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Os cientistas descobriram "oceanos" de água em Marte - apenas está demasiado profunda para ser acedida
16 de agosto de 2024
 

Uma fotografia de Marte durante uma tempestade de poeira, tirada em 2018 pelo Telescópio Espacial Hubble. Há mais de 3 mil milhões de anos, o poeirento Planeta Vermelho tinha oceanos e rios. Essa água desapareceu, deixando apenas gelo à superfície, a maior parte nas calotes polares. Uma nova análise do interior de Marte sugere que grande parte da água líquida ainda existe nos poros das rochas 10-20 quilómetros abaixo da superfície.
Crédito: NASA, ESA, STScI
 
     
 
 
 

Utilizando a atividade sísmica para sondar o interior de Marte, os geofísicos encontraram evidências da existência de um grande reservatório subterrâneo de água líquida - suficiente para encher oceanos à superfície do planeta.

Os dados do módulo de aterragem Insight da NASA permitiram aos cientistas estimar que a quantidade de água subterrânea poderia cobrir todo o planeta a uma profundidade entre 1 e 2 quilómetros.

Embora isso seja uma boa notícia para quem procura saber o destino da água no planeta depois dos oceanos terem desaparecido há mais de 3 mil milhões de anos, o reservatório não será de grande utilidade para quem tentar aproveitá-lo para abastecer uma futura colónia em Marte. Está localizado em pequenas fendas e poros na rocha no meio da crosta marciana, entre 11,5 e 20 quilómetros abaixo da superfície. Mesmo na Terra, perfurar a essa profundidade seria um desafio.

No entanto, esta descoberta aponta outro local promissor para procurar vida em Marte, se for possível aceder ao reservatório. Para já, ajuda a responder a questões sobre a história geológica do planeta.

"Compreender o ciclo da água marciana é fundamental para compreender a evolução do clima, da superfície e do interior", disse Vashan Wright, antigo pós-doutorando da Universidade da Califórnia em Berkeley que é agora professor assistente no Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego. "Um ponto de partida útil é identificar onde a água está e qual a sua quantidade".

Wright, juntamente com os colegas Michael Manga da UC Berkeley e Matthias Morzfeld do Instituto Scripps de Oceanografia, detalhou a sua análise num artigo científico publicado esta semana na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).

 
Um recorte do interior marciano por baixo do módulo de aterragem Insight da NASA. Os primeiros 5 quilómetros da crosta parecem estar secos, mas um novo estudo fornece evidências de uma zona de rocha fracturada 11,5-20 km abaixo da superfície que está cheia de água líquida - mais do que o volume proposto para encher os hipotéticos antigos oceanos marcianos.
Crédito: James Tuttle Keane e Aaron Rodriquez, cortesia do Instituto Scripps de Oceanografia
 

Os cientistas utilizaram um modelo matemático de física das rochas, idêntico aos modelos utilizados na Terra para mapear aquíferos subterrâneos e campos petrolíferos, para concluir que os dados sísmicos do Insight são melhor explicados por uma camada profunda de rocha ígnea fraturada saturada com água líquida. As rochas ígneas são magma quente arrefecido, como o granito.

"A determinação de que existe um grande reservatório de água líquida fornece uma janela sobre como era ou poderia ser o clima", disse Manga, professor de ciências terrestres e planetárias da Universidade de Berkeley. "E a água é necessária para a vida tal como a conhecemos. Não vejo porque é que [o reservatório subterrâneo] não pode ser um ambiente habitável. É certamente verdade na Terra - as minas profundas albergam vida, o fundo do oceano alberga vida. Não encontrámos qualquer evidência de vida em Marte, mas pelo menos identificámos um local que, em princípio, deveria ser capaz de sustentar vida".

Manga foi o orientador de pós-doutoramento de Wright. Morzfeld foi bolseiro de pós-doutoramento no departamento de matemática da Universidade da Califórnia em Berkeley e é agora professor associado de geofísica no Instituto Scripps de Oceanografia.

Manga salientou que muitas evidências - canais fluviais, deltas e depósitos lacustres, bem como rochas alteradas pela água - apoiam a hipótese de que a água já correu à superfície do planeta. Mas esse período húmido terminou há mais de 3 mil milhões de anos, depois de Marte ter perdido a sua atmosfera. Cientistas planetários na Terra enviaram muitas sondas e "landers" ao planeta para descobrir o que aconteceu a essa água - a água congelada nas calotes polares de Marte não é suficiente - bem como quando aconteceu, e se existe ou existiu vida no planeta.

As novas descobertas são uma indicação de que grande parte da água não escapou para o espaço, mas foi filtrada para a crosta.

 
Uma imagem artística do módulo de aterragem InSight em Marte, depois do braço robótico do módulo de aterragem ter colocado um sismómetro (objeto em forma de cúpula à esquerda do módulo de aterragem) e uma sonda de calor diretamente no solo. O módulo de aterragem deixou de registar dados em 2022, mas os cientistas continuam a explorar os dados para obter informações sobre o interior de Marte.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
 

O módulo de aterragem Insight foi enviado pela NASA a Marte em 2018 para investigar a crosta, o manto, o núcleo e a atmosfera, e registou informações valiosas sobre o interior de Marte antes da missão terminar em 2022.

"A missão excedeu em muito as minhas expetativas", afirmou Manga. "Ao olhar para todos os dados sísmicos que o Insight recolheu, foi determinada a espessura da crosta, a profundidade do núcleo, a composição do núcleo e até um pouco sobre a temperatura no interior do manto."

O Insight detetou sismos marcianos até uma magnitude de 5, impactos de meteoros e o "roncar" em áreas vulcânicas, todos eles produzindo ondas sísmicas que permitiram aos geofísicos sondar o interior.

Um artigo científico anterior referia que, acima de uma profundidade de cerca de 5 quilómetros, a crosta superior não continha água gelada, como Manga e outros suspeitavam. Isto pode significar que há pouca água gelada subterrânea acessível fora das regiões polares.

O novo artigo científico analisou a crosta mais profunda e concluiu que os "dados disponíveis são melhor explicados por uma crosta média saturada de água" abaixo da localização do Insight. Assumindo que a crosta é semelhante em todo o planeta, a equipa argumentou que deveria haver mais água nesta zona da crosta média do que os "volumes propostos para encher os hipotéticos antigos oceanos marcianos".

// Universidade da Califórnia em Berkeley (comunicado de imprensa)
// Instituto Scripps de Oceanografia da UC San Diego (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Proceedings of the National Academy of Sciences)

 


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