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Euclid capta o coração repleto de estrelas da Via Láctea
26 de junho de 2026
 
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Esta é a maior fotografia de alta resolução alguma vez tirada do centro da nossa Galáxia, a Via Láctea, no visível. Foi captada a 23 de março de 2025 pelo telescópio espacial Euclid, da ESA. Repleta com mais de 60 milhões de estrelas, esta imagem abre caminho para que os cientistas confirmem a existência de qualquer exoplaneta encontrado nesta região e meçam a sua massa através de minúsculas variações na luz das estrelas ao longo do tempo.
O bojo galáctico - a região central da nossa galáxia - é uma estrutura vasta e densamente povoada, composta principalmente por estrelas antigas e mais frias, o que lhe confere a sua característica cor amarela. Visto a cerca de 26.000 anos-luz de distância, o Euclid observa o centro da nossa Galáxia através de um complexo primeiro plano de material ao longo da sua linha de visão.
Esta vista ultra-ampla do bojo revela não só estrelas, mas também regiões escuras aparentemente vazias. As manchas escuras não estão desprovidas de estrelas: marcam nuvens moleculares densas e ricas em poeira que absorvem e dispersam a luz proveniente do bojo atrás delas. À medida que o Euclid observa através de dois dos braços espirais da Via Láctea, depara-se também com regiões de formação estelar ativa, marcadas por estrelas azuis massivas e recém-formadas. A sua intensa radiação ultravioleta ioniza o gás hidrogénio circundante, produzindo o fraco brilho vermelho claramente visível numa das imagens recortadas.
Clique aqui para ver a versão desta imagem com os limites do padrão do detetor.
Explore esta imagem na sua mais alta resolução com o ESASky.
Crédito: ESA/Euclid/Consórcio Euclid/NASA, CFHT; processamento de imagem - J.-C. Cuillandre e E. Bertin (Centro de Investigação CEA Paris-Saclay)
 
     
 
 
 

Durante apenas um dia, o detetive do Universo escuro, Euclid, voltou o seu olhar para a luz: a região interior extremamente brilhante da nossa Galáxia, a Via Láctea, conhecida como o bojo galáctico. Este pedido especial partiu de astrónomos que procuravam aquilo que o Euclid faz de melhor: captar enormes áreas do céu com detalhes nítidos.

Concebida para observar milhares de milhões de galáxias distantes, a câmara de luz visível do telescópio espacial é suficientemente sensível para distinguir estrelas individuais no nosso superlotado bojo galáctico, e sem ficar cega. Esta capacidade rara é crucial para o objetivo a que os cientistas pretendem destinar esta imagem: estudar planetas em torno de outras estrelas utilizando uma técnica especial chamada microlente. Mas antes de nos aprofundarmos nesse tema, demos primeiro uma olhadela mais atenta a esta imagem impressionante.

No dia 23 de março de 2025, o Euclid captou esta enorme fotografia em apenas cerca de 26 horas. Trata-se de um mosaico de nove "apontamentos" da sua câmara de luz visível, sendo que cada apontar abrange uma área do céu maior do que a Lua cheia.

 
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A localização da nova imagem do bojo galáctico captada pelo Euclid é visível no mapa de todo o céu do Gaia.
Duas ampliações mostram a resolução impressionante da imagem do Euclid. A imagem ampliada à direita, na parte inferior, corresponde a 0,003% da área de levantamento do bojo galáctico (que tem um total de 4,8 graus quadrados). Com muitos milhares de estrelas visíveis nesta área minúscula, a imagem completa do bojo galáctico do Euclid regista nada menos do que 60 milhões de estrelas.
Crédito: ESA/Euclid/Consórcio Euclid/NASA, CFHT, ESA/Gaia/DPAC; processamento de imagem - J.-C. Cuillandre e E. Bertin (Centro de Investigação CEA Paris-Saclay)
 

A título de comparação, a nitidez e a sensibilidade do Euclid na luz visível são semelhantes às do instrumento WFC (Wide Field Camera) do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA. No entanto, cada observação que o Euclid capta em poucas horas abrange uma área 270 vezes maior do que o campo de visão do Hubble. Para observar o mesmo mosaico do Euclid, o Observatório Keck precisaria de cerca de 2000 horas. O Euclid é mais rápido e capaz de captar detalhes de estrelas mais ténues que, de outra forma, passariam despercebidas numa observação a partir do solo. Este mosaico singular abrange também toda a região que o futuro telescópio espacial Roman irá monitorizar na procura de planetas.

 
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Este infográfico situa o levantamento do bojo galáctico realizado pela missão Euclid no contexto mais amplo da estrutura da Via Láctea, utilizando dados da missão Gaia da ESA.
A linha superior mostra representações esquemáticas (imagens artísticas) da nossa Galáxia espiral: uma vista de perfil que destaca o bojo central (canto superior esquerdo), uma vista de cima para baixo que revela os braços espirais e a região de levantamento (centro superior) e um grande plano do disco galáctico que indica a localização do Sistema Solar (canto superior direito), de onde o Euclid observa o céu, que se torna o pano de fundo principal da imagem.
O painel inferior ilustra a diversidade de objetos captados pelo Euclid enquanto observava em direção ao bojo galáctico em março de 2025. Da esquerda para a direita, os recortes numerados destacam nuvens moleculares densas que obscurecem a luz estelar de fundo, uma nebulosa de emissão brilhante associada a formação estelar recente, um enxame de estrelas jovens e, finalmente, o próprio bojo galáctico - uma região esferoidal densa que contém dez mil milhões de estrelas. Esta região central densamente povoada proporciona condições ideais para a deteção de eventos de microlente.
Crédito: imagens do Euclid - ESA/Euclid/Consórcio Euclid/NASA, CFHT; processamento de imagem - J.-C. Cuillandre e E. Bertin (Centro de Investigação CEA Paris-Saclay); impressões artísticas da Via Láctea - ESA/Gaia/DPAC, Stefan Payne-Wardenaar
 

O Euclid captou mais de 60 milhões de estrelas nesta fotografia, juntamente com nebulosas e enxames estelares. Esta região densamente povoada da nossa Galáxia é o local perfeito para os astrónomos procurarem exoplanetas através de microlentes gravitacionais.

 
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1. Inúmeras estrelas no Bojo Galáctico, que é uma vasta e densa estrutura repleta de estrelas velhas, mais frias, daí o seu característico tom amarelo;
2. Enxame aberto NGC 6451, situado a 8700 anos-luz de distância.
3. A densa nuvem molecular no pano da frente, de nome LDN 10, obscurece a luz do Bojo Galáctico (a amarelo).
4. A nebulosa de emissão G000.583-00.870, visível a vermelho.
Crédito: ESA/Euclid/Consórcio Euclid/NASA, CFHT; processamento de imagens - J.-C. Cuillandre e E. Bertin (Centro de Investigação CEA Paris-Saclay)

 

Descobrindo exoplanetas com microlentes gravitacionais

 
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As microlentes baseiam-se no alinhamento fortuito de duas estrelas em relação ao observador. Quando uma estrela passa por trás da outra, a estrela mais próxima funciona como uma lente, curvando a luz de forma a que o brilho aumente e diminua gradualmente. Se houver um planeta a orbitar a estrela mais próxima, a sua gravidade também desviará o feixe de luz, provocando um pico.
Crédito: ESA
 

A microlente é uma forma de lente gravitacional. Embora o Euclid utilize principalmente lentes gravitacionais para explorar objetos massivos e distantes, como enxames de galáxias, esta nova imagem do Centro Galáctico ajuda os cientistas a estudar lentes a escalas mais pequenas - causadas por estrelas e exoplanetas na nossa própria Galáxia.

A microlente depende do alinhamento fortuito de duas estrelas em relação a um observador. Quando uma estrela passa à frente de outra, a estrela mais próxima funciona como uma lupa cósmica, curvando e intensificando a luz da estrela de fundo. Se um planeta orbitar a estrela mais próxima, a sua gravidade também desvia essa luz, de forma ligeiramente irregular. É esta minúscula alteração adicional no brilho que revela a presença de um planeta.

"Para detetar a microlente, é necessário observar partes do céu repletas de estrelas, como por exemplo perto do centro da nossa Galáxia", explica Jean-Philippe Beaulieu, do Institut d'Astrophysique de Paris, em França, e da Universidade da Tasmânia, na Austrália. Jean-Philippe foi o impulsionador original do levantamento do bojo galáctico da missão Euclid e coliderou o grupo de trabalho sobre exoplanetas do Consórcio Euclid.

"Nos últimos vinte anos, foram descobertos quase 300 exoplanetas utilizando esta técnica, todos com telescópios terrestres e todos na direção do centro da nossa Galáxia. Esta imagem do Euclid inclui 51 sistemas planetários conhecidos - e ajudará a estudar muitos mais que serão descobertos", acrescenta.

 
 

Medindo as massas dos planetas com o Euclid

Para detetar um evento de microlente, um telescópio teria de observar uma estrela durante mais de vinte dias. Isso é necessário para perceber as variações na luz que é curvada, à medida que o planeta orbita em torno da sua estrela hospedeira. Assim, num único dia de observação do Euclid, não é possível detetar novos eventos. Mas o que torna esta imagem tão especial é o facto de permitir aos cientistas medir a massa de planetas já conhecidos, bem como de planetas que ainda estão por descobrir.

"Em 24 horas, o Euclid já captou as estrelas envolvidas em todos os futuros eventos de microlente que o telescópio espacial Roman irá detetar, mas antes de as estrelas e os planetas envolvidos se terem alinhado", afirma Natalia Rektsini, do Institut d'Astrophysique de Paris, em França, que liderou a divulgação dos dados do levantamento do bojo galáctico do Euclid à comunidade científica.

"Isto significa que quem detetar um evento de microlente na mesma região, por exemplo com o Roman, poderá, a partir de agora, utilizar os dados do Euclid como referência temporal no passado e ver como as estrelas se apresentavam antes de se sobreporem", explica Natalia. "Uma vez que o Euclid consegue separar claramente as estrelas individuais, é possível medir a velocidade a que se movem ao longo do tempo e utilizar essa informação para confirmar a existência de um planeta e determinar a sua massa. Isto não seria possível com dados relativos a um único momento no tempo".

Planetas gelados e muito mais

Na maioria das técnicas de deteção exoplanetária, é mais fácil encontrar planetas grandes e quentes a orbitar estrelas massivas. No caso das microlentes, isso não acontece. "Esta técnica é imparcial, descobrimos tudo o que lá estiver", afirma Natalia. "É especialmente adequada para descobrir exoplanetas frios. E esperamos que todas as estrelas da Via Láctea tenham, pelo menos, um planeta deste tipo".

As estrelas hospedeiras de dois exoplanetas frios conhecidos aparecem nos dados do Euclid, e ambas são especiais para a equipa.

"Liderei a equipa que descobriu OGLE-2005-BLG-390Lb há 20 anos", diz Jean-Philippe. "É um planeta gelado, um pouco como Hoth, da saga 'Star Wars'. Depois de todo este tempo, estou entusiasmado com a possibilidade de o Euclid nos permitir finalmente medir a sua massa com precisão".

"OGLE-2013-BLG-341Lb é um sistema raro e fascinante", afirma Natalia. "É composto por duas estrelas e um planeta. Ao combinar observações anteriores do Keck e do Hubble com os novos dados do Euclid, podemos finalmente separar as estrelas e confirmar a massa do planeta".

"Este resultado mostra o que uma equipa relativamente pequena e dedicada pode alcançar no âmbito de uma grande missão internacional", afirma Valeria Pettorino, cientista do projeto Euclid na ESA. "A equipa dedicada aos exoplanetas contou com contribuições significativas de investigadores em início de carreira e foi apoiada pela unidade do Segmento Científico Terrestre que trabalha no instrumento de luz visível".

"Em apenas 24 horas, o Euclid forneceu dados únicos sobre o centro da Via Láctea, com uma visão ampla e nítida desta região. Com o tempo, a separação entre as fontes e as lentes aumenta. É por isso que estes dados do Euclid servirão de referência temporal para missões passadas e futuras e permitirão estudos sobre exoplanetas e as suas massas. Estes dados também podem ser utilizados para outras aplicações científicas, desde anãs castanhas e estrelas binárias até aos movimentos estelares e à poeira em toda a nossa Galáxia".

// ESA (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)

 


Quer saber mais?

Bojo galáctico:
Wikipedia

Via Láctea:
Wikipedia
SEDS

Microlentes gravitacionais:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de exoplanetas mais próximos (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Lista de exoplanetas candidatos a albergar água líquida (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
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