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  Astroboletim #1703  
  03/07 a 06/07/2020  
     
 
Efemérides

Dia 03/07: 185.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1969, ocorre a maior explosão na história dos foguetões quando o soviético Soyuz N-1 (5L) explode e subsequentemente destroi a sua plataforma de lançamento. Esta é também uma das maiores explosões artificiais não-nucleares da História da Humanidade.
Em 2006, o asteroide denominado 2004 XP14 passa a 432.308 km da Terra.

Observações: Para observadores casuais ou para aqueles sem um bom céu a norte, "Cassiopeia em julho" pode parecer tão errado quanto Natal em julho. Mas Cassiopeia já passou a posição mais baixa para o ano e está gradualmente a ganhar altitude em preparação para o próximo outono e inverno. Procure o seu "W" achatado baixo a norte-nordeste. E o "W" já não está nivelado.

Dia 04/07: 186.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1054, foi detetada pela primeira vez uma brilhante supernova registada pelos astrónomos chineses, árabes e possivelmente pelos povos indígenas do continente americano. Permaneceu visível durante meses, brilhante o suficiente para ser vista durante o dia. Deu origem ao remanescente de supernova chamado Nebulosa do Caranguejo, também conhecido por M1.
Em 1868 nascia Henrietta Swan Leavitt, astrónoma americana que examinou chapas fotográficas para medir e catalogar o brilho de estrelas.

Descobriu a relação entre a luminosidade e o período das estrelas variáveis Cefeidas. Foi a sua descoberta que permitiu aos astrónomos medirem a distância entre a Terra e as galáxias distantes. Após a sua morte, Edwin Hubble usou a relação do período-luminosidade das Cefeidas para determinar que a Via Láctea não era a única galáxia no Universo observável e que o Universo estava em expansão. 
Em 1997, a Pathfinder aterrava em Marte.
Em 1998, o Japão lança uma sonda para Marte e junta-se à lista de países que participam na exploração espacial. Devido a vários problemas com a Nozomi cerca de um ano depois, a missão foi abandonada.
Em 2005, a Deep Impact colide com o cometa Tempel 1
Em 2006, missão STS-121 do vaivém espacial Discovery.
Em 2012, é anunciada no CERN a descoberta de partículas consistentes com o bosão de Higgs no LHC (Large Hadron Collider).
Observações: A Terra encontra-se hoje no afélio, a sua posição mais afastada do Sol. Estamos 1/30 mais longe do Sol do que no periélio de janeiro.
Esta noite a Lua brilha perto da "pega" do "Bule de Chá" de Sagitário. Consegue ver a constelação por entre o luar?
Muito mais fáceis de discernir, os planetas Júpiter e Saturno para baixo e para a esquerda do nosso satélite natural.

Dia 05/07: 187.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1687, era publicado o Philosophiae Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton.

Pela primeira vez era dada uma explicação para a causalidade do movimento dos planetas e satélites.
Em 2016, a sonda Juno chega a Júpiter.
Observações: Lua Cheia, pelas 05:44.
Eclipse lunar penumbral, entre as 04:10 e as 06:51.
A partir das 21:30, observe a sudeste o nascer de Júpiter e da Lua, separados por menos de 2,5º (Júpiter está por cima do nosso satélite natural). O ponto brilhante para a esquerda é o planeta Saturno.

Dia 06/07: 188.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 2003, o radar planetário de Yevpatoria, com 70 metros, envia uma mensagem METI para 5 estrelas: Hip 4872HD 24540955 CancriHD 10307 e 47 Ursae Majoris, que chegará em 2036, 2040, 2044 e 2049, respetivamente.

Observações: Conhece as três duplas do topo de Escorpião? A cabeça da constelação de Escorpião - a fila quase vertical de três estrelas para cima e para a direita de Antares - está alta a sul por estas noites. A estrela de cima é Beta Scorpii ou Graffias, uma boa estrela dupla para telescópios.
A apenas 1º para baixo ou para baixo e para a esquerda (uma ponta de um dedo à distância do braço esticado) está o par largo Omega^1 e Omega^2 Scorpii, visível a olho nu, não bem na vertical. Os binóculos mostram a sua ligeira diferença de cor.
Para cima e para a esquerda de Beta, a cerca de 1,6º, está Nu Scorpii (Jabbah), outro bom duplo telescópico. Um alto poder de ampliação e um céu limpo e escuro revelam que o componente mais brilhante de Nu é ele próprio uma estrela dupla, com uma separação de 2 segundos de arco.

 
 
   
TESS da NASA fornece novas ideias sobre um mundo ultra-quente
 
Esta ilustração mostra como o planeta KELT-9b vê a sua estrela hospedeira. Ao longo de uma única órbita, o planeta sofre por duas vezes períodos de aquecimento e arrefecimento provocados pelo padrão invulgar de temperaturas superficiais. Entre os polos quentes da estrela e o equador mais frio, as temperaturas variam mais ou menos 800º. Isto produz um "verão" quando o planeta passa pelos polos e um "inverno" quando o planeta passa pelo equador mais frio. Assim, a cada 36 horas, KELT-9b tem dois verões e dois invernos.
Crédito: Centro de Voo Espacial Goddard da NASA/Chris Smith (USRA)
 

Medições do TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA permitiram aos astrónomos melhorar bastante a sua compreensão do ambiente bizarro de KELT-9b, um dos planetas mais quentes conhecidos.

"O factor de estranheza de KELT-9b é alto," disse John Ahlers, astrónomo da USRA (Universities Space Research Association) em Columbia, no estado norte-americano de Maryland, e do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no mesmo estado dos EUA. "É um planeta gigante numa órbita muito íntima, quase polar, em torno de uma estrela que gira rapidamente, e estas características complicam a nossa capacidade de entender a estrela e os seus efeitos no planeta."

As novas descobertas aparecem num artigo liderado por Ahlers publicado dia 5 de junho na revista The Astronomical Journal.

Localizado a cerca de 670 anos-luz de distância na direção da constelação de Sagitário, KELT-9b foi descoberto em 2017 porque o planeta passou em frente da sua estrela durante uma parte da sua órbita, um evento chamado trânsito. Os trânsitos diminuem regularmente a luz da estrela por uma quantidade minúscula, mas detetável. Os trânsitos de KELT-9b foram observados pela primeira vez pelo levantamento de trânsitos KELT, um projeto que recolheu observações com dois telescópios robóticos localizados no estado norte-americano do Arizona e na África do Sul.

Entre 18 de julho e 11 de setembro de 2019, como parte da campanha de um ano da missão para observar o céu do norte, o TESS observou 27 trânsitos de KELT-9b, obtendo medições a cada dois minutos. Estas observações permitiram que a equipa modelasse a estrela invulgar e o seu impacto no planeta.

KELT-9b é um mundo gigante de gás cerca de 1,8 vezes maior que Júpiter, com 2,9 vezes a sua massa. As forças das marés bloquearam a sua rotação, de modo que o mesmo lado está sempre virado para a sua estrela. O planeta gira em torno da sua estrela em apenas 36 horas numa órbita que o transporta quase diretamente acima de ambos os polos da estrela.

KELT-9b recebe 44.000 vezes mais energia da sua estrela do que a Terra do Sol. Isto eleva a temperatura diurna do planeta a cerca de 4300º C, mais quente do que as superfícies de algumas estrelas. Este aquecimento intenso também faz com que a atmosfera do planeta escape para o espaço.

A sua estrela hospedeira também é estranha. Tem aproximadamente o dobro do tamanho do Sol e é, em média, 56% mais quente. Mas gira 38 vezes mais depressa do que o Sol, completando uma rotação em apenas 16 horas. A sua rápida rotação distorce a forma da estrela, achatando-a nos polos e ampliando a sua secção central. Isto faz com que os polos da estrela aqueçam e brilhem enquanto a sua região equatorial esfria e escurece - um fenómeno chamado escurecimento gravitacional. O resultado é uma diferença de temperatura à superfície da estrela de quase 800º C.

A cada órbita, KELT-9b sofre por duas vezes toda a gama de temperaturas estelares, produzindo o que equivale a uma sequência sazonal muito peculiar. O planeta passa a "verão" quando orbita sobre cada polo e a "inverno" quando passa sobre a parte central e mais fria da estrela. Assim, KELT-9b tem dois verões e dois invernos por ano, cada estação durando aproximadamente nove horas.

"É realmente intrigante pensar como o gradiente de temperatura da estrela afeta o planeta," disse Knicole Colón, coautora do artigo científico, também de Goddard. "Os vários níveis energéticos que recebe da sua estrela provavelmente produzem uma atmosfera extremamente dinâmica."

A órbita polar de KELT-9b, em torno da sua estrela achatada, produz trânsitos distintamente desequilibrados. O planeta começa o seu trânsito perto dos polos brilhantes da estrela e depois bloqueia cada vez menos luz à medida que passa sobre o equador mais escuro da estrela. Esta assimetria fornece pistas sobre as mudanças de temperatura e brilho na superfície da estrela e permitiram que a equipa reconstruísse a sua forma não redonda, a sua orientação no espaço, a sua gama de temperaturas de superfície e outros factores que afetam o planeta.

"Dos sistemas planetários que estudámos através do escurecimento gravitacional, os efeitos em KELT-9b são de longe os mais espetaculares," disse Jason Barnes, professor de física na Universidade de Idaho e coautor do artigo. "Este trabalho ajuda a unificar o escurecimento gravitacional com outras técnicas que medem o alinhamento planetário e, em última análise, esperamos que revelem segredos sobre a formação e sobre a história evolutiva dos planetas em torno de estrelas de massa elevada."

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astronomical Journal)
// Artigo científico (arXiv.org)
// TESS da NASA fornece novas ideias sobre um mundo ultra-quente (NASA Goddard via YouTube)

 


Saiba mais

CCVAlg - Astronomia:
28/01/2020 - Estudo mostra que o planeta mais quente dilacera moléculas na sua atmosfera
19/03/2019 - "Cozinhando" atmosferas alienígenas na Terra
06/06/2017 - Astrónomos descobrem planeta mais quente que maioria das estrelas

Notícias relacionadas:
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Space Ref

KELT-9b:
NASA
Exoplanet.eu
Wikipedia

Júpiteres quentes:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite):
NASA
NASA/Goddard
Programa de Investigadores do TESS (HEASARC da NASA)
MAST (Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais)
Exoplanetas descobertos pelo TESS (NASA Exoplanet Archive)
Wikipedia

Telescópios KELT:
Página principal
Wikipedia

 
   
Primeiro núcleo exoplanetário exposto permite vislumbrar outros mundos
 
Impressão de artista que mostra um planeta do tamanho de Neptuno no chamado "Deserto de Neptuno". É extremamente raro encontrar um objeto deste tamanho e densidade tão perto da sua estrela.
Crédito: Universidade de Warwick/Mark Garlick
 

Astrónomos da Universidade de Warwick descobriram o núcleo sobrevivente de um gigante gasoso em órbita de uma estrela distante, oferecendo uma visão sem precedentes do interior de um planeta. O núcleo, que é do mesmo tamanho que Neptuno no nosso Sistema Solar, pensa-se que seja um gigante gasoso ou despojado da sua atmosfera de gás ou que não conseguiu formar uma atmosfera na sua juventude.

A equipa do Departamenteo de Física da Universidade de Warwick relata a descoberta num artigo publicado anteontem na revista Nature, e pensa-se ser a primeira vez que foi observado o núcleo exposto de um planeta. E fornece a oportunidade única de espiar o interior de um planeta e aprender mais sobre a sua composição.

Localizado em torno de uma estrela muito parecida com a nossa, a aproximadamente 730 anos-luz de distância, o núcleo exoplanetário, chamado TOI-849b, orbita tão perto da sua estrela hospedeira que o seu ano equivale a 18 horas terrestres. E a temperatura à superfície ronda os 1800K.

TOI-849b foi descoberto num levantamento de estrelas pelo TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA, usando o método de trânsito: observando estrelas em busca da reveladora queda de brilho que indica que um planeta passou à sua frente. Estava localizado no "deserto de Neptuno" - um termo usado pelos astrónomos para uma região próxima das estrelas onde raramente vemos planetas com a massa de Neptuno ou maior.

O sinal de trânsito foi confirmado e refinado usando observações com dez telescópios do NGTS (Next-Generation Transit Survey), liderado pela Universidade de Warwick, baseado no Observatório Paranal do ESO no Chile. Os telescópios NGTS foram construídos especificamente para detetar as diminuições muito ténues de brilho estelar devido a trânsitos exoplanetários: neste caso uma diminuição de brilho de apenas um-décimo de um por cento.

O objeto foi então analisado com o instrumento HARPS, num programa liderado pela Universidade de Warwick, no Observatório La Silla do ESO no Chile. O HARPS utiliza o efeito Doppler para medir a massa dos exoplanetas, medindo a sua "oscilação" - pequenos movimentos na nossa direção e para longe de nós que se registam como pequenas mudanças no espectro de luz da estrela.

A equipa determinou que a massa do objeto é 2-3 vezes maior que Neptuno, mas também é incrivelmente denso, com todo o material que compõe essa massa compactado num objeto do mesmo tamanho.

O Dr. David Armstrong, autor principal do estudo e do Departamento de Física da Universidade de Warwick, disse: "Embora este seja um planeta extraordinariamente massivo, está muito longe de ser o mais massivo que conhecemos. Mas é o mais massivo que conhecemos para o seu tamanho e extremamente denso para algo do tamanho de Neptuno, o que nos diz que este planeta tem uma história muito invulgar. O facto de estar num local estranho para a sua massa também ajuda - não vemos planetas com esta massa e com estes períodos orbitais curtos.

"TOI-849b é o planeta terrestre mais massivo - que tem uma densidade parecida à da Terra - já descoberto. Esperaríamos que um planeta tão grande tivesse acumulado grandes quantidades de hidrogénio e hélio quando se formou, crescendo para algo semelhante a Júpiter. O facto de não vermos estes gases permite-nos saber que este é um núcleo planetário exposto. "É a primeira vez que descobrimos um núcleo exposto intacto de um gigante gasoso em torno de uma estrela."

Existem duas teorias para o motivo pelo qual estamos a ver o núcleo do planeta, em vez de um típico gigante gasoso. A primeira diz que já foi semelhante a Júpiter, mas que perdeu todo o seu gás através de uma variedade de métodos. Isto pode incluir perturbações de marés, onde o planeta é despojado devido a orbitar demasiado perto da sua estrela, ou até mesmo devido a uma colisão com outro planeta. A fotoevaporação da atmosfera a larga escala também pode desempenhar um papel, mas não pode ser responsável por todo o gás perdido.

Como alternativa, poderá ser um gigante gasoso "falhado". Os cientistas pensam que uma vez formado o núcleo do gigante gasoso, que aconteceu algo errado e nunca conseguiu formar uma atmosfera. Isto pode ter ocorrido devido a uma divisão no disco de poeira a partir do qual o planeta se formou, ou caso se tenha formado mais tarde, que o disco ficou sem material. O Dr. Armstrong acrescenta: "De uma forma ou de outra, ou TOI-849b costumava ser um gigante de gás ou é um gigante gasoso 'falhado'.

"É a primeira vez que vemos algo do género, o que nos diz que planetas com este existem e que mais podem ser encontrados. Temos a oportunidade de olhar para o núcleo de um planeta de uma maneira que não podemos fazer no nosso próprio Sistema Solar. Por exemplo, ainda existem questões em aberto sobre a natureza do núcleo de Júpiter, de modo que exoplanetas tão estranhos e invulgares como este dão-nos uma janela para a formação planetária que não temos outra maneira de explorar.

"Embora ainda não tenhamos informações sobre a sua composição química, podemos fazer observações de acompanhamento com outros telescópios. Dado que TOI 849 b está tão perto da estrela, qualquer atmosfera restante em torno do planeta precisa de ser constantemente reabastecida do núcleo. Portanto, se pudermos medir essa atmosfera, podemos ter uma ideia da composição do próprio núcleo."

// Universidade de Warwick (comunicado de imprensa)
// Universidade de Berna (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


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TOI-849b:
Exoplanet.eu

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
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TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite):
NASA
NASA/Goddard
Programa de Investigadores do TESS (HEASARC da NASA)
MAST (Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais)
Exoplanetas descobertos pelo TESS (NASA Exoplanet Archive)
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Observatório Paranal:
ESO
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NGTS (Next-Generation Transit Survey):
Página principal
ESO
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Observatório La Silla:
ESO
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Um mistério cósmico: Telescópio do ESO captura desaparecimento de estrela massiva
 
Esta ilustração mostra como é que a estrela variável azul luminosa da galáxia anã Kinman poderia ter sido antes do seu desaparecimento misterioso.
Crédito: ESO/L. Calçada
 

Com o auxílio do VLT (Very Large Telescópio) do ESO, os astrónomos descobriram a ausência de uma estrela instável massiva numa galáxia anã. Os cientistas pensam que este facto pode indicar que a estrela se tornou menos brilhante e parcialmente obscurecida por poeira. Uma explicação alternativa seria que a estrela colapsou num buraco negro sem, no entanto, dar origem a uma supernova. "Se for verdade", diz Andrew Allan, o líder da equipa e estudante de doutoramento no Trinity College Dublin, na Irlanda, "esta pode ser a primeira deteção direta de uma tal estrela gigante a terminar a sua vida deste modo."

Entre 2001 e 2011, várias equipas de astrónomos estudaram uma estrela massiva misteriosa situada na galáxia anã Kinman, tendo as suas observações indicado que este objeto se encontrava num estado final de evolução. Allan e colaboradores na Irlanda, Chile e Estado Unidos, queriam saber mais sobre como é que estrelas muito massivas terminam as suas vidas e a estrela na galáxia anã Kinman parecia ser o alvo perfeito para este estudo. No entanto, em 2019, quando apontaram o VLT do ESO à galáxia distante, não conseguiram encontrar a assinatura da estrela. "Em vez disso, e surpreendentemente, descobrimos que a estrela tinha desaparecido!" explica Allan, que liderou um estudo sobre esta estrela, publicado na revista da especialidade Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Situada a cerca de 75 milhões de anos-luz de distância da Terra, na constelação do Aquário, a galáxia anã Kinman está longe demais para que os astrónomos possam observar estrelas individuais, no entanto podem ser detetadas as assinaturas de algumas delas. Entre 2001 e 2011, a radiação emitida pela galáxia mostrou de forma consistente evidências da existência de uma estrela 'variável azul luminosa' com cerca de 2,5 milhões de vezes mais brilho que o Sol. As estrelas deste tipo são instáveis, mostrando ocasionalmente variações drásticas no seu espectro e brilho. Apesar destas variações, as variáveis azuis luminosas apresentam traços específicos que os astrónomos conseguem identificar, no entanto estes traços não se encontravam nos dados que a equipa obteve em 2019, levando-a a pensar no que poderia ter acontecido à estrela. "Seria altamente invulgar que uma estrela massiva deste tipo desaparecesse sem produzir uma explosão de supernova muito brilhante," diz Allan.

Em agosto de 2019, o grupo observou a estrela com o instrumento ESPRESSO, utilizando os quatro telescópios de 8 metros do VLT em simultâneo. No entanto, não foram encontrados nenhuns dos sinais que apontavam anteriormente para a presença da estrela luminosa. Alguns meses mais tarde, o grupo utilizou o instrumento X-shooter, montado também no VLT, e mais uma vez não se observaram sinais alguns da estrela.

 
Imagem da galáxia anã Kinman, também chamada PHL 293B, obtida em 2011 com a WFC3 (Wide Field Camera 3) a bordo do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA, antes do desaparecimento da estrela massiva. Situada a cerca de 75 milhões de anos-luz de distância da Terra, a galáxia está longe demais para que os astrónomos possam observar estrelas individuais, no entanto em observações efetuadas entre 2001 e 2011, foram detetadas as assinaturas de uma estrela massiva. Estas assinaturas não estavam presentes em dados mais recentes.
Crédito: NASA, ESA/Hubble, J. Andrews (U. Arizona)
 

"É possível que tenhamos detetado uma das estrelas mais massivas do Universo local a desaparecer," diz Jose Groh, um membro da equipa, também do Trinity College Dublin. "A nossa descoberta não teria sido possível sem o uso dos telescópios de 8 metros do ESO, os seus instrumentos poderosos e o acesso rápido que tivemos a estas infraestruturas graças ao recente acordo de adesão que a Irlanda assinou com o ESO." A Irlanda tornou-se um Estado Membro do ESO em setembro de 2018.

A equipa analisou de seguida dados anteriores recolhidos com os instrumentos X-shooter e UVES, ambos montados no VLT do ESO, situado no deserto chileno do Atacama, e também dados doutros telescópios. "A Infraestrutura do Arquivo Científico do ESO permitiu-nos encontrar e usar dados do mesmo objeto obtidos em 2002 e 2009," disse Andrea Mehner, astrónoma do ESO no Chile que participou no estudo. "A comparação dos espectros UVES de alta resolução de 2002 com as nossas observações de 2019 obtidas com o mais recente espectrógrafo de alta resolução, o ESPRESSO, foi especialmente reveladora, tanto do ponto de vista astronómico como do ponto de vista instrumental."

Os dados mais antigos indicam que a estrela na galáxia anã Kinman poderia estar a passar por um forte período de explosão que, muito provavelmente, terminou algures após 2011. As estrelas variáveis azuis luminosas tais como esta têm tendência para sofrer enormes erupções ao longo das suas vidas, fazendo com que a sua taxa de perda de massa e luminosidade aumentem drasticamente.

Baseando-se nas suas observações e modelos, os astrónomos sugeriram duas explicações para o desaparecimento da estrela e ausência de uma supernova, relacionadas com esta possível explosão. A explosão pode ter resultado na transformação da estrela variável azul luminosa numa estrela menos luminosa, que pode também estar parcialmente escondida por poeira. Alternativamente, a equipa diz que a estrela pode também ter colapsado num buraco negro, sem no entanto ter dado origem a uma explosão de supernova. Este último evento seria, contudo, muito raro: o nosso conhecimento atual relativo ao final da vida das estrelas massivas aponta para que a maioria delas termine a sua vida sob a forma de supernovas.

No futuro, são necessários mais estudos para confirmar o destino desta estrela. O Extremely Large Telescope do ESO (ELT), que se pensa que comece a operar em 2025, será capaz de distinguir estrelas em galáxias distantes, como a galáxia anã Kinman, o que irá ajudar a resolver mistérios cósmicos como este.

// ESO (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
// Artigo científico (PDF)
// ESOcast 225 - O desaparecimento de uma estrela massiva (ESO via YouTube)
// Animação da estrela desaparecida (ESO via YouTube)

 


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ESO:
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Álbum de fotografias - Nebulosa Planetária Brilhante NGC 7027 pelo Hubble
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: NASAESAJoel Kastner (RITet al.; Processamento: Alyssa Pagan (STScI)
 
O que criou esta nebulosa planetária invulgar? NGC 7027 é uma das nebulosas planetárias mais pequenas, mais brilhantes e com forma mais rara que se conhece. Dado o seu ritmo de expansão, NGC 7027 começou a expandir-se, a partir da perspetiva da Terra, há cerca de 600 anos. Durante grande parte da sua história, a nebulosa planetária expulsou conchas, como visto em azul na imagem em destaque. Porém, nos tempos modernos, e por razões desconhecidas, começou a expelir gás e poeira (visto em vermelho) em direções específicas que criaram um novo padrão que parece ter quatro cantos. Estes invólucros e padrões foram mapeados em detalhes impressionantes por imagens recentes da WFC3 (Wide Field Camera 3) a bordo do Telescópio Espacial Hubble. Não se sabe o que está no centro da nebulosa, com uma hipótese que a considera um sistema estelar binário íntimo onde uma estrela lança gás num disco irregular que orbita a outra estrela. NGC 7027, a cerca de 3000 anos-luz de distância, foi descoberta pela primeira vez em 1878 e pode ser vista com um telescópio na direção da constelação de Cisne.
 
   
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