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Edição n.º 1241
29/01 a 01/02/2016
 
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29/01/16 - APRESENTAÇÃO ÀS ESTRELAS
20:00 – 22:00 - Apresentação sobre tema de astronomia, seguida de observação astronómica noturna com telescópio (dependente de meteorologia favorável).
Público: Público em geral
Local: CCVAlg
Preço: 2€ - adultos, 1€ jovens (crianças até 12 anos grátis)
Pré-inscrição: consultar este link
Telefone: 289 890 922
E-mail: info@ccvalg.pt

 
EFEMÉRIDES

Dia 29/01: 29.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1986 ocorreu o incidente Height 611 em que uma bola de fogo terá sido vista pela população inteira de uma povoação, tendo desaparecido de seguida.

Observações: Trânsito da sombra de Io, entre as 02:02 e as 04:22.
Sirius brilha alto a sul pelas 22:30. Usando binóculos, examine 4º para baixo de Sirius (diretamente para baixo do ponto cardeal). Consegue ver a pequena "nuvem" difusa? É o enxame aberto M41, a cerca de 2200 anos-luz de distância. Sirius, em comparação está a apenas 8.6 anos-luz.
Eclipse de Io, entre as 23:12 e as 01:31 (já de dia 30).

Dia 30/01: 30.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1964, era lançada a sonda Ranger 6 da NASA.

A sua missão era filmar a Lua televisivamente até se despenhar sobre ela.
Em 2013, o Naro-1 torna-se o primeiro veículo de lançamento da Coreia do Sul.
Observações: Se sair à rua antes do amanhecer para observar o espetáculo planetário, encontrará a Lua Minguante para cima e para a esquerda de Espiga. Para a sua esquerda, Marte está a 1,4º de Alpha Librae, um bonito sistema binário binocular.
Trânsito da sombra de Io, entre as 20:32 e as 22:48.

Dia 31/01: 31.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1862, Alvan Graham Clark Jr. descobre a ténue companheira de Sirius, de nome Sirius B, durante testes de um refrator de 18 polegadas que estava a ser construído para o Observatório Dearborn pelo seu pai, irmão, e por ele próprio. Friedrich Bessel propôs a existência de uma companheira invisível em 1844.
Em 1961, era lançada a Mercury-Redstone 2 - com o chimpanzé Ham a bordo.

Foi o primeiro hominídeo no espaço.
Em 1966, lançamento da soviética Luna 9. Realizou a primeira aterragem com sucesso noutro corpo planetário.
Em 1971, lançamento da Apollo 14, a terceira aterragem tripulada na Lua. 
Em 1996, era descoberto o cometa Hyakutake pelo astrónomo amador japonês, Yuji Hiakutake
Observações: Viu a Lua ontem, antes do nascer-do-Sol? Se a observar novamente hoje, verá que se deslocou para mais longe de Espiga. Agora, está entre a estrela mais brilhante de Virgem e Marte, para a sua esquerda.

Dia 01/02: 32.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1958, era lançado o Explorer I, o primeiro satélite artificial americano. Transmitiu dados sobre micrometeoritos e radiação cósmica durante 105 dias. A missão resultou na descoberta das cinturas de radiação Van Allen por James Van Allen.
Em 1999, voo rasante n.º 19 da sonda Galileu por Europa.
Em 2003, o vaivém espacial Columbia desintegra-se durante a sua reentrada na atmosfera terrestre, matando os sete astronautas a bordo: Rick D. Husband, William C. McCool, Michael P. Anderson, Ilan Ramon, Kalpana Chawla, David M. Brown e Laurel Clark. 

Observações: Lua em Quarto Minguante, pelas 03:28.
A Lua está hoje mesmo para cima de Marte, na continuação da sua "viagem" dos últimos dias.

 
CURIOSIDADES


A massa de Ceres corresponde a um-terço da massa total da cintura de asteroides.

 
SEPARADOS POR UM BILIÃO DE QUILÓMETROS: UM PLANETA SOLITÁRIO E A SUA ESTRELA DISTANTE

Uma equipa de astrónomos da Universidade de Hertfordhsire (Reino Unido), dos EUA e da Austrália descobriu um planeta, que até agora se pensava flutuar livremente no espaço, numa órbita enorme em redor da sua estrela.

Incrivelmente, o objeto, designado 2MASS J2126, está a 1 bilião de quilómetros da estrela, ou cerca de 7000 vezes a distância da Terra ao Sol. Os investigadores relatam a descoberta num artigo publicado na Monthly Notices da Sociedade Astronómica Real.

Nos últimos cinco anos foram encontrados um número de planetas que flutuam livremente no espaço. Estes são gigantes gasosos como Júpiter que não possuem massa suficiente para despoletar as reações nucleares que fazem as estrelas brilhar, por isso arrefecem e desaparecem ao longo do tempo. A medição das temperaturas destes objetos é relativamente simples, mas depende da massa e da idade. Isto significa que os astrónomos precisam de descobrir quão velhos são, antes de saber se são leves o suficiente para serem considerados planetas ou se são "estrelas falhadas" mais pesadas conhecidas como anãs castanhas.

Impressão de artista de 2MASS J2126, que orbita a 7000 vezes mais longe da sua estrela do que a Terra do Sol.
Crédito: Universidade de Hertfordshire/Neil James Cook
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Investigadores nos EUA descobriram 2MASS J2126 num levantamento do céu no infravermelho, sinalizando-o como possivelmente um objeto jovem de baixa massa. Em 2014, cientistas canadianos identificaram 2MASS J2126 como um possível membro de um grupo de estrelas e anãs castanhas com 45 milhões de anos conhecido como Associação Tucana-Horologium. Isto torna-o jovem e suficientemente leve para ser classificado como planeta de livre flutuação.

Na mesma região do céu, TYC 9486-927-1 é uma estrela identificada como sendo jovem, mas que não faz parte de qualquer grupo de estrelas jovens. Até agora, ninguém tinha sugerido que TYC 9486-927-1 e 2MASS J2126 estavam de alguma forma ligados.

Descobertas interessantes

Dr. Niall Deacon, autor principal do artigo e da Universidade de Hertfordshire, passou os últimos anos à procura de estrelas jovens com companheiras em órbitas largas. Como parte do trabalho, a sua equipa estudou listas de estrelas jovens, anãs castanhas e planetas de flutuação livre em busca de qualquer relação. Descobriram que TYC 9486-927-1 e 2MASS J2126 movem-se em conjunto pelo espaço e estão ambos a cerca de 104 anos-luz do Sol, o que significa que estão associados.

"Este é o sistema planetário mais largo encontrado até agora e já conhecemos ambos os membros há oito anos," afirma o Dr. Deadon, "mas ninguém tinha feito a ligação entre os objetos. O planeta não é tão solitário quanto pensávamos, mas é certamente uma relação a grande distância."

Quando olharam em mais detalhe, os astrónomos não foram capazes de confirmar que TYC 9486-927-1 e 2MASS J2126 são membros de qualquer grupo conhecido de estrelas jovens.

"A afiliação num grupo de estrelas jovens é excelente para a determinação da idade," afirma o coautor Josh Schlieder, do Centro de Pesquisa Ames da NASA, "mas quando não podemos usar a idade temos que recorrer a outros métodos."

Imagem infravermelha da estrela TYC 9486-927-1 e do planeta 2MASS J2126; as setas mostram o seu movimento projetado ao longo de 1000 anos. A escala indica a distância de aproximadamente 4000 UA, onde 1 UA é a distância média entre a Terra e o Sol (cerca de 150 milhões de quilómetros).
Crédito: 2MASS/S. Murphy/ANU
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Descobrindo mais sobre o planeta e sobre a estrela

A equipa, então, olhou para o espectro - a luz dispersa - da estrela a fim de medir a força de uma característica provocada pelo elemento lítio. Este é destruído no início da vida de uma estrela, assim que quanto mais lítio tem, mais jovem é. TYC 9486-927-1 tem assinaturas mais fortes de lítio do que um grupo de estrelas com 45 milhões de anos (a Associação Tucana-Horologium) mas assinaturas mais fracas do que um grupo de estrelas com 10 milhões de anos, o que implica uma idade entre as duas.

Com base nesta idade a equipa foi capaz de estimar a massa de 2MASS J2126, determinando que deve situar-se entre as 11,6 e as 15 massas de Júpiter. Isto coloca-o na fronteira entre os planetas e as anãs castanhas. Isto significa também que 2MASS J2126 tem uma massa, idade e temperatura parecidas com aquelas de um dos primeiros planetas observados diretamente em torno de outra estrela, beta Pictoris b.

Em comparação com beta Pictoris b, 2MASS J2126 está 700 vezes mais longe da sua estrela hospedeira," afirma o Dr. Simon Murphy da Universidade Nacional Australiana, também um dos coautores do estudo, "mas como é que um sistema tão largo como este se forma e sobrevive permanece uma questão em aberto."

2MASS J2126 está a cerca de 7000 UA ou 1 bilião de quilómetros da sua estrela hospedeira, dando-lhe a maior órbita de qualquer planeta encontrado em torno de outra estrela. A esta enorme distância, leva cerca de 900.000 anos a completar uma órbita, o que significa que, desde o seu nascimento, terminou menos de 50 órbitas. É largamente improvável a existência de vida num mundo exótico como este, mas quaisquer habitantes veriam o seu "Sol" como não mais do que uma estrela brilhante, podendo nem sequer imaginar que estavam ligados a ela.

Links:

Notícias relacionadas:
Universidade de Hertfordshire (comunicado de imprensa)
Artigo científico (arXiv.org)
Astronomy
Universe Today
SPACE.com
EarthSky
redOrbit
Space Daily
New Scientist
Astronomy Now
Popular Science
PHYSORG
Discovery News
METRO
UPI
engadget
gizmag
Observador
ZAP.aeiou

2MASS J2126:
Wikipedia
Exoplanet.eu

Planetas extrasolares:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

Planetas flutuantes:
Wikipedia

 
CERES: MANTENDO SEGREDOS BEM GUARDADOS DURANTE 215 ANOS

O Dia de Ano Novo, 1801, o alvorecer do século XIX, foi um momento histórico para a astronomia e para uma missão espacial chamada Dawn mais de 200 anos depois. Nessa noite, Giuseppe Piazzi apontou o seu telescópio para o céu e observou um objeto distante que conhecemos agora como Ceres.

Atualmente, a missão Dawn da NASA permite-nos observar Ceres em detalhes incríveis. A partir das imagens que a Dawn transmitiu ao longo do último ano, sabemos que Ceres é um corpo altamente craterado com diversas características à superfície, características estas que incluem uma montanha cónica e mais de 130 manchas refletivas de material que é provavelmente sal. Mas naquela noite de 1801, Piazzi não tinha a certeza do que estava vendo quando observou um pequeno ponto de luz através do seu telescópio.

"Quando Piazzi descobriu Ceres, explorá-lo estava para lá da imaginação. Mais de dois séculos depois, a NASA enviou uma máquina numa viagem cósmica de mais de 4,8 mil milhões de quilómetros para alcançar o mundo misterioso que avistou," afirma Marc Rayman, diretor da missão e engenheiro-chefe da Dawn no JPL da NASA em Pasadena, no estado americano da Califórnia.

Giuseppe Piazzi usou este instrumento, chamado um Círculo de Ramsden, para descobrir Ceres no dia 1 de janeiro de 1801. O telescópio está em exposição no Observatório de Palermo na Sicília.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Observatório de Palermo
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Piazzi foi diretor do Observatório de Palermo, na Sicília, Itália, que recolheu documentos e instrumentos da época do astrónomo e publicou uma brochura sobre a descoberta de Ceres. De acordo com o observatório, Piazzi estrava a trabalhar num catálogo de posições estelares no dia 1 de janeiro de 1801, quando notou algo cuja "luz era um pouco fraca e colorida como Júpiter." Ele observou o objeto nas noites seguintes e viu que a sua posição tinha mudado ligeiramente.

O que era aquele objeto? Piazzi escreveu aos seus colegas astrónomos Johann Elert Bode e Barnaba Oriani a contar que tinha descoberto um cometa.

"Eu apresentei esta estrela como um cometa, mas devido à sua falta de nebulosidade e ao seu movimento lento e bastante uniforme, sinto no meu coração que poderá ser algo melhor do que um cometa, talvez. No entanto, deveria ter muito cuidado ao passar esta conjetura ao público," escreveu Piazzi a Oriani.

Um Planeta em Falta?

Piazzi não manteve totalmente este segredo. Ele disse à imprensa que este objeto era um cometa, mas não forneceu dados das suas observações, o que gerou críticas de outros astrónomos. Piazzi, em seguida, ficou doente durante algum tempo e disse que não podia mais observar o objeto.

À medida que os jornais espalhavam a notícia da descoberta de um cometa, o astrónomo Jérôme de Lalande, em Paris, escreveu a Piazzi solicitando dados relevantes em fevereiro. O astrónomo italiano fez-lhe a vontade em abril, depois de recuperar da sua doença. Um dos estudantes de Lalande, Johann Karl Burckhardt, fez cálculos que revelaram que a descoberta de Piazzi não tinha uma órbita consistente com a órbita de um cometa. Em vez disso, os dados pareciam melhor corresponder a uma órbita circular.

Claro, não havia e-mail nesses dias e as cartas que Piazzi escreveu aos amigos Bode e Oriani acerca do "cometa" chegaram com atraso devido às Guerras Napoleónicas. Chegaram, finalmente, às mãos dos astrónomos em março.

A notícia foi especialmente interessante para Bode porque havia defendido a hipótese Titius-Bode: que as posições dos planetas no nosso Sistema Solar seguiam um padrão específico, que prevê a distância de cada planeta ao Sol. Úrano, descoberto em 1781, também encaixava na previsão. Mas o padrão também exigia outro planeta, ainda não descoberto, entre Marte e Júpiter.

Para encontrar este planeta em falta, um grupo de astrónomos alemães estabeleceu, em 1800, uma sociedade chamada "Polícia Celeste" (Himmelspolizei em alemão), com Franz Xaver von Zach como secretário. O grupo consistia de 24 astrónomos e, cada um, estudava uma área com 15 graus no céu zodiacal em busca do objeto ausente. No entanto, Piazzi só recebeu o seu convite para se juntar ao clube depois de avistar Ceres.

Bode calculou uma órbita com base nos dados de Piazzi e acreditava que o objeto que Piazzi tinha observado era o planeta que encaixava na sua fórmula (que mais tarde foi desacreditada). Oriani, por sua vez, também calculou uma órbita e no dia 7 de abril pediu a von Zach para publicar a notícia no seu bem conhecido jornal de astronomia, Monatliche Correspondenz, que tal planeta pode ter sido descoberto.

Quase um "Cometa Perdido"

Na primavera de 1801, além de Piazzi, ninguém tinha sido capaz de observar o novo objeto celeste por causa do céu nublado e da posição do objeto na sua órbita - já não era visível à noite e o Sol, claro, bloqueava a vista dos astrónomos. Entretanto, Piazzi ainda não tinha publicado nada sobre o objeto, enquanto continuava a refinar os seus dados. Vários dos seus colegas ficaram chateados por Piazzi reter informações. Sem os dados das suas observações, que ficaram concluídas no dia 11 de fevereiro, a confirmação da descoberta seria mais difícil - Ceres estava perdido desde fevereiro.

Porque é que Piazzi hesitou em tornar estes dados públicos? Uma razão pode ser que, apesar de Piazzi ter sido um observador experiente, não tinha conhecimentos teóricos sólidos de astronomia e por isso não conseguia calcular órbitas rapidamente. Em segundo lugar, ele arriscava a credibilidade e a reputação, tanto de si próprio como a do observatório. Mas, enquanto vacilava, colegas na Alemanha como Bode acreditavam firmemente que tinha que haver um planeta entre Marte e Júpiter. Foi a sua convicção que ajudou a manter o trabalho em curso, afirma Ileana Chinnici, que editou a brochura do Observatório de Palermo sobre Ceres.

O Observatório de Palermo na Sicília, Itália, onde Piazzi descobriu Ceres, alberga hoje uma variedade de instrumentos astronómicos históricos.
Crédito: Elizabeth Landau
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Sem a determinação dos astrónomos alemães, Piazzi teria sido, na melhor das hipóteses, apenas o descobridor de um cometa perdido. Eles 'acreditavam' na existência do planeta e foram impulsionados pelo esforço em confirmá-la. Isto mostra quão poderosas são as ideias, modelos, as teorias - ontem, assim como hoje," comenta Chinnici.

A Procura por Ceres

Finalmente, em julho de 1801, Piazzi dedicou-se a calcular a órbita do objeto e tornou públicos os seus dados sobre as observações no início desse ano. E enquanto outros astrónomos já tinham dados diversos nomes - como Juno, Hera e Piazzi (em honra ao astrónomo) - o próprio Piazzi anunciou que a "nova estrela" seria chamada Ceres Ferdinandea. O segundo nome "Ferdinandea" era em honra do Rei Fernando da Sicília.

Ceres, a deusa romana da agricultura, era também a padroeira da Sicília, onde Piazzi vivia e trabalhava. Bode, que queria chamar Juno ao objeto, concordou com Ceres: "Descobriu-o em Touro e foi novamente observado em Virgem, Ceres dos tempos antigos. Estas duas constelações são o símbolo da agricultura. Esta ocorrência é verdadeiramente única."

No final de julho de 1801, muitos astrónomos acreditavam que Ceres era um planeta, mas precisavam de mais confirmações e observações. Piazzi publicou o seu conjunto completo de dados no jornal de von Zach em setembro e, ao fazê-lo, captou a atenção de um jovem matemático que se tornaria fundamental para o destino de Ceres.

Com vinte e quatro anos, Carl Friedrich Gauss estava a fazer experiências com modelos matemáticos que mais tarde o tornariam famoso. Quando aplicou estes métodos a Ceres, obteve previsões diferentes para a sua posição, diferentes das que outros haviam calculado. Embora houvesse quem ficasse cético dos resultados de Gauss, os seus cálculos permitiram com que von Zach fosse o primeiro a observar Ceres novamente, no dia 7 de dezembro de 1801, seguido por outros astrónomos proeminentes da época e pelo próprio Piazzi no dia 23 de fevereiro de 1802.

Asteroides: Uma Nova Categoria de Objetos

Nós damos crédito a Gauss pelo cálculo da órbita de Ceres. Mas ele não respondeu a uma questão fundamental: o que é Ceres?

Em março de 1802, Heinrich Wilhelm Matthias Olbers descobre um segundo objeto, semelhante, que mais tarde fica conhecido como Pallas. William Herschel, um dos astrónomos mais famosos de todos os tempos, escreveu um artigo propondo que tanto Ceres como Pallas representavam uma classe inteiramente nova de objeto: asteroides. Acerca de Ceres, Herschel escreveu: "se nós o chamássemos de planeta, não preencheria o espaço entre Marte e Júpiter com a dignidade exigida por essa posição."

Embora Herschel considerasse a descoberta do primeiro exemplo de um asteroide, por Piazzi, como uma grande conquista, Piazzi estava dececionado. Ele pensava que Herschel, o descobridor de Úrano, apenas queria minimizar Ceres. Piazzi escreveu a Oriani: "Que sejam chamados planetoides ou cometoides, mas nunca asteroides. [...] Se Ceres é chamado de asteroide, então também Úrano."

No entanto, a porta abriu-se para a observação de muitos mais asteroides. As descobertas de Juno em 1804 e Vesta em 1807 (que mais tarde se tornaria no primeiro alvo da missão Dawn da NASA) reforçaram a noção de Herschel de que os asteroides são uma classe própria. Herschel cunhou o termo "asteroide" devido à sua aparência semelhante a uma estrela através dos telescópios. Hoje, sabemos que existem centenas de milhares de asteroides na cintura principal de asteroides entre Marte e Júpiter.

Imagem de Ceres em cores naturais, obtida pela sonda Dawn em maio de 2015.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/Justin Cowart
(clique na imagem para ver versão maior)
 

O Legado de Piazzi

Piazzi não podia ter sabido que o Telescópio Espacial Hubble da NASA forneceria, um dia, muitas imagens intrigantes de Ceres, permitindo com que os cientistas confirmassem que o corpo é, de facto, redondo como a Terra. Ele nem imaginava que em 2006 a União Astronómica Internacional atualizasse o estatuto de Ceres, de asteroide para planeta anão, recebendo a mesma classificação que Plutão, que só foi descoberto mais de um século depois da sua morte. Ele não podia saber que, em 2007, a missão Dawn da NASA seria lançada a partir de um local chamado Cabo Canaveral, na Flórida, para embarcar numa viagem sem precedentes para orbitar Vesta e Ceres.

Ele provavelmente também nem imaginava que um observatório espacial, cujo nome homenageia Herschel, iria descobrir em 2013 a emanação de vapor de água em Ceres, no seguimento de observações de hidróxido em 1992 pelo IUE (International Ultraviolet Explorer) da NASA.

Nem poderia ter adivinhado que no dia 6 de março de 2015, a Dawn seria capturada com sucesso para órbita de Ceres e passaria o resto do ano a enviar fotos e outros dados valiosos para a Terra. Ele não podia saber que os cientistas usariam as capacidades únicas do Telescópio Espacial Hubble em novembro de 2015 para observar Ceres no espectro ultravioleta, complementando as observações da Dawn.

Este mês celebra-se o 215.º aniversário da descoberta de Ceres e a Dawn observa o planeta anão a partir da sua órbita mais baixa: a 385 km da superfície. As muitas crateras e outras características que Piazzi não podia observar com o seu telescópio estão a receber os nomes de divindades agrícolas ou festivais, estendendo o tema que Piazzi iniciou com o nome "Ceres."

"O nosso conhecimento, as nossas capacidades, o nosso alcance e até mesmo a nossa ambição estão muito além do que Piazzi podia ter imaginado e, mesmo assim, é graças à sua descoberta que os podemos aplicar e aprender mais, não só sobre o próprio Ceres, mas também sobre o alvorecer do Sistema Solar," conclui Rayman.

Links:

Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
Astrobiology Magazine
PHYSORG

Ceres:
Wikipedia
Como Gauss determinou a órbita de Ceres

Giuseppe Piazzi:
Wikipedia
Giuseppe Piazzi e a Descoberta de Ceres

Sonda Dawn:
Página oficial
NASA
Wikipedia

Observatório Astronómico de Palermo:
Página principal

Johann Elert Bode:
Wikipedia
Lei de Titius-Bode (Wikipedia)

Barnaba Oriani:
Wikipedia

Jérôme de Lalande:
Wikipedia

Johann Karl Burckhardt:
Wikipedia

Franz Xaver von Zach:
Wikipedia

Carl Friedrich Gauss:
Wikipedia

Heinrich Wilhelm Matthias Olbers:
Wikipedia

Pallas:
Wikipedia

William Herschel:
Wikipedia

Juno:
Wikipedia

Vesta:
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

Observatório Espacial Herschel:
ESA (ciência e tecnologia)
ESA (centro científico)
ESA (página de operações)
NASA
Caltech
Wikipedia

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
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ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - Galáxia Elíptica M60, Espiral NGC 4647
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: NASAESAEquipa Hubble Heritage (STScI/AURA)
 
A gigante galáxia elíptica M60 e a galáxia espiral NGC 4647 realmente são um par estranho neste nítido retrato cósmico captado pelo Telescópio Espacial Hubble. Mas encontram-se numa região do espaço onde as galáxias tendem a reunir-se, no lado oriental do Enxame Galáctico de Virgem. A cerca de 54 milhões de anos-luz de distância, a forma oval e mais simples de M60 é criada pelo aglomerado aleatório de estrelas mais velhas, enquanto as jovens estrelas azuis, o gás e a poeira de NGC 4647 estão organizados em braços sinuosos e rotativos num disco achatado. Estima-se que a espiral NGC 4647 esteja mais distante que M60, a 63 milhões de anos-luz de distância. Também conhecido como Arp 116, este par de galáxias pode estar à beira de um encontro gravitacional significativo. M60 (ou NGC 4649) mede cerca de 120.000 anos-luz de diâmetro. A mais pequena NGC 4647 estende-se mais ou menos por 90.000 anos-luz, quase o tamanho da nossa própria Via Láctea.
 

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