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  Astroboletim #2273  
  19/12 a 22/12/2025  
     
 
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EFEMÉRIDES

DIA 19/12: 353.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1852 nascia Albert A. Michelson, físico americano conhecido pelo seu trabalho na medição da velocidade da luz e especialmente pela experiência Michelson-Morley.
Em 1972, a Apollo 17, a última missão lunar tripulada, regressava à Terra. 
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Em 2013, a sonda europeia Gaia é lançada para o espaço.
HOJE, NO COSMOS:
Júpiter tem um movimento mais lento, no céu, do que os planetas mais interiores. Atualmente está a mover-se para oeste (movimento retrógrado) a caminho da sua oposição de dia 10 de janeiro. Comparado com há uma semana atrás, note que Júpiter deu um bom avanço em relação à linha que passa por Pollux e Procyon.

 

DIA 20/12: 354.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1904, era fundado o Observatório Solar do Mt. Wilson
Em 1996, morria Carl Sagan, considerado por muitos o maior divulgador de Astronomia da História.
Em 1999, lançamento da missão STS-103 do vaivém Discovery, a terceira missão de serviço ao Telescópio Hubble.
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Em 2019, a Força Espacial dos EUA torna-se o primeiro novo ramo das Forças Armadas dos EUA desde 1947.
HOJE, NO COSMOS:
Lua Nova, pelas 01:43.
Sirius, a brilhante estrela de Cão Maior, brilha baixa a este-sudeste por volta das 20 ou 21 horas. Procyon, a estrela mais brilhante de Cão Menor, brilha para a sua esquerda, a este, a cerca de dois punhos à distância do braço esticado.
Mas diretamente para a esquerda? Depende! Se viver perto da latitude 30º, as duas estrelas caninas estarão à mesma altura acima do horizonte pouco depois de nascerem. Se estiver para norte dessa latitude, então Procyon estará mais alta. O horizonte este inclina-se de modo diferente em relação às estrelas dependendo da latitude. Porque a Terra é redonda.

 

DIA 21/12: 355.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1968, lançamento da Apollo 8William A. AndersJames A. Lovell Jr. e Frank Borman tornaram-se nos primeiros seres humanos a sair da órbita da Terra.
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Esta missão teve como objetivo alcançar a órbita da Lua, observar a sua superfície e o seu lado escuro. Duração da missão: 6 dias, 3 horas, 0 minutos e 42 segundos. 
Em 1984 era lançada a sonda soviética Vega 2.
Em 2015, a SpaceX faz história, tornando-se na primeira companhia a fazer regressar, com sucesso, o estágio de um veículo de lançamento orbital à Terra para uma aterragem propulsiva numa plataforma de aterragem terrestre.
Em 2020, ocorre uma grande conjunção entre Júpiter e Saturno, estando os dois planetas, da perspetiva do céu da Terra, separados por 0,1 graus. É a conjunção mais íntima destes dois objetos desde 1623.
HOJE, NO COSMOS:
O inverno começa pelas 15:03. Estas são as noites mais longas do ano (para o hemisfério norte). É o momento em que o Sol termina a sua viagem para sul no céu da Terra e começa a sua viagem de seis meses de volta para norte, com a promessa de uma nova primavera e verão.

 

DIA 22/12: 356.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1891, o asteroide 323 Brucia torna-se no primeiro asteroide descoberto usando astrofotografia.
Em 2015, a SpaceX aterra o primeiro estágio de um foguetão Falcon 9 no solo, depois de alcançar baixa órbita terrestre às 01:40 UTC pela primeira vez na história.
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HOJE, NO COSMOS:
Por volta do final do lusco-fusco, volte-se para norte e olhe bem para cima. Cassiopeia está agora num "M" achatado, inclinado num ângulo de 45º (dependendo da localização do observador). Apenas duas horas depois, o M está horizontal! As constelações que passam perto do zénite parecem girar rapidamente em relação à direção "cima".

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O que é que está a alimentar estes misteriosos e brilhantes clarões azuis? Os astrónomos encontraram uma pista
 
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AT 2024wpp, um LFBOT (Luminous Fast Blue Optical Transient), é o ponto azul brilhante no canto superior direito da sua galáxia hospedeira, que fica a 1,1 mil milhões de anos-luz da Terra.
Crédito: Aidan Martas/UC Berkeley
 

Entre os fenómenos cósmicos mais intrigantes descobertos nas últimas décadas encontram-se breves e muito brilhantes clarões de luz azul e ultravioleta que desvanecem gradualmente, deixando para trás ténues emissões de raios X e rádio. Com pouco mais de uma dúzia de surtos descobertos até agora, os astrónomos têm debatido se estes são produzidos por um tipo invulgar de supernova ou por gás interestelar que cai num buraco negro.

A análise do surto mais brilhante até à data, descoberto no ano passado, mostra que não se trata de nenhuma destas situações.

Em vez disso, uma equipa de astrónomos liderada por investigadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, concluiu que estes chamados LFBOTs (Luminous Fast Blue Optical Transients) são causados por um evento de perturbação de marés extremo, em que um buraco negro com uma massa até 100 vezes superior à do nosso Sol destrói completamente a sua estrela massiva companheira em poucos dias.

A descoberta resolve um enigma de uma década, mas também ilustra as muitas variedades de calamidades estelares que os astrónomos encontram, cada uma com o seu espetro característico de luz - diferentes comprimentos de onda, diferentes intensidades - que evolui ao longo do tempo. A descoberta dos processos que produzem estas assinaturas de luz únicas testa os conhecimentos atuais sobre a física dos buracos negros e ajuda os astrónomos a compreender a evolução das estrelas no nosso Universo.

A massa inferida do buraco negro - numa gama por vezes designada por buracos negros de massa intermédia - é também intrigante para os astrónomos. Embora se saiba que existem buracos negros com mais de 100 massas solares, porque as suas fusões foram detetadas por experiências de ondas gravitacionais como o LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory), nunca foram observados diretamente e a forma como atingem esta dimensão é ainda um mistério. O estudo deste fenómeno e de outros semelhantes poderá esclarecer o ambiente estelar em que os grandes buracos negros evoluem juntamente com uma companheira estelar massiva.

"Os teóricos criaram muitas formas de explicar como é que estes grandes buracos negros surgem, para explicar o que o LIGO vê", disse Raffaella Margutti, professora associada de astronomia e física da Universidade de Berkeley. "Os LFBOTs permitem-nos abordar esta questão de um ângulo completamente diferente. Também nos permitem caracterizar o local exato onde estas coisas se encontram dentro da sua galáxia hospedeira, o que acrescenta mais contexto na tentativa de compreender como acabamos por ter esta configuração - um buraco negro muito grande e uma companheira".

Os LFBOTs receberam este nome porque são brilhantes - são visíveis a distâncias de centenas de milhões a milhares de milhões de anos-luz - e duram apenas alguns dias, produzindo luz altamente energética que vai desde o azul do espetro ótico até ao ultravioleta e aos raios X. O primeiro foi visto em 2014, mas o primeiro com dados suficientes para análise foi registado em 2018 e, de acordo com a convenção de nomenclatura padrão, foi chamado AT2018cow. O nome levou os investigadores a referirem-se a ele como "A Vaca", e os LFBOTs subsequentes receberam as alcunhas de "O Coala" (ZTF18abvkwla), "Diabo da Tasmânia" (AT2022tsd) e "O Finch" (AT2023fhn).

O mais recente LFBOT, denominado AT 2024wpp ("O Pica-pau", talvez?), é analisado em dois artigos científicos recentemente aceites pela revista The Astrophysical Journal Letters. Nayana A.J., pós-doutorada da UC Berkeley, é a primeira autora de uma análise das emissões de raios X e rádio de AT 2024wpp, enquanto Natalie LeBaron, aluna de Berkeley, é a primeira autora de uma análise das emissões óticas, ultravioleta e no infravermelho próximo. Margutti é a autora sénior de ambos os artigos científicos.

 
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Os LFBOTs são verdadeiros monstros cósmicos, alimentados pela destruição de uma estrela massiva por um buraco negro com a massa de 100 sóis. Um LFBOT descoberto no ano passado, AT 2024wpp, forneceu os dados de que os astrónomos necessitavam para determinar a origem destes surtos. Este gráfico explica como a estrela destruída interagiu com o disco de acreção já existente à volta do buraco negro para produzir as enormes quantidades de energia irradiadas em comprimentos de onda altamente energéticos.
Crédito: Raffaella Margutti/UC Berkeley
 

A constatação de que o surto transiente não poderia ter resultado de uma supernova veio depois de os investigadores terem calculado a energia emitida. A energia emitida foi 100 vezes superior à que seria produzida numa supernova normal, que exigiria a conversão de cerca de 10% da massa restante da estrela em energia numa escala de tempo muito curta, meras semanas.

"A quantidade de energia irradiada por estes surtos é tão grande que não é possível alimentá-las com o colapso e com a explosão de uma estrela massiva - ou qualquer outro tipo de explosão estelar normal", disse LeBaron. "A principal mensagem de AT 2024wpp é que o modelo com que começámos está errado. Não é definitivamente causado pela explosão de uma estrela".

Os investigadores colocam a hipótese de que a luz intensa e altamente energética emitida durante este evento de perturbação de marés extremo foi uma consequência da longa história parasitária do sistema binário com buraco negro. De acordo com a reconstrução desta história, o buraco negro tem estado a sugar material da sua companheira há muito tempo, envolvendo-se completamente num halo de material demasiado distante do buraco negro para este poder engolir.

Então, quando a estrela companheira finalmente se aproximou demasiado e foi despedaçada, o novo material foi arrastado para um disco giratório de detritos, chamado disco de acreção, e bateu contra o material existente, gerando raios X, radiação UV e luz azul. Grande parte do gás da companheira também acabou por rodopiar em direção aos polos do buraco negro, onde foi ejetado como um jato de material. Os investigadores calcularam que os jatos viajavam a cerca de 40% da velocidade da luz e geravam ondas de rádio quando encontravam o gás circundante.

A massa estimada da estrela companheira que foi destruída era mais de 10 vezes superior à massa do Sol. Pode ter sido o que é conhecido como uma estrela Wolf-Rayet, que são muito quentes e evoluídas, tendo já usado muito do seu hidrogénio. Isto explicaria a fraca emissão de hidrogénio de AT 2024wpp.

Como a maioria dos LFBOTs, AT 2024wpp está localizado numa galáxia com formação estelar ativa, pelo que são esperadas estrelas grandes e jovens como estas. AT 2024wpp está a 1,1 mil milhões de anos-luz de distância e é entre cinco e 10 vezes mais luminosa do que AT2018cow.

Foi utilizada uma grande coleção de telescópios para medir os vários comprimentos de onda da luz emitida pelo LFBOT. Estes incluem três telescópios de raios X, o Chandra, o Swift e o NuSTAR; radiotelescópios como o ALMA e o ATCA (Australia Telescope Compact Array); e telescópios óticos terrestres, incluindo os Observatórios Keck, Lick e Gemini.

Uma vez que os LFBOTs produzem grandes quantidades de radiação UV, os investigadores aguardam com expetativa o lançamento de dois telescópios UV planeados - ULTRASAT e UVEX - nos próximos anos. Estes telescópios serão fundamentais para descobrir e caracterizar rapidamente mais LFBOTs antes de atingirem o pico de brilho, permitindo aos astrónomos sondar sistematicamente a diversidade dos seus ambientes e sistemas progenitores.

"Atualmente, encontramos apenas cerca de um LFBOT por ano. Mas quando tivermos telescópios UV no espaço, então encontrar LFBOTs tornar-se-á rotina, tal como acontece atualmente com a deteção de surtos de raios gama", disse Nayana A.J.

// Universidade da Califórnia em Berkeley (comunicado de imprensa)
// Chandra/Harvard (comunicado de imprensa)
// NOIRLab (comunicado de imprensa)
// NRAO (comunicado de imprensa)
// Artigo científico #1 (The Astrophysical Journal Letters)
// Artigo científico #2 (arXiv)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
21/11/2023 - Com erupções sem precedentes, um "cadáver" estelar dá sinais de vida
10/10/2023 - Hubble encontra uma explosão bizarra num local inesperado
29/05/2020 - Astrónomos descobrem nova classe de explosões bizarras

AT 2024wpp:
Transient Name Server

LFBOTs (Luminous Fast Blue Optical Transient):
Wikipedia

Buracos negros:
Wikipedia
Buraco negro de massa intermédia (Wikipedia)

Evento de perturbação de marés:
Wikipedia

Observatório de raios X Chandra:
NASA
Universidade de Harvard
Wikipedia

Observatório Neil Gehrels Swift:
NASA
Wikipedia

NuSTAR (Nuclear Spectroscopic Telescope Array):
NASA
Caltech
Wikipedia

ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array):
Página principal
ALMA (NRAO)
ALMA (ESO)
Wikipedia

ATCA (Australia Telescope Compact Array):
Página principal
Wikipedia

Observatório W. M. Keck:
Página principal
Wikipedia

Observatório Lick:
Página oficial
Wikipedia

Observatório Internacional Gemini:
Página principal
Wikipedia

 
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Um buraco negro devora uma estrela: missões descobrem surto recorde
 
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Esta ilustração artística, que mostra um jato de material a alta velocidade a ser lançado de uma fonte que está inserida numa galáxia muito poeirenta, retrata GRB 250702B - o surto de raios gama mais longo que os astrónomos alguma vez observaram. Esta poderosa explosão extragaláctica foi detetada pela primeira vez a 2 de julho de 2025. Apresentou explosões repetidas que duraram mais de sete horas. Os astrónomos realizaram observações rápidas de acompanhamento com vários telescópios em todo o mundo e descobriram que GRB 250702B reside numa galáxia grande e extremamente poeirenta. Os seus dados suportam uma série de cenários progenitores, incluindo interações entre uma estrela e um buraco negro, ou possivelmente uma estrela de neutrões.
Crédito: NOIRLab/NSF/AURA/M. Garlick
 

Os astrónomos têm estado a analisar uma série de dados provenientes de satélites da NASA e de outras instalações, enquanto tentam descobrir o responsável por uma extraordinária explosão cósmica descoberta no dia 2 de julho.

O evento foi um GRB ("gamma-ray burst"; em português "surto de raios gama"), a classe mais poderosa de explosões cósmicas. Mas enquanto a maioria dos GRBs dura apenas um minuto, este prolongou-se durante dias.

Os investigadores têm estado a discutir ansiosamente as suas descobertas e concordam que o evento sem precedentes é provavelmente o prenúncio de um novo tipo de explosão estelar. Os cientistas dizem que a melhor explicação para o surto foi um buraco negro a consumir uma estrela, mas discordam quanto à forma exata como isso aconteceu. As excitantes possibilidades incluem um buraco negro milhares de vezes mais massivo do que o Sol a destruir uma estrela que passou demasiado perto dele ou um buraco negro muito mais pequeno a fundir-se e a consumir a sua companheira estelar.

"A onda inicial de raios gama durou pelo menos 7 horas, quase o dobro da duração do GRB mais longo visto anteriormente, e detetámos outras propriedades invulgares", disse Eliza Neights da Universidade George Washington em Washington e do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, Maryland, EUA. "Esta é certamente uma explosão diferente de qualquer outra que tenhamos visto nos últimos 50 anos".

Neights e outros astrónomos partilharam os seus resultados em outubro, na reunião da Divisão de Astrofísica de Altas Energias da Sociedade Astronómica Americana, em St. Louis, Missouri, EUA. Foram publicados ou aceites vários artigos científicos sobre este evento e mais estão a ser preparados.

Explosão excecional

Detetados em média uma vez por dia, os GRBs podem aparecer em qualquer parte do céu sem aviso prévio. São eventos muito distantes, com o exemplo mais próximo conhecido a irromper a mais de 100 milhões de anos-luz de distância.

A duração recorde do surto de julho, denominado GRB 250702B, coloca-o numa classe à parte. Dos cerca de 15.000 GRBs observados desde que o fenómeno foi reconhecido pela primeira vez em 1973, nenhum é tão longo e apenas uma meia dúzia sequer se aproxima. Dado que as oportunidades de estudar tais eventos são tão raras, e porque podem revelar novas formas de criar GRBs, os astrónomos estão particularmente entusiasmados com o GRB de julho.

A maioria dos GRBs dura entre alguns milissegundos e alguns minutos e sabe-se que se formam de duas maneiras: ou pela fusão de duas estrelas de neutrões do tamanho de uma cidade ou pelo colapso de uma estrela massiva quando o seu núcleo fica sem combustível. Cada uma delas produz um novo buraco negro. Alguma da matéria que cai em direção ao buraco negro é canalizada para jatos estreitos de partículas que se lançam quase à velocidade da luz, criando raios gama à medida que avançam. Mas nenhum destes tipos de explosões pode facilmente criar jatos capazes de disparar durante dias, razão pela qual 250702B constitui um puzzle único.

Vendo luz

O instrumento GBM (Gamma-ray Burst Monitor) do Telescópio Espacial de Raios Gama Fermi da NASA descobriu o surto e foi acionado várias vezes ao longo de 3 horas. Foi também detetado pelo instrumento BAT (Burst Alert Telescope) do Observatório Neil Gehrels Swift da NASA, pelo instrumento russo Konus da missão Wind da NASA, pelo GRNS (Gamma-Ray and Neutron Spectrometer) da Psyche - uma nave espacial da NASA atualmente a caminho do asteroide 16 Psyche - e pelo instrumento japonês MAXI (Monitor of All-sky X-ray Image) a bordo da Estação Espacial Internacional.

"O surto durou tanto tempo que nenhum monitor de alta energia no espaço estava equipado para o observar completamente", disse Eric Burns, astrofísico da Universidade do Estado do Louisiana em Baton Rouge e membro da equipa de Neights que estuda o brilho de raios gama desta explosão. "Só através do poder combinado dos instrumentos de várias naves espaciais é que conseguimos compreender este evento".

O instrumento WXT (Wide-field X-ray Telescope) da Einstein Probe da China também detetou o surto em raios X e mostrou que um sinal estava presente no dia anterior. A primeira localização exata surgiu no início de 3 de julho, quando o XRT (X-ray Telescope) do Swift captou o surto na constelação do Escudo, perto do plano poeirento e lotado da nossa Galáxia, a Via Láctea. Tendo em conta esta localização e a deteção de raios X no dia anterior, os astrónomos perguntaram-se se este evento poderia ser um tipo diferente de explosão originária de algum lugar dentro da nossa própria Galáxia.

Imagens de alguns dos maiores telescópios do planeta, incluindo dos observatórios Keck e Gemini, no Hawaii, e do VLT (Very Large Telescope) do ESO, no Chile, sugeriam a existência de uma galáxia no local, pelo que os astrónomos recorreram ao Telescópio Espacial Hubble da NASA para uma visão mais clara.

"É definitivamente uma galáxia, provando que foi uma explosão distante e poderosa, mas tem um aspeto estranho", disse Andrew Levan, professor de astrofísica da Universidade de Radboud, nos Países Baixos, que liderou o estudo do VLT e do Hubble. "Os dados do Hubble podem mostrar ou duas galáxias a fundirem-se ou uma galáxia com uma banda escura de poeira a dividir o núcleo em duas metades".

Imagens mais recentes captadas pelo instrumento NIRcam do Telescópio Espacial James Webb da NASA apoiam fortemente a interpretação de Levan. "A resolução do Webb é inacreditável. Podemos ver tão claramente que o surto brilhou através desta banda de poeira que se espalha pela galáxia", disse Huei Sears, investigador pós-doc na Universidade Rutgers, em Nova Jersey, EUA, que liderou as observações do NIRcam. "É fantástico ver a hospedeira do GRB com tanto pormenor".

No final de agosto, uma equipa liderada por Benjamin Gompertz, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, utilizou o instrumento NIRSpec do Webb e o VLT para determinar a distância da galáxia e outras propriedades. "O surto foi extraordinariamente poderoso, com uma energia equivalente à emitida por mil sóis a brilhar durante 10 mil milhões de anos", disse Gompertz. "Surpreendentemente, a galáxia está tão longe que a luz desta explosão começou a sua viagem há cerca de 8 mil milhões de anos, muito antes de o nosso Sol e o nosso Sistema Solar terem começado a formar-se".

 
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A imagem à esquerda mostra o campo estelar em torno da galáxia hospedeira do GRB 250702B. A imagem incorpora observações do telescópio Gemini North no Hawaii e do instrumento DECam (Dark Energy Camera) montado no Telescópio de 4 metros Víctor M. Blanco no Observatório Interamericano de Cerro Tololo no Chile.
À direita: uma vista em grande plano da galáxia hospedeira obtida com o telescópio Gemini North. Esta imagem, que abrange 9,5 segundos de arco, é o resultado de mais de duas horas de observações, mas a galáxia hospedeira é pouco visível devido à grande quantidade de poeira que a rodeia. Os dados óticos e no infravermelho próximo do DECam foram adquiridos a 3 de julho, enquanto as observações no infravermelho próximo do Gemini North foram feitas a 20 de julho. Crédito: Observatório Internacional Gemini/CTIO/NOIRLab/DOE/NSF/AURA; processamento - M. Zamani & D. de Martin (NSF NOIRLab)
 

Um estudo exaustivo dos raios X que se seguiram à explosão principal utilizou observações do Swift, do Observatório de raios X Chandra da NASA e da missão NuSTAR (Nuclear Spectroscopic Telescope Array) da mesma agência espacial. Os dados do Swift e do NuSTAR revelaram a ocorrência de erupções rápidas até dois dias após a descoberta do surto.

"A contínua acreção de matéria pelo buraco negro alimentou um fluxo que produziu estas erupções, mas o processo continuou durante muito mais tempo do que é possível nos modelos padrão dos GRBs", disse o líder do estudo Brendan O'Connor, da Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh. "As erupções tardias de raios X mostram-nos que a fonte de energia do surto se recusou a desligar-se, o que significa que o buraco negro continuou a alimentar-se durante pelo menos alguns dias após a erupção inicial".

Evidências contraditórias

Os dados do Fermi e do Swift indicam um GRB típico, embora invulgarmente longo. As observações espetroscópicas do Webb não encontraram uma explosão de supernova, que tipicamente se segue a um GRB de colapso estelar, embora possa ter sido obscurecida pela poeira e pela distância. A Einstein Probe observou raios X um dia antes da explosão, enquanto o NuSTAR registou erupções de raios X até dois dias depois, e nenhuma delas é típica dos GRBs.

Para além disso, um estudo detalhado liderado por Jonathan Carney, estudante na Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, mostra que a galáxia hospedeira é muito diferente das galáxias tipicamente pequenas que hospedam a maioria dos GRBs de colapso estelar. "Esta galáxia é surpreendentemente grande, com mais do dobro da massa da nossa própria Galáxia", disse.

Em qualquer dos dois cenários mais discutidos, o buraco negro terá comido a estrela em cerca de um dia.

O primeiro invoca um buraco negro de massa intermédia, com alguns milhares de massas solares e um horizonte de eventos - o ponto de não retorno - algumas vezes maior do que a Terra. Uma estrela aproxima-se demasiado, é esticada ao longo da sua órbita por forças gravitacionais e é rapidamente consumida pelo buraco negro. Isto descreve aquilo a que os astrónomos chamam um evento de perturbação de marés, mas causado por um raramente observado buraco negro de massa intermédia, com uma massa muito superior à dos que nascem num colapso estelar e muito menor do que os gigantes que se encontram nos centros das grandes galáxias.

 
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No dia 5 de outubro, o Telescópio Espacial James Webb da NASA deu aos astrónomos a sua visão mais clara da galáxia hospedeira do GRB 250702B, que está tão longe que a sua luz demora cerca de 8 mil milhões de anos a chegar até nós. Aparece num campo de estrelas no plano central densamente povoado da nossa Galáxia, a Via Láctea. Na imagem ampliada, as linhas indicam a posição do surto perto do limite superior da faixa de poeira escura da galáxia. Esta localização elimina a possibilidade de a explosão estar associada ao buraco negro supermassivo no núcleo da galáxia. A imagem completa no infravermelho tem cerca de 2,1 minutos de arco de diâmetro.
Crédito: NASA, ESA, CSA, H. Sears (Rutgers); processamento - A. Pagan (STScI)
 

A equipa de raios gama é a favor de um cenário diferente porque, se este surto for como os outros, a massa do buraco negro deve ser mais parecida com a do nosso Sol. O seu modelo prevê um buraco negro com cerca de três vezes a massa do Sol - com um horizonte de eventos com apenas 18 quilómetros de diâmetro - orbitando e fundindo-se com uma estrela companheira. A estrela tem uma massa semelhante à do buraco negro, mas é muito mais pequena do que o Sol. Isso deve-se ao facto de a sua atmosfera de hidrogénio ter sido quase toda removida, até ao seu denso núcleo de hélio, formando um objeto a que os astrónomos chamam estrela de hélio.

Em ambos os casos, a matéria da estrela flui primeiro em direção ao buraco negro e acumula-se num vasto disco, a partir do qual o gás faz o seu mergulho final no buraco negro. A dada altura deste processo, o sistema começa a brilhar intensamente em raios X. Depois, à medida que o buraco negro consome rapidamente a matéria da estrela, jatos de raios gama são lançados para o exterior.

O modelo de fusão da estrela de hélio faz uma previsão única. Uma vez que o buraco negro está totalmente imerso no corpo principal da estrela, devorando-a a partir do seu interior, a energia que liberta faz explodir a estrela e dá origem a uma supernova.

Infelizmente, esta explosão ocorreu por detrás de enormes quantidades de poeira, o que significa que mesmo o poder do telescópio Webb não foi suficiente para ver a supernova esperada. Embora as evidências para explicar o que aconteceu a 2 de julho tenham de esperar por eventos futuros, 250702B já forneceu novos conhecimentos sobre os GRBs mais longos, graças, em grande parte, à constante monitorização cósmica da frota de observatórios e instrumentos espalhados pelo planeta e mais além.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Universidade George Washington (comunicado de imprensa)
// NOIRLab (comunicado de imprensa)
// Universidade Rutgers (comunicado de imprensa)
// Observatório Internacional Gemini (comunicado de imprensa)
// Chandra/Harvard (comunicado de imprensa)
// Um buraco negro devora uma estrela: animação da fusão (NASA via YouTube)
// A escala temporal de GRB 250702B (NOIRLabAstro via YouTube)
// Localizando GRB 250702B (NOIRLabAstro via YouTube)

Artigos científicos:
// Neights et al - raios gama (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
// Gompertz et al - dados do NIRSpec (arXiv.org)
// Carney et al - dados no visível e no infravermelho (The Astrophysical Journal Letters)
// O'Connor et al - raios X (The Astrophysical Journal Letters)
// Levan et al - dados do VLT e do MeerKAT (The Astrophysical Journal Letters)
// Oganesyan et al - dados do Fermi, Swift e NuSTAR (Astronomy & Astrophysics)

 


Quer saber mais?

GRB 250702B:
Wikipedia

Surto de raios gama (ou GRB, sigla inglesa para "gamma-ray burst"):
Wikipedia

Telescópio Espacial Fermi:
NASA
Wikipedia

Observatório Neil Gehrels Swift:
NASA
Wikipedia

Missão Psyche:
NASA
Universidade do Estado do Arizona
Wikipedia

Einstein Probe:
Academia Chinesa de Ciências
ESA
Wikipedia

Observatório W. M. Keck:
Página principal
Wikipedia

Observatório Internacional Gemini:
Página principal
Wikipedia

Observatório de raios X Chandra:
NASA
Universidade de Harvard
Wikipedia

NuSTAR (Nuclear Spectroscopic Telescope Array):
NASA
Caltech
Wikipedia

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
STScI (website para o público)
ESA
ESA/Webb
Wikipedia
Facebook
X/Twitter
Instagram
Blog do JWST (NASA)
NIRISS (NASA)
NIRCam (NASA)
MIRI (NASA)
NIRSpec (NASA)

 
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Álbum de fotografias
NGC 6888: A Nebulosa Crescente

exemplo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Greg Bass
 
NGC 6888, também conhecida como Nebulosa Crescente, tem cerca de 25 anos-luz de diâmetro e é uma bolha cósmica soprada pelos ventos da sua massiva estrela central. Esta imagem telescópica de céu profundo inclui dados de banda estreita, para isolar a luz dos átomos de hidrogénio e oxigénio. Os átomos de oxigénio produzem a tonalidade azul-verde que parece envolver as dobras e filamentos detalhados da nebulosa. Visível no interior da nebulosa, a estrela central de NGC 6888 está classificada como uma estrela Wolf-Rayet (WR 136). A estrela está a libertar-se do seu invólucro exterior num forte vento estelar, expelindo o equivalente à massa do Sol em cada 10.000 anos. De facto, as estruturas complexas da Nebulosa Crescente são provavelmente o resultado da interação deste vento forte com material ejetado numa fase anterior. Queimando combustível a um ritmo prodigioso e perto do fim da sua vida estelar, esta estrela deverá acabar por se extinguir com um estrondo numa espetacular explosão de supernova. Situada na constelação de Cisne, constelação esta rica em nebulosas, NGC 6888 fica a cerca de 5000 anos-luz de distância.
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