O início da noite nesta semana tem vários astros no céu; Júpiter e Saturno tentam competir pelo lugar mais próximo da Lua, mas não são os únicos! Tentaremos "caçá-los" a todos, fotograficamente.
O AstroClube tem por objetivo desenvolver uma componente didática mais importante que durante as observações das apresentações às estrelas, que são mais lúdicas. Pretende-se que o AstroClube funcione como um "laboratório experimental" temático de astronomia. Assim, enquadra-se nesta filosofia uma certa replicação do processo científico de descobertas na Astronomia, ou de exploração prática e "Hands-On" dos conceitos de astronomia.
Data: 21 de dezembro Hora: 18:00 horas
Local:Centro Ciência Viva do Algarve
Público-alvo: Jovens e Adultos Preço: 30€ (5 sessões)
INSCRIÇÃO OBRIGATÓRIA - seguir este link Telefone: 289 890 920 E-mail: info@ccvalg.pt
Efemérides
Dia 18/12: 353.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1856 nascia J. J. Thomson, físico inglês, conhecido pela descoberta do eletrão e pela invenção do espectrómetro de massa.
Em 1958, lançamento do Projecto SCORE, o primeiro satélite de comunicações.
Em 1966, Richard Walker descobre a lua de Saturno, Epimeteu, que depois esteve "perdida" durante 12 anos.
Em 1973, é lançada a Soyuz 13, tripulada pelos cosmonautas Valentin Lebedev e Pyotr Klimuk, de Baikonur, União Soviética.
Em 1999, a NASA lança para órbita a plataforma Terra, transportando cinco instrumentos de observação terrestre: o ASTER, CERES, MISR, MODIS e MOPITT.
Em 2001, a aventureira sonda da NASA, Deep Space 1, desliga os seus motores iónicos e a missão chega ao fim.
Em 2018, um meteoro explode sobre o Mar de Bering com uma força 10 vezes superior à da bomba atómica que destruiu Hiroshima em 1945. Observações: Já alguma vez observou o nascer de Sirius? Encontre um horizonte desimpedido a este-sudeste, e fique atento(a) a Sirius a subir pelo céu a dois punhos à distância do braço esticado para baixo da cintura de três estrelas de Orionte. Sirius nasce pelas 20:15, dependendo da localização do observador.
Quando uma estrela está muito baixa tende a piscar, muitas vezes em cores vívidas. Sirius é brilhante o suficiente para mostrar muito bem estes
efeitos, especialmente através de binóculos.
Dia 19/12: 354.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1852 nascia Albert A. Michelson, físico americano conhecido pelo seu trabalho na medição da velocidade da luz e especialmente pela experiência Michelson-Morley.
Em 1972, a Apollo 17, a última missão lunar tripulada, regressava à Terra.
Em 2013, a sonda europeia Gaia é lançada para o espaço. Observações: Sirius brilha baixa a este-sudeste depois da hora de jantar. Procyon, a estrela de Cão Menor, brilha a este a cerca de dois punhos à distância do braço esticado para a esquerda de Sirius.
Mas diretamente para a esquerda? Depende. Se viver perto da latitude 30º, as duas estrelas caninas vão estar à mesma altura acima do horizonte pouco depois de nascerem. Se estiver para norte dessa latitude, como é o caso com Portugal, Procyon estará mais alta. Se estiver para sul dessa latitude, então é Sirius que está mais alta. O seu horizonte a este inclina-se de modo diferente em relação às estrelas dependendo da latitude.
Dia 20/12: 355.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1904, era fundado o Observatório Solar do Mt. Wilson.
Em 1996, morria Carl Sagan, considerado por muitos o maior divulgador de Astronomia da História.
Em 1999, lançamento da missão STS-103 do vaivém Discovery, a terceira missão de serviço ao Telescópio Hubble.
Em 2019, a Força Espacial dos EUA torna-se o primeiro ramo das Forças Armadas dos EUA desde 1947. Observações: Mercúrio em conjunção superior, pelas 03:12.
Não se esqueça que é já amanhã a Grande Conjunção entre Júpiter e Saturno. Aproveite estas noites, caso o tempo o permita!
Dia 21/12: 356.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1968, lançamento da Apollo 8. William A. Anders, James A. Lovell Jr. e Frank Borman tornaram-se nos primeiros seres humanos a sair da órbita da Terra.
Esta missão teve como objetivo alcançar a órbita da Lua, observar a sua superfície e o seu lado escuro. Duração da missão: 6 dias, 3 horas, 0 minutos e 42 segundos.
Em 1984 era lançada a sonda soviética Vega 2.
Em 2015, a SpaceX faz história, tornando-se na primeira companhia a fazer regressar, com sucesso, o estágio de um veículo de lançamento orbital à Terra para uma aterragem propulsiva numa plataforma de aterragem terrestre. Observações: Solstício de Inverno, pelas 10:02. É a noite mais longa do ano para o hemisfério norte, a mais curta para o hemisfério sul.
Júpiter a 0,1º S de Saturno, pelas 14:00. Este par faz ao anoitecer a maior aproximação entre um e outro desde a Idade Média, a partir do ponto de vista do céu da Terra. Um evento tão íntimo é muito raro. Caso o tempo permita, não deixe de observar estes planetas, quer seja à vista desarmada (parecendo um único ponto), quer com binóculos ou telescópio.
Lua em Quarto Crescente, pelas 23:41.
Cientistas detetam possível emissão de rádio de um exoplaneta
Ao monitorizar o cosmos com um conjunto de radiotelescópios, uma equipa internacional de cientistas detetou surtos de rádio emanados da direção da constelação de Boieiro - que poderão ser as primeiras emissões de rádio recolhidas de um planeta para lá do nosso Sistema Solar.
A equipa, liderada pelo investigador pós-doutorado de Cornell, Jake D. Turner, por Philippe Zarka do Observatório de Paris e por Jean-Mathias Griessmeier da Universidade de Orleães, publicou as suas descobertas na edição de 16 de dezembro da revista Astronomy & Astrophysics.
"Apresentamos uma das primeiras pistas da deteção de um exoplaneta no rádio," disse Turner. "O sinal vem do sistema Tau Boötis, que contém uma estrela binária e um exoplaneta. Defendemos o caso de uma emissão do próprio planeta. Pela força e polarização do sinal de rádio e do campo magnético do planeta, é compatível com as previsões teóricas."
Nesta impressão de artista do exoplaneta Tau Boötis b, as linhas representam o campo magnético invisível que protege o Júpiter quente do vento solar.
Crédito: Jack Madden/Universidade de Cornell
Entre os coautores está o orientador de pós-doutoramento de Turner, Ray Jayawardhana, reitor do Colégio de Artes e Ciências de Cornell e professor de astronomia.
"Se confirmado por meio de observações de acompanhamento," disse Jayawardhana, "esta deteção no rádio abre uma nova janela para exoplanetas, dando-nos uma nova maneira de examinar mundos alienígenas que estão a dezenas de anos-luz de distância."
Usando o LOFAR (Low Frequency Array), um radiotelescópio nos Países Baixos, Turner e colegas descobriram surtos de emissão de um sistema estelar que hospeda um Júpiter quente, um planeta gigante gasoso que está muito perto da sua estrela. O grupo também observou outros potenciais candidatos exoplanetários à emissão de rádio nos sistemas 55 Cancri (na constelação de Caranguejo) e Upsilon Andromedae. Apenas o sistema exoplanetário de Tau Boötis - a cerca de 51 anos-luz de distância - exibiu uma assinatura significativa no rádio, uma potencial janela única no que toca ao campo magnético do planeta.
A observação do campo magnético de um exoplaneta ajuda os astrónomos a decifrar as propriedades internas e atmosféricas, bem como a física das interações estrela-planeta, explicou Turner, membro do Instituto Carl Sagan de Cornell.
O campo magnético da Terra protege o nosso planeta dos perigos do vento solar, mantendo o planeta habitável. "O campo magnético de exoplanetas semelhantes à Terra pode contribuir para a sua possível habitabilidade," acrescentou Turner, "protegendo as suas próprias atmosferas do vento solar e dos raios cósmicos, e protegendo o planeta da perda atmosférica."
Há dois anos, Turner e colegas examinaram a emissão de rádio de Júpiter e escalaram essas emissões para imitar as possíveis assinaturas de um exoplaneta distante semelhante a Júpiter. Esses resultados tornaram-se o modelo para a investigação da emissão de rádio de exoplanetas situados a 40-100 anos-luz de distância.
Depois de se debruçarem sobre quase 100 horas de observações de rádio, os investigadores foram capazes de encontrar a assinatura esperada do Júpiter quente no sistema Tau Boötis. "Aprendemos com o nosso próprio Júpiter como é este tipo de deteção. Fomos procurá-lo e encontrámo-lo," disse Turner.
A assinatura, porém, é fraca. "Resta alguma incerteza de que o sinal de rádio detetado seja do planeta. A necessidade de observações de acompanhamento é crítica," realçou.
Turner e a sua equipa já começaram uma campanha usando vários radiotelescópios para acompanhar o sinal de Tau Boötis.
Galáxia mais distante ajuda a elucidar o Universo primordial
Um novo trabalho de uma equipa internacional de astrónomos, incluindo Gregory Walth de Carnegie, melhora a nossa compreensão do objeto astrofísico mais distante conhecido - GN-z11, uma galáxia a 13,4 mil milhões de anos-luz da Terra.
Formada 400 milhões de anos após o Big Bang, determinou-se anteriormente, graças a dados de telescópios espaciais, que GN-z11 é o objeto mais distante alguma vez descoberto. Em dois artigos publicados recentemente na revista Nature Astronomy, uma equipa liderada por Linhua Jiang do Instituto Kavli para Astronomia e Astrofísica da Universidade de Pequim obteve espectros no infravermelho próximo usando telescópios terrestres que confirmaram a distância da galáxia. Também avistaram um "flash" ultravioleta associado a uma explosão de raios-gama da galáxia.
As suas descobertas vão melhorar a nossa compreensão da formação de estrelas e galáxias no início do Universo.
Impressão de artista do objeto astrofísico mais distante conhecido - GN-z11, uma galáxia a 13,4 mil milhões de anos-luz da Terra - ilustrado com uma explosão de raios-gama avistada pelos astrónomos que permitiram a compreensão deste fenómeno no Universo primordial.
Crédito: Jingchuan Yu
O Big Bang deu início ao Universo como uma sopa quente e turva de partículas extremamente energéticas que se expandia rapidamente. Após cerca de 400.000 anos, estas partículas arrefeceram e coalesceram em gás hidrogénio neutro, dando início a uma era das trevas cósmica.
Algumas zonas de gás eram mais densas do que outras e, eventualmente, o seu material colapsou para dentro, formando os primeiros aglomerados estruturais no Universo. A energia libertada por estrelas e galáxias antigas fez com que o hidrogénio neutro espalhado por todo o Universo ficasse excitado e perdesse um eletrão - um processo chamado ionização. Como os fotões podiam viajar livremente através deste gás ionizado, o Universo voltou a ficar luminoso.
Este período de reionização cósmica durou várias centenas de milhões de anos e representa uma das transições de fase mais importantes da história do Universo. Um dos principais objetivos científicos dos telescópios de próxima geração, incluindo o GMT (Giant Magellan Telescope) em construção no Observatório de Las Campanas, é compreender esta época e detetar a luz destes primeiros objetos. No entanto, é muito difícil para os telescópios existentes detetar espectros de galáxias tão distantes, o que torna esta descoberta tão emocionante.
Impressão de artista do objeto astrofísico mais distante conhecido - GN-z11, uma galáxia a 13,4 mil milhões de anos-luz da Terra - ilustrado com uma explosão de raios-gama avistada pelos astrónomos que permitiram a compreensão deste fenómeno no Universo primordial.
Crédito: Jingchuan Yu
Obtendo observações espectroscópicas profundas de GN-z11 usando o telescópio Keck I em Mauna Kea, Hawaii, a equipa foi capaz de confirmar a sua distância de 13,4 mil milhões de anos-luz. No entanto, a análise da radiação proveniente de GN-z11 indicou uma abundância de elementos mais pesados do que o hidrogénio e hélio na composição da galáxia. Isto indica que não é uma das galáxias originais, que foram formadas a partir de um Universo pristino e frio e que não tem a cornucópia de elementos sintetizados por gerações anteriores de estrelas e semeados na matéria-prima circundante quando explodiram como supernovas.
As observações do Keck também revelaram uma explosão brilhante de luz que durou menos de três minutos. A análise detalhada revelou que este flash foi produzido por uma explosão de raios-gama (GRB) em GN-z11. Não se sabia anteriormente que estes fenómenos já existiam apenas algumas centenas de milhões de anos após o Big Bang.
"Quanto mais aprendemos sobre os primeiros objetos do Universo, melhor podemos entender como a estrutura do nosso cosmos foi moldada," disse Walth.
Os resultados mais recentes da Solar Orbiter mostram que a missão está a fazer as primeiras ligações diretas entre os eventos na superfície solar e o que está a acontecer no espaço interplanetário ao redor da aeronave. Também nos está a dar novas perspetivas sobre "fogueiras" solares, clima espacial e cometas em desintegração.
"Não poderia estar mais satisfeito com o desempenho da Solar Orbiter e as várias equipas que a mantêm e aos seus instrumentos em operação," disse Daniel Müller, cientista do projeto Solar Orbiter da ESA.
"Este ano tem sido um verdadeiro esforço da equipa em circunstâncias difíceis e agora estamos a começar a ver estes esforços realmente a valer a pena."
Imagem do Sol pela Solar Orbiter, parte de uma animação composta por exposições capturadas entre 17 e 21 de junho de 2020.
Crédito: Solar Orbiter/Equipa EUI/ESA & NASA; CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSL, LFO/IO; Imperial College
Os dez instrumentos científicos da Solar Orbiter estão divididos em dois grupos. Existem seis telescópios de sensoriamento remoto e quatro instrumentos in situ. Os instrumentos de sensoriamento remoto olham para o Sol e para a sua extensa atmosfera, a coroa. Os instrumentos in situ medem as partículas ao redor da aeronave que foram libertadas pelo Sol e são conhecidas como vento solar, juntamente com os seus campos magnéticos e elétricos. Rastrear a origem dessas partículas e campos de volta à superfície solar é um dos objetivos principais da Solar Orbiter.
Durante a primeira passagem da Solar Orbiter perto do Sol, que ocorreu a 15 de junho em que a aeronave se aproximou a 77 milhões de quilómetros, tanto o sensoriamento remoto quanto os instrumentos in situ estavam a registar dados.
Pegadas do vento solar
Os dados da Solar Orbiter tornaram possível calcular a região de origem do vento solar que atinge a aeronave e identificar essa "pegada" nas imagens de sensoriamento remoto. Num exemplo estudado em junho de 2020, a pegada é vista na borda de uma região denominada "buraco coronal", onde o campo magnético do Sol alcança o espaço, permitindo que o vento solar flua.
Embora o trabalho seja preliminar, ainda está além de tudo o que foi possível até agora.
"Nunca antes fomos capazes de mapear com esta precisão," disse Tim Horbury, Imperial College, Londres, e presidente do Solar Orbiter In-Situ Working Group.
Física das fogueiras
A Solar Orbiter também tem novas informações sobre as "fogueiras" do Sol que chamaram a atenção do mundo no início deste ano.
As primeiras imagens da missão mostraram uma infinidade do que parecia ser minúsculas erupções solares a explodir na superfície do Sol. Os cientistas chamaram-nas de fogueiras porque a energia exata associada a esses eventos ainda não é conhecida. Sem a energia, ainda não está claro se são o mesmo fenómeno que outros eventos eruptivos de menor escala que foram observados por outras missões. O que torna tudo tão tentador é que há muito se pensa que "nano-chamas" de pequena escala existem no Sol, mas nunca antes tivemos os meios de observar eventos tão pequenos.
"As fogueiras podem ser as nano-chamas que buscamos com a Solar Orbiter," diz Frédéric Auchère, Institut d’Astrophysique Spatiale, Orsay, França, e presidente do Solar Orbiter Remote-Sensing Working Group.
Isto é importante porque teoriza-se que as nano-chamas são responsáveis pelo aquecimento da coroa, a atmosfera externa do sol. O fato de que a coroa está a cerca de um milhão de graus Celsius, enquanto a superfície tem apenas cerca de 5000 graus, ainda é uma das questões mais intrigantes na física solar hoje. Investigar este mistério é um dos principais objetivos científicos da Solar Orbiter.
Imagem de alta-resolução pelo EUI (Extreme Ultraviolet Imager) a bordo da sonda Solar Orbiter da ESA, obtida com o telescópio HRIEUV no dia 30 de maio de 2020. O círculo no canto inferior esquerdo indica o tamanho da Terra para escala. A seta aponta para uma das características da superfície solar, chamadas "fogueiras" e reveladas pela primeira vez por estas imagens.
No dia 30 de maio, a Solar Orbiter estava mais ou menos a meio do caminho entre a Terra e o Sol, o que significa que estava mais perto do Sol do que qualquer outro telescópio solar até à data.
Crédito: Solar Orbiter/Equipa EUI/ESA & NASA; CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSL
Para explorar a ideia, os investigadores têm analisado dados pelo instrumento SPICE (Spectral Imaging of the Coronal Environment) da Solar Orbiter. O SPICE está projetado para revelar a velocidade do gás na superfície solar. Este mostrou que realmente existem eventos de pequena escala nos quais o gás se está a mover com uma velocidade significativa, mas ainda não foi feita a pesquisa por uma correlação com as fogueiras.
"Neste momento, só temos os dados de comissionamento, obtidos quando as equipas ainda estavam a aprender o comportamento dos seus instrumentos no espaço, e os resultados são muito preliminares. Mas, claramente, vemos coisas muito interessantes," diz Frédéric. "A Solar Orbiter tem tudo a ver com descoberta e isso é muito emocionante."
Surfar na cauda de um cometa
Assim como o progresso em direção aos objetivos científicos planeados da Solar Orbiter, também houve ciência acidental da aeronave.
Logo após a Solar Orbiter ser lançada, foi notado que voaria abaixo do Cometa ATLAS, passando pelas suas duas caudas. Embora a Solar Orbiter não tenha sido projetada para tal encontro, e não devesse estar a obter dados científicos nesse momento, os especialistas da missão trabalharam para garantir que todos os instrumentos in situ registassem o encontro único.
Mas a Natureza tinha mais uma carta a jogar: o cometa desintegrou-se antes que a aeronave se aproximasse. Portanto, em vez dos esperados sinais fortes vindos das caudas, era perfeitamente possível que a aeronave não visse absolutamente nada.
Esse não foi o caso. A Solar Orbiter viu assinaturas nos dados do cometa ATLAS, mas não o tipo de coisa que os cientistas normalmente esperariam. Em vez de um cruzamento de cauda forte e único, a aeronave detetou vários episódios de ondas nos dados magnéticos. Também detetou poeira em fragmentos. Provavelmente, foram libertados do interior do cometa, pois este dividiu-se em vários pedaços pequenos.
"Esta é a primeira vez que viajamos essencialmente através da cauda de um cometa que se está a desintegrar," diz Tim. "Há muitos dados realmente interessantes, e é outro exemplo do tipo de ciência fortuita de alta qualidade que podemos fazer com a Solar Orbiter."
O EPD (Energetic Particle Detector) da Solar Orbiter foi ligado e tem vindo a recolher dados desde março de 2020. Recolheu agora dados correspondentes a uma órbita inteira.
O EDP mede as partículas energéticas que passam pela sonda. Olhe para a sua composição e variação ao longo do tempo. Os dados vão ajudar os cientistas a investigar as fontes, mecanismos de aceleração e processos de transporte destas partículas.
O diagrama mostra o fluxo de partículas capturadas pela nave durante a sua primeira órbita (os primeiros dados não estão incluídos para evitar a sobreposição no diagrama). O fluxo é calculado a partir do ritmo a que as partículas energéticas entram no instrumento e representa eventos do clima espacial no vento solar. Os picos indicam os fluxos de eletrões (vistos aqui como picos que apontam para o Sol nesta representação) e iões (picos que apontam para longe do Sol), a uma escala logarítmica.
O vento solar é a corrente constante de partículas libertadas pelo Sol. Eventos energéticos como proeminências solares e ejeções de massa coronal podem acelerar e expelir grandes quantidades de partículas altamente energéticas. Embora o Sol tenha permanecido relativamente inativo este ano, ainda houveram vários eventos do clima espacial que aumentaram dramaticamente o número de partículas energéticas que passavam pela Solar Orbiter.
Embora este gráfico tenha dados do ED, os outros três instrumentos in situ da Solar Orbiter também estão construídos para estudar estes eventos com detalhes sem precedentes. Os outros instrumentos são o MAG (Magnetometer), o RPW (Radio and Plasma Waves) e o SWA (Solar Wind Plasma Analyser).
Ao levar estes instrumentos topo-de-gama perto do Sol, a Solar Orbiter é capaz de usar estes grandes fluxos de dados para capturar detalhes com mais fidelidade que nunca. No caso do EPD, os investigadores já estão a ver variações rápidas no número de partículas associadas com mudanças no campo magnético, tal como observado pelo MAG.
Isto está a revelar estruturas a pequena escala e novas interações físicas no vento solar que nunca haviam sido vistas antes.
Crédito: Solar Orbiter/EPD (ESA & NASA)
Clima espacial furtivo
A Solar Orbiter tem vindo a medir o vento solar durante grande parte do seu tempo no espaço, registando uma série de ejeções de partículas do sol. Depois, a 19 de abril, uma ejeção de massa coronal particularmente interessante varreu a Solar Orbiter.
Uma ejeção de massa coronal, ou EMC, é um grande evento climático espacial, no qual milhares de milhões de toneladas de partículas podem ser ejetadas da atmosfera externa do Sol. Durante esta EMC específica, que irrompeu do Sol a 14 de abril, a Solar Orbiter estava a cerca de vinte por cento do caminho da Terra ao Sol.
Alguns meses após o lançamento em fevereiro da Solar Orbiter, esta mediu os efeitos de uma ejeção de massa coronal (EMC) oriunda do Sol. Medições semelhantes de outras naves da ESA e da NASA permitiram o acompanhamento da EMC durante a sua passagem de cinco dias do Sol à Terra.
Uma EMC é uma enorme erupção de partículas da atmosfera solar, a coroa, e viaja através do Sistema Solar. As EMCs são uma parte importante do "clima espacial". As partículas desencadeiam auroras em planetas com atmosferas, e podem provocar avarias em várias tecnologias. Também podem ser perigosas para astronautas desprotegidos. De modo que é importante compreender as EMCs e ser capaz de seguir o seu progresso.
A EMC que a Solar Orbiter detetou no dia 19 de abril não foi particularmente grande ou poderosa. A SOHO da ESA, que observa EMCs que se deslocam para a Terra , praticamente não registou a erupção. No entanto, os seus efeitos foram medidos pela Solar Orbiter e mais tarde pela BepiColombo.
Também foi observada pela STEREO-A da NASA, situada a cerca de 90º para lá da linha direta Sol-Terra, e a observar diretamente para uma área do espaço por onde a EMC viajou.
A EMC entrou em erupção no dia 14 de abril às 21:54 GMT. Passou a Solar Orbiter, que estava a dirigir-se na direção da Terra, mais perto de Vénus, às 05:07 de dia 19 de abril. A BepiColombo, que estava mais perto da Terra, detetou a EMC às 07:00 GMT do mesmo dia, e finalmente passou pela Terra às 02:30 GMT de dia 20 de abril.
Com esta quantidade de dados, os investigadores podem traçar o movimento e evolução da EMC pelo tempo e pelo espaço. Representa um exemplo de "ciência multiponto", que tornar-se-á no futuro uma característica da Solar Orbiter à medida que os cientistas correlacionam as suas medições com dados de outras naves espaciais no Sistema Solar interior.
Crédito: ESA
A Solar Orbiter não foi a única aeronave que observou este evento. A missão BepiColombo Mercury da ESA estava, por acaso, a voar pela Terra na altura. Havia também uma aeronave solar da NASA, chamada STEREO, situada a cerca de noventa graus de distância da linha direta Sol-Terra, e a olhar diretamente para a área do espaço que a EMC viajou. Observou o impacto da EMC na Solar Orbiter e, em seguida, na BepiColombo e na Terra. A combinação das medições de todas as diferentes aeronaves permitiu aos investigadores realmente estudar a maneira como a ejeção de massa coronal evoluiu ao viajar pelo espaço.
Isto é conhecido como ciência multiponto e, graças ao número de aeronaves agora no sistema solar interno, tornar-se-á uma ferramenta cada vez mais poderosa na nossa busca para compreender o vento solar e o clima espacial.
"Podemos olhar para ele remotamente, podemos medi-lo in situ e podemos ver como uma EMC muda conforme se desloca em direção à Terra," diz Tim.
Talvez tão intrigantes quanto a aeronave que observou o evento, foram aquelas que não o fizeram. A aeronave SOHO da ESA-NASA, que está situada em frente à Terra e constantemente a observar o Sol em busca de erupções como esta, mal a registou. Isto coloca o evento de 19 de abril numa classe rara de eventos climáticos espaciais, denominada EMC fortuita. O estudo destes eventos mais elusivos ajudar-nos-á a entender o clima espacial de maneira mais completa.
Nos próximos anos, as oportunidades para a ciência multiponto aumentarão. No dia 27 de dezembro, a Solar Orbiter completará o seu primeiro sobrevoo em Vénus. Este evento usará a gravidade do planeta para mover a aeronave para mais perto do Sol, colocando a Solar Orbiter numa posição ainda melhor para medições conjuntas com a Parker Solar Probe da NASA, que também completará dois sobrevoos a Vénus em 2021.
Enquanto a Parker Solar Probe faz medições in situ de dentro da atmosfera solar, a Solar Orbiter obterá imagens da mesma região. Juntas, as duas aeronaves fornecerão os detalhes e uma perspetiva mais alargada.
"2021 será um momento emocionante para a Solar Orbiter", disse Teresa Nieves-Chinchilla, cientista do Projeto Solar Orbiter da NASA. "Até ao final do ano, todos os instrumentos estarão a trabalhar juntos em pleno modo de ciência, e estaremos a preparar-nos para chegar ainda mais perto do Sol."
Em 2022, a Solar Orbiter estará quase a 48 milhões de quilómetros da superfície do Sol, mais de 20 milhões de quilómetros mais perto do que em 2021.
Já está a acontecer. Saturno e Júpiter estão a aproximar-se um do outro e daqui a poucos dias aparecerão quase exatamente na mesma direção. Coincidentemente, na noite do solstício de dezembro - a noite mais longa do ano no hemisfério norte e o dia mais longo no hemisfério sul - ocorrerá a tão aguardada Grande Conjunção. Nessa noite, Saturno e Júpiter estarão ao lado um do outro - como o fazem a cada 20 anos. Mas esta conjunção não é uma qualquer Grande Conjunção - será a mais íntima desde 1623 porque os dois gigantes planetários passarão apenas a 1/10 de grau um do outro - menos do diâmetro aparente da Lua Cheia. A ilustração em destaque mostra a aproximação de Júpiter e Saturno durante novembro e dezembro nos Alpes franceses.
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