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BOLETIM ASTRONÓMICO - EDIÇÃO N.º 350
19 de Setembro de 2007
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NUVENS DE MAGALHÃES, "NOVAS" VISITANTES?

De acordo com um novo estudo, ao invés dos vizinhos de longa data que se pensava serem, as duas companheiras mais conhecidas da Via Láctea são imigrantes recentes. A Pequena e Grande Nuvem de Magalhães são um par de galáxias anãs próximas que se pensava orbitarem a nossa Galáxia há já milhares de milhões de anos. Mas essa imagem foi alterada em Janeiro de 2007 quando uma equipa de astrónomos anunciou novas medições do movimento galáctico do par feitas pelo Telescópio Espacial Hubble.

Localizada a cerca de 160.000 anos-luz da Terra, a Grande Nuvem de Magalhães (GNM) tem apenas 1/12 do diâmetro da nossa Galáxia e contém um décimo das estrelas da Via Láctea. A Pequena Nuvem de Magalhães (PNM) situa-se a 200.000 anos-luz da Terra e é cerca de 100 vezes mais pequena que a Via Láctea.

Essas observações sugeriram que as duas galáxias estão a mover-se demasiado depressa para serem satélites de longa data da Via Láctea e, pelo contrário, estão a aproximar-se da nossa vizinhança galáctica pela primeira vez. Este cenário, no entanto, aumentou o cepticismo de alguns astrónomos, porque parece deixar muito pouco tempo para produzir uma longa corrente de hidrogénio gasoso visto como uma espécie de cauda das duas galáxias, resultado de interacções com a nossa Galáxia.

Agora, novos cálculos, usando um modelo actualizado da gravidade da Via Láctea, reforçam a conclusão que as Nuvens de Magalhães são visitantes recentes. O estudo foi liderado por Gurtina Besla do Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica em Cambridge, Massachusetts, EUA.


A Grande Nuvem de Magalhães.
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Robert Gendler e Josh Hambsch

Os cientistas usaram um modelo actualizado da distribuição de matéria escura na Via Láctea - a misteriosa substância que corresponde à maioria da massa no Universo. Estudos anteriores assumiram que a nuvem de matéria escura em torno da Via Láctea tinha permanecido relativamente densa a grandes distâncias do Centro Galáctico. A grande quantidade de matéria escura fez com que a Via Láctea se agarrasse mais facilmente a objectos na sua vizinhança.

Mas estudos de outras galáxias sugerem que as nuvens de matéria escura não são na realidade assim tão densas a grandes distâncias. A equipa de Besla fez novos cálculos para as Nuvens de Magalhães, assumindo que o mesmo era verdadeiro para a Via Láctea.

Combinando medições de velocidade adquiridas recentemente pelo Hubble, o novo modelo providencia o quadro alguma vez mais detalhado da relação entre as duas galáxias e a Via Láctea. Isto providencia novas provas que as galáxias não estão gravitacionalmente ligadas à nossa e devem, sim, ser pela primeira vez visitantes, entrando na nossa vizinhança galáctica entre mil milhões e 3 mil milhões de anos atrás.

Mesmo antes do novo estudo e do anterior publicado em Janeiro de 2007, medições prévias determinaram as suas velocidades: perto da necessária para escapar à gravidade da Via Láctea, sugerindo que estavam viajando em órbitas muito elongadas em vez de outras mais circulares e estáveis, previamente assumidas.

"Muitas pessoas não querem acreditar nos nossos dados [do Hubble]," disse Besla. "Quero salientar que existem aqui alguns resultados que não têm nada a ver com os novos dados." Mas Martin Weinberg da Universidade de Massachusetts em Amherst, EUA, diz que é demasiado cedo para dizer com certeza há já quanto tempo as Nuvens de Magalhães andam aqui por perto. "As provas, de um ou outro modo, acho, não são seguras," afirma.


A Pequena Nuvem de Magalhães. O redondo à direita é 47 Tucano, o melhor enxame globular do céu.
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Anglo-Australian Observatory/Royal Observatory, David Malin

Se o novo estudo estiver correcto, é difícil de conciliar com a largura da corrente de hidrogénio que persegue as galáxias, diz. As Nuvens de Magalhães estão perdendo esta corrente como resultado de puxos gravitacionais da Via Láctea e de colisões com as suas nuvens de gás.

Mas estes efeitos devem só acontecer perto da Via Láctea e, se as galáxias nos visitam pela primeira vez, não teriam tido muito tempo para produzir as correntes. "Não é claro se a corrente cobriria uma área tão angularmente grande," diz Weinberg. Besla concorda que as correntes apresentam dificuldades, mas diz que podem ser produzidas a distâncias maiores da Via Láctea se eventos violentos como supernovas empurrarem o gás para fora das Nuvens de Magalhães.

Observações futuras pelo Hubble deverão ajudar a confirmar se as maiores velocidades estão correctas, diz.

Para onde irão então as galáxias no futuro? A velocidade e trajectória da Pequena Nuvem de Magalhães são demasiado incertas para saber, diz Besla. Mas ela afirma que a fricção irá provavelmente diminuir tanto a velocidade da Grande Nuvem de Magalhães que será capturada para uma órbita em torno da Via Láctea. "[A PNM] Provavelmente voltará novamente, mas será numa órbita realmente excêntrica, por isso é provável que não volte durante muito, muito tempo," conclui.

Links:

Notícias relacionadas:
CfA de Harvard-Smithsonian (comunicado de imprensa)
Artigo científico (formato PDF)
SPACE.com
Universe Today
International Reporter
Top News

Wikipedia:
Pequena Nuvem de Magalhães
Grande Nuvem de Magalhães

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA
STScI
Wikipedia

 
 

MISTÉRIOS DA LUA AINDA POR RESOLVER


O nosso único satélite natural, a Lua é um corpo rochoso com imensas crateras e "mares", partes mais escuras e planas, compostas de basalto.
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Stefan Seip

A Lua -- na mitologia ligada a deusas da bruxaria e da caça, a deuses da magia e da sabedoria -- é quase tão velha quanto a própria Terra, e ela também tem os seus próprios enigmas. Embora esteja perto do nosso planeta, estamos ainda longe de resolver todos os seus mistérios -- desde a sua formação, até se a vida na Terra tem aí o seu passado e futuro.

Como nasceu a Lua?

A maioria dos cientistas pensa que a Lua nasceu a partir de uma gigantesca colisão -- quando a jovem Terra (na altura, com apenas 30 milhões de anos) foi abalroada por um planeta embriónico do tamanho de Marte há coisa de 4.5 mil milhões de anos, no qual os detritos do nosso planeta e do objecto impactante eventualmente coalesceram numa lua quente e derretida.

Curiosamente, embora os modelos computacionais mais recentes sugiram que a grande maioria da Lua veio deste objecto planetário, as amostras lunares das Apollo e outras missões sugerem que a Lua é quimicamente muito semelhante ao manto da Terra.

"Talvez isso queira dizer que o impactante, este planeta embriónico, era parecido com a Terra, feito com os mesmos materiais que o nosso planeta," disse Bernard Foing, cientista principal do projecto SMART-1, um satélite da ESA que orbitou a Lua entre 2004 e 2006. A sonda japonesa Kaguya, lançada a 13 de Setembro, e a indiana Chandrayaan-1, com lançamento previsto para 2008, deverão enviar mais detalhes acerca da composição da Lua, evolução e finalmente sobre a sua misteriosa origem.

Água na Lua?

O implacável bombardeamento da Lua por cometas e asteróides ricos em água ao longo de milhares de milhões de anos pode ter deixado para trás água na superfície lunar, possivelmente escondida em sombras permanentes, dentro de crateras nos pólos da Lua.

Em 1999, a sonda Lunar Prospector descobriu altos e invulgares níveis de hidrogénio. Isto pode ter a ver com água -- que é, no fim de contas, feita de hidrogénio e oxigénio -- "embora o hidrogénio no vento solar possa também ter sido apanhado nos pólos," disse Foing.

Embora telescópios terrestres sugiram que o gelo possa não existir em espessos depósitos nas crateras lunares polares, o gelo poderá ainda existir em grãos misturado com a poeira. A missão da NASA, Lunar Reconnaissance Orbiter, com lançamento previsto para 2008, transportará a bordo duas sondas que irão embater na lua para procurar água gelada no pólo Sul.

O Cataclismo Lunar

A Lua foi abalada por uma cadeia de devastadores impactos cósmicos, conhecidos como Cataclismo Lunar ou Último Grande Bombardeamento há cerca de entre 4.2 e 3.8 mil milhões de anos atrás, que criou aproximadamente 50 bacias gigantes, visíveis na superfície lunar. Os astrónomos suspeitam que ocorreu quando as órbitas de Júpiter e Saturno se deslocaram, cujos puxos gravitacionais por sua vez trouxeram mais asteróides e cometas.

Todos os planetas interiores provavelmente foram também atingidos durante esta época -- Foing estimou que a Terra sofreu 25 a 30 vezes mais impactos que a Lua. Os cientistas não têm a certeza quando o Último Grande Bombardeamento ocorreu e quanto tempo durou, mas aparentemente teve lugar praticamente à mesma altura que a vida surgia na Terra.

Descobrir quando de facto estes impactos ocorreram poderá ajudar a descobrir se apagaram a vida primitiva que começava a desenvolver-se na Terra -- ou se plantaram os ingredientes químicos que ajudaram ao aparecimento da vida. "Será necessário ir ao máximo número de bacias de impacto possível para medir amostras de modo a descobrir quando foram criadas," disse Foing.

Pistas da origem da vida na Lua?

Milhões de toneladas de rocha libertadas pela Terra devido a impactos cósmicos durante os primeiros tempos do planeta poderão ter aterrado na Lua, pedras essas que poderão conter segredos sobre as origens da vida -- incluindo a remota possibilidade de fósseis microbiais.

"Por cada quilómetro quadrado da Lua, poderão ter caído 200 kg de rocha da Terra primitiva," disse Foing. "Estas rochas podem ser um objectivo científico muito interessante para expedições robóticas e humanas."

O futuro da Lua?

No que respeita ao futuro da vida, "seremos capazes de trazer a vida da Terra para a Lua? Poderemos expandir a vida para lá do berço da Terra? É uma questão ainda sem resposta," afirma Foing.

A Lua alberga recursos intrigantes nos seus materiais, incluindo metais e oxigénio, "mas não contém muito carbono. Se quisermos lá fazer crescer plantas, precisaremos de enriquecer o solo, transportar carbono, nitrogénio e fósforo."

Os colonizadores lunares poderão usar a água disponível na Lua para sobreviver, mas essa água poderá conter milhares de milhões de anos de segredos respeitantes a cometas que colidiram com a Lua, "por isso preferiria estudá-la a bebê-la", diz. "Podemos usar o hidrogénio e oxigénio da Lua para artificialmente produzir água."

Links:

Lua:
Núcleo de Astronomia do Centro Ciência Viva do Algarve
Wikipedia

 
  ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
       
  Foto  
Dentro da Cratera Victória em Marte - Crédito: Mars Exploration Rover Mission, Cornell, JPL, NASA
O rover Opportunity da NASA está agora dentro da Cratera Victória em Marte. A semana passada viajou cerca de 20 metros para dentro da maior cratera que qualquer rover marciano já encontrou, a cratera que a Opportunity já estuda há meses. Actualmente, o explorador situa-se na alcova Baía dos Patos, olhando para a parede interna da cratera com o nome de Cabo de S. Vicente. A imagem de campo largo do lado foi tirada pela câmara frontal da Opportunity. Ao longo das próximas semanas, a Opportunity irá explorar estas características extraterrestres, em busca de pistas do antepassado de Marte antes do grande impacto que criou a Cratera Victória.
Ver imagem em alta-resolução
 
  EFEMÉRIDES:  
 

Dia 19/09: 262º dia do  calendário gregoriano.
História: Em 1848, A lua de Saturno, Hyperion, é descoberta por William Cranch Bond.
Em 1988, Israel lança o seu primeiro satélite.
Observações: Lua em Quarto Crescente (por volta das 16:49).

Dia 20/09: 263º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1999, o Telescópio Espacial de Raios-X Chandra, lançado a 23 de Julho de 1999, revela características ainda não observadas nos restos de três explosões de supernovas.
Observações: A estrela mais brilhante do céu a Sul por estas noites é Altaír. Tente encontrar a sua estrela companheira Tarazed a uma distância aparente de mais ou menos um dedo para cima e para a direita. Têm magnitudes 0.8 e 2.7, respectivamente.

Dia 21/09: 264º dia do  calendário gregoriano.
História: Em 1974, a Mariner 10 faz o seu segundo voo rasante por Mercúrio.
Observações: Um sinal anual dos tempos: Com o Verão a dar lugar ao Outono, Vega dá o seu lugar a Deneb como a estrela brilhante mais perto do zénite ao anoitecer.

 
 
  CURIOSIDADES:  
 
Existem mais de 170,000 kg de objectos artificais na Lua, restos de missões e sondas. Consulte aqui a lista.
 
 
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Tem alguma dúvida sobre Astronomia no geral que gostaria de ver esclarecida? Pergunte-nos! Tentaremos responder à sua questão da melhor maneira possível.
 
 
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