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BOLETIM ASTRONÓMICO - EDIÇÃO N.º 387
De 09/02 a 12/02/2008
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  COMO UM ECLIPSE LUNAR SALVOU COLOMBO
   

Na noite de 20 de Fevereiro, a Lua Cheia passará na sombra da Terra num evento que será visível praticamente por todo o Hemisfério Norte, desde os EUA até à Europa. O eclipse lunar total será ainda mais bonito devido à presença próxima do planeta Saturno e da brilhante e azulada Régulo, da constelação de Leão.


Como funciona um eclipse lunar.
Crédito: Wikipedia
(clique na imagem para ver versão maior)

Os eclipses no passado distante normalmente aterrorizavam quem os visse e eram assim tidos como presságios do mal. Certos eclipses lunares tiveram um efeito avassalador em eventos históricos. Um dos mais famosos exemplos é o truque de Cristóvão Colombo.

No dia 12 de Outubro de 1492, como supostamente todos os alunos que estudam História deviam saber, Colombo alcançou uma ilha a Nordeste de Cuba. Mais tarde deu-lhe o nome de São Salvador. Durante os dez anos seguintes, Colombo faria mais três viagens ao "Novo Mundo", que só veio a aumentar a convicção que tinha chegado ao Oriente navegando para Oeste.

Foi na sua quarta e final viagem, enquanto explorava a costa da América Central, que Colombo se encontrou em maus lençóis. Deixou Cádiz, Espanha, a 11 de Maio de 1502, com os navios Capitana, Gallega, Vizcaína e Santiago de Palos. Infelizmente, graças a uma epidemia de térmitas que atacaram as embarcações, Colombo foi forçado a abandonar dois dos seus navios e finalmente teve que dar como encalhadas as suas duas últimas caravelas na costa norte da Jamaica a 25 de Junho de 1503.

Inicialmente, os nativos da Jamaica receberam de braços abertos os náufragos, providenciando-lhes com comida e abrigo, mas à medida que os dias se tornavam em semanas, as tensões escalaram. Finalmente, após terem estado encalhados durante mais de seis meses, metade da tripulação de Colombo amutina-se, saqueia e assasina vários nativos, já eles também fartos de oferecer mandioca, milho e peixes em troca de pequenos assobios de latão, bugigangas, sinos de falcões e outros bens facilmente dispensáveis.

Com a fome agora a ameaçar, Colombo formula um plano desesperado, embora engenhoso.

Johannes Müller von Königsberg (1436-1476) veio em auxílio do Almirante, conhecido pelo pseudónimo latino de Regiomontanus. Foi um importante matemático alemão, astrónomo e astrólogo. Antes da sua morte, Regiomontanus publicou um almanaque contendo tabelas astronómicas e cobrindo os anos entre 1475 e 1506. O almanaque de Regiomontanus veio a revelar-se de grande valor, pois as suas tabelas astronómicas continham informações acerca do Sol, Lua e planetas, bem como as mais importantes estrelas e constelações que ajudam na navegação. Depois de ter sido publicado, nenhum marinheiro se aventurava ao mar sem uma cópia. Com a sua ajuda, os exploradores foram capazes de deixar as suas rotas comerciais e de se aventurarem para mares desconhecidos em busca de novos mundos.

Regiomontanus.

Colombo, claro, tinha uma cópia do almanque com ele enquanto estava na Jamaica. E em pouco tempo de estudo das tabelas, descobriu que na noite de Quinta, 29 de Fevereiro de 1504, um eclipse total da Lua teria lugar pouco tempo depois do nascer-da-Lua.

Armado com o seu conhecimento, três dias antes do eclipse, Colombo pediu uma reunião com o Cacique ("líder") dos nativos e anunciou que o seu deus Cristão estava enfurecido com o seu povo por já não fornecer comida a Colombo e à sua tripulação. Por isso, estava prestes a mostrar um claro sinal da sua raiva: daí a três noites, obliteraria a Lua nascente, tornando-a "vermelha de fúria", que significava que males estavam prestes a serem libertados sobre todos eles.

Na noite prevista, à medida que o Sol se punha a Oeste e a Lua começava a emergir para lá do horizonte a Este, era claramente óbvio para todos que algo estava terrivelmente errado. Quando a Lua subiu totalmente acima do horizonte, faltava o seu limite mais abaixo!

E, apenas uma hora mais tarde, à medida que descia a escuridão, a Lua exibia uma aparência incendiária e "ensanguentada": no lugar da normalmente brilhante Lua Cheia de Inverno, agora pairava uma ténue bola vermelha no céu a Este.

O eclipse lunar testemunhado em 1504 por Colombo enquanto estava encalhado na ilha da Jamaica.
Crédito: Biblioteca Pública de Nova Iorque

De acordo com o filho de Colombo, Fernando, os nativos ficaram aterrorizados com tal acontecimento e "... com gritos vociferantes e lamentações correram de todas as direcções até aos navios e encheram-nos com provisões, rezando ao Almirante para interceder por eles junto do seu deus." Prometeram que iam de bom grado cooperar com Colombo e com os seus homens se restaurasse a Lua ao seu estado normal. O grande explorador disse aos nativos que teria que retirar-se para conversar em privado com o seu deus. Fechou-se depois na sua cabine durante uns cinquenta minutos.

O "seu deus" era uma ampulheta que Colombo virava a cada meia hora para medir os diferentes estágios do eclipse, com base nos cálculos providenciados pelo almanaque de Regiomontanus.

Momentos antes do fim da fase total, Colombo reapareceu, anunciando aos nativos que o seus deus os tinha perdoado e que iria permitir o regresso gradual da Lua. E nesse momento, tal e qual a palavra de Colombo, a Lua lentamente começou a reaparecer e à medida que emergia da sombra da Terra, os gratos nativos dispersaram. A partir daí, mantiveram Colombo e os seus homens bem abastecidos e bem alimentados até que uma caravela de Espanhola finalmente chegou no dia 29 de Junho de 1504. Colombo e a sua tripulação regressaram a Espanha no dia 7 de Novembro.

Num interessante pós-escrito desta história, em 1889, Mark Twain, provavelmente influenciado pelo truque do eclipse, escreveu o romance "A Connecticut Yankee in King Arthur's Court". Aí, o personagem principal, Hank Morgan, usa um truque semelhante ao de Colombo.

Morgan está prestes a ser queimado na fogueira, e "prevê" um eclipse solar que sabe que vai acontecer. No processo, reclama poder sobre o Sol. Oferece de bom grado o regresso da estrela ao céu em troca da sua liberdade e de uma posição como "ministro e executivo perpétuo" do Rei.

O único problema com esta história é que na data citada por Mark Twain - 21 de Junho do ano 528 - nenhum eclipse teve lugar. De facto, havia já três dias que a Lua tinha passado a sua fase de Cheia, uma configuração que não pode gerar um eclipse.

Talvez devesse ter consultado um almanaque!

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Notícias relacionadas:
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Cristóvão Colombo:
Wikipedia

 
  "UNIDADE ASTRONÓMICA" PODE PRECISAR DE SER REDEFINIDA
   

Pondo de lado as aparências, as estrelas não são eternas e os planetas não se movem com uma precisão digna de um relógio atómico. Por estas razões, um astrónomo propõe que os seus colegas deixem de usar a unidade astronómica, ou UA, como medida-base para medição de distâncias dentro do Sistema Solar.

Uma UA é aproximadamente a distância média entre o Sol e a Terra, ou 149.597.870.691 quilómetros. Mas a definição formal pela União Astronómica Internacional é algo mais complicada. É definida como o raio de uma órbita circular não perturbada que um corpo sem massa teria se andasse à volta do Sol em 2π/k dias (essencialmente, um ano), onde k é uma constante derivada de uma estimativa fixa da massa do Sol.

E é aqui que o caso se complica - o Sol está na realidade perdendo massa, o que faz com que as órbitas dos planetas se expandam com o passar do tempo. Os cientistas há muito que sabem desta perda de massa solar. De acordo com a famosa equação de Albert Einstein, E=mc2, a massa e a energia são formas diferentes da mesma coisa. Por isso a radiação emitida sobre a forma de luz solar, bem como as erupções de gás quente, fazem com que o Sol perca cerca de 6 mil milhões kg - aproximadamente a massa da Grande Pirâmide do Egipto - de material por segundo.

"Devido à radiação transportar energia, e dado que Einstein mostrou a equivalência entre a massa e a energia, a massa tem que descer," diz Peter Noerdlinger, astrónomo na Universidade de St. Mary no Canadá. Isto faz com que as órbitas dos planetas aumentem e as suas velocidades orbitais diminuam de acordo. Usando as mais recentes estimativas da perda de massa solar, Noerdlinger prevê que Mercúrio se comece a atrasar na sua posição prevista, com base na definição actual de uma UA, por 1,4 km num século, e 5,5 km em dois séculos.

Isto criará "uma grande chatice" se for ignorado, disse Noerdlinger. "Não é suposto as unidades mudarem." Por agora, ignorando a perda de massa do Sol não faz com que as naves ou sondas se afastem ou errem nos seus alvos, mas Noerdlinger acredita que existem outras razões para deixar de usar a Unidade Astronómica como medida de distância. A determinação mais precisa das distâncias no Sistema Solar pode levar a novas descobertas científicas ou resolver antigos mistérios, tais como a já aqui tão falada anomalia Pioneer, a mística observação que as duas sondas Pioneer da NASA se afastaram (e bastante) dos seus percursos esperados.

"Há que lembrar que um dos testes principais da teoria geral da relatividade de Einstein era a mudança muito pequena na órbita de Mercúrio, apenas centésimas de grau por século," disse Noerdlinger. Ele sugere o uso informal da UA, como uma unidade "casual", e ao invés usar o metro para propósitos científicos. "[A definição actual] É boa para o primeiro ano dos cursos científicos," disse Noerdlinger. "Mas para o uso científico e de engenharia, é essencial ter precisão e acertar."

"A definição da UAI de Unidade Astronómica tem servido bem no passado," diz James Williams do JPL da NASA em Pasadena, Califórnia, EUA, que não esteve envolvido no estudo. "Agora que as precisões nas medições se aproximam da variação esperada, é razoável uma mudança na definição." Jan Vondrak, presidente da divisão de astronomia fundamental da União Astronómica Internacional, diz que o problema é "muito interessante e requer um estudo mais aprofundado." Mas acrescenta que não é algo que se resolva dentro de pouco tempo. "Normalmente, quando uma definição parece precisar de mudança, um grupo de trabalho da UAI é criado para considerar todos os argumentos e para procurar um consenso global, e só depois é proposta uma resolução para ser aprovada na Assembleia Geral da UAI," disse. "É um processo relativamente longo que pode demorar muitos anos antes que a definição actual seja alterada."

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Notícias relacionadas:
The Register
Scenta

Unidade Astronómica:
"Perda de Massa Solar, a Unidade Astronómica, e a Escala do Sistema Solar" (formato PDF)
Wikipedia
Recomendações da UAI no que respeita a unidades de medida

 
 
 
EFEMÉRIDES:

Dia 09/02: 44.º dia do calendário gregoriano.
Observações: Esta é a altura do ano em que a Ursa Maior fica em pé da sua "pega" a Nordeste durante a noite.

Dia 10/02: 45.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1974, voo rasante da sonda soviética Mars 4 por Marte.

Observações: Um pequeno telescópio irá mostrar o maior satélite de Saturno, Titã. Hoje e amanhã à noit, Titã encontra-se a aproximadamente quatro diâmetros anulares para Oeste de Saturno. Um telescópio de seis polegadas começará já a mostrar a cor alaranjada da sua neblina atmosférica.

Dia 11/02: 46.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1999, Plutão, que tinha sido o oitavo planeta mais distante do Sol desde 1979, passava a ser o nono por troca com Neptuno.

Observações: À hora de jantar a grande Galáxia de Andrómeda (M31), situa-se a cerca de 40º acima do horizonte a Oeste-Noroeste. Tente observá-la com binóculos antes que desça mais e se torna mais difícil de a ver.

Dia 12/02: 47.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 2001, a sonda NEAR Shoemaker tornava-se a primeira nave humana a pousar num asteróide, de nome 433 Eros.

Observações: Olhe para a direita da Lua esta noite para encontrar duas ou três das mais brilhantes estrelas da pequena constelação de Carneiro. Estão alinhadas mais ou menos verticalmente. A mais brilhante, no topo, é Hamal, de segunda magnitude e de pálida cor laranja.

 
 
CURIOSIDADES:

Finalmente o laboratório Europeu Columbus partiu, a bordo do vaivém espacial, para a Estação Espacial Internacional.
 
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS:

Foto

A Baía dos Arco-Íris - Crédito: Alan Friedman

As regiões lisas e escuras que cobrem a familiar face da Lua têm nomes latinos de oceanos e mares. Esta denominação tem um teor histórico, embora pareça irónico para as pessoas que nasceram já na era espacial e que reconhecem a Lua maioritariamente como um mundo seco e sem ar, e as áreas escuras e lisas como bacias de impacto preenchidas por lava. Por exemplo, esta elegante imagem lunar, um cuidado mosaico obtido a partir de imagens telescópicas, mostra a região ocidental do Mare Imbrium, ou Mar das Chuvas, até Sinus Iridium - a Baía dos Arco-Íris. Percorrida pelos Montes Jura, a baía tem aproximadamente 250 km de comprimento, ligada no fim do arco rugoso pelo Promontório Laplace. A face iluminada do promontório mede quase 3.000 metros de altura. No topo do arco encontra-se o Cabo Heraclides, por vezes descrito como uma "aia da Lua".
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