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  Astroboletim #1865  
  21/01 a 24/01/2022  
     
 
Efemérides

Dia 21/01: 21.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1908, nascia Bengt Strömgren, astrónomo e astrofísico dinamarquês, famoso por desenvolver a teorias das nebulosas difusas (regiões H II) como as nebulosa Trífida e de Orionte.
Em 1960, a nave MercuryLittle Joe 1B, levantava voo a partir de Wallops Island, com Miss Sam, uma fêmea de macaco a bordo.

Em 2004, a NASA "perdia" contato com o rover Spirit, um problema de gestão de memória "flash" que viria a ser resolvido remotamente a partir da Terra a 6 de fevereiro.
Em 2018, o Electron da Rocket Lab torna-se o primeiro foguetão a alcançar órbita terrestre usando um motor alimentado a eletricidade e lança três CubeSats.
Observações: Agora que a Lua só nasce depois das 21:00, será que o seu céu ao início da noite é suficientemente escuro para ver a Via Láctea de inverno? À hora de jantar, corre verticalmente de Cão Maior baixo a sudeste, para cima entre Orionte e Gémeos, através de Cocheiro e Perseu bem alto, e desce por Cassiopeia, Cefeu e Cisne perto do horizonte a noroeste.

Dia 22/01: 22.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1968, a Apollo 5 levantava voo transportando o primeiro módulo lunar para o espaço.

Em 1992, Roberta Bondar tornava-se a primeira mulher canadiana no espaço a bordo da STS-42.
Em 1998, o vaivém espacial Endeavour é lançado na missão STS-89 para atracar com a estação espacial russa Mir.
Observações: A estrela de magnitude zero, Capella, bem alta no céu, e a igualmente brilhante estrela Rigel no pé de Orionte, têm quase a mesma ascensão reta. Isto significa que atravessam o meridiano do céu do observador quase exatamente à mesma hora: por volta das 22 horas, dependendo de quão para este ou este vive. Assim sendo, sempre que Capella passa na sua posição mais alta, Rigel assinala sempre o sul verdadeiro, e vice-versa.

Dia 23/01: 23.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1840 nascia Ernst Abbe, físico e optometrista alemão que, juntamente com Otto Schott e Carl Zeiss, lançou as bases da ótica moderna. Abbe também desenvolveu instrumentos óticos, e foi coproprietário da Carl Zeiss AG, fabricante alemã de telescópios, planetários e outros sistemas ópticos.
Em 1999, astrónomos lutam contra o tempo para obter as primeiras imagens óticas de uma das mais podersosas explosões do Universo - GRB 990123, uma explosão de raios-gama. Uma típica explosão de raios-gama é um milhão de vezes mais brilhante do que uma supernova normal. 
Em 2003 tinham lugar as últimas comunicações com a Pioneer 10.

Observações: Os Gémeos encontram-se de lado, para a esquerda de Orionte, durante as noites de janeiro. As estrelas que representam as suas cabeças, Castor e Pollux, estão o mais distante de Orionte. Castor é a estrela de topo. Os pés da figura de Castor estão logo para a esquerda da "moca" muito ténue de Orionte.

Dia 24/01: 24.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1882, nascia Harold Babcock, astrónomo americano que propôs que o ciclo das manchas solares era o resultado da rotação diferencial e do campo magnético do Sol.
Em 1947 nasce Michio Kaku, físico teórico americano, futurista, comunicador e divulgador de ciência.
Em 1978, um satélite soviético chamado Kosmos 954, com um reator nuclear a bordo, é destruído na atmosfera da Terra, espalhando detritos radioativos por cima dos Territórios Noroeste do Canadá. Apenas 1% foi recuperado.
Em 1986, a Voyager 2 passa a 81.500 km de Úrano
Em 1990, o Japão lança a Hiten, a primeira sonda lunar deste país, a primeira sonda lunar desde a soviética Luna 24 em 1976 e a primeira sonda lunar lançada por um país sem ser a União Soviética ou os Estados Unidos.

Observações: Esta é a altura do ano em que Cisne (a Cruz do norte) implanta-se na vertical no horizonte noroeste logo após o cair da noite. A sua estrela de topo é Deneb, de primeira magnitude.

 
 
   
Rover Curiosity da NASA mede assinatura intrigante de carbono em Marte
 
O rover Curiosity da NASA capturou estas nuvens logo após o pôr-do-sol de 19 de março de 2021, o 3063.º dia marciano, ou sol, da sua missão. O mosaico é constituído por 21 exposições individuais "costuradas" e corrigidas em termos de cor, para fazer com que a cena apareça como apareceria ao olho humano.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS
 

Depois de analisarem amostras de rochas em pó recolhidas da superfície de Marte pelo rover Curiosity da NASA, os cientistas anunciaram que várias das amostras são ricas num tipo de carbono que na Terra está associado a processos biológicos.

Embora a descoberta seja intrigante, não aponta necessariamente para vida antiga em Marte, uma vez que os cientistas ainda não encontraram evidências conclusivas que sustentem biologia antiga ou atual, tais como formações rochosas sedimentares produzidas por bactérias antigas, ou uma diversidade de moléculas orgânicas complexas formadas pela vida.

"Estamos a encontrar coisas em Marte que são tentadoramente interessantes, mas precisaríamos realmente de mais evidências para dizer que identificámos vida," disse Paul Mahaffy, que foi investigador principal do laboratório químico SAM (Sample Analysis at Mars), a bordo do Curiosity, até se reformar do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland, em dezembro de 2021. "Portanto, estamos a estudar o que mais poderia ter provocado a assinatura de carbono que estamos a ver, se não a vida."

Num artigo sobre os achados, publicado dia 18 de janeiro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, os cientistas do Curiosity fornecem várias explicações para os sinais invulgares de carbono que detetaram. As suas hipóteses são em parte retiradas de assinaturas de carbono na Terra, mas os cientistas advertem que os dois planetas são tão diferentes que não podem tirar conclusões definitivas com base em exemplos da Terra.

"O mais difícil é pôr de lado a Terra, pôr de lado aquele viés que temos e tentar realmente debruçarmo-nos sobre os fundamentos da química, física e processos ambientes em Marte," disse a astrobióloga de Goddard, Jennifer L. Eigenbrode, que participou no estudo do carbono. Anteriormente, Eigenbrode liderou uma equipa internacional de cientistas do Curiosity na deteção de uma miríade de moléculas orgânicas - aquelas que contêm carbono - na superfície marciana.

 
Esta imagem mostra o buraco perfurado chamado "Highfield" feito pelo rover Curiosity da NASA ao recolher uma amostra na área Vera Rubin na cratera Gale em Marte. O pó feito pela broca, neste buraco, está enriquecido de carbono-12. A imagem foi obtida pelo MAHLI (Mars Hand Lens Imager) no 2247.º dia marciano, ou sol, da missão.
Crédito: NASA/Caltech-JPL/MSSS
 

"Precisamos de abrir as nossas mentes e pensar fora da caixa," disse Eigenbrode, "e é isso que este artigo faz."

A explicação biológica que os cientistas do Curiosity apresentam no seu artigo científico é inspirada pela vida terrestre. Envolve bactérias antigas na superfície, que teriam produzido uma assinatura única de carbono ao libertarem metano para a atmosfera, onde a luz ultravioleta teria convertido esse gás em moléculas maiores e mais complexas. Estas novas moléculas teriam "chovido" até à superfície e agora poderiam ser preservadas com a sua assinatura distinta de carbono nas rochas marcianas.

Duas outras hipóteses oferecem explicações não-biológicas. Uma sugere que a assinatura de carbono poderia ter resultado da interação da luz ultravioleta com o gás dióxido de carbono na atmosfera marciana, produzindo novas moléculas contendo carbono que se teriam fixado à superfície. E a outra especula que o carbono poderia ter sido deixado para trás por um raro evento há centenas de milhões de anos, quando o Sistema Solar passou por uma nuvem molecular gigante rica no tipo de carbono detetado.

"Todas as três explicações encaixam nos dados," disse Christopher House, cientista do Curiosity na Universidade Penn State que liderou o estudo do carbono. "Precisamos simplesmente de mais dados para as confirmar ou excluir."

Para analisar o carbono à superfície marciana, a equipa de House usou o instrumento TLS (Tunable Laser Spectrometer) dentro do laboratório SAM. O SAM aqueceu 24 amostras de locais geologicamente diversos na cratera Gale do planeta a cerca de 850º C, para libertar os gases no seu interior. Em seguida, o TLS mediu os isótopos de algum do carbono reduzido que foi libertado no processo de aquecimento. Os isótopos são átomos de um elemento com massas diferentes devido ao seu número distinto de neutrões, e são instrumentais para a compreensão da evolução química e biológica dos planetas.

O carbono é particularmente importante uma vez que este elemento se encontra em toda a vida na Terra; flui continuamente através do ar, água e solo, num ciclo que é bem compreendido graças às medições isotópicas.

Por exemplo, os seres vivos na Terra utilizam o mais leve e pequeno átomo de carbono-12 para metabolizar os alimentos ou para a fotossíntese, vs. o mais pesado átomo de carbono-13. Assim, significativamente mais carbono-12 do que carbono-13 em rochas antigas, juntamente com outras evidências, sugere aos cientistas que estão a olhar para assinaturas de química relacionada com a vida. Olhar para a proporção destes dois isótopos de carbono ajuda os cientistas a discernir que tipo de vida estão a estudar e em que ambiente essa vida existiu.

Em Marte, os investigadores do Curiosity descobriram que metade das suas amostras tinham quantidades surpreendentemente grandes de carbono-12 em comparação com o que os cientistas mediram na atmosfera e em meteoritos marcianos. Segundo os investigadores, estas amostras provinham de cinco locais distintos na cratera Gale, o que pode estar relacionado com o facto de todos os locais terem superfícies antigas e bem preservadas.

"Na Terra, os processos que produziriam o sinal de carbono que estamos a detetar em Marte são biológicos," disse House. "Temos de compreender se a mesma explicação funciona para Marte, ou se existem outras explicações, porque Marte é muito diferente."

 
Este mosaico foi feito a partir de imagens tiradas pela Mast Camera a bordo do rover Curiosity da NASA no 2729.º dia marciano, ou sol, da missão. Mostra a paisagem da formação de arenito Stimson na cratera Gale. Neste local, o Curiosity perfurou o furo "Edinburgh", uma amostra do qual foi enriquecida de carbono-12.
Crédito: NASA/Caltech-JPL/MSSS
 

Marte é único porque pode ter começado com uma mistura diferente de isótopos de carbono do que a Terra há 4,5 mil milhões de anos. Marte é mais pequeno, mais frio, tem uma gravidade mais fraca e gases diferentes na sua atmosfera. Além disso, o carbono em Marte poderia estar a circular sem qualquer vida envolvida.

"Há um enorme pedaço do ciclo de carbono na Terra que envolve vida e, por causa da vida, há um pedaço do ciclo de carbono na Terra que não conseguimos compreender, porque para onde quer que olhemos há vida", disse Andrew Steele, cientista do Curiosity situado no Instituto Carnegie para Ciência em Washington, DC.

Steele notou que os cientistas estão nas fases iniciais de compreender como os ciclos de carbono em Marte funcionam e, portanto, de como interpretar os rácios isotópicos e as atividades não-biológicas que poderiam levar estas proporções. O Curiosity, que chegou ao Planeta Vermelho em 2012, é o primeiro rover com ferramentas para estudar os isótopos de carbono à superfície. Outras missões recolheram informações sobre assinaturas isotópicas na atmosfera, e os cientistas mediram rácios de meteoritos marcianos que foram recolhidos na Terra.

"A definição do ciclo de carbono em Marte é absolutamente fundamental para tentar compreender como a vida poderia caber nesse ciclo," disse Steele. "Fizemos isso com bastante sucesso na Terra, mas estamos apenas a começar a definir esse ciclo para Marte."

Os cientistas do Curiosity vão continuar a medir isótopos de carbono para ver se obtêm uma assinatura semelhante quando o rover visitar outros locais suspeitos de terem superfícies antigas bem preservadas. Para testar ainda mais a hipótese biológica envolvendo microrganismos produtores de metano, a equipa do Curiosity gostaria de analisar o conteúdo de carbono de uma pluma de metano libertada da superfície. O rover encontrou inesperadamente uma tal pluma em 2019, mas não há forma de prever se isso irá acontecer novamente. Caso contrário, os investigadores salientam que este estudo fornece orientação à equipa que está por detrás do rover Perseverance da NASA sobre os melhores tipos de amostras a recolher para confirmar a assinatura de carbono e assim determinar definitivamente se esta provém ou não de vida. O Perseverance está a recolher amostras da superfície marciana para um possível envio futuro para a Terra.

// NASA (comunicado de imprensa)
// PennState (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (PNAS)
// Artigo científico (PDF)

 


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Hubble encontra um buraco negro que desencadeia formação estelar numa galáxia anã

Os buracos negros são muitas vezes descritos como os monstros do Universo - dilacerando estrelas, consumindo tudo o que se aproxima demasiado, e mantendo a luz em cativeiro. Evidências detalhadas do Telescópio Espacial Hubble da NASA, no entanto, mostram um buraco negro sob uma nova luz: fomentando, em vez de reprimir, a formação estelar. As imagens do Hubble e a espectroscopia da galáxia anã "starbust" Henize 2-10 mostram claramente um fluxo gasoso que se estende do buraco negro a uma região brilhante de nascimento estelar como um cordão umbilical, desencadeando a já densa nuvem a formar enxames de estrelas. Os astrónomos já debateram anteriormente que uma galáxia anã poderia ter um buraco negro análogo aos buracos negros supermassivos em galáxias maiores. Um estudo mais aprofundado das galáxias anãs, que permaneceram pequenas ao longo do tempo cósmico, pode lançar luz sobre a questão de como as primeiras "sementes" de buracos negros supermassivos se formaram e evoluíram ao longo da história do Universo.

 
A galáxia anã "starburst" Henize 2-10 brilha com estrelas jovens nesta imagem no visível pelo Hubble. A região brilhante no centro, rodeada por nuvens cor-de-rosa e correntes escuras de poeira, indica a localização do enorme buraco negro da galáxia e dos viveiros estelares ativos.
Crédito: NASA, ESA, Zachary Schutte (XGI), Amy Reines (XGI); Processamento - Alyssa Pagan (STScI)
 

Muitas vezes retratados como monstros destrutivos que mantêm a luz cativa, os buracos negros assumem um papel menos maléfico nesta investigação mais recente do Telescópio Espacial Hubble da NASA. Um buraco negro no coração da galáxia anã Henize 2-10 está a criar estrelas em vez de as devorar. O buraco negro está aparentemente a contribuir para a formação de novas estrelas que está a ter lugar na galáxia. A galáxia anã encontra-se a 30 milhões de anos-luz de distância, na direção da constelação do hemisfério sul de Bússola.

Há uma década atrás, esta pequena galáxia desencadeou um debate entre os astrónomos sobre se as galáxias anãs eram o lar de buracos negros proporcionais àqueles supermassivos encontrados nos corações das galáxias maiores. Esta nova descoberta faz com que a pequena Henize 2-10, contendo apenas um-décimo do número de estrelas encontradas na nossa Via Láctea, esteja prestes a desempenhar um grande papel na resolução do mistério de onde vieram os buracos negros supermassivos em primeiro lugar.

"Há dez anos, enquanto estudante e a pensar que ia passar a minha carreira dedicada à formação estelar, olhei para os dados de Henize 2-10 e tudo mudou," disse Amy Reines, que publicou as primeiras evidências de um buraco negro na galáxia em 2011 e é a principal investigadora sobre as novas observações do Hubble, publicadas na edição de 19 de janeiro da revista Nature.

"Desde o início que sabia que algo de invulgar e especial estava a acontecer em Henize 2-10, e agora o Hubble forneceu uma imagem muito clara da ligação entre o buraco negro e uma vizinha região de formação estelar localizada a 230 anos-luz do buraco negro," disse Reines.

Essa ligação é um fluxo de gás que se estende através do espaço como um cordão umbilical até um brilhante berçário estelar. A região já era o lar de um denso casulo de gás quando o fluxo lento aí chegou. A espectroscopia do Hubble mostra que o fluxo se movia a cerca de 1 milhão de quilómetros por hora, batendo contra o gás denso como água de uma mangueira de jardim a bater num montinho de pó e a espalhá-lo para longe. Enxames de estrelas recém-nascidas pontilham o percurso do fluxo, as suas idades calculadas pelo Hubble.

Este é o efeito oposto ao que se vê em galáxias maiores, onde o material que cai em direção ao buraco negro é arrastado pelos campos magnéticos circundantes, formando jatos escaldantes de plasma e movendo-se a uma velocidade próxima da da luz. As nuvens de gás apanhadas no percurso dos jatos seriam aquecidas muito além da sua capacidade de arrefecer novamente e de formar estrelas. Mas com o buraco negro menos massivo em Henize 2-10, e o seu fluxo mais gentil, o gás foi comprimido apenas o suficiente para precipitar a formação de novas estrelas.

"A apenas 30 milhões de anos-luz de distância, Henize 2-10 está suficientemente perto para o Hubble ser capaz de captar muito claramente tanto imagens como evidências espectroscópicas de um fluxo de um buraco negro. A surpresa adicional foi que, em vez de suprimir a formação de estrelas, o fluxo estava a desencadear o nascimento de novas estrelas," disse Zachary Schutte, aluno de Reines e autor principal do novo estudo.

Desde a sua primeira descoberta de emissões distintas de rádio e raios-X em Henize 2-10, Reines pensou que provavelmente vinham de um enorme buraco negro, mas não tão supermassivo como aqueles observados em galáxias maiores. Outros astrónomos, contudo, pensaram que a radiação mais provavelmente estava a ser emitida por um remanescente de supernova, o que seria uma ocorrência familiar numa galáxia que está a formar estrelas massivas rapidamente e onde cujas estrelas massivas também explodem rapidamente.

 
Uma ampliação da região central da galáxia anã Henize 2-10 traça um fluxo, ou ponte de gás quente com 230 anos-luz de comprimento, ligando o enorme buraco negro da galáxia a uma região de formação estelar. Dados do Hubble sobre a velocidade do fluxo do buraco negro, bem como a idade das estrelas jovens, indicam uma relação causal entre as duas. Há alguns milhões de anos atrás, o fluxo de gás quente que saía do buraco negro bateu na nuvem densa de um berçário estelar e espalhou-se, como a água de uma mangueira que bate num montinho de terra. Agora enxames de jovens estrelas estão alinhados perpendicularmente ao fluxo, revelando o percurso da sua propagação.
Crédito: NASA, ESA, Zachary Schutte (XGI), Amy Reines (XGI); Processamento - Alyssa Pagan (STScI)
 

"A incrível resolução do Hubble mostra claramente um padrão semelhante a um saca-rolhas nas velocidades do gás, que podemos encaixar no modelo de um fluxo oscilante e em precessão oriundo de um buraco negro. Um remanescente de supernova não teria este padrão e por isso é efetivamente a nossa 'arma fumegante' de que se trata de um buraco negro," disse Reines.

Reines espera que ainda mais investigações sejam, no futuro, direcionadas para os buracos negros em galáxias anãs, com o objetivo de os utilizar como pistas para o mistério de como os buracos negros supermassivos foram formados no Universo jovem. É um puzzle persistente para os astrónomos. A relação entre a massa da galáxia e o seu buraco negro pode fornecer pistas. O buraco negro em Henize 2-10 tem cerca de 1 milhão de massas solares. Em galáxias maiores, os buracos negros podem ter mais de mil milhões de vezes a massa do nosso Sol. Quanto mais massiva for a galáxia hospedeira, mais massivo será o buraco negro central.

As teorias atuais sobre a origem dos buracos negros supermassivos dividem-se em três categorias: 1) formaram-se como os buracos negros de massa estelar mais pequenos, a partir da implosão de estrelas, e de alguma forma reuniram material suficiente para se tornarem supermassivos, 2) condições especiais no Universo inicial permitiram a formação de estrelas supermassivas, que colapsaram para formar "sementes" de buracos negros supermassivos, ou 3) as sementes de futuros buracos negros supermassivos nasceram em densos enxames de estrelas, onde a massa global do enxame teria sido suficiente para, de alguma forma, os formar a partir do colapso gravitacional.

Até agora, nenhuma destas teorias vai à frente da corrida. As galáxias anãs como Henize 2-10 fornecem potenciais pistas promissoras, porque permaneceram pequenas ao longo do tempo cósmico, em vez de crescerem fundindo-se com galáxias maiores como a Via Láctea. Os astrónomos pensam que os buracos negros em galáxias anãs podem servir como um análogo para os buracos negros no Universo primitivo, quando estavam apenas a começar a formar-se e a crescer.

"A era dos primeiros buracos negros não é algo que tenhamos conseguido ver, por isso tornou-se realmente a grande questão: de onde é que vieram? As galáxias anãs podem reter alguma 'memória' do cenário de 'semeadura' dos buracos negros que de outra forma se perdeu no tempo e no espaço," disse Reines.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Hubblesite (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)
// Artigo científico (PDF)
// Artigo científico de 2011 (Nature)
// Artigo científico de 2011 (arXiv.org)
// Hubble encontra um buraco negro que desencadeia formação estelar numa galáxia anã (NASA Goddard via YouTube)

 


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Henize 2-10:
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Galáxia "starburst" (Wikipedia)

Buraco negro:
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Telescópio Espacial Hubble:
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Hubblesite
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SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

 
   
Buraco negro no centro da Via Láctea é imprevisível e caótico

Uma equipa internacional de investigadores, liderada pelo estudante de pós-graduação Alexis Andrés, descobriu que o buraco negro no centro da nossa Galáxia, Sagitário A*, não só tem uma atividade irregular de dia para dia, mas também a longo prazo. A equipa analisou dados relativos a 15 anos para chegar a esta conclusão. A investigação foi iniciada por Andrés em 2019, quando era estudante de verão na Universidade de Amesterdão. Nos anos que se seguiram, continuou a sua investigação, que foi publicada na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Sagitário A* é uma forte fonte de rádio, raios-X e raios-gama (a luz visível é bloqueada por gás e poeira intervenientes). Os astrónomos sabem há décadas que a atividade de Sagitário A* é diária, emitindo surtos de radiação que são dez a cem vezes mais brilhantes do que os sinais normais observados a partir do buraco negro.

 
Esta imagem de raios-X do Centro Galáctico funde todas as observações Swift de 2006 a 2013. Sagitário A* está no centro. Os raios-X de baixa energia (300 a 1500 electrões-volt) aparecem a vermelho. Os verdes são de energia média (1500 a 3000 eV). Os azuis são de alta energia (3000 a 10000 eV).
Crédito: NASA/Swift/N. Degenaar
 

Para saber mais sobre estes misteriosos clarões, a equipa de astrónomos, liderada por Andrés, procurou padrões em 15 anos de dados disponibilizados pelo Observatório Neil Gehrels Swift da NASA, um satélite em órbita da Terra dedicado à deteção de explosões de raios-gama. O Observatório Swift tem vindo a detetar os raios-gama do buraco negro desde 2006. A análise dos dados revelou elevados níveis de atividade de 2006 a 2008, com um declínio acentuado de atividade nos quatro anos seguintes. Após 2012, a frequência das erupções voltou a aumentar - os investigadores tiveram dificuldade em distinguir um padrão.

Nos próximos anos, a equipa de astrónomos espera reunir dados suficientes para poder descartar se as variações das erupções de Sagitário A* se devem à passagem de nuvens gasosas ou estrelas, ou se algo mais pode explicar a atividade irregular observada do buraco negro central da nossa Galáxia.

"O longo conjunto de dados do Observatório Swift não aconteceu apenas por acidente," diz a coautora e anterior supervisora de Andrés, Dra. Nathalie Degenaar, também da Universidade de Amesterdão. O seu pedido destas medições específicas do satélite Swift foi concedido enquanto era estudante de doutoramento. "Desde então, tenho solicitado regularmente mais tempo de observação. É um programa de observação muito especial que nos permite realizar muita investigação."

O coautor Dr. Jakob van den Eijnden, da Universidade de Oxford, comenta as conclusões da equipa: "A forma como as erupções ocorrem exatamente permanece pouco clara. Pensava-se anteriormente que se seguiam mais erupções após nuvens de gás ou estrelas passarem pelo buraco negro, mas ainda não temos evidências disso. E ainda não podemos confirmar a hipótese de que as propriedades magnéticas do gás circundante também desempenham um papel."

// Sociedade Astronómica Real (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

Sagitário A*:
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Buraco negro supermassivo:
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Via Láctea:
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Telescópio Swift:
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Álbum de fotografias - NGC 1566: A Galáxia Espiral dos Dançarinos Espanhóis
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Mark Hanson e Mike Selby
 
Um universo insular de milhares de milhões de estrelas, NGC 1566 está situada a cerca de 60 milhões de anos-luz de distância na direção da constelação sul de Dourado. Popularmente conhecida como a galáxia dos Dançarinos Espanhóis, é vista de frente a partir da nossa perspetiva da Via Láctea. Uma espiral de grande beleza, os seus dois graciosos braços abrangem mais de 100.000 anos-luz, traçados por enxames de estrelas azuis brilhantes, regiões rosadas de formação estelar e faixas rodopiantes de poeira cósmica. O centro flamejante de NGC 1566 torna a espiral uma das mais próximas e brilhantes galáxias Seyfert. É provável que albergue um buraco negro central supermassivo, que provoca devastação nas estrelas, gás e poeira circundantes. Nesta imagem detalhada, as estrelas pontiagudas encontram-se dentro da Via Láctea.
 
   
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