Top thingy left
 
"ESCAVAÇÃO" CÓSMICA REVELA VESTÍGIOS DA ORIGEM DA VIA LÁCTEA
27 de Novembro de 2009

 

Espreitando através de espessas nuvens de poeira no bojo da nossa Galáxia (as miríades de estrelas que envolvem o seu centro) e revelando uma extraordinária quantidade de detalhes, uma equipa de astrónomos descobriu uma estranha mistura de estrelas no grupo estelar chamado Terzan 5. Nunca antes observado no bojo da Galáxia, este peculiar "cocktail" de estrelas sugere que Terzan 5 é de facto um dos blocos construtores do bojo, mais provavelmente uma relíquia de uma galáxia anã que se fundiu com a Via Láctea durante a sua fase inicial.

"A história da Via Láctea está codificada no interior nos seus fragmentos mais antigos, enxames globulares e outros sistemas de estrelas que foram testemunhas de toda a evolução da nossa galáxia," diz Francesco Ferraro, autor principal do artigo que aparece na edição desta semana da revista Nature. "O nosso estudo abre uma nova janela sobre mais uma parte do nosso passado galáctico."

Tal como os arqueólogos que escavam, por entre camadas de poeira, restos de civilizações passadas e desenterram peças cruciais da história da humanidade, também os astrónomos observaram por entre as grossas camadas de poeira interestelar que obscurecem o bojo da Via Láctea e revelaram uma relíquia cósmica extraordinária.

O alvo deste estudo é o enxame estelar Terzan 5. As novas observações mostram que este objecto ao contrário da maioria, com a excepção de alguns enxames globulares peculiares, não alberga estrelas nascidas todas ao mesmo tempo - a que os astrónomos chamam "população única" de estrelas. Em vez disso, a imensa quantidade de estrelas brilhantes no Terzan 5 vem de, pelo menos, duas épocas distintas, a mais antiga de há cerca de 12 mil milhões de anos e a outra de 6 mil milhões de anos.

"Apenas mais um enxame globular com uma história semelhante de formação estelar, bastante complexa, foi observado no halo da Via Láctea: Omega Centauri," diz o membro da equipa Emanuele Dalessandro. "Esta é, por isso, a primeira vez que observamos este fenómeno do bojo da Galáxia."

O bojo é a região da Galáxia mais inacessível, em termos de observações astronómicas: apenas a radiação infravermelha consegue penetrar as nuvens de poeira e revelar as suas miríades de estrelas. "É apenas devido aos soberbos instrumentos montados no Very Large Telescope do ESO," diz a co-autora Barbara Lanzoni, "que conseguimos finalmente, ‘penetrar o nevoeiro’ e obter uma perspectiva completamente nova da origem do próprio bojo galáctico."

Uma jóia da técnica encontra-se nos bastidores desta descoberta, o instrumento Multi-conjugate Adaptive Optics Demonstrator (MAD) que, na fronteira da tecnologia, permite ao VLT obter imagens altamente detalhadas no infravermelho. A óptica adaptativa é a técnica pela qual os astrónomos conseguem eliminar o efeito de manchas em fontes pontuais que a turbulência existente na atmosfera terrestre inflige às imagens astronómicas obtidas pelos telescópios no solo; MAD é um protótipo ainda mais poderoso de um instrumento de próxima geração de óptica adaptativa.

Com o apurado olho do VLT os astrónomos descobriram igualmente que Terzan 5 tem mais massa do que se pensava anteriormente: em conjunto com uma composição complexa e uma história de formação estelar agitada, este facto sugere que o sistema possa ser um resto sobrevivente de uma galáxia anã desfeita, que colidiu e consequentemente se fundiu com a Via Láctea durante a sua fase inicial, contribuindo assim para a formação do bojo galáctico.

"Esta pode ser a primeira de uma série de descobertas que permitirão compreender a origem dos bojos nas galáxias, algo que ainda é frequentemente debatido," conclui Ferraro. "Vários sistemas similares podem esconder-se por detrás da poeira do bojo: é nestes objectos que a história de formação da nossa Via Láctea está escrita."

Links:

Notícias relacionadas:
ESO (comunicado de imprensa)
Nature (requer subscrição)
SPACE.com
Science
Universe Today
Science Daily
Discover
Science Centric

Via Láctea:
Wikipedia
Absolute Astronomy
SEDS

 


O enxame estelar Terzan 5.
Crédito: ESO/F. Ferraro
(clique na imagem para ver versão maior)


Ao redor do enxame estelar Terzan 5.
Crédito: ESO/Digitized Sky Survey 2
(clique na imagem para ver versão maior)

 
Top Thingy Right