Pela primeira vez, foram registadas descargas elétricas nas tempestades e redemoinhos de poeira - conhecidos como diabos de poeira - que varrem a superfície de Marte. Captados pelo microfone do instrumento SuperCam a bordo do rover Perseverance da NASA, os sinais foram analisados por uma equipa de cientistas do CNRS (Centre national de la recherche scientifique), da Universidade de Toulouse e do Observatório de Paris - PSL, trabalhando como parte de uma equipa internacional. As descargas representam uma descoberta importante com implicações imediatas para a nossa compreensão da química atmosférica, do clima e da habitabilidade de Marte, bem como para as futuras missões robóticas e tripuladas. Estes resultados foram publicados na revista Nature no dia 26 de novembro de 2025.
Em Marte, os ventos levantam constantemente redemoinhos de poeira fina. Foi no centro de dois destes diabos marcianos de poeira que o microfone do instrumento SuperCam, o primeiro a funcionar em Marte, registou acidentalmente sinais particularmente fortes. Análises realizadas por cientistas do IRAP (Institut de recherche en astrophysique et planétologie - CNES/CNRS/Université de Toulouse) e do LATMOS (Laboratoire Atmosphères et Observations Spatiales - CNRS/Sorbonne Université/Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines) mostraram que se tratava de assinaturas eletromagnéticas e acústicas de descargas elétricas comparáveis aos pequenos choques de eletricidade estática que podem ser sentidos na Terra quando se toca numa maçaneta de uma porta em tempo seco. Há muito teorizada, a existência de descargas elétricas na atmosfera marciana foi agora confirmada pela primeira vez por observação.
Estes fenómenos podem ser explicados pela fricção entre minúsculas partículas de poeira: estas tornam-se carregadas com eletrões e depois libertam as suas cargas sob a forma de arcos elétricos com alguns centímetros de comprimento, acompanhados de ondas de choque audíveis. Na Terra, é sabido que as partículas de poeira podem ficar carregadas eletricamente, especialmente nas regiões desérticas, embora isso raramente resulte em descargas reais. Em Marte, a fina atmosfera, composta principalmente por dióxido de carbono, torna este fenómeno muito mais provável de ocorrer: a quantidade de carga necessária para formar faíscas é muito menor do que na Terra.
A descoberta destas descargas elétricas altera profundamente a nossa compreensão da química atmosférica marciana. Estes fenómenos mostram que a atmosfera marciana pode atingir níveis de carga suficientes para acelerar a formação de compostos altamente oxidantes. Estas substâncias podem destruir as moléculas orgânicas à superfície, bem como numerosas substâncias atmosféricas, perturbando assim profundamente o equilíbrio fotoquímico da atmosfera. Esta descoberta poderia explicar o desaparecimento surpreendentemente rápido do metano, que tem sido objeto de debate científico desde há vários anos.
As cargas elétricas necessárias para estas descargas são suscetíveis de afetar o transporte de poeiras em Marte, desempenhando assim um papel central no clima marciano, cuja dinâmica permanece largamente desconhecida. Podem também representar um risco para o equipamento eletrónico das atuais missões robóticas e constituir um perigo para potenciais futuras missões tripuladas.
O microfone do instrumento SuperCam a bordo do rover Perseverance da NASA registou os primeiros sons em Marte em 2021, no dia seguinte à sua aterragem no planeta. Ligado todos os dias, recolheu mais de 30 horas de sons do Planeta Vermelho: vento a soprar, o ruído das pás do helicóptero Ingenuity e, agora, descargas elétricas. Esta nova observação confirma o enorme potencial da acústica como ferramenta de exploração planetária.
// CNRS (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)
Quer saber mais?
Marte:
NASA
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
The Nine Planets
Diabos marcianos de poeira (Wikipedia)
Rover Perseverance:
NASA
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