Detetada a primeira inversão de rotação de um pequeno cometa
31 de março de 2026
Ilustração do cometa 41P, um pequeno cometa da família de Júpiter, à medida que se aproxima do Sol e os gases começam a sublimar e a expelir material para o espaço.
Crédito: NASA, ESA, CSA, Ralf Crawford (STScI)
Recorrendo ao Telescópio Espacial Hubble da NASA, os astrónomos encontraram evidências de que a rotação de um pequeno cometa abrandou e, posteriormente, inverteu o seu sentido de rotação, representando um exemplo dramático de como a atividade volátil pode afetar a rotação e a evolução física de pequenos corpos no Sistema Solar. Esta é a primeira vez que os investigadores observam indícios de um cometa a inverter a sua rotação.
O objeto, o cometa 41P/Tuttle-Giacobini-Kresák, ou 41P para abreviar, provavelmente teve origem na Cintura de Kuiper e foi lançado para a sua trajetória atual pela gravidade de Júpiter, visitando agora o Sistema Solar interior a cada 5,4 anos.
Após a sua passagem próxima do Sol em 2017, os cientistas descobriram que o cometa 41P sofreu um abrandamento dramático na sua rotação. Dados do Observatório Neil Gehrels Swift da NASA, em maio de 2017, mostraram que o objeto girava três vezes mais lentamente do que em março de 2017, quando foi observado pelo LDT (Lowell Discovery Telescope) no Observatório Lowell, no estado norte-americano do Arizona.
Uma nova análise das observações de acompanhamento do Hubble revelou que a rotação deste cometa sofreu uma reviravolta ainda mais invulgar.
Imagens do Hubble de dezembro de 2017 revelaram que o cometa voltou a girar muito mais rapidamente, com um período de aproximadamente 14 horas, em comparação com as 46 a 60 horas medidas pelo Swift. A explicação mais simples, segundo os investigadores, é que o cometa continuou a abrandar até quase parar e foi então forçado a girar na direção quase oposta devido aos jatos gasosos que se libertam da sua superfície.
O artigo científico que detalha esta descoberta foi publicado na semana passada na revista The Astronomical Journal.
Núcleo pequeno e temperamental
O Hubble também determinou o tamanho do núcleo do cometa, medindo-o em cerca de um quilómetro, ou aproximadamente três vezes a altura da Torre Eiffel.
Este tamanho é especialmente pequeno para um cometa, o que facilita a sua rotação ou torção.
À medida que um cometa se aproxima do Sol, o calor faz com que o gelo se sublime, libertando material para o espaço.
"Os jatos de gás que emanam da superfície podem agir como pequenos propulsores", afirmou o autor do artigo, David Jewitt, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Se esses jatos estiverem distribuídos de forma desigual, podem alterar drasticamente a forma como um cometa, especialmente um cometa pequeno, gira".
O cometa girava originalmente numa direção, mas os jatos que empurravam contra esse movimento foram-no abrandando gradualmente. Como os jatos continuaram a empurrar, acabaram por fazer com que o cometa começasse a girar na direção oposta.
"É como empurrar um carrossel de jardim", afirmou Jewitt. "Se estiver a girar numa direção e depois empurrarmos na direção oposta, podemos abrandá-lo e invertê-lo".
Evidências de uma rápida evolução
O estudo também mostra que a atividade geral do cometa diminuiu significativamente desde as suas passagens anteriores. Durante a sua passagem pelo periélio em 2001, o 41P estava invulgarmente ativo para o seu tamanho. Em 2017, a sua produção de gás tinha diminuído em cerca de uma ordem de magnitude.
Esta mudança sugere que a superfície do cometa pode estar a evoluir rapidamente, possivelmente à medida que os materiais voláteis próximos da superfície se esgotam ou são cobertos por camadas isolantes de poeira.
A maioria das alterações na estrutura dos cometas ocorre ao longo de séculos ou períodos ainda mais longos. As rápidas mudanças rotacionais observadas no cometa 41P oferecem uma oportunidade rara de testemunhar processos evolutivos a desenrolarem-se numa escala humana de tempo.
Modelos baseados nos torques medidos e nas taxas de perda de massa sugerem que as mudanças rotacionais contínuas poderão, eventualmente, levar à instabilidade estrutural do cometa 41P. Se um cometa girar demasiado depressa, as forças centrífugas podem superar a sua fraca gravidade e resistência, causando potencialmente a fragmentação ou mesmo a desintegração.
"Espero que este núcleo se autodestrua muito rapidamente", afirmou Jewitt.
No entanto, o cometa 41P provavelmente ocupa a sua órbita atual há cerca de 1500 anos.
Esta representação artística mostra o cometa 41P à medida que se aproxima do Sol e os gases começam a sublimar da superfície do cometa. A animação mostra apenas um jato, mas este cometa pode ter vários fluxos de material a serem ejetados para o espaço. Este jato exerce uma força contrária ao movimento de rotação do cometa, empurrando-o na direção oposta. Também se observam pequenos fragmentos do cometa a serem lançados para o espaço.
Crédito: NASA, ESA, CSA, Ralf Crawford (STScI)
Descoberto no arquivo
O Hubble tem vindo a recolher imagens e dados espetroscópicos de todo o cosmos há mais de 35 anos, e todas essas observações estão disponíveis no Arquivo Mikulski Archive para Telescópios Espaciais, um repositório central de dados de mais de uma dúzia de missões astronómicas, incluindo o Hubble.
Jewitt encontrou estas observações enquanto navegava pelo arquivo e percebeu que ainda não tinham sido analisadas.
Ao tornar os dados científicos acessíveis a todos, observações feitas há anos, ou mesmo décadas, podem ser revisitadas para responder a novas questões científicas. Em muitos casos, os cientistas continuam a fazer descobertas não apenas com novas observações, mas também explorando o arquivo construído ao longo de décadas de exploração espacial.