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Vénus pode ter "comido" a sua lua
18 de setembro de 2026
 
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Mosaico da superfície de Vénus, feito em computador utilizando exposições de radar obtidas pela sonda Magellan em 1991.
Crédito: NASA/JPL
 
     
 
 
 

Há muito que os cientistas especulam acerca do motivo pelo qual Vénus, com tamanho, massa e estrutura semelhantes à Terra, não tem uma lua. Uma nova investigação da Universidade da Califórnia em Riverside revela que isso se deve ao facto de o nosso "gémeo faminto" provavelmente a ter engolido.

No passado, os cientistas teorizaram que Vénus poderia ter tido, em algum momento, uma lua que foi atingida por algo massivo, destruindo-a. Outras teorias centravam-se na ideia de que Vénus nunca sofreu uma colisão que tivesse dado origem a uma lua.

A nova investigação, publicada na revista The Astrophysical Journal, demonstra que nenhuma das teorias se verifica.

"O meu estudo mostra que Vénus não precisou de uma catástrofe para chegar ao estado em que o vemos hoje", afirmou Stephen Kane, astrofísico da UCR e autor principal. "Afinal, a gravidade do próprio planeta, combinada com a velocidade a que gira, fez com que a lua colapsasse sobre ele".

Os cientistas conseguem medir com precisão a distância entre a Terra e a Lua porque a missão Apollo 11 da NASA deixou lá espelhos. "Sabemos que a Lua se está a afastar lentamente do planeta, a um ritmo de cerca de quatro centímetros por ano", afirmou Kane. Este afastamento, explicou Kane, está a ocorrer porque a Terra gira a um ritmo relativamente rápido de 24 horas por rotação. A energia resultante desta rotação é transferida para a Lua, fazendo com que esta se afaste.

Vénus apresenta exatamente a situação oposta. Esse planeta demora 243 dias terrestres a completar uma única rotação. Assim, em vez de se afastar gradualmente, a rotação lenta e a gravidade do planeta fariam com que uma lua espiralasse na sua direção, rumo a uma colisão.

Para testar esta ideia, Kane criou modelos computacionais baseados na física da interação entre corpos planetários através da gravidade. Primeiro, reproduziu a evolução da Terra e da Lua para se certificar de que o modelo representava com precisão um sistema conhecido.

Em seguida, variou a velocidade de rotação de Vénus e o tamanho das suas luas hipotéticas, testando luas com massas que variavam entre metade e dez vezes a massa da nossa Lua. Na maioria das simulações, o resultado foi o mesmo: a lua colidiu com Vénus. E quanto maior a massa do satélite, mais rapidamente colidia.

"Quando fiz esta descoberta, fiquei chocado", disse Kane. "Pensei que, certamente, a ampla gama de cenários que estava a explorar levaria a uma variedade de resultados. Mas tudo apontou praticamente na mesma direção".

A descoberta não prova que Vénus tenha tido uma lua no passado. Kane pensa que possa ter tido, mas se alguma vez se formou uma, continua a ser uma questão em aberto. O estudo mostra, no entanto, que, se Vénus tivesse uma lua, esta não poderia ter continuado a existir indefinidamente.

 
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Gráfico que mostra a probabilidade de uma lua venusiana ter sido destruída.
Crédito: Stephen Kane/UCR
 

Seria difícil encontrar evidências físicas de tal colisão. Cerca de 80% da superfície de Vénus tem uma idade semelhante, o que constitui uma prova de um grande evento de renovação da superfície ocorrido há cerca de mil milhões de anos, que apagou grande parte da anterior história geológica do planeta.

As evidências poderão, em vez disso, encontrar-se sob a superfície. Os cientistas pensam que a Lua da Terra se formou após uma colisão gigantesca no início da história do planeta, e estudos sísmicos revelaram estruturas invulgares nas profundezas da Terra que podem ser vestígios desse evento. Medições semelhantes em Vénus poderiam oferecer pistas sobre se o planeta alguma vez absorveu uma lua.

Tal colisão poderia também ajudar os cientistas a compreender outro mistério de longa data acerca de Vénus: se o vizinho planetário mais próximo da Terra alguma vez foi capaz de albergar vida.

A colisão de uma lua com Vénus teria transferido uma enorme quantidade de energia e momento angular para o planeta, alterando potencialmente a sua rotação, geologia e clima. Se Vénus alguma vez teve oceanos ou outras condições favoráveis à vida, tal impacto poderia ter alterado o curso da evolução do planeta.

As implicações vão além de Vénus. Os cientistas que procuram mundos potencialmente habitáveis em torno de outras estrelas procuram frequentemente planetas semelhantes à Terra e consideram a presença de uma lua como um fator que poderia influenciar a habitabilidade.

A Lua da Terra provoca as marés, pode ter ajudado a manter o planeta geologicamente ativo e influenciou profundamente a evolução da Terra. Os cientistas não sabem, no entanto, se é necessária uma lua de grandes dimensões para a existência de vida.

"A minha opinião é que há vantagens em ter uma lua, mas não é um requisito para a habitabilidade", afirmou Kane. "A Lua alterou definitivamente a forma como a Terra evoluiu ao longo do tempo, mas não sabemos ao certo quão importante é esse papel".

As conclusões de Kane sugerem que mesmo os planetas capazes de formar luas podem não ser capazes de as manter. Os mundos que giram lentamente podem fazer com que as suas luas espiralem em direção às suas superfícies, alterando drasticamente os planetas nesse processo.

"Quando as pessoas pensam em gémeos da Terra à volta de outras estrelas, uma das perguntas que fazem é: 'Tem uma lua?'", disse Kane. "O meu estudo revela um cenário preocupante para muitos desses casos. Se esses planetas não girarem com rapidez suficiente, a lua irá colidir com a superfície, o que alteraria o curso da história desses planetas".

// Universidade da Califórnia em Riverside (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal)

 


Quer saber mais?

Vénus:
NASA
Wikipedia

 
   
 
 
 
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