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A MATÉRIA ESCURA ERA MENOS INFLUENTE NO UNIVERSO PRIMORDIAL
17 de março de 2017

 


Representação esquemática de galáxias com discos em rotação no Universo primordial (à direita) e atual (à esquerda). Observações feitas com o VLT (Very Large Telescope) do ESO sugerem que tais galáxias massivas com discos a formar estrelas no Universo primordial eram menos influenciadas pela matéria escura (mostrada a vermelho), uma vez que esta se encontrava menos concentrada. Como resultado, as regiões mais exteriores das galáxias distantes rodam mais lentamente do que as regiões comparáveis em galáxias do Universo local. As suas curvas de rotação, em vez de se apresentarem planas, decrescem com o aumento do raio.
Crédito: ESO/L. Calçada
(clique na imagem para ver versão maior)

 

Novas observações indicam que galáxias massivas a formar estrelas durante o pico da formação galáctica, há 10 mil milhões de anos atrás, eram dominadas por matéria "bariónica", ou seja normal. Este facto está em perfeito contraste com as galáxias atuais, onde os efeitos da misteriosa matéria escura parecem ser muito maiores. Este resultado surpreendente foi obtido com o auxílio do VLT (Very Large Telescope) do ESO e sugere que a matéria escura tinha menos influência no Universo primordial do que tem atualmente. Este trabalho foi apresentado em 4 artigos científicos, um dos quais foi publicado anteontem na revista Nature.

A matéria normal apresenta-se sob a forma de estrelas brilhantes, gás resplandecente e nuvens de poeira. No entanto, a matéria escura mais elusiva não emite, absorve ou reflete luz e por isso apenas pode ser observada através dos seus efeitos gravitacionais. A presença de matéria escura explica por que é que as regiões mais externas das galáxias em espiral próximas rodam mais rapidamente do que o que seria de esperar se apenas estivesse presente a matéria normal que observamos de forma direta.

O disco de uma galáxia em espiral roda com um período de centenas de milhões de anos. Os núcleos destas galáxias têm enormes concentrações de estrelas, mas a densidade de matéria brilhante diminui em direção à sua periferia. Se a massa da galáxia consistisse inteiramente de matéria normal, então as regiões externas menos densas deveriam rodar mais lentamente do que as regiões centrais mais densas. No entanto, observações de galáxias em espiral próximas mostram que as suas regiões internas e externas rodam aproximadamente à mesma velocidade. Estas "curvas de rotação planas" indicam que estes objetos devem conter enormes quantidades de matéria não luminosa situada num halo que rodeia o disco galáctico.

Uma equipa internacional de astrónomos, liderada por Reinhard Genzel do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre em Garching, na Alemanha, utilizou os instrumentos KMOS e SINFONI montados no VLT do ESO, no Chile, para medir a rotação de seis galáxias massivas a formar estrelas no Universo distante, na época do pico da formação galáctica, há 10 mil milhões de anos atrás.

O que a equipa descobriu é assaz intrigante: contrariamente às galáxias em espiral presentes no Universo atual, as regiões externas destas galáxias distantes parecem rodar mais lentamente que as regiões mais próximas do núcleo — sugerindo que existe menos matéria escura presente do que o esperado.

"Surpreendentemente, as velocidades de rotação não são constantes, mas diminuem com a distância ao centro das galáxias," comenta Reinhard Genzel, autor principal do artigo científico publicado na Nature. "Existem muito provavelmente duas causas para este facto. A primeira é que estas galáxias massivas primordiais são fortemente dominadas por matéria normal, com a matéria escura a desempenhar um papel muito menos preponderante do que no Universo local. A segunda é que estes discos primordiais são muito mais turbulentos do que as galáxias em espiral que observamos na nossa vizinhança cósmica."

Ambos estes efeitos parecem tornar-se mais marcados à medida que os astrónomos observam cada vez mais longe no passado, em direção ao Universo primordial. Este facto sugere que três a quatro mil milhões de anos após o Big Bang, o gás nas galáxias já se encontrava eficientemente condensado em discos planos em rotação, enquanto os halos de matéria escura que os rodeavam eram muito maiores e mais dispersos. Aparentemente foram precisos milhares de milhões de anos para que a matéria escura também se condensasse, razão pela qual o seu efeito dominante é apenas observado atualmente.

Esta explicação é consistente com as observações, que mostram que as galáxias primordiais eram muito mais ricas em gás e muito mais compactas do que as galáxias atuais.

As seis galáxias mapeadas neste estudo fazem parte de uma amostra muito maior composta por uma centena de discos longínquos a formar estrelas, observados pelos instrumentos KMOS e SINFONI, montados no VLT do ESO no Observatório do Paranal, no Chile. Para além das medições das galáxias individuais descritas acima, foi também criada uma curva de rotação média combinando os sinais mais fracos das outras galáxias. Esta curva composta mostra igualmente a mesma tendência de diminuição da velocidade quando nos afastamos dos centros das galáxias. Adicionalmente, dois outros estudos de 240 discos a formar estrelas apoiam igualmente estes resultados.

Modelos detalhados mostram que, enquanto a matéria normal representa em média cerca de metade da massa total de todas as galáxias, para elevados desvios para o vermelho esta matéria domina completamente a dinâmica das galáxias.

 


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Representação esquemática de galáxias com discos em rotação no Universo primordial e atual. Observações feitas com o Very Large Telescope do ESO sugerem que tais galáxias massivas com discos a formar estrelas no Universo primordial eram menos influenciadas pela matéria escura. Como resultado, as regiões mais exteriores das galáxias distantes rodam mais lentamente do que as regiões comparáveis em galáxias do Universo local. As suas curvas de rotação, em vez de se apresentarem planas, decrescem com o aumento do raio.
Crédito: ESO
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Notícias relacionadas:
ESO (comunicado de imprensa)
Instituto Max Planck para Física Extraterrestre (comunicado de imprensa)
ESOcast (ESO via YouTube)
Artigo científico (PDF)
Nature
Artigo científico - 2 (PDF)
Artigo científico - 3 (PDF)
Artigo científico - 4 (PDF)
Sky & Telescope
SPACE.com
ScienceDaily
New Scientist
EarthSky
PHYSORG

Matéria escura:
Wikipedia

VLT:
Página oficial
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
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