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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1840  
  26/10 a 28/10/2021  
     
 
Efemérides

Dia 26/10: 299.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1968, o cosmonauta soviético Georgy Beregovoy pilota a Soyuz 3 para o espaço, numa missão de quatro dias.

Observações: Esta semana Júpiter cruza o meridiano (a sua posição mais alta a sul) um pouco antes das 21:00, dependendo de quão para este ou oeste está o observador no seu fuso horário. E este mês, quando Júpiter cruza o meridiano, também o faz a estrela do nariz virado de cima para baixo de Pégaso: Enif, ou Epsilon Pegasi. "Enif" é árabe para "nariz". Com magnitude 2,4, Enif é fácil de avistar, 25º para cima de Júpiter. Corresponde mais ou menos a 2,5 punhos à distância do braço esticado. Bons olhos, ou binóculos, revelam que é amarelo-alaranjada; uma supergigante K3.
Enif é o ponto de começo para encontrar o bonito enxame globular M15, localizado 5º para noroeste da estrela (para cima e para a direita estas noites). Com magnitude 6,28, M15 é visível através de binóculos como uma bola difusa e pequena, e um telescópio de 6 polegadas já pode começar a resolver algumas estrelas.

Dia 27/10: 300.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1961, primeiro lançamento com sucesso do foguetão Saturno I

Em 1973, o meteorito Cañon City, um condrito com 1,4 kg, atinge Fremont County, no estado norte-americano do Colorado. 
Em 1994, é inquestionavelmente identificado o primeiro objeto de massa subestelar, Gliese 229B.
Em 2005, é lançado o micro-satélite SSETI Express a partir do Cosmódromo de Plesetsk.
Observações: Aqui chegados ao final de outubro, e Deneb ainda brilha perto do zénite ao anoitecer. E a mais brilhante Vega não está muito longe, para oeste. E a terceira estrela do Triângulo de "Verão", Altair, permanece muito alta a sudoeste. Parecem estar mais ou menos por aqui há um par de meses! Porque é que "pararam"?
O que está a ver é o resultado do nascer-do-Sol e do anoitecer chegarem cada vez mais cedo durante o outono. O que significa que se sair à rua para observar as estrelas, pouco depois do anoitecer, estará a fazê-lo cada vez mais cedo, de acordo com os ponteiros do relógio. Isto contraria a viagem para oeste das constelações. Se se habituar a fazer as suas observações astronómicas sempre à mesma hora, as constelações teriam sempre o comportamento habitual.
Claro que este "efeito do Triângulo de Verão" aplica-se a toda a esfera celeste, não apenas ao Triângulo de Verão. Claro, como sempre no que respeita à mecânica celeste, o efeito oposto faz o avanço sazonal das constelações parecer "acelerar" na primavera. Os marcos primaveris de Virgem e Corvo vão mover-se para oeste semana a semana antes que nos apercebamos, graças à escuridão que vem mais tarde. Podemos chamar a este efeito de "efeito de Corvo".

Dia 28/10: 301.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1971 a Grã-Bretanha lança o Prospero, o seu primeiro satélite. 
Em 1974, lançamento da sonda Luna 23, missão soviética de recolha de amostras lunares. Mas o dispositivo de recolha falhou e nenhumas amostras foram enviadas.
Em 2009, a NASA lança com sucesso a sua missão Ares I-X, o único lançamento do cancelado programa Constellation

Observações: Lua em Quarto Minguante, pelas 21:05.
A Lua meio iluminada nasce por volta da meia-noite, em Caranguejo, bem para baixo de Castor e Pollux de Gémeos. Assim que a Lua estiver razoavelmente alta, já a noite vai tarde e poderá ter uma boa antevisão do céu noturno de inverno. Aviste Procyon dois ou três punhos à distância do braço esticado para a direita do nosso satélite natural, e a brilhante Sirius à mesma distância para a direita de Procyon. Bem para cima de Sirius está Orionte; e bem para cima de Orionte está Touro com Aldebarã, as Híades e as Plêiades.

 
     
 
Curiosidades


Os astrónomos juntaram-se a parceiros de todo o mundo para lançar uma nova iniciativa online, pedindo voluntários para ajudar a procurar exoplanetas.
O projeto online de ciência cidadã, Planet Hunters Next-Generation Transit Search (NGTS), pede que o público examine cinco anos de dados digitais de algumas das estrelas mais brilhantes do céu. Os dados foram obtidos por doze telescópios robóticos do NGTS no Observatório Paranal do ESO no Chile.
O website da iniciativa é:
http://ngts.planethunters.org

 
 
   
Planeta jovem observado diretamente

Cientistas da Universidade do Hawaii descobriram um dos planetas mais jovens já encontrados em torno de uma distante estrela juvenil.

Já foram descobertos milhares de planetas em torno de outras estrelas, mas este é diferente da esmagadora maioria dos outros porque é recém-formado e porque pode ser observado diretamente. O planeta, denominado 2M0437b, junta-se a um punhado de objetos que avançam a nossa compreensão de como os planetas se formam e mudam com o tempo, ajudando a lançar nova luz sobre a origem do Sistema Solar e da Terra. A investigação foi publicada recentemente na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

 
Imagem da descoberta do planeta 2M0437b, situado a cerca de 100 vezes a distância Terra-Sol da sua estrela hospedeira.
Crédito: Telescópio Subaru
 

"Esta descoberta fortuita acrescenta a uma lista de planetas que podemos observar diretamente com os nossos telescópios," explicou o autor principal Eric Gaidos, professor do Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Hawaii em Mānoa. "Ao analisar a luz deste planeta, podemos dizer algo sobre a sua composição e, talvez, onde e como se formou num disco de gás e poeira há muito desaparecido em torno da sua estrela hospedeira."

Os investigadores estimam que o planeta seja algumas vezes mais massivo do que Júpiter, e que se formou juntamente com a sua estrela há vários milhões de anos, por volta da formação das principais ilhas havaianas. O planeta é tão jovem que ainda está quente com a energia libertada durante a sua formação, com uma temperatura semelhante à lava em erupção do vulcão Kīlauea.

2M0437b foi visto pela primeira vez em 2018 com o Telescópio Subaru em Maunakea pelo investigador visitante do Instituto para Astronomia da Universidade do Hawaii, Teruyuki Hirano. Nos últimos anos, tem sido estudado cuidadosamente utilizando outros telescópios na montanha.

Gaidos e seus colaboradores usaram o Observatório Keck em Maunakea para monitorizar a posição da estrela hospedeira conforme se movia pelo céu, confirmando que o planeta 2M0437b era realmente um companheiro da estrela e não um objeto mais distante. As observações levaram três anos porque a estrela move-se lentamente pelo céu.

O planeta e a sua estrela-mãe estão num "berçário" estelar chamado Nuvem de Touro. 2M0437b está numa órbita muito mais larga do que os planetas do Sistema Solar; a sua atual separação é cerca de cem vezes a distância Terra-Sol, tornando-o mais fácil de observar. No entanto, ainda é necessária a técnica de óticas adaptativas para compensar a distorção da imagem provocada pela atmosfera da Terra.

"Foram necessários dois dos maiores telescópios do mundo, tecnologia de óticas adaptativas e os céus limpos do Maunakea para fazer esta descoberta," disse o coautor Michael Liu, astrónomo do Instituto para Astronomia. "Estamos todos ansiosos por mais descobertas deste tipo e por estudos mais detalhados de planetas deste género com as tecnologias e telescópios do futuro."

A obtenção de análises mais aprofundadas sobre o planeta recém-descoberto pode não estar muito longe. "As observações com telescópios espaciais como o Hubble e o Telescópio Espacial James Webb, a ser lançado em breve, podem identificar gases na sua atmosfera e revelar se o planeta tem um disco de formação lunar," concluiu Gaidos.

// Universidade do Hawaii (comunicado de imprensa)
// Observatório Keck (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

2M0437b:
Exoplanet.eu

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

Telescópio Subaru:
NAOJ
Wikipedia

Observatório W. M. Keck:
Página principal
Wikipedia

 
   
Hubble fornece visão antecipada e sem precedentes da destruição de uma estrela

Como testemunha de uma morte violenta, o Telescópio Espacial Hubble da NASA deu recentemente aos astrónomos uma visão abrangente e sem precedentes dos primeiros momentos da morte cataclísmica de uma estrela. Os dados do Hubble, combinados com outras observações da estrela condenada a partir de telescópios espaciais e terrestres, podem dar aos astrónomos um sistema de alerta precoce para outras estrelas prestes a explodir.

"Costumávamos falar sobre o trabalho de supernovas como se fôssemos investigadores de uma cena de um crime, onde aparecíamos depois do ato e tentávamos descobrir o que aconteceu com aquela estrela," explicou Ryan Foley da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, o líder da equipa que fez esta descoberta. "Esta é uma situação diferente, porque realmente sabemos o que está a acontecer e realmente vemos a morte em tempo real."

 
Os astrónomos testemunharam recentemente a supernova SN 2020fqv a explodir dentro das galáxias Borboleta em interação, localizadas a cerca de 60 milhões de anos-luz de distância na direção da constelação de Virgem. Os investigadores rapidamente utilizaram o Telescópio Espacial Hubble da NASA. Juntamente com outros telescópios espaciais e terrestres, o Hubble viu os primeiros momentos da morte da estrela condenada, dando uma visão abrangente de uma supernova no estágio inicial de explosão. O Hubble sondou o material muito perto da supernova que foi ejetada pela estrela no último ano de sua vida. Essas observações permitiram aos investigadores entender o que estava acontecendo com a estrela pouco antes de morrer e podem fornecer aos astrónomos um sistema de alerta precoce para outras estrelas à beira da morte.
Crédito: NASA, ESA, Ryan Foley (UC Santa Cruz); processamento de imagem - Joseph DePasquale (STScI)
 

Trabalho em equipa de telescópios

A supernova, chamada SN 2020fqv, encontra-se nas galáxias Borboleta em interação, localizadas a cerca de 60 milhões de anos-luz de distância na direção da constelação de Virgem. Foi descoberta em abril de 2020 pelo ZTF (Zwicky Transient Facility) no Observatório Palomar em San Diego, no estado norte-americano da Califórnia. Os astrónomos perceberam que a supernova estava a ser observada simultaneamente pelo TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), um satélite da NASA projetado principalmente para descobrir exoplanetas, com a capacidade de detetar uma variedade de outros fenómenos. Rapidamente apontaram o Hubble e um conjunto de telescópios terrestres para ela.

Juntos, estes observatórios deram a primeira visão holística de uma estrela no estágio inicial de destruição. O Hubble sondou o material muito perto da estrela, chamado de material circunstelar, meras horas após a explosão. Este material foi expelido pela estrela no último ano da sua vida. Estas observações permitiram aos astrónomos entender o que estava a acontecer com a estrela pouco antes de morrer.

"Nós raramente conseguimos examinar este material circunstelar muito próximo, pois só é visível por um período muito curto de tempo, e geralmente não começamos a observar uma supernova até pelo menos alguns dias após a explosão," explicou Samaporn Tinyanont, autor principal do artigo científico publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. "Para esta supernova, fomos capazes de fazer observações ultrarrápidas com o Hubble, dando uma cobertura sem precedentes da região logo ao lado da estrela que explodiu."

Contando a história da estrela

A equipa analisou observações da estrela pelo Hubble que remontam até à década de 1990. O TESS forneceu uma imagem do sistema a cada 30 minutos, começando vários dias antes da explosão, passando pela própria explosão e continuando por várias semanas. O Hubble foi usado novamente apenas algumas horas depois da primeira deteção da explosão pelos astrónomos. E, ao estudar o material circunstelar com o Hubble, os cientistas compreenderam o que estava a acontecer em torno da estrela ao longo da década anterior. Ao combinar todas estas informações, a equipa foi capaz de criar uma visão de várias décadas dos anos finais da estrela.

"Agora temos toda esta história do que aconteceu à estrela nos anos antes da sua morte, durante o momento da sua morte e depois da sua morte," disse Foley. "Esta é realmente a visão mais detalhada de estrelas como esta nos seus últimos momentos e de como explodem."

A Pedra de Roseta das supernovas

Tinyanont e Foley chamaram SN 2020fqv "a Pedra de Roseta das supernovas". A antiga Pedra de Roseta, que tem o mesmo texto inscrito em três línguas diferentes, ajudou os especialistas a aprender a ler os hieróglifos antigos.

No caso desta supernova, a equipa científica usou três métodos diferentes para determinar a massa da estrela em explosão. Isto incluiu comparar as propriedades e a evolução da supernova com modelos teóricos; usando informações de uma imagem do arquivo Hubble de 1997 da estrela para descartar estrelas de maior massa; e usando observações para medir diretamente a quantidade de oxigénio na supernova, que examina a massa da estrela. Os resultados são todos consistentes: cerca de 14 a 15 vezes a massa do Sol. A determinação precisa da massa da estrela que explode como supernova é crucial para entender como as estrelas massivas vivem e morrem.

"As pessoas usam muito o termo 'Pedra de Roseta'. Mas esta é a primeira vez que conseguimos verificar a massa com estes três métodos diferentes para uma supernova e todos eles são consistentes," disse Tinyanont. "Agora podemos avançar usando estes métodos diferentes e combinando-os, porque há muitas outras supernovas das quais temos massas de um método, mas não de outro."

Um sistema de alerta precoce?

Nos anos que antecedem à explosão das estrelas, elas tendem a tornar-se mais ativas. Alguns astrónomos apontam para a supergigante vermelha Betelgeuse, que recentemente expeliu quantidades significativas de material, e perguntam-se se se tornarará em breve uma supernova. Embora Foley duvide que Betelgeuse esteja prestes a explodir, ele acha que devemos levar a sério estas explosões estelares.

"Este poderia ser um sistema de alerta," disse Foley. "De modo que se observarmos uma estrela a começar a tremer um pouco, a comportar-se de maneira invulgar, então talvez devêssemos prestar mais atenção e realmente tentar entender o que está a acontecer antes de explodir. À medida que encontramos mais e mais destas supernovas com este tipo de excelente conjunto de dados, seremos capazes de entender melhor o que está a acontecer nos últimos anos da vida de uma estrela."

// NASA (comunicado de imprensa)
// ESA/Hubble (comunicado de imprensa)
// UC Santa Cruz (comunicado de imprensa)
// Hubblesite (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

Galáxias Borboleta:
Wikipedia

Supernovas:
Wikipedia
Supernova do Tipo II (Wikipedia)

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

ZTF:
Caltech
ipac
Wikipedia

TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite):
NASA
NASA/Goddard
Programa de Investigadores do TESS (HEASARC da NASA)
MAST (Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais)
Exoplanetas descobertos pelo TESS (NASA Exoplanet Archive)
Wikipedia

 
   
Um "guia de campo" para Júpiteres quentes

Os Júpiteres quentes - planetas gigantes e gasosos que orbitam extremamente perto das suas estrelas hospedeiras - tornaram-se um pouco menos misteriosos graças a um novo estudo que combina modelagem teórica com observações do Telescópio Espacial Hubble.

Enquanto os estudos anteriores se concentraram principalmente em mundos individuais classificados como "Júpiteres quentes" devido à sua semelhança superficial com o gigante gasoso no nosso próprio Sistema Solar, o novo estudo é o primeiro a olhar para uma população mais ampla destes mundos estranhos. Publicado na revista Nature Astronomy, o estudo, liderado por uma investigadora da Universidade do Arizona, fornece aos astrónomos um "guia de campo" sem precedentes dos Júpiteres quentes e uma visão da formação planetária em geral.

 
Esta impressão artística mostra um planeta do tipo de Júpiter quente em órbita próximo de uma das estrelas do rico e velho enxame estelar Messier 67, situado a 2500 a 3000 anos-luz da Terra, na direção da constelação de Caranguejo.
Crédito: ESO/L. Calçada
 

Embora os astrónomos pensem que apenas cerca de 1 em cada 10 estrelas abrigue um exoplaneta da classe Júpiter quente, estes planetas peculiares constituem uma porção considerável dos exoplanetas descobertos até agora, devido ao facto de serem maiores e mais brilhantes do que outros tipos de exoplanetas, como os planetas rochosos, mais semelhantes à Terra, ou planetas gasosos e mais frios. Variando entre 1/3 e 10 massas de Júpiter, todos os Júpiteres quentes têm órbitas muito íntimas em torno das suas estrelas, geralmente muito mais perto do que Mercúrio - o planeta mais interior do nosso Sistema Solar - está do Sol. Um "ano" num típico Júpiter quente dura horas ou, no máximo, alguns dias. Para efeitos de comparação, Mercúrio leva quase três meses a completar uma viagem ao redor do Sol.

Devido a estas órbitas íntimas, pensa-se que a maioria, senão todos, os Júpiteres quentes estão presos num abraço veloz com as suas estrelas hospedeiras, em que um lado está eternamente exposto à radiação da estrela e o outro envolto em escuridão perpétua. A superfície de um Júpiter quente típico pode chegar a ultrapassar os 2700º C, com espécimes "mais frios" atingindo 760º C - quente o suficiente para derreter alumínio.

A investigação, liderada por Megan Mansfield, do Observatório Steward da Universidade do Arizona, usou observações feitas com o Telescópio Espacial Hubble que permitiram à equipa medir diretamente os espectros de emissão dos Júpiteres quentes, apesar do facto do Hubble não poder fotografar diretamente nenhum destes planetas.

"Estes sistemas, estas estrelas e os seus Júpiteres quentes, estão demasiado distantes para resolver individualmente a estrela e o seu planeta," disse Mansfield. "Tudo o que podemos ver é um ponto - a fonte de luz combinada dos dois."

Mansfield e a sua equipa usaram um método conhecido como eclipse secundário para extrair informações das observações que lhes permitiram perscrutar profundamente a atmosfera dos planetas e obter informações sobre a sua estrutura e composição química. A técnica envolve observações repetidas do mesmo sistema, capturando o planeta em várias posições da sua órbita, incluindo quando passa por trás da estrela.

"Nós basicamente medimos a luz combinada proveniente da estrela e do seu planeta e comparamos essa medição com o que vemos quando o planeta está escondido atrás da sua estrela," disse Mansfield. "Isto permite-nos subtrair a contribuição da estrela e isolar a luz emitida pelo planeta, embora não o possamos ver diretamente."

Os dados do eclipse fornecem aos investigadores informações sobre a estrutura térmica das atmosferas dos Júpiteres quentes e permitiram-lhes construir perfis individuais de temperatura e pressão. A equipa então analisou a luz infravermelha próxima, que é uma gama de comprimentos de onda logo para lá da gama que os olhos humanos podem ver, oriunda de cada sistema, em busca das chamadas características de absorção. Dado que cada molécula ou átomo tem o seu próprio perfil de absorção específico, como uma espécie de impressão digital, a observação em diferentes comprimentos de onda permite que os investigadores obtenham informações sobre a composição química dos Júpiteres quentes. Por exemplo, se a água estiver presente na atmosfera do planeta, irá absorver luz a 1,4 micrómetros, que cai na faixa de comprimentos de onda que o Hubble consegue observar muito bem.

 
A turbulenta atmosfera de um planeta quente e gasoso conhecido como HD 80606b é vista nesta simulação baseada em dados do Telescópio Espacial Spitzer da NASA. O planeta passa a maior parte do tempo longe da sua estrela mas, a cada 111 dias, oscila extremamente perto da estrela, passando por um enorme aumento de temperatura.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
 

"De certa forma, usamos moléculas para examinar as atmosferas destes Júpiteres quentes," disse Mansfield. "Podemos usar o espectro que observamos para obter informações sobre a composição da atmosfera e também sobre a estrutura da atmosfera."

A equipa ainda foi mais além, quantificando os dados observacionais e comparando-os com modelos dos processos físicos que se pensa estarem em andamento nas atmosferas dos Júpiteres quentes. Os dois conjuntos combinaram muito bem, confirmando que muitas previsões sobre a natureza dos planetas - com base em trabalho teórico - parecem estar corretas, de acordo com Mansfield, que disse que as descobertas são "emocionantes porque eram tudo menos garantidas."

Os resultados sugerem que todos os Júpiteres quentes, não apenas os 19 incluídos no estudo, provavelmente contêm conjuntos semelhantes de moléculas, como água e monóxido de carbono, juntamente com quantidades mais pequenas de outras moléculas. As diferenças entre os planetas individuais devem principalmente corresponder às quantidades variáveis relativas destas moléculas. Os achados também revelaram que as características observadas de absorção da água variaram ligeiramente de um Júpiter quente para outro.

"Como um todo, os nossos resultados mostram que há uma boa chance de termos um quadro geral da química destes planetas," disse Mansfield. "Ao mesmo tempo, cada planeta tem a sua própria composição química e isso também influencia o que vemos nas nossas observações."

Segundo os autores, os resultados podem ser usados para orientar as expetativas do que os astrónomos podem ver ao olhar para um Júpiter quente que não tinha sido estudado antes. O lançamento do novo telescópio da NASA, o Telescópio Espacial James Webb, previsto para 18 de dezembro, está a animar os caçadores exoplanetários porque o Webb consegue observar numa gama muito mais ampla de luz infravermelha e permitirá uma visão muito mais detalhada dos exoplanetas, incluindo dos Júpiteres quentes.

"Há muito que ainda não sabemos sobre como os planetas se formam em geral, e uma das maneiras de tentar entender como isto pode acontecer é observando as atmosferas destes Júpiteres quentes e descobrindo como chegaram a estar onde estão," disse Mansfield. "Com os dados do Hubble, podemos observar tendências estudando a absorção da água, mas quando falamos sobre a composição da atmosfera como um todo, existem muitas outras moléculas importantes que queremos estudar, como o monóxido de carbono e o dióxido de carbono, e o JWST vai dar-nos a hipótese de as observar também."

// Universidade do Arizona (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

Júpiteres quentes:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

 
   
Também em destaque
  Colisões entre estrelas de neutrões são "minas de ouro" de elementos pesados (via MIT)
A maioria dos elementos mais leves que o ferro são forjados nos núcleos das estrelas. O núcleo incandescente de uma estrela alimenta a fusão de protões, comprimindo-os para construir elementos progressivamente mais pesados. Mas, além do ferro, os cientistas ficaram intrigados com o que poderia dar origem ao ouro, à platina e ao resto dos elementos pesados do Universo, cuja formação requer mais energia do que uma estrela pode reunir. Um novo estudo realizado por investigadores do MIT e da Universidade de New Hampshire descobriu que, de duas fontes há muito suspeitas de metais pesados, uma é mais uma mina de ouro do que a outra. Ler fonte
 
   
Álbum de fotografias - Um Cometa e um Caranguejo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Jose Mtanous
 
Este bonito campo de visão estende-se por 2 graus ou 4 Luas Cheias no céu, cheio de estrelas em direção à constelação de Touro. Acima e à direita do centro, podemos avistar a ténue e avermelhada Messier 1 (M1), também conhecida como Nebulosa do Caranguejo. M1 é o primeiro objeto do famoso catálogo do caçador de cometas Charles Messier, do século XVIII, de coisas que definitivamente não são cometas. Composta a partir de dados de imagens capturadas no dia 11 de outubro, há um cometa na foto. Abaixo do centro e à esquerda está a cabeleira esverdeada e a cauda empoeirada do cometa periódico 67P/Churyumov-Gerasimenko, também conhecido como o cometa da sonda Rosetta. No século XXI, tornou-se o local de descanso final de robôs do planeta Terra. O cometa da Rosetta está agora a retornar ao Sistema Solar interior, avançando em direção ao seu próximo periélio ou passagem mais próxima do Sol, de dia 2 de novembro. Demasiado ténue para ser visto apenas a olho nu, o próximo perigeu do cometa ou a passagem mais próxima pela Terra será no dia 12 de novembro.
 
   
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