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  Astroboletim #2207  
  02/05 a 05/05/2025  
     
 
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NOITES ASTRONÓMICAS EM FARO
O Centro Ciência Viva do Algarve, em conjunto com o Centro Ciência Viva de Tavira, irá realizar uma sessão de observação da Lua.
Data: 5 de maio de 2025
Hora: 21:00 - 23:00
Local: Jardim Manuel Bívar, junto à marina
A realização desta atividade está dependente das condições atmosféricas.
A sessão é gratuita e não sujeita a marcação.
Participe!
Informações: 289 890 920 | info@ccvalg.pt

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EFEMÉRIDES

DIA 02/05: 122.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1963, a companhia Berthold Seliger lança um foguete com três estágios e uma altitude de voo máxima de mais de 100 km perto de Cuxhaven, Alemanha. É o único foguete de sondagem desenvolvido pela Alemanha.
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HOJE, NO COSMOS:
Procure a Lua perto das estrelas Pollux e Castor esta noite. Marte está para cima e para a esquerda.
Embora já estejamos em maio, a invernosa estrela Sirius ainda pisca muito baixa a oeste-sudoeste ao final do lusco-fusco. Põe-se pouco depois. Durante quanto mais tempo, nesta estação da primavera, conseguirá continuar a observar Sirius? Por outras palavras, qual será a data do seu "pôr heliacal", da perspetiva do observador?

 

DIA 03/05: 123.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1715, durante um eclipse na Inglaterra, Edmond Halley é o primeiro a registar o fenómeno mais tarde conhecido por Contas de Baily (há quem diga que Francis Baily foi o primeiro a notar estes efeitos mais tarde em 1836, daí o seu nome).
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Também observa proeminências vermelhas e brilhantes e a assimetria este-oeste na coroa, que atribui a uma atmosfera na Lua ou no Sol. Este eclipse tinha sido previsto por Halley com uma precisão de 4 minutos.
HOJE, NO COSMOS:
Agora a Lua, quase em Quarto Crescente, brilha para a direita de Marte. Entretanto, o próprio Planeta Vermelho está a menos de 1º para a direita do enxame do Presépio (ou M44), como uns binóculos ou um telescópio com baixa ampliação vão revelar.

 

DIA 04/05: 124.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1989 era lançada a missão Magalhães para Vénus.
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O seu objetivo era obter imagens de alta-resolução de toda a superfície do planeta. Tempo de duração da viagem: 1 ano, 3 meses e 6 dias. Depois uma missão carregada de êxitos, ordenou-se à sonda para penetrar na densa atmosfera do planeta a 11 de outubro de 1994.
HOJE, NO COSMOS:
Lua em Quarto Crescente, pelas 14:52.
Após o anoitecer a Lua estará por baixo da "foice" de Leão, com Régulo para a sua esquerda ou para cima e para a esquerda e Marte (semelhante a Régulo em brilho mas de cor diferente) para baixo e para a direita do nosso satélite natural.
Marte atravessa o limite norte do enxame do Presépio (M44) esta noite e amanhã à noite.

 

DIA 05/05: 125.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1961, Alan Shepard torna-se o primeiro norte-americano no espaço, a bordo da nave Freedom 7
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O seu voo sub-orbital dura 15 minutos.
HOJE, NO COSMOS:
Esta noite a Lua passa logo acima da estrela Régulo.
Observe novamente o agrupamento de Marte com o enxame aberto M44 e verifique a mudança de posição do planeta em relação ao objeto de céu profundo.

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Gaia deteta uma estranha família de estrelas "desesperadas por sair de casa"
 
Este mapa de todo o céu foi criado e divulgado pela missão Gaia da ESA e inclui dados de mais de 1,8 mil milhões de estrelas. Mostra o brilho total e a cor das estrelas observadas pelo satélite e divulgadas como parte do Gaia EDR3 (Gaia Early Data Release 3) em 2020.
Sobrepostas como pontos amarelos estão as localizações de mais de 1000 estrelas jovens; estas estrelas constituem a recém-descoberta família Ophion, que em breve se terá dispersado completamente do seu berçário estelar e se terá espalhado pela Via Láctea. Os dados espetroscópicos do Gaia foram fundamentais para a descoberta de Ophion, que se comporta como nenhuma outra família de estrelas que tenhamos visto até à data.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC
 

As estrelas da Via Láctea tendem a formar-se em famílias, com estrelas semelhantes a nascerem mais ou menos no mesmo sítio e mais ou menos na mesma altura. Mais tarde, estas estrelas, quando estão prontas para "sair do ninho", afastam-se do seu local de nascimento. Enquanto os grupos mais pequenos se podem dissipar completamente, as irmãs de famílias maiores movem-se normalmente de forma semelhante e viajam em grande parte juntas.

Vimos muitas famílias estelares com o Gaia. Já foram observadas cadeias de estrelas que se estendem pela Via Láctea e permanecem intactas durante milhares de milhões de anos, os astrónomos já mapearam os antigos fluxos estelares que se enrolaram para formar a estrutura mais antiga da nossa Galáxia e elaboraram um "retrato de família" estelar do nosso lar cósmico.

Uma família como nenhuma outra

Usando dados do Gaia, os cientistas detetaram agora uma família de estrelas diferente de todas as outras: uma família massiva de mais de 1000 estrelas jovens com um comportamento estranho. Apesar do seu tamanho, a família - denominada Ophion - em breve terá dispersado completamente e em tempo recorde, deixando apenas um ninho vazio para trás.

"Ophion está cheia de estrelas que se vão espalhar pela Galáxia de uma forma totalmente aleatória e descoordenada, o que está longe de ser o que se espera de uma família tão grande", diz Dylan Huson da WWU (Western Washington University), EUA, e principal autor do artigo científico sobre a descoberta. "Além disso, isto acontecerá numa fração do tempo que normalmente demoraria uma família tão grande a dispersar-se. É como nenhuma outra família de estrelas que tenhamos visto antes".

Um novo modelo

Para encontrar Ophion, Dylan e os seus colegas desenvolveram um novo modelo para explorar o vasto e incomparável conjunto de dados espetroscópicos do Gaia e aprender mais sobre estrelas jovens e de baixa massa que se encontram razoavelmente perto do Sol. Aplicaram este modelo, designado por Gaia Net, às centenas de milhões de espetros estelares publicados no âmbito da versão 3 dos dados do Gaia. Em seguida, restringiram a sua pesquisa a estrelas "jovens" com menos de 20 milhões de anos - e Ophion saltou à vista.

"É a primeira vez que é possível utilizar um modelo como este para estrelas jovens, devido ao imenso volume e à elevada qualidade das observações espetroscópicas necessárias para o fazer funcionar", acrescenta Johannes Sahlmann, cientista do projeto Gaia da ESA. "Ainda é muito nova, a possibilidade de medir de forma fiável os parâmetros de muitas estrelas jovens ao mesmo tempo. Este tipo de observação em massa é uma das proezas verdadeiramente sem precedentes do Gaia".

"Outra é a forma como a missão Gaia está a criar oportunidades para uma nova ciência colaborativa e interdisciplinar através da sua política de dados abertos. Vários membros da equipa de descoberta do Ophion são estudantes universitários e pós-graduados em ciências informáticas, que utilizaram os dados do Gaia para inovar e desenvolver novos métodos que estão agora a fornecer novas perspetivas sobre as estrelas da Via Láctea".

Resolvendo o mistério

A questão mantém-se: porque é que Ophion se comporta de forma tão invulgar?

Os cientistas discutem várias hipóteses. A família de estrelas reside a cerca de 650 anos-luz de distância, perto de outros grandes aglomerados de estrelas jovens; eventos energéticos e interações entre estes vizinhos colossais podem ter influenciado Ophion ao longo dos anos.

Há também sinais de que estrelas explodiram aqui no passado. Estas explosões de supernova podem ter varrido material de Ophion e feito com que as suas estrelas se movessem de forma muito mais rápida e errática do que antes.

"Não sabemos exatamente o que aconteceu a esta família de estrelas para que se comportasse desta forma, uma vez que nunca encontrámos nada semelhante. É um mistério", diz a coautora Marina Kounkel da Universidade do Norte da Florida, EUA.

"É excitante, porque muda a forma como pensamos sobre os grupos de estrelas e como os podemos encontrar. Os métodos anteriores identificavam as famílias agrupando estrelas com movimentos semelhantes, mas Ophion teria escapado a esta rede. Sem os enormes conjuntos de dados de alta qualidade do Gaia e os novos modelos que podemos agora utilizar para os analisar, poderíamos estar a perder uma grande peça do puzzle estelar".

Depois de mais de uma década a mapear os nossos céus, o Gaia deixou de observar em março. Isto marca o fim das operações da nave espacial - mas é apenas o início da ciência. Prevêem-se muitas mais descobertas nos próximos anos, juntamente com as maiores publicações de dados do Gaia até à data.

// ESA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal)

 


Quer saber mais?

Cinemática estelar:
Wikipedia

Gaia:
ESA
Página da ESA para a comunidade científica
Arquivo de dados do Gaia (ESA)
Wikipedia

 
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Uma explosão cósmica forjou elementos pesados como o ouro e a platina
 
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Visualização de uma erupção gigante num magnetar.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
 

Uma das grandes questões da astrofísica é a origem dos elementos pesados, no nosso Universo, que constituem a tabela periódica.

Os elementos mais leves, o hidrogénio e o hélio, formaram-se principalmente no Big Bang que deu origem ao Universo. Elementos um pouco mais pesados, como o oxigénio e o ferro, são forjados no interior dos núcleos quentes das estrelas e expelidos para o espaço quando estas morrem em explosões de supernova. No entanto, os elementos raros muito mais pesados do que o ferro, como o ouro e a platina, só são criados em condições muito mais extremas do que as encontradas nas estrelas normais. Durante décadas, os astrofísicos nucleares têm trabalhado para identificar os eventos, na natureza, que podem sintetizar estes elementos pesados.

Agora, um grupo multi-institucional de investigadores, liderado pelo professor Brian Metzger e pelo doutorando Anirudh Patel, da Universidade de Columbia em Nova Iorque, EUA, tem uma nova resposta a esta questão, que desafia as ideias existentes sobre onde são criados os elementos pesados. Num novo artigo científico, demonstram que elementos muito mais pesados do que o ferro foram criados num famoso evento cósmico de há mais de 20 anos, que libertou mais energia em meio segundo do que o nosso Sol produz num quarto de milhão de anos. A descoberta deste evento único fornece uma perspetiva importante sobre a forma como estes elementos são sintetizados em geral.

"Comparando os nossos modelos teóricos com os dados observados, encontrámos evidências de que uma das explosões mais brilhantes alguma vez observadas na nossa Galáxia - um poderoso surto de raios gama em 2004 - produziu uma enorme quantidade de elementos pesados que excede, em massa, o planeta Marte", disse Patel. "Foi uma sensação incrível ver a nossa previsão confirmada pelos dados existentes e perceber as implicações que esta descoberta tem para a história de alguma da matéria que compõe o nosso planeta".

No dia 27 de dezembro de 2004, vários satélites, incluindo o telescópio espacial INTEGRAL (INTErnational Gamma-Ray Astrophysics Laboratory) da ESA, detetaram uma explosão extremamente poderosa de raios gama proveniente de um magnetar na nossa Galáxia.

Os magnetares são uma classe de estrelas de neutrões que albergam os campos magnéticos mais fortes do Universo, mais de 10 biliões de vezes mais fortes do que o típico íman de frigorífico. As estrelas de neutrões são os corpos compactos que sobram quando estrelas massivas colapsam e explodem como supernovas. A imensa energia magnética dos magnetares provoca surtos extremos, semelhantes mas muito mais energéticos do que as erupções de partículas que o nosso Sol produz.

 
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Impressão de artista de uma ruptura na crosta de uma estrela de neutrões altamente magnetizada.
Crédito: Centro de Voo Espacial Goddard da NASA/S. Wiessinger
 

Embora o magnetar, SGR 1806-20, se encontre a cerca de 30.000 anos-luz de distância, a "erupção gigante" de 2004 foi suficientemente brilhante para afetar as camadas superiores da atmosfera da Terra. Após a explosão inicial de raios gama, o telescópio espacial INTEGRAL também detetou um sinal de raios gama mais fraco, mas mais longo, que durou várias horas. Embora este "brilho remanescente" tenha sido relatado pela primeira vez por uma equipa de investigadores em 2005, na altura os cientistas não deram qualquer explicação física convincente.

Agora, Metzger, Patel e os seus colaboradores mostraram que este sinal anteriormente inexplicado da famosa erupção gigante do magnetar de 2004 pode ser atribuído à emissão de raios gama do decaimento radioativo de elementos pesados - elementos que foram recentemente sintetizados por uma série de reações nucleares na crosta da estrela de neutrões, à medida que esta era expelida para o espaço durante a erupção gigante. Os investigadores estimam que até 10% ou mais dos metais preciosos da Terra podem ser produzidos por magnetares. Embora muitos potenciais fenómenos que criam estes elementos tenham sido propostos pelos cientistas ao longo dos anos, este representa apenas o segundo evento confirmado em que os elementos mais pesados do nosso Universo podem ser sintetizados; o primeiro foi uma fusão de estrelas de neutrões prevista por Metzger em 2010 e confirmada observacionalmente em 2017.

Os investigadores começaram a sua descoberta no final do ano passado, quando Patel estava a calcular os elementos que são criados nas erupções dos magnetares. Apenas duas semanas antes do 20.º aniversário da erupção gigante de 2004, Patel fez cálculos preliminares da radiação de raios gama esperada destes elementos. "O pico de brilho e a escala temporal da emissão prevista correspondiam perfeitamente à observação inexplicável de 2004. Nesse momento, apercebemo-nos de que poderíamos ter feito uma descoberta", disse Patel.

"Esta única erupção gigante foi tão prodigiosa na criação destes elementos pesados que a acumulação de eventos semelhantes ao longo da história da nossa Galáxia poderia contribuir com uma fração significativa de todos estes elementos na Terra", disse Metzger. "É emocionante perceber que a platina da minha aliança pode ter sido forjada num evento tão cataclísmico. Esta descoberta abre uma série de novas questões relacionadas com o papel que os magnetares podem desempenhar na propagação de elementos em todo o Universo".

// Universidade de Columbia (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)

 


Quer saber mais?

SGR 1806-20:
Wikipedia

Magnetar:
Wikipedia
AstronomyOnline.org

Estrela de neutrões:
Wikipedia
Universidade de Maryland

Elementos pesados (metais):
Wikipedia

INTEGRAL (INTErnational Gamma-Ray Astrophysics Laboratory):
ESA
Wikipedia
Arquivo do Legado Científico do INTEGRAL

 
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Nova investigação derruba antigas ideias sobre o asteroide Vesta
 
Este mosaico utiliza algumas das melhores imagens que a sonda Dawn capturou do asteroide gigante Vesta.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
 

Durante décadas, os cientistas pensaram que Vesta, um dos maiores objetos da cintura de asteroides do nosso Sistema Solar, não era apenas um asteroide. Concluíram que Vesta tem uma crosta, um manto e um núcleo - propriedades fundamentais de um planeta.

Os astrónomos estudaram-no em busca de pistas sobre o crescimento inicial dos planetas e sobre o aspeto que a Terra poderia ter tido na sua infância. Agora, cientistas contribuíram para uma investigação que inverte esta noção.

Uma equipa liderada pelo JPL da NASA publicou um artigo científico na revista Nature Astronomy que revela que a estrutura interior de Vesta é mais uniforme do que se pensava. Estas descobertas assustaram os investigadores que, até então, assumiam que Vesta era um protoplaneta que nunca se tornou num planeta completo.

"A ausência de um núcleo foi muito surpreendente", disse o professor assistente de Ciências da Terra e do Ambiente da Universidade do Estado do Michigan, EUA, Seth Jacobson, coautor do artigo científico. "É uma forma muito diferente de pensar acerca de Vesta".

Qual é a verdadeira identidade de Vesta? A equipa de investigação tem duas hipóteses que precisam de ser mais exploradas.

A primeira possibilidade é que Vesta tenha passado por uma diferenciação incompleta, o que significa que iniciou o processo de fusão necessário para dar ao asteroide camadas distintas, como um núcleo, um manto e uma crosta, mas nunca o terminou. A segunda é uma teoria que Jacobson apresentou numa conferência de astronomia há alguns anos - Vesta é um pedaço partido de um planeta em crescimento no nosso Sistema Solar.

Nessa conferência, Jacobson queria que outros investigadores considerassem a possibilidade de alguns meteoritos poderem ser detritos de colisões que ocorreram durante a era da formação dos planetas. Incluiu Vesta na sua sugestão, mas não a tinha considerado uma possibilidade real.

"Esta ideia passou de uma sugestão algo disparatada a uma hipótese que agora estamos a levar a sério devido a esta reanálise dos dados da missão Dawn da NASA", disse Jacobson.

Mais do que um asteroide

A maioria dos asteroides é feita de um material condrítico muito antigo, parecendo um cascalho sedimentar cósmico. Em contraste, a superfície de Vesta está coberta de rochas basálticas vulcânicas. Estas rochas indicaram aos cientistas que Vesta passou por um processo de fusão chamado diferenciação planetária, em que o metal se afunda para o centro e forma um núcleo.

A NASA lançou a nave espacial Dawn em 2007 para estudar Vesta e Ceres, os dois maiores objetos da cintura de asteroides. O objetivo era compreender melhor a formação dos planetas.

A Dawn passou meses, entre 2011 e 2012, em órbita de Vesta, medindo o seu campo gravitacional e captando imagens de alta resolução para criar um mapa muito pormenorizado da sua superfície. Depois de realizar tarefas semelhantes em Ceres, a missão terminou em 2018 e os cientistas publicaram os resultados obtidos a partir dos dados.

Jacobson disse que quanto mais os investigadores utilizavam os dados, melhor conseguiam processá-los. Descobriram formas de calibrar com maior precisão as medições que produzem uma imagem melhorada da composição de Vesta. Foi por isso que Ryan Park, um investigador sénior e engenheiro do JPL, e a sua equipa decidiram reprocessar as medições de Vesta.

"Durante anos, os dados de gravidade contraditórios das observações da Dawn em Vesta criaram enigmas", disse Park. "Depois de quase uma década a aperfeiçoar as nossas técnicas de calibração e processamento, conseguimos um alinhamento notável entre os dados radiométricos recolhidos pela DSN (Deep Space Network) da Dawn e os dados de imagem a bordo. Ficámos entusiasmados por confirmar a força dos dados para revelar o interior profundo de Vesta. As nossas descobertas mostram que a história de Vesta é muito mais complexa do que se pensava anteriormente, moldada por processos únicos como a diferenciação planetária interrompida e colisões tardias".

Os cientistas planetários podem estimar a dimensão do núcleo de um corpo celeste medindo o que se designa por momento de inércia. Trata-se de um conceito da física que descreve a dificuldade de alterar a rotação de um objeto em torno de um eixo. Jacobson comparou este conceito a um patinador artístico a girar no gelo. O patinador altera a sua velocidade puxando os braços para dentro para acelerar e movendo-os para fora para abrandar. O seu momento de inércia é alterado pela mudança de posição dos braços.

Da mesma forma, um objeto no espaço com um núcleo maior é como uma bailarina com os braços puxados para dentro. Os corpos celestes com um núcleo denso movem-se de forma diferente de um sem núcleo. Munida deste conhecimento, a equipa de investigação mediu a rotação e o campo gravitacional de Vesta. Os resultados mostraram que Vesta não se comportava como um objeto com um núcleo, desafiando as ideias anteriores sobre a sua formação.

Duas hipóteses

Nenhuma das hipóteses foi suficientemente explorada para excluir qualquer uma delas, mas ambas têm problemas que requerem mais investigação para serem explicados. Embora a diferenciação incompleta seja possível, não está de acordo com os meteoritos que os investigadores têm recolhido ao longo do tempo.

"Estamos muito confiantes de que estes meteoritos vieram de Vesta", disse Jacobson. "E estes não mostram evidências óbvias de diferenciação incompleta".

A explicação alternativa baseia-se na ideia de que, à medida que os planetas terrestres se foram formando, ocorreram grandes colisões, na sua maioria fazendo crescer os planetas, mas também gerando detritos de impacto. Os materiais ejetados dessas colisões incluiriam rochas resultantes da fusão e, tal como Vesta, não teriam um núcleo.

O laboratório de Jacobson já estava a explorar as consequências dos impactos gigantes durante a era da formação dos planetas. Está a trabalhar com uma das suas alunas, Emily Elizondo, na ideia de que alguns asteroides da cintura de asteroides são pedaços ejetados dos planetas em crescimento.

Esta ideia ainda está longe de estar provada. É necessário criar e afinar mais modelos para provar que Vesta é um pedaço antigo de um planeta em formação. Os cientistas podem ajustar a forma como estudam os meteoritos de Vesta para aprofundar qualquer uma das hipóteses, disse Jacobson. Podem também fazer mais estudos com as novas abordagens aos dados da missão Dawn.

Este artigo científico é apenas o início de uma nova direção de estudo, disse Jacobson. Poderá mudar para sempre a forma como os cientistas olham para os mundos diferenciados.

"A coleção de meteoritos de Vesta já não é uma amostra de um corpo no espaço que não conseguiu ser um planeta", disse Jacobson. "Estes podem ser pedaços de um planeta antigo antes de ter crescido completamente. Só que ainda não sabemos que planeta é esse".

// Universidade do Estado do Michigan (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)

 


Quer saber mais?

Vesta:
NASA
JPL/NASA
AstDyS-2
Wikipedia

Asteroides:
NASA
SEDS
Wikipedia

Momento de inércia:
Wikipedia

Sonda Dawn:
NASA
Wikipedia

 
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Também em destaque
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exemplo   Nova teoria sugere que as estrelas se dissolvem em neutrões para forjar elementos pesados (via Laboratório Nacional de Los Alamos)
Compreender a origem dos elementos pesados da tabela periódica é um dos problemas em aberto mais difíceis em toda a física. Na procura de condições adequadas para estes elementos através da "nucleossíntese", uma equipa está a ir onde nenhum investigador foi antes: o jato da explosão de raios gama e o casulo circundante que emerge de estrelas em colapso. Conforme proposto na revista The Astrophysical Journal, os fotões de alta energia produzidos nas profundezas do jato podem dissolver as camadas exteriores de uma estrela em neutrões, provocando uma série de processos físicos que resultam na formação de elementos pesados. Ler fonte
     
exemplo   Observações da New Horizons fornecem o primeiro mapa Lyman-alpha da Galáxia (via SwRI)
As extensas observações das emissões Lyman-alpha pela sonda espacial New Horizons da NASA resultaram no primeiro mapa de sempre da Galáxia neste importante comprimento de onda ultravioleta, proporcionando um novo olhar sobre a região galáctica que rodeia o nosso Sistema Solar. Os resultados foram descritos num novo estudo da autoria da equipa da New Horizons liderada pelo SwRI. Ler fonte
     
  Astrónomos observam a maior amostra de sempre de galáxias até mais de 12 mil milhões de anos-luz (via Universidade Aalto)
Uma equipa de astrónomos apresentou a maior amostra de grupos de galáxias alguma vez detetada, utilizando dados do Telescópio Espacial James Webb numa área do céu designada por COSMOS Web. O estudo constitui um marco importante na astronomia extragaláctica, fornecendo informações sem precedentes sobre a formação e evolução das galáxias e a estrutura em grande escala do Universo. Ler fonte
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Álbum de fotografias
Os Anéis de Saturno Aparecem e Desaparecem

exemplo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Natan Fontes
 
Onde estão as "orelhas" de Saturno? Galileu é creditado como a primeira pessoa, em 1610, a ver os anéis de Saturno. Testando o telescópio recentemente coinventado por Lipperhey, Galileu não sabia o que eram e chamou-lhes "orelhas". O mistério aprofundou-se em 1612, quando as "orelhas" de Saturno desapareceram misteriosamente. Hoje sabemos exatamente o que aconteceu: da perspetiva da Terra, os anéis de Saturno tornaram-se demasiado finos para serem vistos. O mesmo drama passa-se de 15 em 15 anos porque Saturno, tal como a Terra, tem estações que alteram a sua inclinação. Isto significa que, à medida que Saturno gira em torno do Sol, o seu equador e os seus anéis podem inclinar-se visivelmente em direção ao Sol e ao Sistema Solar interior, tornando-os facilmente visíveis, mas a partir de outras localizações orbitais quase não aparecem. A imagem em destaque obtida a partir de Brasília, no Brasil, mostra uma versão moderna desta sequência: a imagem de cima, dominada pelos anéis, foi tirada em 2020, enquanto a imagem de baixo, com os anéis obscurecidos, foi obtida no início de 2025.
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