NOTÍCIAS ASTRONÓMICAS - N.º 77
23 de Novembro de 2004
SEGUINDO OS PASSOS DAS PIONEER

Será que o estranho comportamento das sondas Pioneer no limite do sistema solar revela novas leis da Física? Os cientistas esperam que uma missão ao espaço profundo responda a esta questão. Mesmo que não haja nenhuma revolução científica, dizem que os resultados serão vitais para os engenheiros construírem futuras sondas que têm o espaço profundo como seu destino.

As Pioneer 10 e 11 foram lançadas em 1972 e 73 respectivamente, com o objectivo de explorar Júpiter e Saturno. Depois dos seus estudos terem acabado, continuaram a navegar em direcção à fronteira do Sistema Solar.


Impressão de artista da sonda Pioneer 10.
Crédito: NASA

Mas desde meados de 1980, quando passaram a órbita de Urano, os sinais de rádio que enviaram para a Terra alteraram-se para comprimentos de onda progressivamente mais baixos.

Isto implica que as sondas estão a desacelerar muito ligeiramente na sua viagem. No entanto, ninguém sabe porque é que isto está a acontecer.

Pode até ser algum imprevisto efeito gerado pelas próprias sondas, talvez devido a fugas de combustível dos motores, por exemplo.

Mas se não é este o caso, então esta desaceleração (de nome anomalia Pioneer) poderá apontar para uma falha na nossa compreensão dos princípios fundamentais da Física. Poderá revelar a influência de uma nova força, ou talvez de um novo tipo de matéria.

Este seria um achado revolucionário. Mas até a mais mundana explicação de um efeito instrumental a bordo seria muito importante, diz Slava Turyshev dos Laboratórios JPL da NASA em Pasadena, Califórnia, porque forçaria os engenheiros espacias a repensar os seus métodos para a precisa navegação no espaço.


A sonda Pioneer 10 é um dos objectos feito pelo Homem mais distantes do planeta Terra (em primeiro lugar está a Voyager 1) e foi a primeira a sair do Sistema Solar.
Crédito: NASA

Enviar uma missão atrás das sondas Pioneer poderá permitir aos cientistas a confirmação ou não da anomalia Pioneer, e a exclusão de algumas explicações tecnológicas. Turyshev e seus colegas discutem este plano.

A missão teria que ter uma navegação extremamente precisa, e instrumentos que pudessem detectar a ténue desaceleração e potenciais causas, tais como fugas de gás. E para saber esta resposta nas próximas duas décadas teria que ser uma sonda rápida, uma mais veloz que a Cassini, actualmente em órbita de Saturno. Este planeta encontra-se apenas a metade da distância até Urano, mas mesmo assim levou 7 anos até o alcançar.

Em vez de se basear em motores a combustível convencionais, a sonda poderá usar os sistemas de propulsão mais rápidos que estão a ser investigados pela NASA e pela Agência Espacial Europeia (ESA), que envolvem energia nuclear.

A primeira destas sondas deverá ser a «Jupiter Icy Moons Orbiter» da NASA, a ser lançada em 2015. Mas os cientistas afirmam que nenhuma das missões actualmente propostas poderá estudar a anomalia Pioneer, dado que não terão nem um sistema de navegação nem instrumentos tão precisos.


A «Jupiter Icy Moons Orbiter» é uma sonda que irá estudar três das 63 luas de Júpiter: Calisto, Ganimedes e Europa, que podem conter vastos oceanos por baixo das suas superfícies geladas.
Crédito: JPL/NASA

Por isso os pesquisadores discutem agora a ideia de uma sonda com base nas lições aprendidas nas missões Pioneer, em que vários acidentes de construção tornaram possível a precisa detecção dos movimentos das sondas.

"Pode ser desenvolvida em cinco anos e ser lançada na próxima década," dizem.

Embora Turyshev preferisse uma sonda apenas dedicada ao estudo desta anomalia, admite que adicionar outros instrumentos a missões já planeadas deverá ser uma opção mais realista, que poderá custar até 70 milhões de dólares. "Acredito que um pacote de instrumentos adicional irá definitivamente estar a bordo de uma das próximas missões," afirma.

David Southwood, director do programa científico da ESA, confirma que a anomalia Pioneer é importante. "A ESA tenta sempre trazer os fundamentos da Física até à generalidade da ciência espacial," acrescenta.

As duas sondas Pioneer estão agora distantes demais para as suas fracas comunicações atingirem a Terra. A última vez que se ouviu a Pioneer 10 foi no princípio de 2003, e encontra-se agora a mais de 12 mil milhões de quilómetros do Planeta Azul. Está navegando na direcção da gigante vermelha Aldebarã da constelação do Touro, mas só lá chegará daqui a 2 milhões de anos.


Ilustração das posições das sondas Pioneer 10 e 11 aquando da última comunicação em 2003.
Crédito: desconhecido
(clique na imagem para ver versão maior)

Links:

Notícias relacionadas:
http://physicsweb.org/articles/world/17/9/3/1
http://www.space.com/scienceastronomy/mystery_monday_041018.html
http://www.sciscoop.com/story/2004/10/22/84830/158

Anomalia Pioneer:
http://metaresearch.org/home/viewpoint/meta-in-news.asp
http://www.spaceref.com/news/viewsr.html?pid=10104
http://encyclopedia.thefreedictionary.com/Pioneer%20anomaly
http://en.wikipedia.org/wiki/Pioneer_anomaly

Sondas Pioneer:
http://en.wikipedia.org/wiki/Pioneer_10
http://en.wikipedia.org/wiki/Pioneer_11
http://en.wikipedia.org/wiki/Pioneer_program
http://spaceprojects.arc.nasa.gov/Space_Projects/pioneer/PNhome.html
http://nssdc.gsfc.nasa.gov/nmc/tmp/1973-019A.html
http://nssdc.gsfc.nasa.gov/nmc/tmp/1972-012A.html

 
SWIFT COM UMA MISSÃO EXPLOSIVA

O observatório espacial mais rápido de sempre entrou em órbita este Sábado passado, com o objectivo de pesquisar o Universo em busca de violentas explosões celestes que os astrónomos acreditam que representem o grito de nascimento dos buracos negros.

A NASA lançou o observatório -- de nome Swift devido à rapidez com que detecta e aponta -- ao fim de algumas semanas de atraso devido a furacões e a problemas com o foguetão.


Renderização computacional do Swift.
Crédito: NASA

Swift, uma colaboração de 250 milhões de dólares entre a NASA, a Itália e Grã-Bretanha, deverá começar a sua pesquisa de explosões de raios-gama em Janeiro e esclarecer alguns dos mistérios que rodeiam estas explosões e buracos negros.

Os GRB's são os eventos mais poderosos do Universo, excedidos em poder apenas pelo próprio Big Bang. Durando em média apenas alguns segundos, estas explosões aparecem do nada como raios de luz de uma lanterna e pensa-se que assinalem a formação de buracos negros. Os astrónomos teorizam que o colapso ou colisão de estrelas massivas é o que dá origem aos buracos negros -- tão densos que nem a luz de lá pode escapar -- e que a energia gravitacional resultante emite estes GRB's, atravessando o tempo e o espaço.

"Pensamos, talvez, que estas explosões sejam o grito do nascimento de buracos negros, e estamos a vê-los por todo o Universo," disse Neil Gehrels da NASA.


WB39, a 35,000 anos-luz de distância, é o que resta de um GRB.
Crédito: NASA/Chandra X-ray Center/Spitzer Science Center, Caltech/Palomar

Uma única explosão de raios-gama liberta mais energia que o Sol durante toda a sua vida em todos os comprimentos de onda, afirma Gehrels.

Dito de outra maneira: "Se juntássemos todo o resto do Universo durante esse segundo, não seria tão brilhante quanto um GRB," acrescenta o astrofísico John Nousek da Universidade Estatal da Pennsylvania.

Até agora, os astrónomos conseguiram identificar apenas uma dúzia destas explosões, tão perto quanto alguns milhões de anos-luz e tão longe quanto 12 mil milhões de anos-luz. Com o Swift, poderemos detectar duas explosões de raios-gama por semana a uma distância máxima de 15 mil milhões de anos, representando a primeira geração de estrelas, para um total de mais de 200 planeados para a missão de dois anos.

A sonda irá pesquisar um sexto do céu a um dado momento e assim ver um sexto de todos os GRB's existentes. As observações irão ajudar os cientistas a aprender mais sobre os GRB's, quantos existem e como se formam os buracos negros.

Assim que o Swift detectar um GRB, o observatório apontar-se-á sozinho para que os outros dois telescópios a bordo possam observar em raios-X, ultravioleta e luz óptica o objecto.

Este alinhamento demorará apenas um minuto, velocidade supersónica pelos padrões astronómicos. A velocidade é crucial porque uma vez que o breve GRB diminui de violência, o posterior resplendor é difícil de encontrar e apaga-se passado algumas horas ou por vezes semanas.

A notícia de um novo GRB e sua precisa localização será instantaneamente transmitida para os astrónomos de todo o mundo através do centro de controlo da missão em Penn State. Os observatórios terrestres poderão então apontar para o novo GRB e ajudar na sua análise.


Lançamento do Swift, a bordo de um foguetão Boeing Delta II.
Crédito: NASA/KSC
(clique na imagem para ver versão maior)

O líder do projecto, Tim Gehringer, chama ao Swift o "roadrunner (aquela ave dos desenhos animados que faz "Bip-Bip") do espaço, movendo-se de nascimento em nascimento à medida que avança o conhecimento da Humanidade sobre as mais violentas explosões do Universo."

Os cientistas apontam que os satélites espiões militares excedem a rapidez do Swift. Na frente científica, no entanto, este rápido observatório não tem rival.

Até agora, 15 minutos era uma meta considerada "muito rápida" para um observatório espacial e sua equipa responder a um evento astronómico, disse Anne Kinney, directora da divisão Universo da NASA. O Swift está num nível totamente diferente de rapidez. "Um minuto, um minuto para alcançar consistentemente, sem depender de alguém que tem que receber uma chamada no seu telemóvel."

O Telescópio Espacial Hubble, em contraste, demora horas, se não um dia inteiro ou dois para alinhar num dado objecto.

Depois de perseguir explosões de raios-gama durante um ano ou dois, o Swift irá expandir a sua área de estudos para outros eventos cósmicos rápidos.

Links:

Notícias relacionadas:
http://www.theregister.co.uk/2004/11/22/swift_finally_launches/
http://biz.yahoo.com/prnews/041122/cgm047_1.html
http://www.technewsworld.com/story/news/38347.html
http://physicsweb.org/articles/news/8/11/11/1
http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/4022683.stm
http://www.physorg.com/news2060.html
http://science.slashdot.org/article.pl?sid=04/11/20/1927211&from=rss
http://www.spaceflightnow.com/delta/d309/
http://www.spaceref.com/news/viewpr.html?pid=15541
http://edition.cnn.com/2004/TECH/space/11/20/swift.launch.ap/
http://www.nasa.gov/home/hqnews/2004/nov/HQ_04382_swift_launch.html
http://www.newscientist.com/news/news.jsp?id=ns99996696

Swift:
http://www.nasa.gov/mission_pages/swift/main/index.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Swift_Gamma-Ray_Burst_Mission

GRB:
http://en.wikipedia.org/wiki/Gamma-ray_burst
http://imagine.gsfc.nasa.gov/docs/science/know_l1/bursts.html
http://www.batse.com/
http://www.astro.psu.edu/users/nnp/grbphys.html

 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
     
 
Aurora no Wisconsin - Crédito: Chris VenHaus
Os espectáculos das auroras das passadas semanas são dos melhores de que há memória. Em particular, bandas impressionantes foram observadas na parte Este da América do Norte depois do pôr-do-Sol de 8 de Novembro. A aurora multicolorida na imagem do lado foi capturada reflectida num dos muitos pequenos lagos na área Central do estado de Wisconsin.
Ver imagem em alta-resolução
     
 
  ESPAÇO ABERTO  
 

Observação astronómica, dia 11 de Dezembro, na açoteia do CCVAlg, às 21:30. Observação dependente das condições atmosféricas.

 
 
  EFEMÉRIDES:  
 

Dia 23/11: 328º dia do  calendário gregoriano.
História: 
Em 1885, é tirada a primeira fotografia de uma chuva de meteoros.
Em 1977, o Meteosat 1 torna-se no primeiro satélite a ser posto em órbita pela Agência Espacial Europeia (ESA).

Dia 24/11: 329º dia do calendário gregoriano.
Observações: Aproveite o fim da noite para observar, antes do nascer-do-Sol, os planetas Vénus e Marte, baixos a Este-Sudeste. Para cima encontra-se Júpiter, e na constelação de Gémeos, Saturno.
A Lua encontra-se no nodo ascendente (longitude eclíptica 32.0º).

Dia 25/11: 330º dia do  calendário gregoriano.
História: Em 1999, observações terrestres de um vulcão em erupção em Io, uma lua de Júpiter.
Observações: Aproveite a noite para observar a Lua, quase na sua fase Cheia, com as Plêiades (M45), 6º para a esquerda.

 
 
  CURIOSIDADES:  
 
Os astrónomos calcularam que as hipóteses de colisão entre um asteróide e a Terra é em média de uma em cada 300,000 anos.
 
 
 
  PERGUNTE AO ASTRÓNOMO:  
 
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