mais distante do Sistema Solar conhecido. Agora
os astrónomos estão a perguntar-se como lá chegou.
A ideia mais intrigante é que possa haver outro mundo tão grande como a Terra,
uma disputa gravitacional à espreita no canto inexplorado do sistema solar.
Eis o problema: os cientistas não conseguem perceber como Sedna, que tem cerca
de três quartos do tamanho de Plutão, veio a ter uma tão estranha órbita à volta
do Sol. O percurso de Sedna é altamente elíptico. Varia entre 76 UA (UA -
unidade astronómica: distância média entre a Terra e o Sol, à volta de 150
milhões de quilómetros) quando está mais perto do Sol e 1,000 UA quando está no
afélio (ponto mais afastado do Sol). Os cientistas sugerem que outro objecto com
o tamanho da Terra possa ter algo a ver com o facto de Sedna ter esta órbita tão
estranha.

Localização e órbita do novo objecto, em contexto com as órbitas do Sistema Solar, asteróides conhecidos e objectos da cintura de Kuiper, como também a hipotética Nuvem de Oort, orbitando o Sol.
Crédito: NASA/JPL - Caltech/R. Hurt (SSC-Caltech)
Michael Brown, o astrónomo do California Institute of Technology que levou à
descoberta de Sedna, disse que o cenário mais provável envolve o Sol ter nascido
num enxame estelar, e as estrelas que estavam na altura mais próximas do sistema
solar -- mesmo assim a mais de 10,000 UA de distância -- foram responsáveis pela
ejecção de objectos como Sedna.
Alguns astrónomos não envolvidos na descoberta apoiam a ideia que Sedna foi
atraído para fora por uma estrela. Mas outros não acreditam na explicação. Brian
Marsden, director do Minor Planet Center em Cambridge (onde novos objectos do
sistema solar são catalogados), Massachussets, acredita que tenha sido um "objecto planetário", talvez entre 400 e 1,000 UA.
"Talvez haja mais que um planeta por aí", disse Marsden. "Quem sabe? Mas supondo
que seja algo com a massa da Terra, talvez até mais. Uma aproximação poderia
atirar este objecto (Sedna) de uma órbita mais ou menos circular para uma outra
mais excêntrica."
Marsden diz que tal cenário deixa em aberto a questão de como um planeta com o
tamanho da Terra se possa ter formado tão longe do Sol, onde a matéria bruta
deveria ser escassa, de acordo com a corrente teoria.
Brown disse que um planeta com o tamanho da Terra é uma possibilidade. Mas os
cálculos da equipa põem-no a 70 UA. "Nós pensamos ser improvável, porque o
teríamos já encontrado", comenta Brown.
Alan Boss, um teórico de formação de planetas do Carnegie Institute em
Washington, DC, concorda que a passagem de uma estrela ou de uma densa nuvem de
gás sejam a causa mais provável para a órbita de Sedna. Boss disse que seria "difícil de imaginar" a formação de um objecto com o tamanho da Terra num sítio
onde essa interacção possa ter acontecido.
Mas Brown disse que há ainda uma região do espaço não explorada, que constitui
cerca de 20% do céu, ainda não pesquisada por objectos com o tamanho da Terra
que orbitariam a 70 UA e presumivelmente no plano principal do sistema solar. É
a região em direcção ao brilhante centro galáctico, que é mais difícil de
procurar. Brown também concluiu que a sua equipa está a considerar fazer essa
busca.
Se a ideia de Marsden estiver correcta, e houver um planeta com o tamanho da
Terra a algumas centenas de unidades astronómicas de distância, teria facilmente
escapado à detecção pelos métodos actuais. De qualquer maneira, isto não
envolveria uma "Terra" vulgar. Qualquer objecto para lá de Plutão seria gelado e
não suportaria vida.
Como nota, os astrónomos têm opiniões divergentes quanto ao classificar Sedna
como um planeta. Muitos argumentam que Plutão nunca deveria ter sido catalogado
como planeta, porque é mais como Sedna e outros objectos para lá de Neptuno --
pequenos e com órbitas invulgares. No entanto, a verdade é que não existe uma
definição astronómica para o termo "planeta". Mas a União Astronómica
Internacional deixou bem claro em anos recentes que Plutão, embora muitos
astrónomos agora o suportem, não lhe será retirado o título de planeta. Não é
conhecido o que chamar a objectos do tamanho da Terra encontrados para lá de
Neptuno numa órbita circular, mas não seria difícil de considerá-los como
planetas.
Alan Stern do Southwest Research Institute acrescenta outra peça ao puzzle.
Stern pensa que poderão haver objectos do tamanho da Terra na nuvem de Oort, a
região mais distante do sistema solar. A equipa de Brown disse que acredita que
Sedna seja apontado como o primeiro objecto da anteriormente teórica Nuvem de
Oort. O reservatório distante de pequenos objectos gelados pensa-se que exista,
com base nas órbitas de alguns cometas que aparecem no sistema solar interior de
vez em quando, e depois desaparecem para o espaço profundo. No entanto, ninguém
sabe o que existe na Nuvem de Oort.

A Nuvem de Oort, os limites exteriores do nosso Sistema Solar. Aí residem os cometas, que de vez em quando se aproximam do Sol e podem ser visíveis da Terra.
Crédito: Calvin J. Hamilton
"Eu acredito que seja provável", disse Stern em relação a possíveis objectos com
o tamanho da Terra na Nuvem de Oort. Nos primeiros anos do sistema solar,
explicou, objectos tão massivos como a Terra pensa-se que terão colidido com
Urano e Neptuno. As simulações por computador mostram que a maioria dos
hipotéticos objectos do tamanho da Terra "seriam ejectados da região dos
planetas exteriores, não acumulados em Urano e Neptuno, e por isso um dia
poderíamos encontrar estas relíquias geladas na Nuvem de Oort."

Diagrama do Sistema Solar (não está à escala).
Crédito: Nature
(clique na imagem para ver versão maior)
Encontrar mundos tão distantes seriam um desafio monumental. A Nuvem de Oort
diz-se que se estenda até metade da distância da próxima estrela conhecida.
Links:
SEDNA:
http://www.gps.caltech.edu/~mbrown/sedna/
http://www.spitzer.caltech.edu/
http://www.newscientist.com/news/news.jsp?id=ns99994780
http://skyandtelescope.com/news/article_1214_1.asp
http://tsf.sapo.pt/online/ciencia/interior.asp?id_artigo=TSF143305
http://www.nasa.gov/home/hqnews/2004/mar/HQ_04091_sedna_discovered.html
Equipa de cientistas:
http://www.gps.caltech.edu/~mbrown/
http://www.gps.caltech.edu/~chad/
http://www.ifa.hawaii.edu/faculty/jewitt/kb.html
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