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Edição n.º 1502
31/07 a 02/08/2018
 
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ASTRONOMIA NO VERÃO DO CCVAlg

Atividades astronómicas planeadas para o mês de agosto:

01/08 - Observar o Sol, Ilha da Culatra - Faro, junto ao cais, a partir das 09:45

01/08 - Observação astronómica noturna - Albufeira, Praia dos Salgados, junto ao parque de estacionamento, a partir das 21:00

04/08 - Observação astronómica noturna - S. Brás de Alportel, no Miradouro do Alto da Arroteia, a partir das 21:00

08/08 - Observar o Sol, Ilha do Farol - Faro, junto ao Farol, a partir das 10:15

10/08 - Observação astronómica noturna, Lagoa, Sr.ª da Rocha, junto à Capela da Nossa Senhora da Rocha, a partir das 21:00

13/08 - Astros e sons noturnos na Ria Formosa, junto Centro de Educação Ambiental de Marim, a partir das 20:30

22/08 - Observar o Sol, Ilha Deserta - Faro, junto ao restaurante Estaminé, a partir das 10:45

24/08 - Observação astronómica noturna, Olhão, na Marina (Jardim dos Pescadores), a partir das 21:00

(todas as atividades estão dependentes de condições meteorológicas favoráveis)

 
EFEMÉRIDES

Dia 31/07: 212.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1964, a Ranger 7 envia as primeiras imagens detalhadas da Lua, 1000 vezes melhores do que quaisquer imagens telescópicas da altura.
Em 1969, a Mariner 6 passava a 3330 km de Marte. Transmite imagens de alta resolução da superfície, concentradas na região equatorial. 
Em 1971, os astronautas da Apollo 15, David Scott e James Irwin, conduzem o primeiro rover lunar.

Em 1999, despenhava-se intencionalmente sobre a Lua a sonda Lunar Prospector, que pretendia encontrar água sob a crosta da Lua.
Observações: Escorpião é por vezes denominada "Orionte de Verão" devido ao seu brilho e à sua proeminente gigante vermelha (Antares no caso de Escorpião, Betelgeuse para Orionte). Mas Escorpião passa muito mais baixo a sul do que Orionte para nós que vivemos a latitudes médias norte. Isto significa que só tem apenas um bom mês para observação noturna: julho. Aviste Escorpião a sul logo após o cair da noite, antes de começar a inclinar-se para sudoeste.
Trânsito da sombra de Ganimedes, entre as 21:35 e as 23:58.
Ocultação de Europa, entre as 22:33 e as 01:01 (já de dia 1).

Dia 01/08: 213.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1774, o elemento oxigénio é descoberto pela terceira (e última) vez.
Em 1818 nascia Maria Mitchell, a primeira mulher eleita como astrónoma pela Academia Americana de Artes e Ciências.

Ganhou notoriedade mundial pela descoberta de um cometa brilhante em 1847.
Observações: Com o avançar do verão o "Bule de Chá" de Sagitário, agora movendo-se para sul após o anoitecer, começa a inclinar-se e "deitar o chá" para a direita. O "Bule de Chá" vai inclinar-se cada vez mais durante o resto do verão - ou com o passar da noite se ficar a observar até tarde.

Dia 02/08: 214.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1934 nascia Valery Bykovsky, cosmonauta soviético que voou em três missões espaciais: Vostok 5Soyuz 22 e Soyuz 31.

Detém ainda o recorde de maior tempo passado no espaço, sozinho: cinco dias em órbita, a bordo da Vostok 5 em 1963.
Em 2005, "flyby" da Mercury MESSENGER pela Terra.
Observações: Aproveite o início da noite para observar os planetas acima do horizonte, seja à vista desarmada, com binóculos ou com telescópio: Vénus baixo a oeste, Júpiter a sudoeste, Saturno entre as estrelas de Sagitário, a sul-sudeste, e Marte baixo a sudeste. Se ficar acordado(a) até tarde, poderá ver o nascer da Lua uns minutos antes da meia-noite.

 
CURIOSIDADES

O TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA começou as operações científicas no passado dia 25 de julho. Espera-se que transmita a sua primeira série de dados científicos em agosto, e depois periodicamente a cada 13,5 dias, uma vez por órbita, aquando da sua maior aproximação à Terra.
 
NOVOS RETRATOS DE FAMÍLIA DE SATURNO E MARTE PELO HUBBLE
Esta imagem mostra as observações recentes dos planetas Saturno e Marte pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA.
As primeiras observações de Marte, pelo Hubble, remontam a 1991 e a primeira observação de Saturno, pelo telescópio espacial, foi levada a cabo em 1990 - o ano do lançamento.
Crédito: Saturno - NASA, ESA, A. Simon (GSFC) e Equipa OPAL e J. DePasquale (STScI); Marte - NASA, ESA e STScI
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Recentemente, os planetas Saturno e Marte estiveram, um após o outro, em oposição à Terra. Durante este tipo de evento os planetas estão relativamente próximos da Terra, permitindo com que os astrónomos os possam observar em maior detalhe. O Hubble aproveitou esta configuração e fotografou ambos os planetas, continuando a sua observação de longa data dos planetas do Sistema Solar.

Desde que o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA foi lançado, que o seu objetivo tem sido sempre o de estudar não apenas objetos astronómicos distantes, mas também os planetas do nosso Sistema Solar. As imagens de alta resolução dos nossos vizinhos planetários, pelo Hubble, só podem ser superadas pelas naves que visitam realmente esses corpos. No entanto, o Hubble tem uma vantagem sobre as sondas espaciais: pode olhar para estes objetos periodicamente e observá-los durante períodos muito mais longos do que qualquer outra sonda que por lá passe.

Nos últimos meses, os planetas Marte e Saturno têm estado em oposição - as datas exatas são 27 de junho para Saturno e 27 de julho para Marte. Uma oposição ocorre quando o Sol, a Terra e um planeta estão alinhados, a Terra situada entre o Sol e o planeta. Durante uma oposição, um planeta está totalmente iluminado pelo Sol a partir da perspetiva da Terra, e também assinala o momento em que o planeta está mais próximo do nosso planeta, permitindo com que os astrónomos observem as características planetárias em maior detalhe (as datas de oposição e maior aproximação diferem ligeiramente; esta diferença é provocada pela órbita elíptica dos planetas e pelo facto de que as órbitas não estão exatamente no mesmo plano).

Composição de Saturno, obtida pelo Hubble no dia 6 de junho, com seis das suas luas conhecidas. Da esquerda para a direita, as luas visíves são Dione, Encélado, Tétis, Jano, Epimeteu e Mimas.
A imagem é uma composição porque as luas movem-se durante as exposições de Saturno, de modo que os fotografamas individuais têm que ser realinhados para fazer um retrato a cores.
Crédito: NASA, ESA, A. Simon (GSFC) e Equipa OPAL e J. DePasquale (STScI)
(clique na imagem para ver versão maior; aqui para versão legendada)
 

Um mês antes da oposição de Saturno - no dia 6 de junho - o Hubble foi usado para observar o planeta dos anéis. Nesta altura, Saturno estava a aproximadamente 1,4 mil milhões de quilómetros da Terra. As imagens captadas mostram o magnífico sistema de anéis de Saturno perto da sua inclinação máxima em direção à Terra, permitindo uma espetacular visão dos anéis e das divisões entre eles. Embora todos os gigantes gasosos possuam anéis, os de Saturno são os maiores e os mais belos, estendendo-se até oito vezes o raio do planeta.

Juntamente com uma espantosa imagem do sistema de anéis, a nova imagem do Hubble revela um padrão hexagonal em redor do polo norte - uma característica estável de vento descoberta durante a passagem rasante da Voyager 1 em 1981. Para sul desta característica encontra-se uma fileira de nuvens brilhantes: remanescentes de uma tempestade em desintegração.

Enquanto observava o planeta, o Hubble também conseguiu captar imagens de seis as 62 luas conhecidas de Saturno: Dione, Encélado, Tétis, Jano, Epimeteu e Mimas. Os cientistas pensam que uma pequena lua rebelde como estas se desintegrou há 200 milhões de anos para formar o sistema de anéis de Saturno.

Em meados de julho, o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA observou Marte, apenas 13 dias antes de fazer a sua maior aproximação à Terra em 2018. Embora as imagens anteriores mostrem características detalhadas à superfície, esta nova imagem é dominada por uma gigantesca tempestade de areia que envolve todo o planeta.
Crédito: NASA, ESA e STScI
(clique na imagem para ver versão maior; aqui para versão legendada)
 

O Hubble obteve o segundo retrato, do planeta Marte, no dia 18 de julho, apenas 13 dias antes de Marte alcançar a sua maior aproximação à Terra. Este ano, Marte passou a 57,6 milhões de quilómetros da terra. Foi a maior aproximação desde o Grande Evento de 2003 - há quase 60.000 anos que não estava tão perto.

Embora as imagens anteriores tenham mostrado características da superfície do planeta, esta nova imagem é dominada por uma gigantesca tempestade de areia que envolve todo o planeta. Ainda visíveis, as esbranquiçadas calotas polares, Terra Meridiani, a Cratera Schiaparelli e a Bacia Hellas - mas todas estas características estão levemente obscurecidas pela poeira atmosférica.

A comparação destas novas imagens de Marte e Saturno com dados mais antigos recolhidos pelo Hubble, por outros telescópios e até por naves espaciais, permite que os astrónomos estudem como os padrões de nuvens e as estruturas em grande escala noutros planetas do nosso Sistema Solar mudam com o decorrer do tempo.

Esta imagem compara as observações de Marte feitas durante as oposições de 2016 e 2018.
A imagem de 2016 mostra Marte durante um dia nublado. No entanto, o antigo vulcão inativo Syrtis Major, a brilhante bacia oval Hellas Planitia, Arabia Terra e as características escuras de Sinus Sabaeous e Sinus Meridiani, junto ao equador, eram claramente visíveis.
A nova imagem de 2018 foi captada quando o planeta estava envolto numa tempestade global de areia. Ainda podem ser vistas as calotas polares, Terra Meridiani, a Cratera Schiaparelli e Hellas Basin - mas todas estas características superficiais estão obscurecidas pela poeira na atmosfera.
Crédito: NASA, ESA e STScI
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Links:

Notícias relacionadas:
ESA (comunicado de imprensa)
NASA (comunicado de imprensa)
Universe Today
EurekAlert!
PHYSORG
ScienceDaily
Vox
Gizmodo

Oposição:
Wikipedia

Saturno:
Solarviews
Wikipedia
Luas de Saturno (Wikipedia) 
Anéis de Saturno (Wikipedia)

Marte:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

 
RESTO DE ESTRELA REVELA ORIGEM DE MOLÉCULAS RADIOATIVAS

Com o auxílio do ALMA e do NOEMA, os astrónomos fizeram a primeira deteção fiável de uma molécula radioativa no espaço interestelar. A componente radioativa da molécula é um isótopo do alumínio. As observações revelam que o isótopo se dispersou no espaço após a colisão de duas estrelas, a qual deu origem a um resto estelar conhecido por CK Vulpeculae. Trata-se da primeira vez que foi feita uma observação direta deste elemento numa fonte conhecida. Identificações anteriores deste isótopo tiveram origem na deteção de raios-gama, no entanto a sua origem precisa era desconhecida.

Uma equipa, liderada por Tomasz Kamiński (Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, Cambridge, EUA), usou o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) e o NOEMA (NOrthern Extended Millimeter Array) para detetar uma fonte do isótopo radioativo de alumínio-26. A fonte, conhecida por CK Vulpeculae, foi inicialmente observada em 1670 e na altura aparecia no céu como uma "estrela nova", brilhante e vermelha. Apesar de inicialmente poder ser vista a olho nu, rapidamente desvaneceu e atualmente são necessários telescópios potentes para observar os restos desta fusão: uma estrela central ténue rodeada por um halo de matéria brilhante que se afasta da estrela.

348 anos após a observação do evento inicial, os restos desta fusão estelar explosiva levaram à deteção clara e convincente de uma versão de alumínio radioativo, chamado alumínio-26. Trata-se da primeira molécula radioativa instável claramente detetada fora do Sistema Solar. Os isótopos radioativos têm um excesso de energia nuclear e decaem eventualmente para um estado estável.

Imagem composta de CK Vulpeculae — os restos de uma colisão de estrela dupla. O impacto desta colisão lançou para o espaço moléculas radioativas, que podemos ver na estrutura alaranjada de lóbulos duplos situada no centro da imagem. Trata-se de uma imagem ALMA de monofluoreto de alumínio-27, mas uma versão isotópica rara de AlF reside na mesma região. A parte vermelha difusa da imagem ALMA mostra uma zona de poeira mais alargada na região. A parte azul corresponde a dados óticos do observatório Gemini.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), T. Kamiński; Gemini, NOAO/AURA/NSF; NRAO/AUI/NSF, B. Saxton
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Esta primeira observação deste isótopo num objeto do tipo estelar é também importante no contexto mais alargado da evolução química galáctica, diz Kamiński. "Esta é a primeira vez que identificámos diretamente um produtor ativo do nuclídeo radioativo de alumínio-26."

Kamiński e a sua equipa detetaram uma assinatura espectral única de moléculas compostas por alumínio-26 e flúor (26AlF) nos restos que rodeiam CK Vulpeculae, situada a cerca de 2000 anos-luz de distância da Terra. À medida que rodam e se deslocam no espaço, estas moléculas emitem uma "impressão digital" específica nos comprimentos de onda milimétricos, um processo conhecido por transição rotacional. Os astrónomos consideram este procedimento a "norma de ouro" para a deteção de moléculas.

A observação deste isótopo particular fornece-nos novas pistas sobre o processo de fusão que deu origem a CK Vulpeculae e demonstra também que as camadas interiores densas e profundas de uma estrela onde os elementos pesados e os isótopos radioativos são formados, podem agitar-se e ser lançadas para o espaço por colisões estelares.

"Estamos a observar as 'entranhas' de uma estrela destruída por uma colisão há cerca de três séculos atrás," comenta Kamiński.

Os astrónomos determinaram também que as duas estrelas que se fundiram possuíam uma massa relativamente pequena, sendo uma delas uma gigante vermelha de massa entre 0,8 e 2,5 massas solares.

Imagem artística da colisão de duas estrelas como as que deram origem a CK Vulpeculae. A imagem inserida no canto inferior direito ilustra a estrutura interna de uma gigante vermelha antes da colisão. Uma fina camada de alumínio-26 (a castanho) rodeia um núcleo de hélio. Um envelope convectivo (não está representado à escala) forma a camada mais exterior da estrela e pode trazer o material do interior da estrela mais para a superfície, nunca atuando, no entanto, tão profundamente que possa trazer alumínio-26 para a superfície. Apenas uma colisão com outra estrela poderá dispersar este alumínio-26 para o espaço.
Crédito: NRAO/AUI/NSF; S. Dagnello
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Uma vez que é radioativo, o alumínio-26 decai, tornando-se mais estável, e nesse processo um dos protões do núcleo decai para um neutrão. Nesse momento, o núcleo excitado emite um fotão de elevada energia, o qual observamos sob a forma de um raio-gama.

Anteriormente, deteções de emissões de raios-gama mostraram que se encontram presentes na Via Láctea cerca de duas massas solares de alumínio-26, mas o processo que deu origem a estes átomos radioativos não era conhecido. Adicionalmente, devido à maneira como os raios-gama são detetados, a sua origem precisa era também algo relativamente desconhecido. Com estas novas medições, os astrónomos detetaram definitivamente e pela primeira vez um radioisótopo instável numa molécula fora do Sistema Solar.

No entanto, e paralelamente, a equipa concluiu que a produção de alumínio-26 por objetos semelhantes a CK Vulpeculae não será a fonte principal de alumínio-26 na nossa Galáxia. A massa de alumínio-26 existente em CK Vulpeculae é aproximadamente um-quarto da massa de Plutão e, dado que estes eventos ocorrem tão raramente, é altamente improvável que sejam os únicos produtores deste isótopo na Via Láctea, o que levará a efetuar estudos adicionais sobre estas moléculas radioativas.

Links:

Notícias relacionadas:
ESO (comunicado de imprensa)
Observatório ALMA (comunicado de imprensa)
NRAO (comunicado de imprensa)
Instituto Max Planck para Radioastronomia (comunicado de imprensa)
Artigo científico (PDF)
Science alert
PHYSORG

CK Vulpeculae:
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Alumínio-26:
Wikipedia

ALMA:
Página principal
ALMA (NRAO)
ALMA (NAOJ)
ALMA (ESO)
Wikipedia

ESO:
Página oficial
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NOEMA:
Página principal
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A ESPINHA DORSAL DA NOITE

Há milhares de anos que o ser humano debruça-se com fascínio sobre a faixa "leitosa" que se estende por todo o firmamento. Na Idade Moderna, Galileu Galilei descobriu que esta Via Láctea é composta por inúmeras estrelas. No entanto, só no século XX é que os astrónomos conseguiram decifrar com sucesso a sua verdadeira forma e natureza.

"A minha terceira observação diz respeito à natureza da Via Láctea (...) Não importa para onde aponte com o telescópio, encontramos um grande número de estrelas, algumas das quais são bastante grandes e impressionantes; no entanto, o número de estrelas pequenas é absolutamente incomensurável." Estas palavras foram escritas em 1610 por um homem que, com um telescópio construído por ele próprio, estudou o desconhecido que não pertencia a este mundo. Foi esse trabalho que lhe valeu um lugar na história: Galileu Galilei.

O que ele descreveu é literalmente fora deste mundo, e o documento tem o título Sidereus Nuncius ("O Mensageiro das Estrelas"). Nele, o astrónomo e matemático italiano apresenta as suas observações dos satélites de Júpiter, da Lua da Terra e da Via Láctea. Até então, a sua natureza permanecia um mistério e acima de tudo eram objetos de mitologia. O filósofo natural grego Demócrito já havia afirmado no século V aC que a faixa brilhante e difusa no céu - conhecida pelos bosquímanos africanos !Kung como a "espinha dorsal" da noite - consistia de incontáveis estrelas fracas.

A "roda de fogo": o sistema da Via Láctea, chamado galaxis, assemelha-se a uma espiral gigante com aproximadamente 200 mil milhões de estrelas. Uma delas é o nosso Sol.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/ESO/R. Hurt
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Rebolo no firmamento

No entanto, após a descoberta de Galileu, passar-se-iam quase 150 anos antes que esta estrutura celeste voltasse a ser objeto de estudo científico. Thomas Wright de County Durham pensava que as estrelas estavam dispostas numa região plana semelhante a um rebolo (mó) que se estendia por todo o céu. Para ele, a Via Láctea não era outra coisa senão a projeção desta mó. O filósofo alemão Immanuel Kant aproveitou esta teoria - e esteve muito perto de descobrir a verdade.

Na sua obra "História Geral da Natureza e Teoria do Céu", publicada em 1755, ele explicava a Via Láctea como uma camada estendida e muito diluída de estrelas. O Sol, a Terra e todos os outros planetas faziam parte dessa camada - mas não no seu centro. Dependendo da linha de visão, ao longo do plano da camada ou verticalmente, víamos números diferentes de estrelas.

Mas como foram os astrónomos capazes de descobrir se a visão aparente da Via Láctea no céu refletia a sua real estrutura espacial? As estatísticas estelares concebidas no final do século XVIII por Friedrich Wilhelm Herschel prometiam uma solução: Herschel registou as coordenadas e o brilho de todas as estrelas que podia ver através do seu telescópio.

No entanto, este empreendimento falhou: além da falta de confiabilidade das medições - por exemplo, embora fosse possível determinar o brilho aparente das estrelas, era impossível determinar a sua luminosidade absoluta e, portanto, a sua distância - havia também um problema fundamental: a Via Láctea está repleta de material interestelar, gás e nuvens de poeira que absorvem a luz das estrelas. Isto obscurece a visão da região central e torna impossível a observação da estrutura abrangente. Por esta razão, as estatísticas estelares nunca podem abranger o sistema como um todo, apenas a região em torno do Sol até um raio de aproximadamente 10.000 anos-luz. O avanço só chegou em meados do século XX, quando os astrónomos aprenderam a olhar o céu com olhos diferentes, usando radiotelescópios.

De lado, a nossa Galáxia parece-se com uma "roda dobrada". Tem um diâmetro de mais ou menos 100.000 anos-luz e uma espessura de apenas 5000 anos-luz. Em torno do centro encontra-se um bojo esférico e brilhante.
Crédito: Helmut Rohrer
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Um olhar através de cortinas de poeira

O hidrogénio é o elemento mais comum do Universo. Como parte da matéria interestelar, o hidrogénio neutro (H1) preenche o espaço entre as estrelas e, portanto, também preenche a Via Láctea. Isto significa que a distribuição das nuvens de hidrogénio gasoso traça a forma de todo o sistema, semelhante à maneira como os ossos moldam o corpo humano.

Mas como podem estes "ossos cósmicos" ser observados? A resposta é fornecida pelo nanouniverso: no estado fundamental do hidrogénio, a direção da rotação do núcleo atómico e a do eletrão que orbita em seu redor são antiparalelas. Se dois átomos de hidrogénio colidirem, a direção da rotação do núcleo e da do eletrão podem ser invertidas para acabarem paralelas uma à outra - e, depois de algum tempo, retornam ao seu estado básico antiparalelo.

Este processo liberta energia, que é irradiada como uma onda eletromagnética. Esta linha situa-se na faixa de rádio do espectro eletromagnético. Apesar da densidade extremamente baixa de matéria interestelar, os átomos estão em colisão constante, fazendo com que as áreas H1 brilhem à luz desta linha de hidrogénio.

Esta radiação penetra as cortinas de poeira quase desobstruída e pode ser captada pelos radiotelescópios. Graças a esta nova janela no Universo, os astrónomos puderam descobrir a estrutura espiral da Via Láctea. No entanto, na década de 1970, os investigadores descobriram que o hidrogénio, sozinho, não era suficiente como indicador da morfologia da Galáxia porque, por exemplo, está menos concentrado nos braços espirais do que se esperava. A busca começou de novo.

Esta imagem da parte central da Via Láctea mostra uma região com 1000 x 500 anos-luz e foi obtida com o telescópio MeerKAT na África do Sul, um sistema composto por 64 antenas.
Crédito: SARAO
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Braços em movimento

As nuvens de moléculas interestelares acabaram por ser o indicador mais importante; elas emitem radiação na luz do monóxido de carbono (CO). Agora tornava-se possível refinar cada vez mais o retrato da Via Láctea. Assim, a Galáxia (da palavra grega "gala": leite) é uma "roda dobrada", com 100.000 anos-luz em diâmetro e com uma espessura de apenas 5000 anos-luz. O centro, com o seu buraco negro, está rodeado por um bojo esférico de estrelas com uma estrutura embutida em forma de charuto - uma espécie de barra.

A aproximadamente 15.000 anos-luz do centro, estende-se um anel que é também composto por nuvens de gás e poeira, assim como estrelas. A Galáxia é caracterizada por vários braços. A maioria tem o nome das constelações estelares onde os podemos observar: os Braços de Sagitário e Perseu, os Braços de Norma e Centauro, e o Braço de Cisne, entre outros menores.

O nosso Sistema Solar está localizado no Braço de Orionte, a 26.000 anos-luz do centro e quase no plano principal. O sistema, que contém mais ou menos 200 mil milhões de sóis, está rodeado por um halo esférico que contém milhares de enxames globulares e uma região esférica constituída por plasma de hidrogénio muito fino. Toda a Galáxia gira, os objetos mais próximos do centro girando mais depressa, e aqueles mais distantes do centro girando mais devagar. A curva dessa rotação diferencial mostra irregularidades que não podem ser explicadas apenas pela massa visível.

Aqui, é provável que a matéria escura desempenhe um papel. E os astrónomos enfrentam outro problema: apesar da rotação, os braços espirais não se desdobram, mas mantêm a sua forma durante milhares de milhões de anos. Uma explicação para tal são as ondas de choque que se propagam por todo o sistema e compactam a matéria nos braços espirais como um engarrafamento numa estrada. Os investigadores ainda estão a tentar descobrir o que provoca estas ondas de densidade.

Links:

Notícias relacionadas:
Sociedade Max Planck (comunicado de imprensa)
PHYSORG

Via Láctea:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia
SEDS

Galileu Galilei:
Wikipedia
Núcleo de Astronomia do CCVAlg

William Herschel:
Wikipedia

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
  Halo de jovem galáxia fornece pistas do seu crescimento e evolução (via Observatório W. M. Keck)
Uma equipa de astrónomos descobriu um novo método de desvendar os mistérios de comos as primeiras galáxias se formaram e evoluíram. A equipa usou o Keck para estudar a jovem galáxia Q2343-BX418, a cerca de 10 mil milhões de anos-luz, análogo de galáxias mais jovens demasiado ténues para estudar em detalhe. Ler fonte
     
  Investigadores descobrem pequena lacuna no retrato de família estelar (via Universidade Estatal da Georgia)
Segundo um estudo por investigadores da Universidade Estatal da Georgia, foi descoberta uma fina lacuna no Diagrama de Hertzsprung-Russell, o mais fundamental de todos os mapas da astronomia estelar, um achado que fornece novas informações sobre as estruturas internas de estrelas de baixa massa na Via Láctea. Ler fonte
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - Uma Noite, Um Telescópio, Uma Câmara
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Fernando Cabrerizo (Centro Astronomico de Tiedra)
 
Tiradas na mesma noite, no mesmo lugar, com o mesmo telescópio e câmara, estes postais do nosso Sistema Solar são aqui mostrados à mesma escala a fim de fornecer uma comparação interessante de tamanhos aparentes. Abrangendo cerca de meio-grau no céu do planeta Terra, a foto da Lua é um mosaico composto por seis imagens. As outras são o resultado de fotogramas "empilhados" digitalmente ou exposições simples, com as distâncias reais dos objetos indicadas na parte inferior de cada inserção. A maioria dos planetas do Sistema Solar, com as suas luas mais brilhantes, e Plutão, foram captados durante a expedição telescópica de 21 de julho, à exceção do elusivo Mercúrio que escapou devido a nuvens perto do horizonte. No entanto, a Estação Espacial Internacional foi fotografada com sucesso. O telescópio e a câmara estavam localizados no Centro Astronómico do Observatório de Tiedra, Espanha.
 

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