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  Astroboletim #1754  
  29/12 a 31/12/2020  
     
 
Efemérides

Dia 29/12: 364.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1923 nascia Yvonne Choquet-Bruhat, física e matemática francesa, cujo trabalho se situou na interseção da matemática com a física, nomeadamente na teoria da relatividade geral de Einstein. O seu trabalho foi aplicado na deteção das ondas gravitacionais.

Observações: A Lua brilha em Gémeos, para a esquerda de Orionte durante a noite. Forma um triângulo praticamente equilátero com a brilhante Capella para cima e com a alaranjada Aldebarã para cima e para a direita.

Dia 30/12: 365.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 2000, dá-se a passagem das sondas acopladas Cassini-Huygens por Júpiter.

Passam a 9.721.846 km do topo das nuvens de Júpiter à medida que recebem um impulso gravitacional para a última parte da viagem até Saturno.
Observações: Lua Cheia, pelas 03:28. Esta noite, encontra-se para a direita das estrelas mais brilhantes de Gémeos, Pollux e Castor.

Dia 31/12: 366.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 2011, a NASA consegue colocar em órbita lunar a primeira das duas sondas GRAIL.

Observações: A Lua nasce a este-nordeste à hora de jantar. Para cima, estão Pollux e Castor. Para a direita da Lua brilha Procyon, e ainda mais para a direita de Procyon (e também mais baixa) está a brilhante Sirius.

 
     
 
Curiosidades


Na África do Sul, a compra e venda de meteoritos é ilegal.

 
 
   
Equipa encontra evidências meteoríticas para um asteroide anteriormente desconhecido

Uma equipa de cientistas liderada pelo SwRI (Southwest Research Institute) identificou um novo asteroide, pai de meteoritos, estudando um pequeno fragmento de um meteorito que chegou à Terra há mais de uma dúzia de anos. A composição de um pedaço do meteorito Almahata Sitta (AhS) indica que o seu corpo parente era um asteroide com aproximadamente o tamanho de Ceres, o maior objeto na cintura de asteroides principal, e formado na presença de água sob temperaturas e pressões intermédias.

"Os meteoritos condritos carbonáceos registam a atividade geológica durante os primeiros estágios do Sistema Solar e fornecem informações sobre as histórias dos seus corpos originais," disse a Dra. Vicky Hamilton, autora principal de um artigo publicado na revista Nature Astronomy que descreve a investigação. "Alguns destes meteoritos são dominados por minerais que fornecem evidências de exposição à água em baixas temperaturas e pressões. A composição de outros meteoritos aponta para o aquecimento na ausência de água. As evidências de metamorfismo na presença de água em condições intermédias têm permanecido virtualmente ausentes, até agora."

 
Cientistas do SwRI estudaram a composição de uma pequena amostra de um meteoróide para determinar que provavelmente teve origem num asteroide previamente desconhecido. Esta micrografia a cores falsas da amostra mostra os inesperados cristais de anfíbolas identificados a laranja.
Crédito: NASA/USRA/LPI
 

Os asteroides - e os meteoros e meteoritos que às vezes surgem deles - são remanescentes da formação do nosso Sistema Solar há 4,6 mil milhões de anos. A maioria reside na cintura principal de asteroides entre as órbitas de Marte e Júpiter, mas as colisões e outros eventos fragmentaram-nos e ejetaram os detritos para o Sistema Solar interior. Em 2008, um asteroide com 80 toneladas e 4,1 metros de diâmetro entrou na atmosfera da Terra, explodindo em cerca de 600 meteoritos por cima do Sudão. Isto marcou a primeira vez que os cientistas previram um impacto de um asteroide antes da entrada e permitiu a recuperação de 10,5 kg de amostras.

"Recebemos uma amostra de 50 miligramas do AhS para estudo," disse Hamilton. "Montámos e polimos o minúsculo fragmento e usámos um microscópio infravermelho para examinar a sua composição. A análise espectral identificou uma gama de minerais hidratados, em particular anfíbolas, que aponta para temperaturas e pressões intermédias e um período prolongado de alteração aquosa num asteroide parental de pelo menos 640 km e até 1770 km em diâmetro.

As anfíbolas são raras nos meteoritos condritos carbonáceos, apenas tendo sido identificadas traços no meteorito Allende. "AhS é uma fonte fortuita de informação sobre os primeiros materiais do Sistema Solar que não estão representados pelos meteoritos condritos carbonáceos nas nossas coleções," disse Hamilton.

A espectroscopia orbital dos asteroides Ryugu e Bennu, visitados pelas missões Hayabusa2 do Japão e OSIRIS-REx da NASA, respetivamente, é consistente com meteoritos condritos carbonáceos alterados por água e sugere que ambos os asteroides diferem da maioria dos meteoritos conhecidos em termos do seu estado de hidratação e das evidências de processos hidrotermais a larga escala e baixa temperatura. Estas missões recolheram amostras das superfícies dos asteroides para envio à Terra.

"Se as composições das amostras Hayabusa2 e OSIRIS-REx diferirem do que temos nas nossas coleções de meteoritos, isso pode significar que as suas propriedades físicas fazem com que deixem de sobreviver aos processos de ejeção, trânsito e entrada pela atmosfera da Terra, pelo menos no seu contexto geológico original," disse Hamilton, que também faz parte da equipa científica da OSIRIS-REx. "No entanto, pensamos que existem mais materiais condritos carbonáceos no Sistema Solar do que os representados nas nossas coleções de meteoritos."

// SwRI (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)

 


Saiba mais

Almahata Sitta (2008 TC3):
Centro de Planetas Menores da UAI
NASA/JPL
Wikipedia

Meteoritos:
Wikipedia

Sistema Solar:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia

Formação e evolução do Sistema Solar:
Wikipedia

 
   
Potencialmente detetado pela primeira vez o nascimento de um magnetar devido a uma colisão colossal

Há muito tempo, no Universo distante, uma enorme explosão de raios-gama libertou mais energia em meio segundo do que o Sol irá produzir durante a sua vida inteira de 10 mil milhões de anos.

Depois de examinar o surto incrivelmente brilhante no visível, em raios-X, no infravermelho próximo e no rádio, uma equipa astrofísica da Universidade Northwestern pensa ter, potencialmente, detetado o nascimento de um magnetar.

Os investigadores pensam que o magnetar foi formado pela fusão de duas estrelas de neutrões, o que nunca tinha sido observado antes. A fusão resultou numa quilonova brilhante - a mais brilhante já vista - cuja luz finalmente atingiu a Terra no dia 22 de maio de 2020. A radiação veio ao início como um surto de raios-gama, a que se dá o nome de explosão curta de raios-gama.

 
Esta ilustração mostra a sequência da formação de um magnetar alimentado por uma quilonova, cujo brilho máximo atinge até 10.000 vezes o de uma nova clássica. 1) as duas estrelas de neutrões em órbita espiralam cada vez mais perto uma da outra. 2) Colidem e fundem-se, despoletando uma explosão que liberta mais energia em meio segundo do que o Sol vai produzir durante toda a sua vida de 10 mil milhões de anos. 3) A fusão forma uma estrela de neutrões ainda mais massiva chamada magnetar, que tem um campo magnético extraordinariamente poderoso. 4) O magnetar deposita energia no material ejetado, atingindo um brilho inesperadamente alto no infravermelho.
Crédito: NASA, ESA e D. Player (STScI)
 

"Quando duas estrelas de neutrões se fundem, o resultado previsto mais comum é que formem uma estrela de neutrões que colapsa num buraco negro em milissegundos ou menos," disse Wen-fai Fong, da Universidade Northwestern, que liderou o estudo. "O nosso trabalho mostra que é possível que, para esta explosão curta de raios-gama em particular, o objeto massivo tenha sobrevivido. Em vez de colapsar para um buraco negro, tornou-se num magnetar: uma estrela de neutrões que gira rapidamente que tem grandes campos magnéticos, despejando energia para o seu ambiente circundante e criando o brilho muito forte que vemos."

A investigação foi aceite para publicação na revista The Astrophysical Journal.

Fong é professora assistente de física e astronomia do Colégio de Artes e Ciências da Universidade Northwestern e membro do CIERA (Center for Interdisciplinary Exploration and Research in Astrophysics). A investigação envolveu dois alunos, três licenciados e três pós-doutorandos do laboratório de Fong.

A ocorrência de um novo fenómeno

Depois da radiação ter sido detetada pela primeira vez pelo Observatório Neil Gehrels Swift da NASA, os cientistas rapidamente recrutaram outros telescópios - incluindo o Telescópio Espacial Hubble da NASA, o VLA (Very Large Array), o Observatório W. M. Keck e a rede do Observatório Las Cumbres - para estudar o rescaldo da explosão e a sua galáxia hospedeira.

A equipa de Fong percebeu rapidamente que algo não batia certo.

Em comparação com as observações de raios-X e no rádio, a emissão no infravermelho próximo detetada com o Hubble era demasiado brilhante. Na verdade, era 10 vezes mais brilhante do que o previsto.

"À medida que os dados chegavam, começámos a formar uma imagem do mecanismo que produzia a radiação que observávamos," disse Tanmoy Laskar da Universidade de Bath, no Reino Unido. "Assim que obtivemos as observações do Hubble, tivemos que mudar completamente o nosso processo de pensamento, porque a informação que o Hubble acrescentou fizeram-nos perceber que tínhamos que descartar o nosso pensamento convencional e que um novo fenómeno estava a acontecer. De modo que tivemos que descobrir o que isso significava para a física por trás destas explosões extremamente energéticas."

Monstro magnético

Fong e a sua equipa discutiram várias possibilidades para explicar o brilho invulgar - conhecido como explosão curta de raios-gama - que o Hubble observou. Os investigadores pensam que as explosões curtas são provocadas pela fusão de duas estrelas de neutrões, objetos extremamente densos com mais ou menos a massa do Sol comprimida no volume de uma grande cidade. Embora a maioria das explosões curtas de raios-gama provavelmente resultem num buraco negro, as duas estrelas de neutrões que se fundiram neste caso podem ter-se combinado para formar um magnetar, uma estrela de neutrões supermassiva com um campo magnético muito poderoso.

"Basicamente temos estas linhas de campo magnético ancoradas na estrela que estão a girar cerca de 1000 vezes por segundo, e isto produz um vento magnetizado," explicou Laskar. "Estas linhas de campo giratórias extraem a energia rotacional da estrela de neutrões formada na fusão e depositam essa energia no material ejetado pela explosão, fazendo com que o material brilhe ainda mais."

"Sabemos que os magnetares existem porque vemo-los na nossa Galáxia," acrescentou Fong. "Achamos que a maioria é formada na morte explosiva de estrelas massivas, deixando para trás estas estrelas de neutrões altamente magnetizadas. "No entanto, é possível que uma pequena fração se forme em fusões de estrelas de neutrões. Nunca vimos evidências disso antes, muito menos no infravermelho, o que torna esta descoberta especial."

 
Esta imagem mostra o brilho de uma quilonova provocada pela fusão de duas estrelas de neutrões. A quilonova, cujo brilho máximo atinge até 10.000 vezes o de uma nova clássica, aparece como um ponto brilhante (indicado pela seta) para cima e para a esquerda do núcleo da galáxia hospedeira. Pensa-se que a fusão das estrelas de neutrões produziu um magnetar, que tem um campo magnético extremamente poderoso. A energia desse magnetar iluminou ainda mais o material ejetado pela explosão.
Crédito: NASA, ESA, W. Fong (Universidade Northwestern) e T. Laskar (Universidade de Bath, Reino Unido)
 

Quilonova estranhamente brilhante

Pensa-se que as quilonovas, que são normalmente 1000 vezes mais brilhantes do que uma nova clássica, acompanhem explosões curtas de raios-gama. Exclusivas à fusão de dois objetos compactos, as quilonovas brilham do decaimento radioativo dos elementos pesados ejetados durante a fusão, produzindo elementos altamente cobiçados como ouro e urânio.

"Só temos até à data uma quilonova confirmada e bem estudada," disse Jillian Rastinejad, coautora do artigo e estudante graduada do laboratório de Fong. "Portanto, é especialmente estimulante encontrar mais uma potencial quilonova que parece tão diferente. Esta descoberta deu-nos a oportunidade de explorar a diversidade de quilonovas e dos seus objetos remanescentes."

Caso o brilho inesperado visto pelo Hubble tenha vindo de um magnetar que depositou a energia no material da quilonova, então, dentro de alguns anos, o material ejetado da explosão produzirá radiação que aparece em comprimentos de onda do rádio. As observações posteriores no rádio podem, em última análise, provar que se tratava de um magnetar, levando a uma explicação da origem de tais objetos.

"Agora que temos uma candidata muito brilhante a quilonova," disse Rastinejad, "estou ansiosa pelas novas surpresas que as explosões curtas de raios-gama e que as fusões de estrelas de neutrões nos reservam no futuro."

// Universidade Northwestern (comunicado de imprensa)
// Hubblesite (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Nascimento de magnetar a partir de uma fusão de duas estrelas de neutrões (NorthwesternU via YouTube)

 


Saiba mais

Notícias relacionadas:
Space Daily
PHYSORG

Magnetar:
Wikipedia
AstronomyOnline.org

Quilonova:
Wikipedia

Explosão curta de raios-gama:
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

VLA:
Página oficial
NRAO
Wikipedia

Observatório W. M. Keck:
Página principal
Wikipedia

Observatório Las Cumbres:
Página principal
Wikipedia

 
   
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