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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1731  
  09/10 a 12/10/2020  
     
 

09/10/20 - Noites Astronómicas no Sotavento
Sessão astronómica com telescópio. Esta sessão será uma breve despedida de alguns asterismos de verão assim como de planetas que deixarão de ser visíveis à noite até ao próximo verão. Esta noite astronómica em Tavira está inserida na Semana Mundial do Espaço que decorre de 4-10 de outubro. Participe!
Data: 9 de outubro, 21:00
Local: Santa Rita - Vila Nova de Cacela
Coordenadas GPS: 37.179357 N, -7.571818 O
Público-alvo: Público em geral.
Inscrição gratuita mas OBRIGATÓRIA.
O número de participantes é limitado. É necessário o uso de equipamento de proteção individual (Máscara ou viseira) durante o decorrer da atividade.
A realização desta atividade está dependente das condições atmosféricas e está sujeita a um número mínimo e máximo de participantes
Informações e inscrições:
281 326 231; 924 452 528
E-mail: geral@cvtavira.pt

 
     
 
Efemérides

Dia 09/10: 283.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1604 ocorre a supernova 1604, a supernova mais recente observada à vista desarmada na Via Láctea.

Em 1873, nascia Karl Schwarzschild, físico e astrónomo alemão que, entre outras descobertas, determinou o raio de Schwarzschild, o tamanho do horizonte de eventos de um buraco negro
Em 1992, um fragmento de 13 kg do meteorito Peekskill aterra na entrada da garagem da residência Knapp em Peekskill, Nova Iorque, destruindo o Chebrolet Malibu de 1980 da família.
Em 2000, lançamento do HETE-2 (High Energy Transient Explorer), um observatório de raios-gama, a bordo de um foguetão Pegasus.
Em 2008. uma "mensagem da Terra" é enviada até Gliese 581c, um planeta parecido com a Terra a cerca de 30 anos-luz de distância. A Agência Espacial Ucraniana entregou o pacote de 500 mensagens, que se espera que alcance o exoplaneta no início de 2029.
Em 2009, primeiro impacto lunar das naves Centauro e LCROSS, como parte do Programa Robótico Lunar da NASA.
Observações: Ocultação de Io, entre as 21:49 e as 00:11 (já de dia 10).
Eclipse de Io, entre as 23:09 e as 01:30 (já de dia 10).

Dia 10/10: 284.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1731 nascia Henry Cavendish, cientista britânico famoso pela sua descoberta do hidrogénio e pela sua medição da densidade da Terra.
Em 1846, Tritão, a maior lua de Neptuno, é descoberta pelo astrónomo inglês William Lassell.
Em 1960, a sonda soviética Mars 1960A falha a atingir órbita terrestre.
Em 1967 entra em ação o Tratado Espacial, assinado a 27 de janeiro desse ano por mais de sessenta nações.

Observações: Lua em Quarto Minguante, pelas 01:39.
Antes do amanhecer, olhe alto para sudeste e encontre a Lua Minguante. As duas estrelas brilhantes para a sua esquerda e um pouco para cima são Castor e Pollux, de Gémeos.
Trânsito de Io, entre as 19:11 e as 21:30.
Trânsito da sombra de Io, entre as 20:31 e as 22:50.

Dia 11/10: 285.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1758, nascia Heinrich Wilhelm Matthias Olbers, astrónomo e físico alemão, descobridor de Pallas e Vesta.
Em 1958, lançamento da sonda Pioneer 1 (a sonda cai para a Terra e é destruída).
Em 1968, lançamento da Apollo 7, a primeira missão tripulada do programa Apollo.
Em 1984, a astronauta Kathryn D. Sullivan, da missão STS-41G, torna-se na primeira mulher a fazer um passeio espacial.

Em 2000, lançamento da missão STS-92 do vaivém Discovery, a centésima do programa dos vaivéns espaciais.
Em 2018, a Soyuz MS-10, que lançava uma tripulação para a ISS, sofre problemas durante a ida. A tripulação aterra em segurança.
Observações: Júpiter na sua quadratura este, pelas 14:32.
O Grande Quadrado de Pégaso balança-se num canto bem alto a este ao cair da noite esta semana. Para a data e localização do observador, quando é que está exatamente balançado? Isto é, quando é que o canto superior do Quadrado fica exatamente por cima do canto inferior? Será algures depois do final do lusco-fusco, dependendo da latitude e longitude do observador. Tente alinhar as duas estrelas com a aresta vertical de um edifício.

Dia 12/10: 286.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1964, lançamento do Voskhod 1, a primeira missão com uma tripulação de várias pessoas e o primeiro voo sem fatos espaciais. 

Em 1994, destruição da Magalhães na atmosfera de Vénus
Em 2005, segundo voo espacial da China. O Shenzhou 6 transportou dois astronautas durante cinco dias em órbita.
Observações: Pouco depois do anoitecer, encontrará a estrela de magnitude 0, Arcturo, baixa a oeste-noroeste e à mesma altura que a estrela de magnitude 0, Capella, a nordeste. Quando isto acontece, vire-se para sul-sudeste, e aí estará a estrela de 1.ª magnitude, Fomalhaut, à mesma altura - se estiver a 43º N, isto é. Para sul desta latitude, Fomalhaut estará mais alta; para norte, estará mais baixa. E, independentemente da sua latitude, a sudoeste, nessa altura, encontrará o brilhante planeta Júpiter mais ou menos à mesma altura que Fomalhaut.

 
     
 
Curiosidades


Pela segunda vez em quatro anos, os buracos negros ganharam o Prémio Nobel da Física. Em 2020, o Comité reconhece as contribuições de três investigadores que ajudaram a revolucionar o nosso conhecimento dos buracos negros: o físico Roger Penrose (Universidade de Oxford, Reino Unido), e os astrónomos Reinhard Genzel (Instituto Max Planck para Física Extraterrestre, Alemanha) e Andrea Ghez (Universidade da Califórnia, em Los Angeles).

 
 
   
Estrelas e planetas crescem juntos como irmãos
 
Os anéis e divisões no disco de poeira de IRS 63, em comparação com uma figura das órbitas do nosso próprio Sistema Solar à mesma escala e orientação do disco de IRS 63. As localizações dos anéis são idênticas às posições de objetos no nosso Sistema Solar, com o anel mais interior mais ou menos do tamanho da órbita de Neptuno e o anel exterior um pouco mais largo do que a órbita de Plutão.
Crédito: Instituto Max Planck Física Extraterrestre/D. Segura-Cox
 

Uma equipa internacional de cientistas liderada por Dominique Segura-Cox do Instituto Max Planck para Física Extraterrestre na Alemanha teve como alvo a protoestrela IRS 63 com o radiotelescópio ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array). Este sistema está a 470 anos-luz da Terra e encontra-se nas profundezas da nuvem interestelar L1709, na direção da constelação de Ofiúco. As protoestrelas tão jovens quanto IRS 63 ainda estão envoltas num grande e massivo invólucro de gás e poeira, e a protoestrela e o seu disco alimentam-se deste reservatório de material.

Foram previamente detetados anéis de poeira, em grande número, em sistemas com mais de 1 milhão de anos, depois das protoestrelas terminarem de reunir a maior parte da sua massa. IRS 63 é diferente: com menos de 500.000 anos, tem menos de metade da idade de outras estrelas jovens com anéis de poeira e a protoestrela ainda crescerá significativamente de massa. "Os anéis do disco em torno de IRS 63 são tão jovens," enfatiza Segura-Cox. "Costumávamos pensar que as estrelas entravam primeiro na idade adulta e depois é que eram as mães dos planetas, planetas estes que surgiam mais tarde. Mas agora vemos que as protoestrelas e os planetas crescem e evoluem juntos desde os primeiros tempos, como irmãos."

Os planetas enfrentam alguns obstáculos sérios durante os seus estágios iniciais de formação. Eles precisam de crescer a partir de minúsculas partículas de poeira, mais pequenas que o típico pó das nossas casas aqui na Terra. "Os anéis no disco de IRS 63 são enormes amontoados de poeira, prontos para se combinarem em planetas," observa a coautora Anika Schmiedeke do mesmo instituto. No entanto, mesmo depois da poeira se aglomerar para formar um embrião planetário, o planeta ainda em formação pode desaparecer espiralando para dentro, sendo consumido pela protoestrela central. Se os planetas começarem a formar-se muito cedo e a grandes distâncias da protoestrela, podem melhor sobreviver a este processo.

 
A densa região L1709 na Nuvem Molecular de Ofiúco, mapeada pelo Telescópio Espacial Herschel, que rodeia e alimenta material à muito mais pequena protoestrela IRS 63 e ao seu disco de formação planetária (posição assinalada pela cruz preta).
Crédito: Instituto Max Planck Física Extraterrestre/D. Segura-Cox, dados do Herschel da ESA/Herschel/SPIRE/PACS/D. Arzoumanian
 

A equipa de investigadores descobriu que existem cerca de 0,5 massas de Júpiter de poeira no jovem disco de IRS 63 a mais de 20 UA do seu centro (uma distância idêntica à órbita de Úrano no nosso Sistema Solar). Isto sem contar com a quantidade de gás, que pode totalizar até 100 vezes mais material. São necessárias pelo menos 0,03 massas de Júpiter de material sólido para formar um núcleo planetário que irá acretar gás de forma eficiente e crescer para formar um planeta gigante gasoso. Jaime Pineda, membro da equipa e também do Instituto Max Planck para Física Extraterrestre, acrescenta: "Estes resultados mostram que devemos concentrar-nos nos sistemas mais jovens para entender verdadeiramente a formação planetária". Por exemplo, há cada vez mais evidências de que Júpiter pode realmente ter-se formado muito mais longe no Sistema Solar, para lá da órbita de Neptuno, e depois migrado para dentro até à sua posição atual. Da mesma forma, a poeira em torno de IRS 63 mostra que há material suficiente, longe da protoestrela, e num estágio jovem o suficiente, para que este análogo do Sistema Solar forme planetas do mesmo modo que se suspeita que Júpiter se tenha formado.

"O tamanho do disco é muito semelhante ao do nosso próprio Sistema Solar", explica Segura-Cox. "Até a massa da protoestrela é um pouco menor que a do nosso Sol. O estudo destes discos jovens, formadores de planetas, em torno de protoestrelas, pode dar-nos importantes informações sobre as nossas próprias origens."

// Instituto Max Planck (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)

 


Saiba mais

Nuvem Molecular de Ofiúco:
Wikipedia

Formação estelar:
Wikipedia

Discos protoplanetários:
Wikipedia

ALMA:
Página principal
ALMA (NRAO)
ALMA (ESO)
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
   
Alguns planetas podem ser melhores para a vida do que a Terra
 
Ilustração do primeiro planeta do tamanho da Terra, validado, em órbita de uma estrela distante e na zona habitável, identificado pelo Telescópio Espacial Kepler da NASA. Os investigadores propõem que os telescópios espaciais futuros procurem planetas que são melhores para a vida do que o planeta Terra.
Crédito: Centro Espacial Ames da NASA/Instituto SETI/JPL-Caltech
 

A Terra não é necessariamente o melhor planeta do Universo. Os investigadores identificaram duas dúzias de planetas para lá do nosso Sistema Solar que podem ter condições mais adequadas para a vida do que as nossas. Alguns destes orbitam estrelas que podem ser melhores até do que o nosso Sol.

Um estudo liderado pelo cientista Dirk Schulze-Makuch, da Universidade de Washington, publicado recentemente na revista Astrobiology, detalha as características de planetas potencialmente "superhabitáveis", que incluem aqueles que são mais velhos, um pouco maiores, ligeiramente mais quentes e possivelmente mais húmidos que a Terra. A vida também poderia prosperar mais facilmente em planetas que giram em torno de estrelas que mudam mais lentamente e com maior esperança de vida do que o nosso Sol.

Os 24 principais candidatos a planetas superhabitáveis estão todos a mais de 100 anos-luz de distância, mas Schulze-Makuch disse que o estudo pode ajudar a concentrar esforços futuros de observação, como os do Telescópio Espacial James Webb da NASA, do observatório espacial LUVIOR e do telescópio PLATO da ESA.

"Com a chegada dos próximos telescópios espaciais, teremos mais informações, por isso é importante selecionar alguns alvos," disse Dirk Schulze-Makuch, professor da Universidade de Washington e da Universidade Técnica de Berlim. "Temos que nos concentrar em certos planetas que têm as condições mais promissoras para uma vida complexa. No entanto, temos que ter cuidado para não ficar presos à procura de uma segunda Terra, porque podem haver planetas ainda mais adequados para a vida do que o nosso."

Para o estudo, Schulze-Makuch, geobiólogo com experiência em habitabilidade planetária, juntou-se aos astrónomos René Heller do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar e Edward Guinan da Universidade Villanova para identificar critérios de superhabitabilidade e procurar bons candidatos entre os 4500 exoplanetas conhecidos para lá do nosso Sistema Solar. A habitabilidade não significa que estes planetas têm definitivamente vida, apenas as condições que levariam à vida.

Os cientistas selecionaram sistemas com prováveis planetas terrestres que orbitam na zona habitável da estrela hospedeira no Arquivo Exoplanetário KOI (Kepler Objet of Interest) de exoplanetas em trânsito.

Embora o Sol seja o centro do nosso Sistema Solar, tem uma vida útil relativamente curta, de menos de 10 mil milhões de anos. Visto que demorou quase 4 mil milhões de anos para qualquer forma de vida complexa aparecer na Terra, muitas estrelas semelhantes ao nosso Sol, as chamadas estrelas G, podem ficar sem combustível antes que vida complexa se desenvolva.

Além de observar sistemas com estrelas G mais frias, os investigadores também procuraram sistemas com estrelas anãs K, que são um pouco mais frias, menos massivas e menos luminosas do que o nosso Sol. As estrelas K têm a vantagem de uma longa esperança de vida de 20 mil milhões a 70 mil milhões de anos. Isto permitira que os planetas em órbita fossem mais antigos, além de dar mais tempo à vida para avançar até à complexidade encontrada atualmente na Terra. No entanto, para ser habitável, os planetas não devem ser tão velhos ao ponto de esgotarem o seu calor geotérmico e de não terem campos geomagnéticos de proteção. A Terra tem aproximadamente 4,5 mil milhões de anos, mas os investigadores afirmam que o ponto ideal para a vida é um planeta que tem entre 5 mil milhões e 8 mil milhões de anos.

Tamanho e massa também são importantes. Um planeta que é 10% maior do que a Terra deveria ter mais solo habitável. Espera-se que um que tenha 1,5 vezes a massa da Terra retenha o seu aquecimento interno por mais tempo através do decaimento radioativo e também tenha uma gravidade mais forte para reter uma atmosfera por um período de tempo mais longo.

A água é a chave da vida, e os autores argumentam que um pouco mais de água ajudaria, principalmente na forma de humidade e nuvens. Uma temperatura ligeiramente mais elevada no geral, uma temperatura média da superfície aproximadamente 5º C maior que a da Terra, juntamente com humidade adicional, também seria melhor para a vida. Esta preferência por calor e humidade é vista na Terra com a maior biodiversidade das florestas tropicais do que em áreas mais frias e secas.

Entre os 24 melhores candidatos exoplanetários, nenhum deles satisfaz todos os critérios para planeta superhabitável, mas um tem quatro das características críticas, tornando-o possivelmente muito mais confortável para a vida do que o nosso planeta natal.

"Às vezes é difícil transmitir este princípio de planeta superhabitável porque pensamos que temos o melhor planeta," disse Schulze-Makuch. "Temos um grande número de formas de vida complexas e diversas, e muitas que podem sobreviver em ambientes extremos. É bom ter vida adaptável, mas isso não significa que temos o melhor de tudo."

// Universidade Estatal de Washington (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astrobiology)

 


Saiba mais

Notícias relacionadas:
ScienceDaily
PHYSORG
CNN
Forbes
ZAP.aeiou

Superhabitabilidade:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

Telescópio Espacial Kepler:
NASA (página oficial)
K2 (NASA)
Arquivo de dados do Kepler
Arquivo de dados da missão K2
Arquivo Exoplanetário KOI
Wikipedia

 
   
O achatamento de um "boneco de neve"

Os muitos milhões de corpos que povoam a Cintura de Kuiper, para lá da órbita de Neptuno, ainda não revelaram muitos dos seus segredos. Na década de 1980, as sondas espaciais Pioneer 1 e 2, bem como as Voyager 1 e 2, atravessaram esta região, mas sem câmaras a bordo. A sonda New Horizons da NASA enviou as primeiras imagens da orla mais externa do Sistema Solar para a Terra: no verão de 2015, de Plutão e, três anos e meio depois, do objeto trans-Neptuniano Arrokoth, com aproximadamente 30 km de comprimento. Na altura ainda sem nome oficial, o corpo foi apelidado de Ultima Thule, em referência à terra mais a norte do nosso planeta. Afinal de contas, este objeto trans-Neptuniano é o corpo mais distante do Sol alguma vez visitado e fotografado por uma aeronave espacial.

A estranha forma de Arrokoth, em especial, provocou sensação nos dias que se seguiram ao "flyby". O corpo é um binário de contacto, que se pensa ser o resultado da fusão a baixa velocidade de dois corpos separados que se formaram perto um do outro. É composto por dois lóbulos ligados, dos quais o menor é ligeiramente achatado, o maior mais acentuadamente, criando a impressão de um "boneco de neve achatado". Na sua publicação atual, os investigadores da China, da Alemanha e dos EUA investigam como esta forma surgiu. Uma forma de lóbulo duplo também é conhecida em alguns cometas. No entanto, não há outro corpo conhecido que seja tão achatado quanto Arrokoth. Será que Arrokoth já era assim quando foi formado? Ou será que a sua forma se desenvolveu gradualmente?

 
A forma achatada de Arrokoth só pode ser vista a partir de uma determinada perspetiva. As primeiras imagens enviadas pela New Horizons da NASA dava uma impressão de um objeto em forma de "boneco de neve" normal. A superfície de Arrokoth é surpreendentemente lisa e contém apenas poucas crateras.
Crédito: NASA/Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins/SwRI
 

"Gostamos de pensar na Cintura de Kuiper como uma região onde o tempo parou mais ou menos desde o nascimento do Sistema Solar," explica Ladislav Rezac do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, um dos dois primeiros autores da publicação atual. A mais de quatro mil milhões de quilómetros do Sol, os corpos da Cintura de Kuiper permaneceram gelados e inalterados, assim é a convicção comum. As imagens de Arrokoth pela New Horizons desafiam esta ideia devido à sua superfície aparentemente lisa, sem sinais de colisões frequentes e devido à sua forma peculiar e achatada. Os cientistas assumem que o Sistema Solar foi formado há 4,6 mil milhões de anos a partir de um disco de poeira: as partículas desta nebulosa solar agruparam-se em aglomerados cada vez maiores; estes aglomerados colidiram e fundiram-se em corpos ainda maiores. "Ainda não há explicação de como um corpo achatado como Arrokoth poderia emergir deste processo," diz Rezac.

Outra possibilidade seria a de que Arrokoth tinha originalmente uma forma mais comum. Pode ter começado como uma fusão entre um corpo esférico e um corpo oblato no momento da sua formação e só gradualmente se tornou achatado. Estudos anteriores sugerem que durante a formação do Sistema Solar, a região onde Arrokoth está localizado pode ter sido um ambiente distinto no plano médio, frio e "à sombra da poeira" da nebulosa solar exterior. As baixas temperaturas permitiram que materiais voláteis, como o monóxido de carbono e o metano, congelassem em grãos de poeira e formassem planetesimais. Quando a poeira nebular se dissipou após a formação de Arrokoth, a iluminação solar teria aumentado a sua temperatura e, portanto, eliminado rapidamente os voláteis condensados. A estranha forma de Arrokoth seria então um resultado natural devido a uma combinação favorável da sua grande obliquidade, pequena excentricidade e variação no ritmo de perda de massa com o fluxo solar, resultando na erosão quase simétrica entre os hemisférios norte e sul.

 
Imagens de uma simulação numérica da evolução da forma de um análogo a Arrokoth devido à perda de massa por sublimação. A forma de baixo é um modelo de terreno derivado de observações da New Horizons. As cores representam temperaturas médias ao longo de uma única órbita. O vermelho assinala regiões mais quentes e o azul regiões mais frias.
Crédito: PMO/MPS
 

"Para que um corpo mude de forma tão extrema quanto Arrokoth, o seu eixo de rotação precisa de ser orientado de maneira especial", explica Rezac. Ao contrário do eixo de rotação da Terra, o de Arrokoth é quase paralelo ao plano orbital. Durante a sua órbita de 298 anos em torno do Sol, uma região polar de Arrokoth fica voltada continuamente para o Sol por quase metade do tempo enquanto a outra fica voltada para o lado oposto. As regiões no equador e a latitudes mais baixas são dominadas por variações diurnas durante todo o seu ano. "Isto faz com que os polos aqueçam mais, de modo que os gases escapam daí de forma mais eficiente, resultando numa forte perda de massa," diz Yuhui Zhao do Observatório da Montanha Púrpura da Academia Chinesa de Ciências. O processo de achatamento provavelmente ocorreu no início da história da evolução do corpo e prosseguiu rapidamente numa escala de tempo de aproximadamente um a 100 milhões de anos durante a presença de gelos supervoláteis nas camadas próximas à subsuperfície. Além disso, os cientistas demonstraram de forma autoconsistente que os torques induzidos desempenhariam um papel desprezível na mudança do estado de rotação do planetesimal durante a fase de perda de massa.

"O número destes corpos em forma de 'boneco de neve achatado' na Cintura de Kuiper depende principalmente da probabilidade de um corpo ter uma inclinação no eixo de rotação semelhante à de Arrokoth e da quantidade de gelos supervoláteis presentes perto da sua subsuperfície", diz Rezac. Existem razões para pensar que mesmo objetos como Arrokoth tiveram quantidades consideráveis de supervoláteis que escaparam durante a sua evolução inicial. Por exemplo, Plutão, devido ao seu tamanho e maior gravidade, ainda hoje retém os gases monóxido de carbono, azoto e metano. No caso dos corpos mais pequenos, estes voláteis teriam escapado há muito tempo para o espaço.

// Instituto Max Planck (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)

 


Saiba mais

Arrokoth (2014 MU69; Ultima Thule):
Wikipedia 
NASA

New Horizons:
Página oficial
Imagens "raw", pelo LORRI do encontro com Arrokoth
NASA
Twitter
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  À procura na sombra: investigadores recorrem às árvores para determinar se existe vida multicelular em exoplanetas (via Universidade do Norte do Arizona)
Já foram descobertos mais de 4200 exoplanetas para lá do nosso Sistema Solar e, embora técnicas anteriores tenham sido desenvolvidas para testar a existência de vida em exoplanetas, nenhuma foi testada para vida complexa e não tecnológica como por exemplo vegetação. Agora, os telescópios espaciais podem em breve ser capazes de visualizar diretamente esses planetas - incluindo um na zona habitável da estrela vizinha mais próxima do Sol. Com a ajuda destes telescópios e uma equipa de investigadores em informática e astronomia, a resposta a esta pergunta pode não ser "fora deste mundo". Ler fonte
     
  Os lagos de Titã podem estratificar como os da Terra (via PSI)
Os lagos na lua de Saturno, Titã, composto por metano, etano e azoto, ao invés de água, têm uma estratificação impulsionada pela densidade, formando camadas semelhantes às dos lagos na Terra. No entanto, enquanto os lagos da Terra estratificam-se em resposta à temperatura, os lagos de Titã estratificam-se apenas devido às estranhas interações químicas entre os seus líquidos à superfície e a atmosfera. Ler fonte
 
   
Álbum de fotografias - Ou4: Uma Lula Gigante num Morcego
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Yannick Akar
 
Muito ténue, mas também muito grande no céu do planeta Terra, a Nebulosa da Lula, catalogada como Ou4, e Sh2-129, também conhecida como a Nebulosa do Morcego, foram aqui fotografadas nesta cena cósmica na direção da constelação de Cefeu. Composta por 55 horas de dados de banda estreita, o campo telescópico mede 3 graus ou 6 Luas Cheias. Descoberta em 2011 pelo astrofotógrafo francês Nicolas Outters, a forma bipolar e sedutora da Nebulosa da Lula distingue-se pela reveladora emissão azul-esverdeada dos átomos duplamente ionizados de oxigénio. Embora, aparentemente, completamente rodeada pela emissão avermelhada do hidrogénio da região Sh2-129, a verdadeira distância e natureza da Nebulosa da Lula tem sido difícil de determinar. Ainda assim, uma investigação mais recente sugere que Ou4 está realmente situada dentro de Sh2-129 a cerca de 2300 anos-luz de distância. Consistente com esse cenário, Ou4 representaria um fluxo espetacular impulsionado por HR8119, um sistema triplo de estrelas quentes e massivas que podem ser vistas perto do centro da nebulosa. A verdadeiramente gigante Nebulosa da Lula mede quase 50 anos-luz de comprimento.
 
   
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