Durante décadas, os autores de ficção científica imaginaram cenários em que a vida prospera nas superfícies agrestes de Marte ou da nossa Lua, ou nos oceanos sob as superfícies geladas da lua de Saturno, Encélado, e da lua de Júpiter, Europa. Mas o estudo da habitabilidade - as condições necessárias para suportar e sustentar a vida - não está confinado apenas às páginas da ficção. À medida que mais corpos planetários no nosso Sistema Solar e para lá dele são estudados quanto ao seu potencial para albergar condições favoráveis à vida, os investigadores debatem a forma de caracterizar a habitabilidade.
Embora muitos estudos se tenham centrado na informação obtida por naves espaciais em órbita ou por telescópios que fornecem instantâneos de mundos oceânicos e exoplanetas, um novo artigo científico sublinha a importância de investigar factores geofísicos complexos que podem ser usados para prever a manutenção da vida a longo prazo. Estes factores incluem a forma como a energia e os nutrientes circulam pelo planeta.
"O tempo é um fator crucial na caracterização da habitabilidade", diz Mark Simons, professor de Geofísica no Caltech (California Institute of Technology). "É preciso tempo para que a evolução aconteça. Ser habitável durante um milissegundo ou um ano não é suficiente. Mas se as condições de habitabilidade forem mantidas durante um milhão de anos, ou mil milhões...? Compreender a habitabilidade de um planeta requer uma perspetiva subtil que exige que os astrobiólogos e os geofísicos falem uns com os outros".
Publicado na revista Nature Astronomy a 29 de dezembro, o artigo é uma colaboração entre cientistas do Caltech e do JPL, que o Caltech gere para a NASA, juntamente com colegas que representam uma variedade de domínios.
O estudo salienta novas direções para futuras missões destinadas a medir a habitabilidade noutros mundos, utilizando a lua gelada de Saturno, Encélado, como exemplo principal. Encélado está coberta de gelo com um oceano salgado por baixo. Na última década, a missão Cassini da NASA efetuou medições químicas de plumas de vapor de água e de grãos de gelo que saíam de fissuras no polo sul de Encélado, descobrindo a presença de elementos como o carbono e o azoto, que poderiam ser propícios à vida tal como a conhecemos.
Estas propriedades geoquímicas são suficientes para descrever a habitabilidade "instantânea" da lua. No entanto, para verdadeiramente caracterizar a habitabilidade a longo prazo de Encélado, o artigo científico sublinha que as futuras missões planetárias devem estudar as propriedades geofísicas que indicam há quanto tempo o oceano está lá e como o calor e os nutrientes fluem entre o núcleo, o oceano interior e a superfície. Estes processos criam importantes assinaturas geofísicas que podem ser observadas, uma vez que afetam características como a topografia e a espessura da crosta de gelo de Encélado.
Este quadro mais alargado para o estudo da habitabilidade não se limita ao estudo de Encélado. Aplica-se a todos os planetas e luas onde os investigadores procuram as condições necessárias para a vida.
"O artigo fala da importância de incluir capacidades geofísicas em futuras missões aos mundos oceânicos, como está atualmente a ser planeado para a missão Europa Clipper, que tem como alvo a lua de Júpiter, Europa", diz Steven Vance, cientista do JPL e diretor-adjunto da secção de ciências planetárias do laboratório, bem como coautor do artigo.
// Caltech (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
Quer saber mais?
Encélado:
Solarviews
Wikipedia
Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de exoplanetas mais próximos (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Lista de exoplanetas candidatos a albergar água líquida (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Exoplanet.eu
Habitabilidade planetária:
Wikipedia
Europa Clipper:
NASA
Wikipedia |