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A erupção de uma estrela de neutrões revela a natureza de fenómenos apenas observados em buracos negros
7 de março de 2023
 

Impressão de artista da erupção da estrela de neutrões Swift J1858 em comparação com o buraco negro GRS 1915+105.
Crédito: Gabriel Pérez Díaz (IAC)
 
     
 
 
 

Uma equipa internacional liderada pelo IAC (Instituto de Astrofísica das Canárias) encontrou uma estrela de neutrões que captura matéria de uma estrela companheira através de um processo violento e instável. Este mecanismo, anteriormente observado apenas em buracos negros muito brilhantes, mostra que a chamada "instabilidade de acreção" é na realidade um processo físico fundamental. Além disso, esta descoberta abre um novo cenário geral que explica a extrema acreção de matéria em objetos compactos. O estudo foi publicado na revista Nature.

Os binários de raios-X são sistemas formados por um objeto compacto, uma estrela de neutrões ou um buraco negro, e uma estrela de tamanho semelhante ao Sol. O objeto compacto engole matéria da estrela companheira através de um disco que emite grandes quantidades de luz, especialmente em raios-X. Este processo em que o objeto compacto atrai matéria, conhecido como acreção, ocorre normalmente em erupções violentas durante as quais o sistema se torna até mil vezes mais brilhante. Além disso, parte do material removido que espirala em direção ao objeto compacto no disco é ejetado de volta para o espaço através de ventos ou sob a forma de jatos de matéria.

O binário de raios-X conhecido como Swift J1858.6-0814 foi descoberto em 2018 durante um destes espetaculares episódios eruptivos, intrigando a comunidade astronómica desde as primeiras observações. O sistema mostrou surtos incríveis durante um ano, emitindo em todos os comprimentos de onda desde o rádio até aos raios-X. A origem destes "fogos-de-artifício cósmicos" permanecia desconhecida, mas eram tão brilhantes que a comunidade científica pensava que o objeto compacto devia ser um buraco negro. No entanto, a descoberta de explosões termonucleares em 2020 identificou a presença de uma superfície sólida no objeto compacto, confirmando assim que Swift J1858.6-0814 contém uma estrela de neutrões.

Graças a uma campanha internacional de vários telescópios liderada pelo IAC, a equipa descobriu que Swift J1858 exibe as mesmas instabilidades exóticas e acrecionárias que GRS 1915+105, um buraco negro que serviu de pedra de Roseta para decifrar o complexo comportamento desta estrela de neutrões. "Estas instabilidades ocorrem a luminosidades muito altas, dando origem a oscilações de grande amplitude do disco de acreção e a fortes ejeções de matéria", explica Federico Vincentelli, investigador do IAC e primeiro autor do artigo. "Este processo dramático permanece mal compreendido e, até agora, só foi observado em pormenor num sistema em que o objeto compacto é um buraco negro", acrescenta.

Ao comparar os dois sistemas, a equipa científica pôde verificar aspetos nunca antes observados. "Percebemos que podíamos explicar a complexa fenomenologia de ambos os objetos com três ingredientes: um disco de acreção instável, que produz emissões de raios-X extremamente variáveis à medida que as partes internas do disco esvaziam-se e enchem-se ciclicamente; ejeções repetidas de matéria (produzidas após o esvaziamento do disco), que podem ser vistas no rádio e no infravermelho; e ecos brilhantes destas variações internas nas áreas mais exteriores do disco, que podem observados desde o infravermelho até ao ultravioleta", diz Vincentelli.

"Este estudo demonstra que tal 'instabilidade' é um processo físico fundamental e independente da natureza do objeto compacto. Este trabalho apresenta um novo cenário que nos permite explicar o que acontece na proximidade destes objetos exóticos (estrelas de neutrões e buracos negros) quando acretam matéria a taxas muito elevadas", realça Montserrat Armas Padilla, investigadora do IAC e coautora do artigo científico.

Este resultado foi obtido graças a uma intensa e simultânea campanha de observação em vários comprimentos de onda e com cinco telescópios espaciais e terrestres. Entre estes, encontra-se também o Telescópio Liverpool no Observatório Roque de los Muchachos, em La Palma.

Com vista à investigação futura, a recente descoberta fornece à comunidade científica novos ingredientes para compreender a origem das instabilidades acrecionárias. "Tencionamos agora alargar este tipo de estudo a outros sistemas muito luminosos para perceber mais sobre buracos negros e estrelas de neutrões quando incorporam matéria a velocidades extremas", conclui Vincentelli.

 

// IAC (comunicado de imprensa)
// Universidade de Oxford (comunicado de imprensa)
// Universidade de Tecnologia do Texas (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Binário de raios-X:
Wikipedia

Estrelas de neutrões:
Wikipedia
Universidade de Maryland

Observatório Roque de los Muchachos:
Página oficial
Wikipedia

 
   
 
 
 
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