NOTÍCIAS ASTRONÓMICAS - N.º 82

10 de Dezembro de 2004

POSSÍVEL ACTIVIDADE EM QUAOAR

Um grande objecto do tipo planetário para lá de Plutão mostra sinais ou de uma colisão recente ou de actividade vulcânica. Caso se venha a provar, será a primeira descoberta de um vulcão fora de um planeta ou lua. A Terra, Vénus e Marte possuem todos vulcões e a lua de Júpiter Io é um turbilhão de actividade vulcânica. No entanto, a actividade vulcânica nunca foi observada em asteróides, mesmo de grandes dimensões pois o arrefecimento interno destes é muito mais rápido do que ocorreu com estes planetas de maiores dimensões e mais próximos do Sol.


Quaoar comparado com a Terra a Lua e Plutão
Crédito: NASA e A. Feild (STSci)

Algo se passa

Quaoar, como é conhecido, é um grande asteróide da Cintura de Kuiper que chegou a ser declarado como o décimo planeta localiza-se na Cintura de Kuiper, uma região de asteróides gelados para lá da órbita de Neptuno. Os astrónomos pensam que muitos objectos da Cintura de Kuiper (KBO's) são restos da formação do sistema solar. São os cometas que ainda não fizeram uma passagem próxima do Sol e os objectos que não cresceram o suficiente para formar um grande planeta.

Quaoar tem apenas 1.260 quilómetros de diâmetro sendo o segundo maior objecto da Cintura de Kuiper logo atrás de Plutão que tem um diâmetro de 2400 quilómetros.

Pensa-se que os KBOs são compostos por rocha, gelo e outras substâncias químicas geladas. Nos últimos anos foram descobertas centenas e espera-se que à medida que vamos tendo telescópios mais potentes venham ainda a ser descobertos mais. Por norma são demasiado pequenos e longínquos para serem estudados com detalhe.

Este novo estudo conduzido por David Jewitt do Instituto de Astronomia da Universidade do Havai, foi apresentado na revista Nature de 9 de Dezembro.

Jewitt e um colega detectaram sinais de hidrato de amónia e gelo cristalino na superfície de Quaoar. Ambas as substâncias deveriam ter sido destruídas ao longo de poucos milhões de anos pela radiação de partículas cósmicas, dizem. Isto é um período muito curto comparado com os 4.600 milhões de anos do sistema solar.


Espectro de reflexão do Quaoar em comprimentos de onda do uinfravermelho próximo. A linha preta representa o espectro obtido pelo detector CISCO do telescópio Subaru. A linha vermelha é o espectro da ´´agua cristalina que foi sobreposto para comparação. A razão por que os espectro do Subaru apresenta os picos é porque o sinal é muito ténue e os picos são o ruído do aparelho que é muito grande comparado com a intensidade do sinal.
Crédito: David Jewitt (Universidade do Havai)

"Concluímos que a superfície de Quaoar se formou recentemente, o que pode ter acontecido devido a um impacto ou por actividade criovulcânica em que os gases libertados ao solidificar recobriram a antiga superfície, ou por uma mistura de ambos os processos", dizem os cientistas.

Descoberta Surpreendente

Embora a conclusão não seja definitiva, não deixa de ser intrigante. Encontrando-se tão longe do Sol, os KBOs não deveriam ser tão quentes que conseguissem formar o gelo cristalino da água sem que houvesse uma circunstância invulgar.

Quaoar pensa-se que terá uma temperatura da ordem dos 50 K (-223 ºC). O gelo incluído num objecto a temperaturas abaixo dos -200ºC deveria ser amorfo, em vez de possuir a estrutura cristalina altamente organizada que o gelo apresenta na Terra, por exemplo. Os astrónomos pensam que para que se forme gelo cristalino a temperatura mínima a que o objecto poderá estar será de -173ºC (100K), pelo que teria que haveria de ter um aquecimento da superfície de Quaoar que permitisse a sua formação.

"A presença de gelo cristalino surge como uma verdadeira surpresa," disse David Stevenson do Caltech, que não esteve envolvido neste estudo mas escreveu um artigo sobre ela para a revista.

"Não se sabe a temperatura exacta a que ocorre a formação do gelo cristalino no espaço e pode não ocorrer exactamente da mesma forma no espaço que nas condições controladas do laboratório", diz Stevenson à cautela. "No entanto, isto pode de facto ser a evidência que ocorre algum tipo de actividade vulcânica no interior destes corpos."

Mais investigação necessária

A estrutura de gelo cristalino foi confirmada por dois estudos independentes dos descobridores de Quaoar, diz Stevenson.

A evidência de hidrato de amónia é menos convincente na opinião deste cientista. Em teoria Quaoar deverá ter amónia no seu interior. DIz ele que a mistura de gelo e amónia e gelo seria menos densa que o resto planeta pelo que tenderia a escapar-se através de fendas para a superfície num processo semelhante ao vulcanismo se bem que de natureza distinta, pois não implicaria qualquer aquecimento.

Links:

Artigo na Nature:
http://www.ifa.hawaii.edu/faculty/jewitt/papers/50000/Quaoar.pdf

Página de Jewitt:
http://www.ifa.hawaii.edu/faculty/jewitt/quaoar.html

 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
     
 

Discos de poeiras em torno de estrela distante - Crédito: T.Pyle,NASA, HST
Nesta impressão de artista dramática, são visíveis restos para além do limite externo do disco de formação de um planeta de uma estrela distante. Sobrepostas estão fotos de dois discos em torno de estrelas próximas - AU Microscopii (no topo esquerdo de perfil) e HD107146 (à direita de topo). Estas imagens for obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble. Combinadas com dados de infravermeho obtidos pelo Telescópio Espacial Spitzer que mostram a existência de discos de poeiras destas estrelas conhecidas por possuírem planetas estes dados fornecem a primeira prova concreta da relação entre discos extrasolares e a existência de planetas.
Ver imagem em alta-resolução

     
 
  ESPAÇO ABERTO  
 

Observação astronómica, dia 11 de Dezembro, na açoteia do CCVAlg, às 21:30. Observação dependente das condições atmosféricas.

 
 
  EFEMÉRIDES:  
 

Dia 10/12: 345º dia do  calendário gregoriano.
História: 
Em 1901 foram atribuídos pela primeira vez os prémios Nobel. Röntgen receberia o da Física pela descoberta dos raios X.
Observações: Vénus, Marte e a Lua podem ver-se muito próximos antes do nascer do Sol

Dia 11/12: 346º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1863, nascimento de Annie Jump Cannon , pioneira americana na classificação do espectro estelar.
Em 1901, Marconi envia o primeiro sinal transatlântico, percursor da telecomunicações que hoje se utilizam no espaço.
Em 1972, a Apollo 17 faz a sua alunagem.
Observações: De madrugada a Lua encontra-se muito próxima da estrela Antares.

Dia 12/12: 347º dia do  calendário gregoriano.
Observações: Às 11h00 (hora local atinge-se a Lua Nova, pelo que esta noite é excelente para fazer astrofotografia de céu profundo sem interferência da Lua. Se é principiante comece pela grande nebulosa de Orion M42.

Dia 13/12: 348º dia do calendário gregoriano.
Observações: Às 22h00 (hora local atinge-se o pico das Geminidas. Esperam-se chuvas de 75 a 100 meteoros por hora durante as 48 horas centradas neste pico. Obviamente em zonas iluminadas poderá ser só visto 1 a 2 meteoros por hora aumentando esse número à medida que o local for mais escuro.

 
 
  CURIOSIDADES:  
 
Quando no século XVIII se começou a falar de objectos de céu profundo todos eram chamados nebulosas, quer fossem verdadeiras nebulosas, enxames globulares ou galáxias. Por esse motivo ainda se ouve muita gente chamar Nebulosa de Andrómeda à Galáxia de Andrómeda.
 
 
 
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