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  Astroboletim #2274  
  23/12 a 25/12/2025  
     
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EFEMÉRIDES

DIA 23/12: 357.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1672, Giovanni Cassini descobre a lua de SaturnoReia
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HOJE, NO COSMOS:
A Lua Crescente, baixa a sudoeste ao cair da noite, situa-se entre Fomalhaut, um par de punhos à distância do braço esticado para a sua esquerda, e Altair, um pouco mais longe para a direita do nosso satélite natural. Estas estrelas brilhantes são duas das nossas vizinhas mais próximas, a 25 e 17 anos-luz, respetivamente. Já a Lua está a 1,3 segundos-luz.

 

DIA 24/12: 358.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1761 nascia Jean-Louis Pons, astrónomo francês, o maior descobridor visual de cometas: entre 1801 e 1827, descobriu 37 cometas, mais do que qualquer pessoa na História.
Em 1818, nascia James Prescott Joule, físico inglês que estudou a natureza do calor e descobriu a sua relação com a mecânica. Isto levou à lei da conservação da energia, o que por sua vez levou ao desenvolvimento da primeira lei da termodinâmica. A unidade SI da energia, joule, tem o seu nome.
Em 1968, os astronautas da Apollo 8 tornam-se nos primeiros humanos a entrar em órbita da Lua.
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Completam 10 órbitas lunares e enviam imagens televisivas que se tornam na famosa transmissão de Véspera de Natal, um dos programas mais vistos na História.
Em 1979, lançamento do primeiro foguetão europeu Ariane.
HOJE, NO COSMOS:
Bem acima de Orionte brilha a alaranjada Aldebarã com o largo enxame das Híades no plano de fundo. Os binóculos são instrumentos ideais para observar este enxame, tendo em conta o seu tamanho: as estrelas mais brilhantes (de quarta e quinta magnitudes) abrangem uma área com aproximadamente 4º de diâmetro. Mais acima, as Plêiades têm pouco mais de 1º de diâmetro, contando apenas as estrelas mais brilhantes. As estrelas principais das Híades formam um V. Está atualmente de lado, aberto para a esquerda. Aldebarã forma a mais baixa das duas pontas do V. Com binóculos, siga o ramo inferior do V para a direita de Aldebarã. A primeira "coisa" a que chega é o asterismo da Casa: um padrão de estrelas parecido a um desenho de uma criança de uma casa com um telhado. A casa está atualmente direita e inclinada para a direita como se tivesse sido empurrada. A Casa inclui três estrelas duplas binoculares que formam um triângulo equilátero, com cada par virado para o centro. O par mais brilhante é Theta1 e Theta2 Tauri. Talvez consiga resolver o par Theta à vista desarmada.

 

DIA 25/12: 359.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1642, nascia Isaac Newton (de acordo com o calendário juliano), físico e matemático inglês, largamente considerado um dos cientistas mais influentes de todos os tempos e uma figura-chave da revolução científica.
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O seu livro "Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica", publicado pela primeira vez em 1687, estabelece as fundações da mecânica clássica.
Em 1968, a Apollo 8 faz a primeira manobra TEI (Trans Earth Injection), enviando a tripulação e a nave de volta à Terra desde órbita lunar.
Em 2003, a infeliz Beagle 2, libertada da sonda Mars Express no dia 19 de dezembro, desaparece pouco antes da sua prevista aterragem. No dia 16 de janeiro de 2015, mais de onze anos depois do seu desaparecimento, a sonda MRO localiza-a no solo marciano. 
Em 2004, a Cassini liberta a sonda Huygens, que aterra em Titã a 14 de janeiro do ano seguinte.
Em 2021, era lançado o Telescópio Espacial James Webb, a bordo de um foguetão Ariane 5 e a partir da Guiana Francesa.
HOJE, NO COSMOS:
Feliz dia do Sol Invicto! Esta data era celebrada no final da época dos Romanos porque era quando o Sol começava a recuperar do seu longo declínio com a promessa, no frio e na escuridão, da vinda de uma nova primavera e verão.
Ao final do lusco-fusco, vire-se para norte e olhe para cima. Cassiopeia é agora um "M" achatado inclinado num ângulo, o seu lado esquerdo mais alto (dependendo de onde o observador vive). Apenas duas horas mais tarde, o "M" está horizontal! As constelações que passa perto do zénite parecem girar mais depressa em relação à direção "cima".

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Hubble vê, pela primeira vez, colisões de asteroides numa estrela próxima
 
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Esta imagem composta, obtida pelo Telescópio Espacial Hubble, mostra o anel de detritos e as nuvens de poeira cs1 e cs2 em torno da estrela Fomalhaut. A própria Fomalhaut está mascarada para permitir que as características mais ténues sejam vistas. A sua localização está marcada pela estrela branca.
Crédito: NASA, ESA, Paul Kalas (Universidade da Califórnia em Berkeley); processamento de imagem - Joseph DePasquale (STScI)
 

Tal como uns carrinhos de choque cósmicos, os cientistas pensam que os primeiros tempos do nosso Sistema Solar foram uma época de violenta desordem, com planetesimais, asteroides e cometas a chocarem entre si e a bombardearem a Terra, a Lua e os outros planetas interiores com detritos. Agora, num marco histórico, o Telescópio Espacial Hubble captou diretamente imagens de colisões catastróficas semelhantes num sistema planetário próximo em torno de outra estrela, Fomalhaut.

"Esta é certamente a primeira vez que vejo um ponto de luz aparecer do nada num sistema exoplanetário", disse o investigador principal Paul Kalas da Universidade da Califórnia em Berkeley. "Está ausente em todas as imagens anteriores do Hubble, o que significa que acabámos de testemunhar uma colisão violenta entre dois objetos massivos e uma enorme nuvem de detritos, diferente de tudo o que existe atualmente no nosso Sistema Solar. Espantoso!"

A apenas 25 anos-luz da Terra, Fomalhaut é uma das estrelas mais brilhantes do céu noturno. Localizada na constelação do Peixe Austral, é mais massiva e mais brilhante do que o Sol e está rodeada por várias cinturas de detritos poeirentos.

Em 2008, os cientistas usaram o Hubble para descobrir um candidato a planeta em torno de Fomalhaut, tornando-o o primeiro sistema estelar com um possível planeta encontrado usando luz visível. Esse objeto, chamado Fomalhaut b, parece agora ser uma nuvem de poeira disfarçada de planeta - o resultado da colisão de planetesimais. Enquanto procuravam Fomalhaut b em observações recentes do Hubble, os cientistas ficaram surpreendidos ao encontrar um segundo ponto de luz num local semelhante à volta da estrela. Chamam a este objeto "fonte circunstelar 2" ou "cs2" (do inglês "circumstellar source 2"), enquanto o primeiro objeto é agora conhecido como "cs1".

Resolvendo os mistérios da colisão de planetesimais

A razão pela qual os astrónomos estão a ver estas duas nuvens de detritos tão próximas uma da outra é um mistério. Se as colisões entre asteroides e planetesimais fossem aleatórias, cs1 e cs2 deveriam aparecer por acaso em locais não relacionados. No entanto, estão posicionadas intrigantemente perto uma da outra ao longo da porção interior do disco de detritos exterior de Fomalhaut.

Outro mistério é a razão pela qual os cientistas testemunharam estes dois eventos num período tão curto. "A teoria anterior sugeria que deveria haver uma colisão a cada 100.000 anos, ou mais. Aqui, em 20 anos, vimos duas", explicou Kalas. "Se tivéssemos um filme dos últimos 3000 anos e o acelerássemos de modo que cada ano fosse uma fração de segundo, imaginem quantos flashes veríamos ao longo desse tempo. O sistema planetário de Fomalhaut estaria a brilhar com estas colisões".

As colisões são fundamentais para a evolução dos sistemas planetários, mas são raras e difíceis de estudar.

 
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Este conceito artístico mostra a sequência de eventos que levaram à criação da nuvem de poeira cs2 em torno da estrela Fomalhaut. No Painel 1, a estrela Fomalhaut aparece no canto superior esquerdo. Dois pontos brancos, localizados no canto inferior direito, representam os dois objetos massivos em órbita de Fomalhaut. No Painel 2, os objetos aproximam-se um do outro. O painel 3 mostra a violenta colisão destes dois objetos. No Painel 4, a nuvem de poeira resultante, cs2, torna-se visível e a luz estelar empurra os grãos de poeira para longe da estrela.
Crédito: NASA, ESA, STScI, Ralf Crawford (STScI)
 

"O aspeto excitante desta observação é que permite aos investigadores estimar o tamanho dos corpos em colisão e quantos deles existem no disco, informação que é quase impossível de obter por qualquer outro meio", disse o coautor Mark Wyatt da Universidade de Cambridge em Inglaterra. "As nossas estimativas colocam os planetesimais que foram destruídos para criar cs1 e cs2 com apenas 60 quilómetros de diâmetro, e inferimos que existem 300 milhões de objetos deste tipo a orbitar no sistema Fomalhaut".

"O sistema é um laboratório natural para sondar como os planetesimais se comportam quando sofrem colisões, o que por sua vez nos diz de que são feitos e como se formaram", explicou Wyatt.

Lição de cautela

A natureza transiente de Fomalhaut cs1 e cs2 coloca desafios a futuras missões espaciais que pretendam obter imagens diretas de exoplanetas. Esses telescópios podem confundir nuvens de poeira como cs1 e cs2 com planetas reais.

"Fomalhaut cs2 parece-se exatamente como um exoplaneta que reflete a luz estelar", disse Kalas. "O que aprendemos com o estudo de cs1 é que uma grande nuvem de poeira pode disfarçar-se de planeta durante muitos anos. Isto é uma lição de cautela para futuras missões que pretendam detetar exoplanetas na luz refletida".

Olhando para o futuro

Kalas e a sua equipa receberam tempo do Hubble para monitorizar cs2 durante os próximos três anos. Querem ver como evolui - desvanece-se ou fica mais brilhante? Estando mais perto da cintura de poeira do que cs1, a nuvem cs2 em expansão tem mais probabilidades de começar a encontrar outro material na cintura. Isto poderia levar a uma súbita avalanche de mais poeira no sistema, o que poderia fazer com que toda a área circundante ficasse mais brilhante.

"Vamos acompanhar cs2 para detetar quaisquer alterações na sua forma, brilho e órbita ao longo do tempo", disse Kalas, "É possível que cs2 comece a ter uma forma mais oval ou cometária à medida que os grãos de poeira são empurrados para fora pela pressão da luz estelar".

A equipa também vai usar o instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Telescópio Espacial James Webb da NASA para observar cs2. O NIRCam do Webb tem a capacidade de fornecer informação de cor que pode revelar o tamanho dos grãos de poeira da nuvem e a sua composição. Pode até determinar se a nuvem contém água gelada.

O Hubble e o Webb são os únicos observatórios capazes de obter este tipo de imagens. Enquanto o Hubble vê principalmente em comprimentos de onda visíveis, o Webb pode ver cs2 no infravermelho. Estes comprimentos de onda diferentes e complementares são necessários para fornecer uma ampla investigação multiespetral e uma imagem mais completa do misterioso sistema Fomalhaut e da sua rápida evolução.

Esta investigação foi publicada na edição de 18 de dezembro da revista Science.

// NASA (comunicado de imprensa)
// ESA/Hubble (comunicado de imprensa)
// ESA (comunicado de imprensa)
// Universidade da Califórnia em Berkeley (comunicado de imprensa)
// Universidade da Califórnia em Santa Barbara (comunicado de imprensa)
// Instituto Max Planck (comunicado de imprensa)
// Universidade Northwestern (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Science)
// Artigo científico (PDF)
// Hubble captura a destruição de mundos (NASA Goddard via YouTube)

 


Quer saber mais?

Fomalhaut:
Wikipedia

Disco de detritos:
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais
Arquivo de Ciências do eHST
Wikipedia

 
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Proba-3 preenche a lacuna na observação solar
 
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A animação em time-lapse capta uma EMC no canto superior direito, combinando observações feitas durante uma hora e meia no dia 16 de julho por três instrumentos europeus diferentes a bordo de missões diferentes: o disco do Sol e a coroa inferior (colorida artificialmente a amarelo), captados pelo telescópio ultravioleta extremo SWAP a bordo da Proba-2; a coroa exterior (a vermelho) observada pelo coronógrafo LASCO C2 a bordo da SOHO; e a coroa interior (a verde), captada em pormenor pelo coronógrafo ASPIICS do Proba-3, que preenche a lacuna.
Crédito: ESA/NASA/Proba-2/Proba-3/SOHO/SWAP/ASPIICS/LASCO C2
 

Tem sido um ano em cheio para a missão Proba-3 da ESA. A dupla de satélites já criou mais de 50 eclipses solares artificiais em órbita desde o início das operações da missão, há menos de um ano. Os dados resultantes confirmam a capacidade da Proba-3 para fornecer a peça do puzzle que faltava nas observações da enigmática atmosfera do Sol - a coroa solar.

Desde o seu lançamento, em dezembro de 2024, a dupla de satélites Proba-3 conquistou não uma, mas duas estreias absolutas - o primeiro voo em formação precisa, preparando a missão para o primeiro eclipse solar artificial em órbita.

As centenas de horas de observações que se seguiram não deixam dúvidas de que a Proba-3 fornece os dados em falta necessários para colmatar a atual lacuna de observação, fornecendo informações sobre as regiões interiores da coroa solar.

De olhos postos na coroa interior

Até agora, os instrumentos espaciais só eram capazes de obter imagens fiáveis do disco solar e da região exterior da coroa, e a coroa completa só podia ser observada da Terra durante os curtos períodos de eclipses totais. Embora não sejam totalmente impossíveis de efetuar, quaisquer observações da região coronal interna têm sido pouco frequentes ou inconsistentes, deixando-nos com uma lacuna na observação.

"Graças a um conjunto de tecnologias de posicionamento a bordo que permitem à dupla Proba-3 criar um eclipse solar em órbita, a missão está a cumprir a sua promessa de preencher esta lacuna", explica Damien Galano, gestor da missão Proba-3.

Nesta região largamente inexplorada da coroa solar, o vento solar ganha velocidade antes de se espalhar pelo Sistema Solar, acabando por atingir a nave espacial e a Terra. É também aqui que tem origem a maior parte das ejeções de massa coronal (EMCs). Ao captar imagens pormenorizadas, a Proba-3 está a permitir que os cientistas avancem na compreensão da forma como o vento solar acelera e como as EMCs são desencadeadas.

A animação em time-lapse capta uma EMC no canto superior direito, combinando observações feitas durante uma hora e meia no dia 16 de julho por três instrumentos europeus diferentes a bordo de missões diferentes: o disco do Sol e a coroa inferior (colorida artificialmente a amarelo), captados pelo telescópio ultravioleta extremo SWAP a bordo da Proba-2; a coroa exterior (a vermelho) observada pelo coronógrafo LASCO C2 a bordo da SOHO; e a coroa interior (a verde), captada em pormenor pelo coronógrafo ASPIICS do Proba-3, que preenche a lacuna.

Andrei Zhukov do Observatório Real da Bélgica, investigador principal do coronógrafo ASPIICS a bordo da Proba-3, comenta: "É possível ver a formação da EMC na orla do disco solar, [disco solar este] captado pela Proba-2. Estende-se até à região coronal interna, que é agora visível graças à Proba-3, antes de atingir a coroa alta observada pela SOHO. A continuidade com que podemos agora observar a estrutura da EMC a estender-se para fora do Sol é incrível".

Eclipse solar total "on-demand"

 
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A coroa interna do Sol aparece esverdeada nesta imagem obtida no dia 23 de maio de 2025 pelo coronógrafo ASPIICS a bordo da Proba-3, a missão de voo em formação da ESA capaz de criar eclipses solares totais artificiais em órbita. Esta imagem, captada no espetro da luz visível, mostra a coroa solar de forma semelhante à que um olho humano veria durante um eclipse através de um filtro verde. As estruturas semelhantes a cabelos foram reveladas utilizando um algoritmo especializado de processamento de imagem.
Crédito: ESA/Proba-3/ASPIICS/algoritmo WOW
 

"As nossas imagens de eclipse artificial são comparáveis às obtidas durante um eclipse natural", acrescenta Andrei. "A diferença é que podemos criar o nosso eclipse uma vez em cada órbita, que demora 19 horas e 40 minutos, enquanto os eclipses solares totais só ocorrem naturalmente cerca de uma vez, muito raramente duas vezes por ano. Para além disso, os eclipses totais naturais duram apenas alguns minutos, enquanto a Proba-3 pode manter o seu eclipse artificial até 6 horas".

Joe Zender, cientista do projeto Proba-3, acrescenta: "Até agora, o tempo de observação da missão ascendeu a cerca de 250 horas em 50 órbitas. Isto significa que só estes últimos meses fornecem a mesma quantidade de dados que poderíamos obter em 6000 campanhas de eclipses totais na Terra".

Um ano de Proba-3

Há um ano, a 5 de dezembro de 2024, as duas naves Proba-3 foram lançadas para órbita, onde foram cuidadosamente separadas seis semanas mais tarde. Em março deste ano, a dupla de satélites realizou o seu primeiro voo de formação autónoma.

Apenas um mês depois, a missão atingiu o seu ambicioso objetivo - pela primeira vez, duas naves espaciais em órbita alinharam-se em formação com uma precisão milimétrica e mantiveram a sua posição relativa durante várias horas sem qualquer controlo a partir do solo.

// ESA (comunicado de imprensa)
// Proba-3 preenche a lacuna na observação solar (ESA Extras via YouTube)
// O primeiro eclipse solar artificial no espaço (ESA via YouTube)

 


Quer saber mais?

Proba-3 (Project for On-Board Autonomy 3):
ESA
ESA – 2
Kit para os media (PDF)
Wikipedia

Sol:
Wikipedia
Coroa solar (Wikipedia)
Ejeção de massa coronal (Wikipedia)

 
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Webb observa um planeta cuja composição desafia todas as explicações
 
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Esta ilustração mostra o aspeto que o exoplaneta PSR J2322-2650b (à esquerda) poderá ter à medida que orbita uma estrela de neutrões que gira rapidamente, chamada pulsar (à direita). As forças gravitacionais do pulsar, muito mais massivo, estão a puxar o mundo de massa semelhante à de Júpiter para uma bizarra forma de limão.
Crédito: NASA, ESA, CSA, Ralf Crawford (STScI)
 

Cientistas, utilizando o Telescópio Espacial James Webb da NASA, observaram um tipo raro de exoplaneta, ou planeta para lá do nosso Sistema Solar, cuja composição atmosférica desafia a nossa compreensão de como foi formado.

Oficialmente designado PSR J2322-2650b, este objeto de massa semelhante à de Júpiter parece ter uma atmosfera exótica, dominada por hélio e carbono, diferente de qualquer outra já observada. É provável que flutuem no ar nuvens de fuligem e, nas profundezas do planeta, estas nuvens de carbono possam condensar-se e formar diamantes. O modo como o planeta surgiu é um mistério. O artigo científico foi publicado a semana passada na revista The Astrophysical Journal Letters.

"Isto foi uma surpresa absoluta", disse o coautor do estudo, Peter Gao, do EPL (Earth and Planets Laboratory) de Carnegie, em Washington. "Lembro-me que depois de recebermos os dados, a nossa reação coletiva foi 'Que raio é isto?' É extremamente diferente do que esperávamos".

Este objeto de massa planetária já era conhecido por orbitar um pulsar, uma estrela de neutrões que gira rapidamente. Um pulsar emite feixes de radiação eletromagnética a intervalos regulares que variam tipicamente entre milissegundos e segundos. Estes feixes pulsantes só podem ser vistos quando estão a apontar diretamente para a Terra, tal como os feixes de um farol.

Pensa-se que este pulsar de milissegundo esteja a emitir sobretudo raios gama e outras partículas altamente energéticas, que são invisíveis à visão infravermelha do Webb. Sem uma estrela brilhante no caminho, os cientistas podem estudar o planeta em pormenor ao longo de toda a sua órbita.

"Este sistema é único porque conseguimos ver o planeta iluminado pela sua estrela hospedeira, mas sem ver a estrela hospedeira de todo", disse Maya Beleznay, aluna de doutoramento na Universidade de Stanford, na Califórnia, que trabalhou na modelação da forma do planeta e na geometria da sua órbita. "Assim, obtemos um espetro realmente puro. E podemos estudar este sistema com mais pormenor do que os exoplanetas normais".

"O planeta orbita uma estrela que é completamente bizarra - com a massa do Sol, mas do tamanho de uma cidade", disse Michael Zhang da Universidade de Chicago, o investigador principal deste estudo. "Este é um novo tipo de atmosfera planetária que nunca ninguém viu antes. Em vez de encontrarmos as moléculas normais que esperamos ver num exoplaneta - como água, metano e dióxido de carbono - vimos carbono molecular, especificamente C3 e C2".

O carbono molecular é muito invulgar porque, a estas temperaturas, se houver outros tipos de átomos na atmosfera, o carbono ligar-se-á a eles (as temperaturas no planeta variam entre os 650º C, nos pontos mais frios do lado noturno, e os 2040º C nos pontos mais quentes do lado diurno). O carbono molecular só é dominante se quase não houver oxigénio ou azoto. Dos cerca de 150 planetas que os astrónomos estudaram dentro e fora do Sistema Solar, nenhum outro tem carbono molecular detetável.

PSR J2322-2650b está extraordinariamente perto da sua estrela, a apenas 1,6 milhões de quilómetros de distância. Em contraste, a distância da Terra ao Sol é de cerca de 150 milhões de quilómetros. Devido à sua órbita extremamente íntima, o ano inteiro do exoplaneta - o tempo que demora a dar a volta à sua estrela - é de apenas 7,8 horas. As forças gravitacionais do pulsar, muito mais massivo, estão a puxar o planeta de massa semelhante à de Júpiter para uma bizarra forma de limão.

 
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Esta impressão artística mostra o possível aspeto do exoplaneta PSR J2322-2650b. As forças gravitacionais do pulsar muito mais massivo que orbita estão a puxar o mundo de massa semelhante à de Júpiter para esta bizarra forma de limão.
Crédito: NASA, ESA, CSA, Ralf Crawford (STScI)
 

Em conjunto, a estrela e o exoplaneta podem ser considerados um sistema "viúva negra", embora não seja um exemplo típico. Os sistemas viúva negra são um tipo raro de sistema duplo em que um pulsar de rotação rápida está emparelhado com uma companheira estelar pequena e de baixa massa. No passado, o material da companheira foi projetado para o pulsar, fazendo com que este girasse mais depressa ao longo do tempo, o que originou um forte vento. Esse vento e a radiação bombardeiam e evaporam a companheira mais pequena e menos massiva. Tal como a aranha que lhe dá o nome, o pulsar consome lentamente a sua infeliz companheira.

Mas, neste caso, a companheira é oficialmente considerada um exoplaneta e não uma estrela. A UAI (União Astronómica Internacional) define um exoplaneta como um corpo celeste com menos de 13 massas de Júpiter que orbita uma estrela, uma anã castanha ou um remanescente estelar, como um pulsar.

Dos 6000 exoplanetas conhecidos, este é o único que faz lembrar um gigante gasoso (com massa, raio e temperatura semelhantes aos de um Júpiter quente) a orbitar um pulsar. Só se sabe de uma mão-cheia de pulsares que têm planetas.

"Esta coisa formou-se como um planeta normal? Não, porque a composição é completamente diferente", disse Zhang. "Será que se formou ao despir o exterior de uma estrela, como se formam os sistemas 'normais' de viúvas negras? Provavelmente não, porque a física nuclear não produz carbono puro. É muito difícil imaginar como se obtém esta composição extremamente rica em carbono. Parece excluir todos os mecanismos de formação conhecidos".

O coautor do estudo, Roger Romani, da Universidade de Stanford e do KIPAC (Kavli Institute for Particle Astrophysics and Cosmology), propõe um fenómeno interessante que poderia ocorrer na atmosfera única. "À medida que a companheira arrefece, a mistura de carbono e oxigénio no seu interior começa a cristalizar", disse Romani. "Os cristais de carbono puro flutuam para o topo e misturam-se com o hélio, e é isso que vemos. Mas depois algo tem de acontecer para manter o oxigénio e o azoto afastados. E é aí que entra o mistério.

"Mas é bom não saber tudo", disse Romani. "Estou ansioso por aprender mais sobre a peculiaridade desta atmosfera. É fantástico ter um puzzle para tentar resolver".

Com a sua visão infravermelha e sensibilidade requintada, esta é uma descoberta que só o telescópio Webb poderia fazer. O seu posicionamento a um milhão e meio de quilómetros da Terra e o seu enorme escudo solar mantêm os instrumentos muito frios, o que é necessário para estas observações. Não é possível efetuar este estudo a partir do solo.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)
// Exoplaneta PSR J2322-2650b em órbita de um pulsar (JWST via YouTube)

 


Quer saber mais?

PSR J2322-2650b:
NASA
ipac
Exoplanet.eu
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de exoplanetas mais próximos (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Lista de exoplanetas candidatos a albergar água líquida (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Exoplanet.eu

Estrelas de neutrões:
Wikipedia
Universidade de Maryland

Pulsares:
Wikipedia

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
STScI (website para o público)
ESA
ESA/Webb
Wikipedia
Facebook
X/Twitter
Instagram
Blog do JWST (NASA)
NIRISS (NASA)
NIRCam (NASA)
MIRI (NASA)
NIRSpec (NASA)

 
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Álbum de fotografias
As Longas Sombras dos Montes Cáucaso

exemplo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Guy Bardon
 
Quando a Lua está na fase de primeiro quarto, o Sol nasce ao longo dos Montes Caucasus, visto da superfície lunar. A cordilheira lunar projeta as magníficas sombras em forma de pináculo nesta vista telescópica a partir do planeta Terra, olhando ao longo do terminador lunar ou da fronteira entre a noite e o dia lunares. Com o nome das Montanhas do Cáucaso da Terra, os escarpados picos lunares dos Montes Caucasus, com até 6 quilómetros de altura, estão situados entre o plano Mare Imbrium a oeste e o Mare Serenitatis a leste. Na sua maior parte, ainda à sombra nesta paisagem lunar do primeiro quarto, as crateras de impacto à esquerda (oeste) refletem a luz do Sol nascente ao longo das suas paredes exteriores e orientais.
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