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  Astroboletim #1778  
  23/03 a 25/03/2021  
     
 
Efemérides

Dia 23/03: 82.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1749 nascia Pierre-Simon Laplace, astrónomo e matemático francês, cujo trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da astronomia matemática e estatística.

Desenvolveu a hipótese nebular para a origem do Sistema Solar e foi um dos primeiros cientistas a postular a existência de buracos negros e a noção de colapso gravitacional.
Em 1840 era tirada a primeira fotografia (daguerreótipo) da Lua.
Em 1912 nascia Wernher Von Braun. Foi um importante pioneiro no desenvolvimento dos foguetões e da exploração espacial entre os anos 30 e 70 do século passado.
Em 1965, os EUA lançavam a Gemini 3 até à órbita da Terra transportando os astronautas Virgil (Gus) Grissom e John W. Young. Grissom e Young orbitaram a Terra três vezes. A nave Gemini era maior que as cápsulas Mercury, com um peso de 4200 kg, e transportava dois astronautas em vez de um. A Gemini 3 foi a primeira missão tripulada do programa Gemini, depois de dois testes de voo não-tripulado.
Em 2001, a estação Mir, com 15 anos, é removida de órbita e trazida até à Terra num espetáculo de fogo e fumo, para descansar nas profundezas do Oceano Pacífico Sul, perto das Ilhas Fiji.
Observações: Depois do cair da noite, procure Pollux para a direita da Lua. Mais para baixo do nosso satélite natural está Procyon, a estrela de Cão Menor. Ainda mais para baixo de Procyon brilha Sirius a estrela de Cão Maior.

Dia 24/03: 83.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1820 nascia Edmond Becquerel, físico francês que estudou o espectro solar, o magnetismo, a eletricidade e a ótica. Tem o crédito da descoberta do efeito fotovoltaico, o princípio por trás da célula fotovoltaica.
Em 1835 nascia Joseph Stefan, físico austríaco, o primeiro a determinar um valor razoável para a temperatura da superfície do Sol (5430º C).
Em 1893 nascia Walter Baade.

Foi o primeiro a discernir as companheiras da Galáxia de Andrómeda em objetos individuais e a desenvolver o conceito de população estelar em galáxias.
Em 1965, a sonda Ranger 9, equipada com instrumentos para converter os seus sinais numa forma adequada para televisão, envia imagens da Lua até aos lares antes de colidir com a superfície.
Em 1993, descoberta do Cometa Shoemaker-Levy 9.
Observações: A Lua brilha para cima e para a direita da "foice" de Leão ao início da noite. Pelas 22 ou 23 horas a Lua brilha diretamente para a direita de Leão.

Dia 25/03: 84.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1538, nascia Christopher Clavius, astrónomo e matemático alemão que modificou a proposta do calendário gregoriano moderno. Nos seus últimos anos foi provavelmente um dos mais respeitados astrónomos na Europa e os seus livros foram usados para a educação astronómica durante mais de 50 anos e até fora do continente europeu.
Em 1655, Christiaan Huygens descobria a maior lua de SaturnoTitã

Em 1979, o primeiro vaivém espacial completamente funcional, o Columbia, chega ao Centro Espacial John F. Kennedy, para ser preparado para lançamento.
Em 1992, o cosmonauta Sergei Krikalev regressa à Terra após 10 meses a bordo da estação espacial Mir.
Observações: Esta noite a Lua brilha na "foice" de Leão, mais ou menos entre Régulo para baixo e para a sua direita e Algieba (Gamma Leonis) para cima para a sua esquerda.
Esta linha de três torna-se vertical depois da meia-noite.
Também esta noite, uma linha desenhada a partir de Aldebarã que atravessa Marte aponta diretamente para Capella.

 
 
   
Hubble mostra que fluxos torrenciais de protoestrelas podem não impedi-las de crescer

Embora a nossa Galáxia seja uma cidade imensa com pelo menos 200 mil milhões de estrelas, os detalhes de como se formaram permanecem envoltos em mistério.

Os cientistas sabem que as estrelas se formam a partir do colapso de enormes nuvens de hidrogénio que são comprimidas pela gravidade até ao ponto de ignição da fusão nuclear. Mas apenas mais ou menos 30% da massa inicial da nuvem termina como uma estrela recém-nascida. Para onde vai o resto do hidrogénio durante um processo tão ineficiente?

Supõe-se que uma estrela recém-formada liberte uma grande quantidade de gás quente por meio de jatos em forma de sabre de luz e ventos semelhantes a furacões lançados do disco circundante por poderosos campos magnéticos. Estes fogos de artifício devem impedir o crescimento da estrela central. Mas um novo e abrangente levantamento do Hubble mostra que esta explicação mais comum não parece funcionar, confundindo os astrónomos.

 
Estas quatro imagens obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA revelam o caótico nascimento estelar no complexo de Orionte, a maior e mais próxima região de formação estelar. As fotos mostram estrelas bebés enterradas nos seus casulos gasosos empoeirados que anunciam os seus nascimentos por meio de ventos poderosos e pares de jatos giratórios parecidos as aspersores que disparam em direções opostas. A luz no infravermelho próximo perfura a região empoeirada para revelar detalhes do processo de nascimento. Os fluxos estelares estão a formar cavidades dentro da nuvem gasosa de hidrogénio. Este estágio relativamente breve de nascimento dura cerca de 500.000 anos. Embora envoltas em poeira, as próprias estrelas emite m radiação poderosa que atinge as paredes da cavidade e espalha grãos de poeira, iluminando com luz infravermelha as lacunas nos invólucros gasosos. Os astrónomos descobriram que as cavidades na nuvem de gás circundante, esculpidas pelo fluxo de fluxo protoestelar, não cresciam regularmente à medida que amadureciam, como propõem as teorias. As protoestrelas foram fotografadas no infravermelho pelo instrumento WFC3 do Hubble. As imagens foram obtidas dia 14 de novembro de 2009, dia 25 de janeiro, 11 de fevereiro e 11 de agosto de 2010.
Crédito: NASA, ESA, STScI, N. Habel e S. T. Megeath (Universidade de Toledo) (ver versão não legendada)
 

Os investigadores usaram dados previamente recolhidos pelos telescópios espaciais Hubble e Spitzer da NASA e pelo Telescópio Espacial Herschel da ESA para analisar 304 estrelas em desenvolvimento, chamadas protoestrelas, no complexo de Orionte, a maior e mais próxima região de formação estelar (o Spitzer e o Herschel já não estão operacionais).

Neste que é até à data o maior levantamento de estrelas nascentes, os cientistas estão a descobrir que a eliminação do gás pelo escoamento de uma estrela pode não ser tão importante na determinação da sua massa final como sugerem as teorias convencionais. O objetivo dos investigadores era determinar se os fluxos estelares interrompiam a queda de gás numa estrela e impediam o seu crescimento.

Em vez disso, descobriram que as cavidades na nuvem de gás circundante, esculpidas pelo fluxo de uma estrela em formação, não cresciam regularmente à medida que amadureciam, como propõem as teorias.

"Num modelo de formação estelar, se começarmos com uma pequena cavidade, à medida que a protoestrela rapidamente se torna mais evoluída, o seu fluxo cria uma cavidade cada vez maior até que o gás circundante é eventualmente expelido, deixando uma estrela isolada," explicou o líder da investigação Nola Habel da Universidade de Toledo, no estado norte-americano do Ohio.

"As nossas observações indicam que não há um crescimento progressivo que podemos encontrar, de modo que as cavidades não estão a crescer até que empurrem toda a massa da nuvem. Portanto, deve haver algum outro processo a acontecer que elimina o gás que não acaba na estrela."

Os resultados da equipa vão aparecer numa próxima edição da revista The Astrophysical Journal.

Nasce uma estrela

Durante o estágio relativamente breve de nascimento de uma estrela, que dura apenas mais ou menos 500.000 anos, a estrela rapidamente aumenta de massa. O que complica as coisas é que, conforme a estrela cresce, ela lança um vento, bem como um par de jatos giratórios parecidos a aspersores que disparam em direções opostas. Estes fluxos começam a corroer a nuvem circundante, criando cavidades no gás.

 
Esta imagem obtida no solo fornece uma visão mais ampla de todo o complexo da nuvem de Orionte, a maior e mais próxima região de formação estelar. O material vermelho é hidrogénio gasoso ionizado e aquecido pela radiação ultravioleta de estrelas massivas em Orionte. As estrelas formam-se em nuvens de hidrogénio gasoso frio que são invisíveis ou aparecem como regiões escuras nesta imagem. A forma crescente é conhecida como Loop de Barnard e envolve parcialmente a figura da constelação de Orionte, o Caçador. A cintura do Caçador é a cadeia diagonal de três estrelas no centro da imagem. Os seus pés são as brilhantes estrelas Saiph (em baixo à esquerda) e Rigel (em baixo à direita). Esta paisagem abrange dezenas de milhares de estrelas que se formaram e ganharam vida. Muitas ainda estão envoltas nos seus casulos natais de gás e poeira e só são vistas no infravermelho. A linha ondulante de pontos amarelos, que começa em baixo à esquerda, é uma imagem sobreposta de 304 protoestrelas obtida pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA. Os investigadores usaram os telescópios espaciais Hubble e Spitzer da NASA e o Telescópio Espacial Herschel da ESA para analisar como os fluxos das estrelas bebés esculpem cavidades nas vastas nuvens de gás. O estudo é o maior levantamento já feito sobre estrelas em desenvolvimento.
Crédito: Cortesia de R. B. Andreo, DeepSkyColors.com; Sobreposição dos dados: NASA, ESA, STScI, N. Habel e S. T. Megeath (Universidade de Toledo)
 

As teorias populares preveem que, à medida que a jovem estrela evolui e o fluxo continua, as cavidades ficam mais largas até que toda a nuvem de gás em torno da estrela é completamente afastada. Com o "tanque de combustível" vazio, a estrela para de acumular massa - por outras palavras, para de crescer.

Para procurar o crescimento da cavidade, os investigadores primeiro classificaram as protoestrelas por idade, analisando os dados do Herschel e Spitzer da emissão de luz de cada estrela. As protoestrelas nas observações do Hubble também foram observadas como parte do Levantamento de Protoestrelas de Orionte do telescópio Herschel.

De seguida, os astrónomos observaram as cavidades no infravermelho próximo com os instrumentos NICMOS (Near-infrared Camera and Multi-object Spectrometer) e WFC3 (Wide Field Camera 3). As observações foram feitas entre 2008 e 2017. Embora as próprias estrelas estejam envoltas em poeira, elas emitem radiação poderosa que atinge as paredes da cavidade e espalha grãos de poeira iluminando as lacunas nos invólucros gasosos no infravermelho.

As imagens do Hubble revelam os detalhes das cavidades produzidas pelas protoestrelas em vários estágios de evolução. A equipa de Habel usou as imagens para medir as formas das estruturas e estimar os volumes de gás libertados para formar as cavidades. A partir desta análise, puderam estimar a quantidade de massa que foi eliminada pelas explosões estelares.

"Descobrimos que no final da fase protoestelar, onde a maior parte do gás caiu da nuvem circundante para a estrela, várias estrelas jovens ainda têm cavidades bastante estreitas," disse o membro da equipa Tom Megeath da Universidade de Toledo. "Então, esta imagem que ainda é comum sobre o que determina a massa de uma estrela e o que impede a queda do gás é que esta cavidade crescente do fluxo recolhe todo o gás. Isto tem sido fundamental para a nossa ideia de como a formação estelar continua, mas simplesmente não parece encaixar aqui nos dados."

Futuros telescópios como o Telescópio Espacial James Webb da NASA vão investigar mais profundamente o processo de formação das protoestrelas. As observações espectroscópicas do Webb vão examinar as regiões internas dos discos que rodeiam as protoestrelas no infravermelho, procurando jatos nas fontes mais jovens. O Webb também ajudará os astrónomos a medir o ritmo de acreção de material do disco para estrela e estudará como o disco interno está a interagir com o fluxo.

// NASA (comunicado de imprensa)
// ESA (comunicado de imprensa)
// Universidade de Toledo (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Hubble mostra que fluxos torrenciais de protoestrelas podem não impedi-las de crescer (NASA Goddard via YouTube)

 


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Formação estelar:
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Complexo da Nuvem de Orionte:
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Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

Telescópio Espacial Spitzer:
Página oficial 
NASA
Centro Espacial Spitzer 
Wikipedia

Observatório Espacial Herschel:
ESA (ciência e tecnologia)
ESA (centro científico)
ESA (página de operações)
NASA
Caltech
Wikipedia

 
   
Medidos pela primeira vez em Júpiter ventos estratosféricos muito fortes

Com o auxílio do ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), do qual o Observatório Europeu do Sul (ESO) é um parceiro, uma equipa de astrónomos mediu diretamente e pela primeira vez ventos na atmosfera intermédia de Júpiter. Ao analisar o resultado da colisão de um cometa em 1994, os investigadores descobriram ventos muito fortes, com velocidades de até 1450 km/hora, perto dos polos de Júpiter, o que pode apontar para o que a equipa descreveu como um "monstro meteorológico único no nosso Sistema Solar".

Júpiter é famoso pelas suas distintas bandas vermelhas e brancas: nuvens serpenteantes de gás em movimento que os astrónomos usam tradicionalmente para seguir os ventos na baixa atmosfera de Júpiter. Os cientistas observam também brilhos intensos, as chamadas auroras, perto dos polos do planeta gigante, que parecem estar associadas a ventos fortes na atmosfera superior. No entanto, e até agora, os investigadores nunca tinham medido de forma direta padrões de vento entre estas duas camadas atmosféricas, i.e., na estratosfera.

 
Esta imagem mostra uma representação artística dos ventos na estratosfera de Júpiter perto do polo sul do planeta, com as linhas azuis a representarem as velocidades dos ventos. Estas linhas estão sobrepostas a uma imagem real de Júpiter, obtida pela câmara JunoCam instalada a bordo da sonda espacial Juno da NASA.
As famosas bandas de nuvens de Júpiter estão situadas na atmosfera inferior, onde já se tinham anteriormente medido ventos. No entanto, detetar ventos logo por cima desta camada atmosférica, na estratosfera, é muito mais difícil porque não existem nuvens nesta zona. Ao analisar os resultados da colisão de um cometa em 1994 e com o auxílio do ALMA, do qual o ESO é um parceiro, os investigadores conseguiram detetar ventos estratosféricos extremamente fortes, com velocidades de até 1450 km/hora, perto dos polos de Júpiter.
Crédito: ESO/L. Calçada & NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS
 

Medir velocidades do vento na estratosfera de Júpiter usando as técnicas normais de seguimento das nuvens é impossível devido à ausência de nuvens nesta parte da atmosfera. No entanto, e com a ajuda do cometa Shoemaker-Levy 9, que colidiu com o gigante gasoso de forma espetacular em 1994, os astrónomos tiveram a oportunidade de fazer estas medições utilizando uma técnica alternativa. O impacto deste cometa no planeta deu origem a novas moléculas na estratosfera de Júpiter, as quais se têm estado a movimentar com os ventos desde essa altura.

Uma equipa de astrónomos, liderada por Thibault Cavalié do Laboratoire d'Astrophysique de Bordeaux em França, seguiu uma dessas moléculas — cianeto de hidrogénio (HCN) — para medir diretamente "jatos" estratosféricos em Júpiter. Os cientistas usam a palavra "jato" para se referirem a bandas estreitas de ventos na atmosfera, tal como as correntes de jato na Terra.

"O resultado mais espetacular que obtivemos foi a deteção de jatos muito fortes, com velocidades de até 400 metros por segundo, localizados por baixo das auroras, perto dos polos," diz Cavalié. Estas velocidades dos ventos, equivalentes a cerca de 1450 km/hora, correspondem a mais do dobro das velocidades das tempestades mais fortes observadas na Grande Mancha Vermelha de Júpiter e a mais do triplo das velocidades dos ventos medidas nos tornados mais extremos da Terra.

"Esta nossa deteção indica que estes jatos se podem comportar como um vórtice gigante com um diâmetro de até quatro vezes o tamanho da Terra e com cerca de 900 km de altura," explica o coautor do trabalho Bilal Benmahi, também do Laboratoire d'Astrophysique de Bordeaux. "Um vórtice deste tamanho pode bem ser um 'monstro meteorológico' único no nosso Sistema Solar," acrescenta Cavalié.

 
Esta imagem, obtida pelo telescópio MPG/ESO de 2,2 metros e pelo instrumento IRAC, mostra a colisão do cometa Shoemaker–Levy 9 em Júpiter em Julho de 1994.
Crédito: ESO
 

Os astrónomos já sabiam da existência de ventos fortes perto dos polos de Júpiter, mas situados muito mais alto na atmosfera, a centenas de quilómetros por cima da área de foco deste novo estudo, o qual foi publicado a semana passada na revista da especialidade Astronomy & Astrophysics. Estudos anteriores previam que estes ventos na atmosfera superior diminuiriam em velocidade e desapareceriam muito antes de chegar às profundidades correspondentes à estratosfera. No entanto, "os novos dados ALMA dizem-nos o contrário," refere Cavalié, acrescentando que o facto de descobrir estes ventos estratosféricos fortes perto dos polos de Júpiter constituiu uma "verdadeira surpresa".

A equipa utilizou 42 das 66 antenas de alta precisão do ALMA, localizadas no deserto do Atacama no norte do Chile, para analisar as moléculas de cianeto de hidrogénio que se têm estado a deslocar na estratosfera de Júpiter desde o impacto do cometa Shoemaker-Levy 9. Os dados ALMA permitiram medir o desvio de Doppler — variações minúsculas na frequência da radiação emitida pelas moléculas — causado pelos ventos nesta região do planeta. "Ao medir estas variações, pudemos determinar a velocidade dos ventos, um pouco como podemos determinar a velocidade de um comboio a passar pela variação na frequência do apito do comboio," explica o coautor do estudo Vincent Hue, um cientista planetário do SwRI (Southwest Research Institute) nos EUA.

 
Esta fotografia mostra uma imagem de Júpiter obtida no infravermelho na noite de 17 de agosto de 2008 com o protótipo do instrumento MAD (Multi-Conjugate Adaptive Optics Demonstrator) montado no VLT (Very Large Telescope) do ESO. Esta imagem de cores falsas foi criada a partir de uma combinação de uma série de imagens tiradas durante um intervalo de tempo de cerca de 20 minutos, com o auxílio de três filtros diferentes (2; 2,14 e 2,16 micrómetros). A nitidez da imagem obtida é de cerca de 90 milissegundos de arco em todo o disco planetário, um verdadeiro recorde entre imagens semelhantes obtidas a partir do solo. Esta resolução corresponde a ver detalhes com dimensões de cerca de 300 km na superfície do planeta gigante. A Grande Mancha Vermelha não é visível nesta imagem, pois encontrava-se do outro lado do planeta durante as observações. As observações foram feitas nos comprimentos de onda do infravermelho, onde a absorção devido ao hidrogénio e ao metano é forte. Isto explica por que é que as cores são diferentes das que geralmente vemos na luz visível. Esta absorção significa que a luz pode ser refletida apenas por brumas existentes a altitude elevada, e não por nuvens mais profundas. Estas brumas situam-se na parte superior muito estável da troposfera de Júpiter, onde as pressões estão entre 0,15 e 0,3 bar. A mistura é fraca no interior desta região estável, por isso pequenas partículas de névoa podem sobreviver durante dias a anos, dependendo do seu tamanho e velocidade de queda. Além disso, perto dos pólos do planeta, uma névoa estratosférica mais elevada (regiões a azul claro) é gerada por interações com partículas aprisionadas no intenso campo magnético de Júpiter.
Crédito: ESO/F. Marchis, M. Wong, E. Marchetti, P. Amico, S. Tordo
 

Para além dos surpreendentes ventos polares, a equipa usou também o ALMA para confirmar a existência de ventos estratosféricos fortes em torno do equador do planeta ao medir diretamente, e também pela primeira vez, as suas velocidades. Os jatos descobertos nesta região do planeta têm velocidades médias de cerca de 600 km por hora.

As observações ALMA necessárias para seguir os ventos estratosféricos nos polos e no equador de Júpiter necessitaram de menos de 30 minutos em termos de tempo de telescópio. "Os altos níveis de detalhe que conseguimos atingir em tão pouco tempo demonstram bem o extraordinário poder do ALMA," disse Thomas Greathouse, cientista no SwRI e coautor do estudo. "Achei surpreendente obter a primeira medição direta destes ventos."

"Estes resultados do ALMA abrem uma nova janela no estudo das regiões aurorais de Júpiter, algo inesperado a apenas alguns meses atrás," disse Cavalié. "Esta descoberta preparou também o palco para as medições, semelhantes mas mais extensas, que serão levadas a cabo pela missão JUICE e o seu instrumento de ondas submilimétricas," acrescenta Greathouse, referindo-se ao JUpiter ICy moons Explorer da ESA, que se espera que seja lançado no próximo ano.

O ELT (Extremely Large Telescope) do ESO, que deverá ver a sua primeira luz durante a segunda metade desta década, irá também explorar Júpiter. O telescópio será capaz de fazer observações extremamente detalhadas das auroras do planeta, fornecendo-nos assim mais informações sobre a atmosfera de Júpiter.

// ESO (comunicado de imprensa)
// Observatório ALMA (comunicado de imprensa)
// SwRI (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astronmy & Astrophysics)
// Artigo científico (PDF)
// Animação de poderosos ventos estratosféricos perto do polo sul de Júpiter (ESO via YouTube)
// Animação das áreas de impacto do Cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter (ESO via YouTube)

 


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Júpiter:
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Cometa Shoemaker-Levy 9:
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ALMA:
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ALMA (ESO)
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ESO:
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JUICE:
ESA
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ELT (Extremely Large Telescope):
ESO
ESO - 2
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Hubble vê a mudança das estações em Saturno

O Telescópio Espacial Hubble da NASA está a dar aos astrónomos uma visão das mudanças na vasta e turbulenta atmosfera de Saturno à medida que o verão no hemisfério norte do planeta transita para outono, conforme mostrado nesta série de imagens obtidas em 2018, 2019 e 2020 (da esquerda para a direita).

"Estas pequenas mudanças anuais nas bandas coloridas de Saturno são fascinantes," disse Amy Simon, cientista planetária do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland. "À medida que Saturno se move em direção ao outono no seu hemisfério norte, vemos as regiões polares e equatoriais a mudar, mas também vemos que a atmosfera varia em escalas de tempo muito mais curtas." Simon é a autora principal de um artigo sobre estas observações publicado dia 11 de março na revista The Planetary Science Journal.

 
Imagens pelo Telescópio Espacial Hubble de Saturno obtidas em 2018, 2019 e 2020, à medida que o verão no norte hemisfério do planeta transita para outono.
Crédito: NASA/ESA/STScI/A. Simon/R. Roth
 

"O que descobrimos foi uma ligeira mudança na cor de um ano para o outro, possivelmente na altura das nuvens e nos ventos - não é surpreendente que as mudanças não sejam enormes, pois estamos a olhar apenas para uma pequena fração do ano de Saturno," acrescentou Simon. "Esperamos grandes mudanças numa escala de tempo sazonal, de modo que isto está a mostrar a progressão em direção à próxima estação."

Os dados do Hubble mostram que de 2018 a 2020 o equador ficou 5 a 10% mais brilhante e os ventos mudaram ligeiramente. Em 2018, os ventos medidos perto do equador eram de cerca de 1600 quilómetros por hora, maiores do que aqueles medidos pela sonda Cassini da NASA durante 2004-2009, quando rondavam os 1300 km/h. Em 2019 e 2020 diminuíram de volta para as velocidades da Cassini. Os ventos de Saturno também variam com a altitude, de modo que a mudança nas velocidades medidas pode significar que as nuvens em 2018 estavam cerca de 60 quilómetros mais profundas do que as medidas durante a missão Cassini. Outras observações são necessárias para saber o que está a acontecer.

Saturno é o sexto planeta a contar do Sol e orbita a uma distância de mais ou menos 1,4 mil milhões de quilómetros da nossa estrela. Demora cerca de 29 anos terrestres a completar uma órbita, fazendo com que cada estação de Saturno tenha mais de sete anos terrestres. A Terra está inclinada em relação ao Sol, o que altera a quantidade de luz solar que cada hemisfério recebe à medida que o nosso planeta se move na sua órbita. Esta variação na energia solar é o que impulsiona as nossas mudanças sazonais. Saturno também está inclinado, de modo que à medida que as estações mudam naquele mundo distante, a mudança na luz solar pode estar a provocar algumas das suas alterações observadas.

 
Imagens pelo Telescópio Espacial Hubble de Saturno obtidas em 2018, 2019 e 2020, à medida que o verão no norte hemisfério do planeta transita para outono.
Crédito: NASA/ESA/STScI/A. Simon/R. Roth
 

Como Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar, Saturno é um "gigante gasoso" feito principalmente de hidrogénio e hélio, embora possa haver um núcleo rochoso bem no interior. Tempestades enormes, algumas quase tão grandes quanto a Terra, ocasionalmente surgem das profundezas da atmosfera. Como muitos dos planetas descobertos em torno de outras estrelas também são gigantes gasosos, os astrónomos anseiam aprender mais sobre como funcionam as suas atmosferas.

Saturno é o segundo maior planeta do Sistema Solar, com mais de 9 vezes o diâmetro da Terra, com mais de 50 luas e um sistema espetacular de anéis composto principalmente de água gelada. Duas destas luas, Titã e Encélado, parecem ter oceanos sob as suas crostas geladas que podem sustentar vida. Titã, a maior lua de Saturno, é a única lua no nosso Sistema Solar com uma atmosfera espessa, incluindo nuvens que fazem chover metano líquido e outros hidrocarbonetos até à superfície, formando rios, lagos e mares. Pensa-se que esta mistura de substâncias químicas seja semelhante à da Terra há milhares de milhões de anos, quando a vida surgiu. A missão Dragonfly da NASA sobrevoará a superfície de Titã, pousando em vários locais para procurar os blocos de construção primordiais da vida.

As observações de Saturno fazem parte do programa OPAL (Outer Planets Atmospheres Legacy) do Hubble. "O programa OPAL permite-nos observar cada um dos planetas exteriores com o Hubble todos os anos, permitindo novas descobertas e observando como cada planeta está a mudar ao longo do tempo," disse Simon, investigadora principal do OPAL.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Planetary Science Journal)

 


Saiba mais

Saturno:
Solarviews
Wikipedia
Luas de Saturno (Wikipedia) 
Anéis de Saturno (Wikipedia)

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais
Programa OPAL

Dragonfly:
JHUAPL
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  Investigador teoriza que mundos com oceanos subterrâneos podem ser mais propícios à vida do que mundos com oceanos superficiais como a Terra (via SwRI)
Uma das mais profundas descobertas da ciência planetários nos últimos 25 anos é a de que mundos com oceanos por baixo de camadas de rocha e gelo são comuns no nosso Sistema Solar. Estes mundos incluem satélites gelados como Europa, Titã e Encélado, e astros distantes como Plutão. Durante a 52.ª Conferência de Ciência Lunar e Planetária, o cientista planetário S. Alan Stern escreveu que a prevalência de oceanos subterrâneos no nosso Sistema Solar sugere que possam também ser prevalentes noutros sistemas estelares, expandindo largamente as condições da habitabilidade planetária e da sobrevivência biológica ao longo do tempo. Ler fonte
 
   
Álbum de fotografias - De Cocheiro a Orionte
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Alistair Symon
 
O que há no céu desde Cocheiro até Orionte? Muitas das famosas estrelas e nebulosas nesta região foram capturadas em 34 exposições separadas, tendo mais de 430 horas de exposição, e combinadas digitalmente para revelar a imagem apresentada. Começando no canto superior esquerdo, em direção da constelação de Cocheiro, temos a pitoresca Nebulosa da Estrela Flamejante (IC 405). Continuando ao longo do arco brilhante da nossa Galáxia, a Via Láctea, da esquerda para direita cruzando as constelações de Gémeos e Touro, as nebulosas de aparência notável incluem as nebulosas do Girino, Simeis 147, Cabeça de Macaco, Medusa, e as nebulosas do Cone e Roseta. No quadrante superior direito da imagem, em direção da constelação de Orionte, podemos ver Sh2-264, o semicírculo do Loop de Barnard e as nebulosas da Cabeça de Cavalo e de Orionte. As estrelas famosas dentro e ao redor de Orionte incluem, da esquerda para a direita, a alaranjada Betelgeuse (logo à direita do centro da imagem), a azulada Bellatrix (logo acima), as estrelas da Cintura de Orionte Mintaka, Alnilam e Alnitak, enquanto a brilhante Rigel aparece no canto superior direito. Este trecho de céu não ficará visível por muito mais tempo - põe-se continuamente ao início da noite, conforme o meio do ano se aproxima.
 
   
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