Pela primeira vez, uma versão muito mais jovem do Sol foi apanhada em flagrante a fazer bolhas na Galáxia, por astrónomos que utilizavam o Observatório de raios X Chandra da NASA.
A bolha - chamada astrosfera - rodeia completamente a estrela juvenil. Os ventos da superfície estelar estão a soprar a bolha e a enchê-la de gás quente à medida que se expande para o gás galáctico muito mais frio e para a poeira que rodeia a estrela. O Sol tem uma bolha semelhante à sua volta, a que os cientistas chamam heliosfera, criada pelo vento solar. Estende-se muito para além dos planetas do nosso Sistema Solar e protege a Terra das partículas nocivas do espaço interestelar.
Esta é a primeira imagem de uma astrosfera que os astrónomos obtiveram em torno de uma estrela semelhante ao Sol. Mostra uma emissão ligeiramente alargada, em vez de um único ponto de luz como se vê noutras estrelas semelhantes.
"Há décadas que estudamos a astrosfera do nosso Sol, mas não a conseguimos ver do exterior", disse Carey Lisse da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, EUA, que liderou o estudo, recentemente publicado na revista The Astrophysical Journal. "Este novo resultado do Chandra sobre a astrosfera de uma estrela semelhante ensina-nos mais acerca do Sol, e como esta mudou ao longo de milhares de milhões de anos, à medida que o Sol evolui e se move através da Galáxia".
A estrela chama-se HD 61005 e está localizada a cerca de 120 anos-luz da Terra, o que a torna relativamente próxima. HD 61005 tem aproximadamente a mesma massa e temperatura que o Sol, mas é muito mais jovem, com uma idade de cerca de 100 milhões de anos, em comparação com a idade do Sol, que é de cerca de 5 mil milhões de anos.
Por ser tão jovem, HD 61005 tem um vento de partículas muito mais forte a soprar da sua superfície, que viaja cerca de 3 vezes mais depressa e é cerca de 25 vezes mais denso do que o vento do Sol. Isto amplifica o processo de sopro das bolhas da astrosfera e imita o comportamento do nosso Sol há vários milhares de milhões de anos.
"Somos influenciados pelo Sol todos os dias, não só através da luz que emite, mas também pelo vento que envia para o espaço e que pode afetar os nossos satélites e, potencialmente, os astronautas que viajam para a Lua ou Marte", disse o coautor Scott Wolk do Centro de Astrofísica | Harvard & Smithsonian. "Esta imagem da astrosfera em torno de HD 61005 dá-nos informações importantes sobre como terá sido o vento do Sol no início da sua evolução".
Os astrónomos apelidaram o sistema estelar HD 61005 de "Moth" ("Traça" em português) porque está rodeado por grandes quantidades de poeira com um padrão semelhante à forma das asas de uma traça quando observada através de telescópios infravermelhos. As asas são formadas por material deixado para trás após a formação da estrela, à semelhança da Cintura de Kuiper no nosso próprio Sistema Solar. As observações destas asas com o Telescópio Espacial Hubble da NASA mostraram que a matéria interestelar que rodeia HD 61005 é cerca de mil vezes mais densa do que a que rodeia o Sol.
Desde a década de 1990 que os astrónomos têm tentado captar uma imagem de uma astrosfera em torno de uma estrela semelhante ao Sol. O Chandra conseguiu detetar a astrosfera em torno de HD 61005 porque esta está a produzir raios X à medida que o vento estelar vai atingindo a poeira e o gás interestelar mais frios que rodeiam a estrela. O denso ambiente galáctico local, combinado com a visão de raios X de alta resolução do Chandra, o forte vento estelar e a proximidade da estrela, ajudaram a criar um forte sinal de raios X, permitindo a descoberta de uma astrosfera em torno de HD 61005. Tem um diâmetro cerca de 200 vezes superior à distância da Terra ao Sol.
"Há um ditado que diz que uma traça é atraída por uma chama", disse o coautor Brad Snios, anteriormente do Centro de Astrofísica | Harvard & Smithsonian e agora no MITRE, uma organização sem fins lucrativos que participa em investigação financiada pelo governo federal americano. "No caso de HD 61005, a 'traça' empoeirada nasceu à volta da chama".
O Sol não só passou provavelmente por uma fase de desenvolvimento semelhante à de HD 61005 quando era mais jovem, como também viajou provavelmente por uma região mais densa de poeira e gás do que aquela onde o Sol se encontra atualmente, reforçando a ligação com HD 61005.
"É espantoso pensar que a nossa heliosfera protetora só se estenderia até à órbita de Saturno se estivéssemos na parte da Galáxia onde a 'Traça' está localizada, ou, inversamente, que a 'Traça' teria uma astrosfera 10 vezes mais larga do que a do Sol se estivesse localizada aqui", disse Lisse.
HD 61005 não é visível da Terra a olho nu, mas está suficientemente perto para que os observadores do céu a possam ver usando binóculos.
Os primeiros indícios de emissão de raios X da estrela central da 'Traça' foram baseados numa breve observação de uma hora de HD 61005 pelo Chandra em 2014. Em 2021, os astrónomos observaram HD 61005 durante quase 19 horas, o que permitiu a deteção da estrutura astrosférica alargada.
// Chandra/Harvard (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv)
Quer saber mais?
HD 61005:
Wikipedia
Simbad
Astrosfera:
Wikipedia
Observatório de raios X Chandra:
NASA
Universidade de Harvard
Wikipedia |