NOTÍCIAS ASTRONÓMICAS - N.º 63
5 de Outubro de 2004
A TEMPESTADE CÓSMICA PERFEITA

Com o telescópio XMM-Newton da ESA, uma equipa internacional de cientistas observou uma colisão vizinha de dois enxames galácticos em que chocaram violentamente milhares de galáxias e milhares de milhões de estrelas. É um dos mais poderosos eventos registados de que há memória. Tais colisões são apenas ultrapassadas pelo poder do Big Bang no que respeita ao total de energia libertada.


Animação exemplificativa do choque galáctico ocorrido. Os pequenos pontinhos verdes são galáxias contendo milhares de milhões de estrelas (leva tempo a carregar a animação).
Crédito: NASA

O evento descrito é o que os cientistas chamam de 'tempestade cósmica perfeita': enxames de galáxias que colidiram como duas frentes meteorológicas de alta-pressão e que criaram condições favoráveis à criação de "furacões", atirando galáxias para bem longe do seu percurso e agitando ondas de choque de gás com 100 milhões de graus através do espaço intergaláctico.

Esta visão sem precendentes de uma fusão em acção cristaliza a teoria de que o Universo construíu a sua magnífica estrutura hierárquica de 'baixo para cima' - essencialmente através da união de galáxias mais pequenas e enxames galácticos em outros maiores.

"Em frente aos nossos olhos vemos a criação de um dos maiores objectos do Universo," disse o Dr. Patrick Henry da Universidade do Hawaii, que liderou o estudo. "O que era há 300 mihões de anos dois distintos mas pequenos enxames galácticos, é agora um super-enxame envolvido num turbilhão."

Henry e os seus colegas, Alexis Finoguenov e Ulrich Briel do Instituto Max Planck para a Física Extraterrestre na Alemanha, irão apresentar estes resultados posteriormente numa edição do Jornal Astrofísico. A previsão destes novos super-enxames, dizem, é 'clara e pacífica', agora que o pior da tempestade já passou.

Os enxames de galáxias são as maiores estruturas graviticamente ligadas do Universo, contendo centenas e até milhares de galáxias. A nossa Via Láctea é parte de um pequeno grupo mas não está graviticamente ligado ao mais próximo enxame, o Enxame de Virgem. No entanto, estamos destinados a colidir com uma galáxia daqui a uns quantos milhares de milhões de anos.

O enxame com o nome de Abell 754 na constelação de Hidra é já conhecido há décadas. No entanto, para a surpresa dos cientistas, a nova observação revela que a fusão pode ter ocorrido na direcção oposta do que anteriormente se pensava. Encontraram provas deste facto ao analisar os restos desta união, que se estendem numa distância de milhões de anos-luz. Embora se conheçam outras grandes uniões, nenhuma tinha sido estudada com tanto detalhe como Abell 754.

Pela primeira vez, os cientistas puderem criar um completo 'mapa meteorológico' de Abell 754 e assim determinar uma previsão. Este mapa contém informação acerca da temperatura, pressão e densidade do novo enxame. Tal como em todos os enxames, a maioria da matéria vulgar encontra-se sob a forma de gás entre as galáxias e não fechada nas mesmas ou nas estrelas propriamente ditas. As forças brutais dos enxames em colisão aceleraram o gás intergaláctico a grandes velocidades. Isto resultou na formação de gigantescas ondas de choque que aqueceram o gás a temperaturas altíssimas, que depois emitiram luz de raios-X, muito mais energética que a luz visível que os nossos olhos podem detectar. O XMM-Newton, em órbita, detecta este tipo de luz altamente energética.


Imagem que mostra a temperatura do gás dentro e à volta da colisão, com base em dados de raios-X. As galáxias em si são difíceis de identificar. A cor branca corresponde a regiões onde a temperatura é mais alta - milhões de graus - seguida pelas cores vermelho, laranja, amarelo e azul.
Crédito: ESA/XMM-Newton/Patrick Henry et al.
(clique na imagem para a ver maior)

A dinâmica da fusão revelada pelo XMM-Newton aponta para um enxame em transição. "Um enxame aparentemente colidiu com o outro a partir de 'noroeste', que passou por este uma vez," disse Finoguenov. "Agora, a gravidade irá puxar os restos do primeiro enxame para o núcleo do segundo. Nos próximos milhares de milhões de anos, os restos dos dois enxames irão assentar e a fusão ser completada."

A observação implica que as maiores estruturas no Universo estejam essencialmente ainda em formação. Abell 754 é relativamente perto, a mais ou menos 800 milhões de anos de distância. Mesmo assim, a restante construção estará provavelmente completa daqui a uns quantos milhares de milhões de anos. Uma substância misteriosa conhecida como 'energia negra' parece estar a acelerar o ritmo de expansão do Universo. Isto significa que os objectos estão a afastar-se uns dos outros a uma sempre crescente velocidade e que os enxames poderão eventualmente deixar de ter a oportunidade de colidirem uns cons os outros.

Observações de raios-X de enxames galácticos como Abell 754 irão ajudar a melhor definir esta energia negra e também a matéria negra, uma substância 'invisível' e misteriosa que parece constituir 80% da massa de um enxame galáctico.

Links:

Notícias relacionadas:
http://www.space.com/scienceastronomy/cosmic_storm_040924.html
http://edition.cnn.com/2004/TECH/space/09/24/big.boom/
http://www.nasa.gov/home/hqnews/2004/sep/HQ_04310_galaxy_collide.html
http://www.gsfc.nasa.gov/topstory/2004/0831galaxymerger_media.html
http://skyandtelescope.com/news/article_1363_1.asp

Abell 754:
http://www.cosmovisions.com/Abell754.htm
http://www.journals.uchicago.edu/ApJ/journal/issues/ApJL/v466n2/5262/sc0.html
Vídeo completo da animação computorizada da colisão (em formato MPG)
Vídeo 2 (em formato MPG) em que os pontinhos verdes das galáxias são discerníveis

XMM-Newton:
http://xmm.vilspa.esa.es/

 
SPACESHIPONE GANHA X PRIZE

A nave SpaceShipOne viajou até à berma do espaço e voltou em segurança pela segunda vez em cinco dias, arrebatando o prémio de 10 milhões de dólares Ansari X Prize.

O piloto Brian Binnie guiou o foguetão até uma aterragem segura no Aeroporto de Mojave, Califórnia, por volta das 15:13 GMT, sendo recebido com vivas e aplausos por milhares de observadores e curiosos.


Espectadores atentos observam a nave SpaceShipOne.
Crédito: Ansari X Prize

A nave tinha levantado voo às 13:49 GMT - agarrada ao seu jacto, o White Knight - por entre uma atmosfera carnivalesca que incluía malabaristas e uma banda. Por volta das 14:49 GMT, a SpaceShipOne separou-se e ligou os seus motores durante cerca de 84 segundos até chegar a uma altura de mais de 100 quilómetros - a orla do espaço.

Para conquistar o X Prize, esta altura teve que ser atingida em dois voos em duas semanas por uma nave (financiada por entidades privadas) que teria que aguentar com o peso de três pessoas, incluindo o piloto. A janela de 14 dias para a segunda tentativa começou a 29 de Setembro, quando o piloto Mike Melvill subiu a 103 km, num voo marcado por algumas falhas no controlo do aparelho.

A altitude atingida ontem foi confirmada, dando a vitória aos criadores da SpaceShipOne, que ganharam o prémio de 10 milhões de dólares estabelecido em 1996 por Peter Diamandir em ordem a estimular o turismo espacial privado.


O piloto Brian Binnie leva a SpaceShipOne até ao espaço suborbital.
Crédito: Ansari X Prize

À medida que a SpaceShipOne planava em direcção a solo firme, Diamandis foi visto a abraçar um colega, dizendo: "Isto é para os livros dos records."

Os amigos e familiares de Burt Rutan, que desenhou a SpaceShipOne e fundou a companhia Scaled Composites, celebraram o voo. "Penso que irá ter um lugar na história, sempre foi uma criança diferente," disse George Rutan, de 88 anos, pai de Burt.

"É muito excitante, estivémos a trabalhar nisto durante muito tempo," disse Jim Benson, fundador da SpaceDev em Poway, Califórnia, que ajudou a desenvolver e construir o motor da nave.

Os fundos para o X Prize expiravam no fim de 2004, por isso se o candidato mais forte - SpaceShipOne - não tivesse tido sucesso, o dinheiro do prémio teria sido perdido. Apenas uma outra equipa de entre 26 tinha estabelecido uma data para as suas tentativas de voo, e esta data tinha sido recentemente adiada.

Agora que o X Prize foi ganho, Diamandis e seus colegas irão estabelecer concursos X Prize anuais a começar em 2006, tendo em vista outros empreendimentos comerciais espaciais.


A SpaceShipOne, prestes a aterrar no aeroporto.
Crédito: Jim Campbell, Aero News Network
(clique na imagem para a ver maior)

"Penso que os nossos objectivos foram alcançados," disse Diamandis na véspera do voo. "Conseguimos com que o mundo reconhecesse que o voo espacial privado fosse possível. Penso que veremos um crescimento no investimento de capital e o nascimento de uma verdadeira nova indústria em que todos nós possamos ser benfeitores."

De facto, o empresário britânico de companhias aéreas Richard Branson recentemente anunciou que iria licensiar a tecnologia da SpaceShipOne em ordem a levar turistas ao espaço suborbital tão cedo quanto 2007. Branson planeia que cada bilhete custe aproximadamente 190,000 dólares, usando tecnologia baseada no SpaceShipOne.

Links:

Notícias relacionadas:
http://www.ccvalg.pt/astronomia/astronline/astro_news/spaceshipone_040622.htm
http://www.ccvalg.pt/astronomia/astronline/astro_news/privatizacao_aeroespacial_041001.htm
http://www.space.com/missionlaunches/xprize_full_coverage.html
http://www.space.com/missionlaunches/xprize2_success_041004.html
http://albuquerque.bizjournals.com/albuquerque/stories/2004/10/04/daily1.html
http://english.aljazeera.net/NR/exeres/17C1C0F3-19B9-44A6-9F3C-0826F9DF7E18.htm
http://www.nature.com/news/2004/041004/full/041004-3.html
http://www.reuters.com/newsArticle.jhtml?type=topNews&storyID=6407522
http://www.elitestv.com/pub/2004/Oct/EEN416185a15cebc.html
http://slashdot.org/article.pl?sid=04/10/04/1525256
http://www.cnn.com/2004/TECH/space/10/04/spaceshipone.attempt.cnn/index.html
http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1205114&idCanal=35

Ansari X Prize :
http://www.xprize.org

SpaceShipOne:
http://www.scaled.com

 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
     
 
Cometa Hale-Bopp e a Nebulosa da América do Norte - Crédito: Juan Carlos Casado
O encontro de 1997 do Cometa Hale-Bopp com o Sistema Solar interior permitiu a captura de muitas espectaculares imagens. Na imagem ao lado, o Cometa Hale-Bopp fotografado a atravessar a constelação de Cisne, mostrando duas esplêndidas caudas, uma de pó amarelo e outra azul de iões. Visível à direita está a Nebulosa da América do Norte, uma brilhante nebulosa de emissão observável de um local escuro com binóculos. Encontra-se a 1500 anos-luz de distância, muito mais longe do que o cometa, que estava a apenas 8 minutos-luz. Algumas estrelas azuis brilhantes do enxame aberto M39 são visíveis mesmo acima da cauda azul do cometa.
Ver imagem em alta-resolução
     
 
  PRÓXIMA OBSERVAÇÃO:  
 
Dia 23 de Outubro, no castelo de Paderne, às 21:30. Observação dependente das condições atmosféricas.
 
 
  EFEMÉRIDES:  
 

Dia 05/10: 279º dia do  calendário gregoriano.
História: Em 1882 nasce Robert Goddard, pioneiro no desenvolvimento dos foguetões.
Em 1923, Edwin Hubble descobre a primeira variável de Cefeida em M31, a Galáxia de Andrómeda, estabelecendo que as "nebulosas" espirais são independentes e são sistemas estelares externos, tal como a Via Láctea.
Em 2000, astrónomos espanhóis e alemães publicam na revista Science a sua descoberta de planetas gigantes gasosos isolados, sem estrelas, a serem formados na região de Orion. Estes "super-júpiteres" flutuam livremente dentro de um enxame estelar, mas a distâncias suficientemente grandes para permitir escapar à atracção gravitacional das outras estrelas.
Observações: Mercúrio encontra-se em conjunção superior com o Sol.

Dia 06/10: 280º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1990 é lançado o observatório solar da ESA e da NASA Ulysses a partir do vaivém Discovery. Em Fevereiro de 1992, levou um puxo gravitacional de Júpiter, forçando-o a sair do plano da eclíptica. Completou a sua missão principal de vigiar os dois pólos do Sol, enviando resultados inesperados. Sabe-se que o pólo magnético sul é muito mais dinâmico e sem localização fixa. A missão durará até 2007.

Dia 07/10: 281º dia do  calendário gregoriano.
História: Em 1959 o sistema televisivo a bordo da Luna 3 obtém uma série de 29 fotografias ao longo de 40 minutos, cobrindo 70% da superfície da Lua. Estas fotografias foram reveladas a bordo. Foram depois "scannadas" e 17 foram enviadas através de sinais de rádio para estações terrestres a 18 de Outubro.
Observações: Passagem de Lua/Saturno, 11:00 (não visível em Portugal). A Lua passa a 5 graus do planeta Saturno. Se quiser pode observá-los baixos no céu a Este-Nordeste às duas da manhã, entre Gémeos e Caranguejo.

 
 
  CURIOSIDADES:  
 
O primeiro beijo inter-racial em televisão foi na série de ficção científica "Star Trek", entre o Capitão Kirk e a Tenente Uhura.
 
 
 
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