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Rover Curiosity descobre moléculas orgânicas nunca antes observadas em Marte
24 de abril de 2026
 
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O rover Curiosity da NASA tirou esta "selfie" no dia 25 de outubro de 2020, depois de ter recolhido uma amostra de rocha de um local apelidado de "Mary Anning". Após anos de análises exaustivas, a amostra revelou a maior diversidade de moléculas orgânicas alguma vez encontrada em Marte.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS
 
     
 
 
 

Após anos de trabalho em laboratório, eis os resultados: uma rocha que o rover Curiosity da NASA perfurou e analisou em 2020 contém a coleção mais diversificada de moléculas orgânicas já encontrada no Planeta Vermelho. Das 21 moléculas contendo carbono identificadas na amostra, sete foram detetadas pela primeira vez em Marte.

Os cientistas não têm como saber se estas moléculas orgânicas foram criadas por processos biológicos ou geológicos - ambas as hipóteses são possíveis -, mas a sua descoberta renovou a confirmação de que o antigo Marte possuía a química adequada para suportar vida. Além disso, as moléculas juntam-se a uma lista crescente de compostos que se sabe estarem preservados nas rochas, mesmo após milhares de milhões de anos de exposição à radiação em Marte, que pode decompor estas moléculas ao longo do tempo.

As descobertas foram detalhadas num novo artigo científico publicado na passada terça-feira na revista Nature Communications.

 
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A Mastcam do rover Curiosity captou este mosaico, no dia 3 de fevereiro de 2019, de uma região do Monte Sharp com muitas rochas argilosas que se formaram quando aí existiam lagos e riachos há milhares de milhões de anos atrás. A amostra "Mary Anning 3" foi encontrada nesta região rica em argilas.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS
 

A amostra rochosa, apelidada de "Mary Anning 3" em homenagem a uma colecionadora de fósseis e paleontóloga inglesa do século XIX, foi recolhida numa parte do Monte Sharp coberta, há milhares de milhões de anos atrás, por lagos e riachos. Este oásis apareceu e desapareceu várias vezes no passado antigo do planeta, acabando por enriquecer a área com minerais argilosos, que são especialmente bons a preservar substâncias orgânicas - moléculas contendo carbono que são os blocos de construção da vida e que se encontram por todo o Sistema Solar.

Entre as moléculas recentemente identificadas encontra-se um heterocíclico de azoto, um anel de átomos de carbono que inclui azoto. Este tipo de estrutura molecular é considerado um precursor do ARN e do ADN, dois ácidos nucleicos fundamentais para a informação genética.

"Essa deteção é bastante significativa, pois estas estruturas podem ser precursoras químicas de moléculas mais complexas contendo azoto", afirmou a autora principal do artigo, Amy Williams, da Universidade da Flórida, em Gainesville, EUA. "Os heterocíclicos de azoto nunca antes tinham sido encontrados na superfície marciana nem confirmados em meteoritos marcianos".

 
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Esta é uma imagem ampliada e anotada de três furos que o Curiosity da NASA perfurou na rocha marciana num local apelidado de "Mary Anning", em outubro de 2020. A amostra onde o rover encontrou uma grande variedade de moléculas orgânicas provinha de "Mary Anning 3" (um local próximo, apelidado de "Mary Anning 2", não foi utilizado).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS
 

Outra descoberta excitante foi o benzotiofeno, uma molécula contendo carbono e enxofre que tem sido encontrada em muitos meteoritos. Alguns cientistas pensam que estes meteoritos, juntamente com as moléculas orgânicas que contêm, semearam a química pré-biótica no início do Sistema Solar.

Química marciana

O novo artigo científico complementa a descoberta do ano passado das maiores moléculas orgânicas alguma vez encontradas em Marte: hidrocarbonetos de cadeia longa, incluindo decano, undecano e dodecano.

"Isto é o rover Curiosity e a nossa equipa no seu melhor. Foram necessários dezenas de cientistas e engenheiros para localizar este local, perfurar a amostra e fazer estas descobertas com o nosso fantástico robô", afirmou o cientista responsável pelo projeto da missão, Ashwin Vasavada, do JPL da NASA, no sul da Califórnia. "Esta coleção de moléculas orgânicas reforça, mais uma vez, a hipótese de que Marte tenha sido um lar para a vida num passado remoto".

Ambos os conjuntos de descobertas foram feitos com um minilaboratório sofisticado chamado SAM (Sample Analysis at Mars), localizado na parte inferior do Curiosity. Uma broca na extremidade do braço robótico do rover pulveriza uma amostra de rocha cuidadosamente selecionada, transformando-a em pó, e depois fá-la "escorrer" para o SAM, onde um forno de alta temperatura aquece o material, libertando gases que os instrumentos do laboratório analisam para revelar a composição da rocha.

Além disso, o SAM pode realizar "química húmida", colocando amostras num pequeno copo com solvente. As reações resultantes podem decompor moléculas maiores que, de outra forma, seriam difíceis de detetar e identificar. Embora o instrumento tenha vários copos deste tipo, apenas dois contêm hidróxido de tetrametilamónio (TMAH), uma solução potente reservada para as amostras de maior valor. A amostra Mary Anning 3 foi a primeira a ser exposta ao TMAH.

Para verificar as reações do TMAH com materiais extraterrestres, os autores do artigo científico também testaram a técnica na Terra com um fragmento do meteorito Murchison, um dos meteoritos mais estudados de todos os tempos. Com mais de 4 mil milhões de anos, Murchison contém moléculas orgânicas que foram espalhadas pelo Sistema Solar primitivo. Verificou-se que uma amostra de Murchison exposta ao TMAH decompunha moléculas muito maiores em algumas das observadas na amostra Mary Anning 3, incluindo o benzotiofeno. Esse resultado confirma que as moléculas marcianas encontradas na amostra Mary Anning 3 podem ter sido geradas a partir da decomposição de compostos ainda mais complexos, relevantes para a vida.

O Curiosity utilizou recentemente o seu segundo e último copo de TMAH enquanto explorava cristas em forma de teia, que foram formadas por antigas águas subterrâneas. A equipa da missão irá analisar esses resultados para um futuro artigo científico sujeito a revisão por pares.

Desbravando caminho para futuras missões

Construído pelo Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA em Greenbelt, Maryland, EUA, o SAM baseia-se em instrumentos de laboratório de maior dimensão e de nível comercial. Para integrar equipamento tão complexo no rover, foi necessário que os engenheiros o reduzissem drasticamente e desenvolvessem uma forma de o fazer funcionar com menos energia. Os cientistas tiveram de aprender a aquecer o forno do SAM mais lentamente durante períodos mais longos, a fim de realizar algumas destas experiências.

"Só o facto de termos descoberto como realizar este tipo de análises químicas pela primeira vez em Marte foi um grande feito", afirmou Charles Malespin, investigador principal do instrumento em Goddard e coautor do estudo. "Mas agora que já temos alguma experiência, estamos preparados para realizar experiências semelhantes em missões futuras".

De facto, Goddard forneceu vários componentes, incluindo o espectrómetro de massa, para uma versão de próxima geração do SAM, denominada MOMA (Mars Organic Molecular Analyzer), destinada ao rover Rosalind Franklin da ESA. Um instrumento semelhante, o DraMS (Dragonfly Mass Spectrometer), irá explorar Titã, lua de Saturno, a bordo do helicóptero Dragonfly da NASA. Ambos os instrumentos serão capazes de realizar química húmida com o solvente TMAH.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Universidade da Flórida (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Communications)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
10/02/2026 - Novo estudo diz que os processos não biológicos não explicam totalmente a matéria orgânica de Marte
28/03/2025 - Rover Curiosity deteta as maiores moléculas orgânicas já encontradas em Marte

Composto heterocíclico:
Wikipedia

Benzotiofeno:
Wikipedia

Hidróxido de tetrametilamónio (TMAH):
Wikipedia

Meteorito Murchison:
Wikipedia

Marte:
NASA
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
The Nine Planets

Rover Curiosity:
NASA
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Wikipedia

 
   
 
 
 
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