Apresentação às Estrelas | E se o inverno quisesse ser primavera? Data: 10 de março de 2022 Hora: 20:30-22:30
Os últimos fins de semana de março trazem-nos um equinócio e uma mudança de hora ao relógio. Este será o tema da Apresentação Às Estrelas deste mês, que inclui ainda a observação astronómica com telescópio se a meteorologia nos for favorável! Adulto: 4€ Jovem: 2€ Menores de 12 anos: gratuito. Lotação máxima de 12 pessoas.
A observação astronómica depende de condições meteorológicas favoráveis. Pré-inscrição:siga este link Telefone: 289 890 920 E-mail: info@ccvalg.pt
Efemérides
Dia 18/02: 49.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1930, enquanto estudava fotografias tiradas em janeiro, Clyde Tombaugh descobre Plutão.
Na altura foi designado como o nono planeta do Sistema Solar e o mais afastado. Desde aí, descobrimos também quão "não parecido com um planeta" realmente é. Finalmente, em 2006 deixa de ser planeta principal para passar a ser classificado como planeta anão.
Em 1977, fazia-se o voo inaugural do vaivém espacial Enterprise a partir do topo de um Boeing 747.
Em 2003, o cometa C/2002 V1 (NEAT) atinge o periélio, visto pela SOHO.
Em 2021, o rover Perseverance, construído para explorar a cratera Jezero em Marte, aterra com sucesso no Planeta Vermelho. Observações: Depois da hora de jantar, olhe para este. A Lua, perto do horizonte, está por baixo das patas traseiras da constelação de Leão.
Dia 19/02: 50.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1473, nascia Nicolau Copérnico, conhecido como o fundador da Astronomia Moderna.
No ano de 1530, completa e anuncia ao mundo o seu grande trabalho "De Revolutionibus", que explica que a Terra roda sobre o seu próprio eixo uma vez por dia e viaja à volta do Sol anualmente.
Em 1924, Edwin Hubble escreve a Harlow Shapley: "Estará interessado em saber que encontrei uma variável Cefeida na Nebulosa de Andrómeda" (a atualmente conhecida "Galáxia de Andrómeda").
Em 2002, a sonda Mars Odyssey começava a mapear a superfície de Marte. Observações: Logo após o cair da noite esta semana, o "W" de Cassiopeia brilha alto a noroeste, apoiado quase de lado.
A estrela mais brilhante entre Cassiopeia e o zénite àquela altura (para latitudes médias norte) é Alpha Persei ou Mirfak, de magnitude 1,8. Está situada para baixo e para a direita
do enxame estelar de Alpha Persei: um grupo grande, alongado e muito solto de estrelas mais ténues com aproximadamente o tamanho do polegar à distância do braço esticado. Pelo menos uma dúzia tem magnitude 6 ou mais brilhante. É melhor visto através de binóculos.
Alpha Per, uma supergigante branca, é membro real do grupo e o seu componente mais brilhante. Ela e o resto ficam a cerca de 560 anos-luz de distância.
Dia 20/02: 51.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1962, o astronauta John Glenn, a bordo da nave Friendship 7, orbita a Terra 3 vezes em 4 horas e 55 minutos, no âmbito do programa Mercury.
Em 1965, a sonda Ranger 8 despenha-se sobre a Lua após uma missão bem-sucedida a fotografar locais para a alunagem das missões Apollo.
Em 1986, a União Soviética lança a estação espacial Mir. Permanecendo em órbita durante 15 anos, é tripulada durante 10.
Em 2013, é descoberto o exoplaneta mais pequeno até à data, Kepler-37b, com um raio pouco maior que o da Lua. Observações: Orionte está mais alto a sul por volta das 20 horas, parecendo mais pequeno do que provavelmente nos lembramos do início do inverno, quando estava mais baixo. Está a ver o efeito da "ilusão da Lua". As constelações, não apenas a Lua, parecem maiores quando estão baixas perto do horizonte.
Sob os pés de Orionte, e agora para a direita de Sirius, esconde-se Lebre. Tal como Cão Maior, esta é uma constelação que, quando juntamos os pontos, se parece realmente com o que é suposto ser. É um coelhinho agachado, em que o seu nariz aponta para baixo e para a direita, as suas ténues orelhas estendem-se para cima em direção a Rigel (o pé mais brilhante de Orionte) e o seu corpo fica para a esquerda. As suas estrelas mais brilhantes, Alpha e Beta Leporis de terceira magnitude, formam a parte de frente e a parte de trás do seu pescoço.
Dia 21/02: 52.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1556 nascia Sethus Calvisius, astrónomo alemão que na sua obra "Opus Chronologicum" expôs um sistema baseado em registos de quase 300 eclipses.
Em 1901 é observada a primeira brilhante nova do século XX.
É também a primeira a ser estudada espectralmente e fotometricamente, atingindo uma magnitude de 0,2 a 23 de fevereiro. O astrónomo amador T. D. Anderson foi o seu primeiro observador. Durante o declínio de brilho, mais ou menos 100 dias, este flutuou com um período de 4 dias e uma amplitude de magnitude e meia.
Em 1972, a sonda soviética Luna 20 aterra na Lua. Observações: Por volta das 21 horas, a Ursa Maior apoia-se na sua "pega" a nordeste. A noroeste, a constelação de Cassiopeia também se apoia à mesma altura. À medida que a primavera se aproxima, a Ursa sobe mais e Cassiopeia desce.
Buraco negro supermassivo encontrado por trás de um anel de poeira cósmica
Com o auxílio do VLTI (Very Large Telescope Interferometer) do ESO, foi observada uma nuvem de poeira cósmica no centro da galáxia Messier 77, no seio da qual se encontra um buraco negro supermassivo. A descoberta confirmou previsões feitas há cerca de 30 anos atrás e dá aos astrónomos novas pistas sobre os "núcleos ativos de galáxias", objetos cósmicos que se situam entre os mais brilhantes e enigmáticos que existem no Universo.
O painel esquerdo mostra uma imagem da galáxia ativa Messier 77 capturada com o instrumento FORS2 (FOcal Reducer and low dispersion Spectrograph 2) montado no VLT do ESO. No painel da direita podemos ver uma vista de primeiro plano da região central desta galáxia, o seu núcleo galáctico ativo, observado pelo instrumento MATISSE montado no VLTI do ESO.
Crédito: ESO/Jaffe, Gámez-Rosas et al.
Os NAGs (Núcleos Ativos de Galáxias) são fontes extremamente energéticas impulsionadas por buracos negros supermassivos que se encontram no centro de algumas galáxias. Estes buracos negros alimentam-se de enormes quantidades de gás e poeira cósmica. Antes de ser "engolido", o material espirala em direção ao buraco negro, libertando-se enormes quantidades de energia no processo que, frequentemente, é mais luminoso que todas as estrelas da galáxia.
Os NAGs têm intrigado os astrónomos desde que estes objetos brilhantes foram inicialmente observados na década de 1950. Agora, e graças ao VLTI do ESO, uma equipa de investigadores, liderada por Violeta Gámez Rosas da Universidade de Leiden nos Países Baixos, deu um passo em frente na compreensão de como é que os NAGs funcionam e qual a sua aparência quando vistos de perto. Os resultados foram publicados esta semana na revista Nature.
Ao executarem observações extremamente detalhadas do centro da galáxia Messier 77, também conhecida por NGC 1068, Gámez Rosas e a sua equipa detetaram um anel espesso de gás e poeira cósmica que esconde um buraco negro supermassivo. Esta descoberta fornece evidências cruciais que apoiam a teoria conhecida por Modelo Unificado dos NAGs e formulada já há mais de 30 anos atrás.
Os astrónomos sabem que existem diferentes tipos de NAGs. Por exemplo, alguns emitem no rádio enquanto outros não; alguns NAGs brilham intensamente no visível, enquanto outros, como Messier 77, são bastante ténues nestes comprimentos de onda. O Modelo Unificado diz que, apesar destas diferenças, todos os NAGs apresentam a mesma estrutura básica: um buraco negro supermassivo rodeado por um anel denso de poeira.
Esta imagem, capturada pelo instrumento MATISSE, montado no VLTI do ESO, mostra a região interna da galáxia ativa Messier 77. Os núcleos galácticos ativos são fontes extremamente energéticas alimentadas por buracos negros supermassivos. Ao levar a cabo observações muito detalhadas do centro ativo desta galáxia, uma equipa de astrónomos detetou um anel espesso de gás e poeira cósmica, no seio do qual está escondido um buraco negro supermassivo. O ponto preto mostra a posição mais provável do buraco negro, enquanto as duas elipses mostram a extensão, em projeção, do espesso anel interior de poeira (a tracejado) e do disco extenso fino de poeira.
Crédito: ESO/Jaffe, Gámez-Rosas et al.
De acordo com este modelo, qualquer diferença na aparência dos NAGs deve-se à orientação com que vemos, a partir da Terra, o buraco negro e o seu anel denso. O tipo de NAG que vemos depende de quanto é que o anel obscurece o buraco negro, do nosso ponto de vista, por vezes tapando-o completamente.
Os astrónomos encontraram anteriormente algumas evidências que apoiam o Modelo Unificado, incluindo a descoberta de poeira quente no centro de Messier 77. Contudo, restavam ainda dúvidas sobre se esta poeira poderia esconder completamente o buraco negro e assim explicar porque é que este NAG brilha menos intensamente no visível do que outros.
"A verdadeira natureza das nuvens de poeira e o seu papel, tanto em alimentar o buraco negro como em determinar como é que o vemos a partir da Terra, têm sido questões centrais nos estudos dos NAGs nas últimas três décadas," explica Gámez Rosas. "Apesar de nenhum estudo individual resolver todas as questões que temos sobre este assunto, o certo é que demos um grande passo em frente na nossa compreensão do funcionamento dos NAGs."
As observações foram possíveis graças ao instrumento MATISSE (Multi AperTure mid-Infrared SpectroScopic Experiment) montado no VLT do ESO, situado no deserto chileno do Atacama. O MATISSE combina a luz infravermelha recolhida pelos quatro telescópios de 8,2 metros do VLT por meio da técnica de interferometria. A equipa utilizou este instrumento para observar o centro de Messier 77, localizado a 47 milhões de anos-luz de distância da Terra na direção da constelação da Baleia.
"O MATISSE consegue observar um grande domínio de comprimentos de onda infravermelhos, permitindo-nos assim observar através da poeira e medir temperaturas com precisão. Como o VLTI é um interferómetro muito grande, temos efetivamente resolução suficiente para ver o que se passa em galáxias tão distantes como Messier 77. As imagens obtidas mostram detalhadamente variações em temperatura e absorção das nuvens de poeira situadas em torno do buraco negro," diz o coautor do estudo Walter Jaffe, professor na Universidade de Leiden.
Esta ilustração mostra como poderá ser o núcleo de Messier 77. Tal como outros núcles ativos de galáxias, a região central de Messier 77 é alimentada por um buraco negro que se encontra rodeado por um disco de acreção fino, o qual está por sua vez rodeado por um anel espesso de gás e poeira. No caso de Messier 77, este anel espesso obscurece completamente a nossa visão do buraco negro supermassivo. Pensa-se que este núcleo ativo de galáxia tenha também jatos, assim como ventos poeirentos, que emergem da região que rodeia o buraco negro perpendicularmente ao disco de acreção.
Créditos: ESO/M. Kornmesser e L. Calçada
Ao combinar as variações da temperatura da poeira (que vão desde a nossa temperatura ambiente até cerca de 1200º C), causadas pela radiação intensa emitida pelo buraco negro, com mapas de absorção, a equipa conseguiu criar uma imagem detalhada da poeira e localizar o sítio onde deve estar o buraco negro. Assim, a poeira localizada num anel interior espesso e num disco fino mais estendido juntamente com o buraco negro situado no seu centro apoiam claramente o Modelo Unificado. A equipa usou também dados do ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), do qual o ESO é um parceiro, e do VLBA (Very Long Baseline Array) do NRAO (National Radio Astronomy Observatory) dos EUA, para construir a imagem.
"Os nossos resultados deverão ajudar-nos a compreender melhor o funcionamento interno dos NAGs," conclui Gámez Rosas, "assim como a perceber também melhor a história da nossa Via Láctea, a qual contém um buraco negro supermassivo no seu centro, que pensamos ter estado ativo no passado."
Os investigadores querem agora usar o VLTI do ESO para encontrar mais evidências que apoiem o Modelo Unificado dos NAGs, observando mais galáxias deste tipo.
Bruno Lopez, membro da equipa e Investigador Principal do instrumento MATISSE do Observatoire de la Côte d'Azur em Nice, França, disse: "Messier 77 é um importante protótipo de NAG e este resultado dá-nos uma grande motivação para expandirmos o nosso programa observacional e otimizarmos o MATISSE para observar uma amostra maior de NAGs."
O ELT (Extremely Large Telescope) do ESO, que deverá começar a observar mais para o final desta década, irá também ajudar nesta busca, fornecendo resultados que complementarão os resultados da equipa e permitirão explorar a interação entre NAGs e galáxias.
Um estudo sem precedentes das massas de mais de 500 enxames de galáxias
Uma equipa de investigadores do grupo de cosmologia do IAC (Instituto de Astrofísica de Canarias) obteve uma das medições mais precisas das massas de enxames de galáxias e da sua relação com a quantidade de gás quente nesses enxames. Para tal, estudaram a dinâmica das galáxias em 570 enxames selecionados a partir do catálogo produzido pelo satélite Planck da ESA. Este estudo foi produzido durante quatro anos de trabalho, no qual mais de 10.000 espectros foram obtidos com o TNG (Telescopio Nazionale Galileo) e com o GTC (Gran Telescopio Canarias) no Observatório Roque de los Muchachos (Garafía, La Palma, Ilhas Canárias), bem como dados do arquivo público do SDSS (Sloan Digital Sky Survey). O resultado permite aos investigadores inferir a quantidade de matéria escura no Universo.
Imagem do enxame de galáxias Abell 370. O centro do enxame encontra-se na parte superior direita da imagem. Na mesma zona podem-se ver as imagens de galáxias ampliadas por lentes gravitacionais, algumas delas mostrando morfologias altamente deformadas e alongadas, que são denominadas arcos.
Crédito: GRANTECAN/SHARDS Frontier Fields
Os enxames de galáxias são as maiores estruturas gravitacionalmente ligadas do Universo. A medição das suas distribuições no espaço e no tempo fornece uma das formas mais poderosas da cosmologia moderna para determinar a origem e o conteúdo energético do Universo, o seu ritmo de expansão durante a evolução cósmica e os detalhes do processo de formação de toda a estrutura em grande escala que podemos observar no Universo atual.
Estes enormes aglomerados não são constituídos apenas por galáxias, que na realidade compreendem menos de 2% da sua massa total. Além disso, contêm gás extremamente quente, que constitui cerca de 15% da massa, e uma grande quantidade de matéria escura que constitui mais de 80% da massa total. A natureza "multicomponente" dos enxames galácticos significa que podem ser estudados utilizando uma grande variedade de técnicas de observação. Ao passo que o gás quente pode ser observado em raios-X e em micro-ondas, o componente galáctico é principalmente observável no ótico e no infravermelho.
Mas para estudar a distribuição da matéria escura precisamos de utilizar vários métodos indiretos. Geralmente, a massa total (que inclui a componente escura) é muitas vezes traçada utilizando o efeito de lente gravitacional produzido pela maior concentração de massa nos enxames sobre imagens de objetos que ficam por trás, a partir do nosso ponto de vista. Estas medições dão geralmente uma elevada precisão. Contudo, este novo estudo utilizou as medições das velocidades das galáxias para deduzir a gravidade total dos enxames e atingiu pela primeira vez uma precisão comparável às das medições utilizando lentes gravitacionais.
Utilizando mapas de micro-ondas do satélite Planck também foi possível estimar a massa do gás nos enxames e, indiretamente, derivar a massa total. Devemos esperar que as massas de todas as técnicas sejam iguais, dando um único valor para a massa de qualquer enxame. Mas isto não acontece, porque cada técnica sofre de dificuldades intrínsecas específicas. Mesmo assim, ao comparar os resultados, as diferenças podem ser medidas com bastante precisão, e assim as verdadeiras massas dos enxames de galáxias podem ser mais bem conhecidas.
Marco histórico na precisão das medições
Com este objetivo em mente, a equipa de investigadores usou os dois catálogos PSZ1 e PSZ2 de enxames de galáxias detetados pelo satélite Planck usando os seus sinais de micro-ondas, o que fornece uma estimativa das massas dos enxames utilizando os sinais de micro-ondas. Além disso, as massas dinâmicas dos enxames foram estimadas através da medição das velocidades radiais das galáxias utilizando a espectroscopia. Estas observações foram feitas com o TNG (Telescopio Nazionale Galileo) e com o GTC (Gran Telescopio Canarias) no Observatório Roque de los Muchachos. "Fizemos um grande esforço de observação durante vários anos, explorando mais de 400 enxames de galáxias dos catálogos PSZ1 e PSZ2," comenta Rafael Barrena, astrofísico do IAC e membro da equipa de observação.
"Os resultados obtidos do catálogo PSZ1 do Planck mostram que as estimativas de massa utilizando os seus valores de produção de gás são cerca de 20% mais baixos do que aquelas baseadas na dinâmica das suas galáxias," explica Antonio Ferragamo, investigador do IAC que baseou a sua tese de doutoramento neste trabalho. "Estes resultados são confirmados para os enxames no catálogo PSZ2 do Planck e são compatíveis com medições de outros autores que aplicaram técnicas diferentes (raios-X, lentes gravitacionais, etc.)", acrescenta.
Alejandro Aguado, investigador do IAC que também baseou a sua tese de doutoramento nos resultados deste trabalho, salienta que "a importância do estudo é, por um lado, a alta precisão obtida através da medição dinâmica da massa, com um erro inferior a 10% que é um marco histórico nas medições desta quantidade e, por outro lado, a coerência com os valores estimados pelo consórcio Planck. Neste momento, muito poucas medições dão um erro estatístico tão baixo e isto deve-se ao grande número de enxames utilizados na amostra."
Novas questões em Cosmologia
A partir de uma perspetiva cosmológica, a confirmação destes valores coloca-nos novas questões. "A partir dos dados do satélite Planck verificamos que existe uma aparente discordância entre a quantidade de matéria escura no Universo, prevista utilizando as medições da abundância de enxames de galáxias e entre aquela inferida a partir dos mapas do fundo cósmico de micro-ondas, a radiação fóssil remanescente da origem do Universo," explica José Alberto Rubiño, astrofísico do IAC e membro do grupo de investigação. "Os valores da matéria escura inferidos a partir das abundâncias de enxames de galáxias são 5% maiores do que os baseados em medições da radiação micro-ondas de fundo, e por sua vez estas últimas medições indicam que a quantidade de enxames de galáxias que detetámos deveria ter sido ligeiramente maior," diz.
Os resultados encontrados no presente estudo, recentemente publicado na revista da especialidade Astronomy & Astrophysics, mostram que as abundâncias de enxames galácticos e os dados da radiação cósmica de fundo levam a modelos cosmológicos ligeiramente diferentes, uma discordância já antecipada pela colaboração Planck. "Se a diferença entre as massas inferidas utilizando o gás e as massas dinâmicas tivesse sido cerca de 35%, em vez dos 20% que medimos, esta ligeira tensão entre os modelos cosmológicos reconstruídos teria desaparecido," realça Rubiño. "A resolução desta discrepância poderia dar-nos uma ferramenta para determinar, no futuro, a massa dos neutrinos através dos seus efeitos na cosmologia, ou mesmo mostrar-nos que precisamos de modificar o modelo cosmológico padrão, ou até a Relatividade Geral," sublinha o investigador.
"Explicar esta aparente discrepância é uma das principais questões da cosmologia atual, que ainda existe depois do nosso trabalho e que terá de ser investigada nos próximos anos," diz Barrena. "Missões espaciais como a EUCLID (ESA) ou a Litebird (JAXA/ESA), nas quais o IAC é participante ativo, vão desempenhar um papel essencial num futuro muito próximo," conclui.
Cientistas descobrem como as galáxias podem existir sem matéria escura
Num novo estudo publicado na revista Nature Astronomy, uma equipa internacional liderada por astrofísicos da Universidade da Califórnia, em Irvine, e da Universidade Pomona relatam como, quando galáxias minúsculas colidem com galáxias maiores, as galáxias maiores podem despojar as galáxias mais pequenas da sua matéria escura - matéria que não podemos ver diretamente, mas que os astrofísicos pensam que deve existir porque, sem os seus efeitos gravitacionais, não poderiam explicar coisas como os movimentos das estrelas de uma galáxia.
É um mecanismo que tem o potencial de explicar como as galáxias poderiam ser capazes de existir sem matéria escura - algo que outrora se pensava impossível.
Distribuição da matéria escura num grupo de galáxias simuladas, com áreas mais brilhantes mostrando maiores concentrações de matéria escura. Os círculos mostram ampliações da luz estelar associada a duas galáxias sem matéria escura. Se estas galáxias tivessem matéria escura, apareceriam como regiões brilhantes na imagem principal.
Crédito:
Moreno et al.
Tudo começou em 2018 quando os astrofísicos Shany Danieli e Pieter van Dokkum da Universidade de Princeton e da Universidade de Yale observaram duas galáxias que pareciam existir sem a maior parte da sua matéria escura.
"Esperávamos grandes frações de matéria escura," disse Danieli, coautora do estudo mais recente. "Foi bastante surpreendente e tivemos muita sorte, para dizer a verdade."
A feliz descoberta, que van Dokkum e Danieli relataram num artigo na revista Nature em 2018 e noutro publicado em 2020 na revista The Astrophysical Journal Letters, abalou o paradigma das galáxias necessitarem de matéria escura, potencialmente acabando com o que os astrofísicos tinham vindo a ver como um modelo padrão para a forma como as galáxias funcionam.
"Ao longo dos últimos 40 anos, foi estabelecido que as galáxias têm matéria escura," disse Jorge Moreno, professor de astronomia na Universidade Pomona, que é o autor principal do novo artigo. "Em particular, as galáxias de baixa massa tendem a ter frações significativamente mais elevadas de matéria escura, o que torna a descoberta de Danieli bastante surpreendente. Para muitos de nós, isto significa que o nosso entendimento atual de como a matéria escura ajuda as galáxias a crescer, necessitava de uma revisão urgente."
A equipa correu modelos informáticos que simularam a evolução de uma área do Universo - com cerca de 60 milhões de anos-luz de diâmetro - começando logo após o Big Bang e indo até ao presente.
A equipa encontrou sete galáxias desprovidas de matéria escura. Após várias colisões com galáxias vizinhas 1000 vezes mais massivas, foram despojadas da maior parte do seu material, deixando para trás nada mais do que estrelas e alguma matéria escura residual.
"Foi pura serendipidade," disse Moreno. "No momento em que fiz as primeiras imagens, partilhei-as imediatamente com Danieli e convidei-a a colaborar."
Robert Feldmann, professor da Universidade de Zurique que concebeu a nova simulação, disse que "este trabalho teórico mostra que as galáxias com deficiência de matéria escura devem ser muito comuns, especialmente nas proximidades de galáxias massivas."
James Bullock da Universidade da Califórnia em Irvine, astrofísico que é especialista de renome mundial em galáxias de baixa massa, descreveu como ele e a equipa não construíram o seu modelo apenas para poderem criar galáxias sem matéria escura - algo que ele disse torna o modelo mais forte, porque não foi concebido de forma alguma para criar as colisões que acabaram por encontrar. "Não pressupomos as interações," disse Bullock.
Confirmar que as galáxias sem matéria escura podem ser explicadas num Universo onde há muita matéria escura é um suspiro de alívio para investigadores como Bullock, cuja carreira e tudo o que descobriu depende da matéria escura ser a coisa que faz com que as galáxias se comportem da forma como se comportam.
"A observação de que existem galáxias sem matéria escura tem sido um pouco preocupante para mim," disse Bullock. "Temos um modelo de sucesso, desenvolvido ao longo de décadas de trabalho árduo, onde a maior parte da matéria do cosmos é escura. Há sempre a possibilidade de que a natureza nos tem enganado."
Mas, disse Moreno, "não é preciso livrarmo-nos do paradigma padrão da matéria escura."
Agora que os astrofísicos sabem como uma galáxia pode perder a sua matéria escura, Moreno e colaboradores esperam que as descobertas inspirem os investigadores que olham para o céu noturno a procurar galáxias massivas do mundo real que possam estar no processo de retirar matéria escura a galáxias mais pequenas.
"Ainda não significa que este modelo esteja certo," disse Bullock. "Um verdadeiro teste será ver se estas coisas existem com a frequência e com as características gerais que correspondem às nossas previsões."
Álbum de fotografias - Nuvem Molecular de Camaleão
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: aquisição - Stas Volskiy (Chilescope.com), processamento - Robert Eder
Marcas escuras e nebulosas brilhantes nesta vista telescópica do céu do hemisfério sul são sinais indicadores de estrelas jovens e de formação estelarativa. Estão a apenas 650 anos-luz de distância, no limite da bolha local e do complexo de nuvens moleculares de Camaleão. As regiões com estrelas jovens identificadas como nebulosas poeirentas de reflexão do catálogo Cederblad de 1946 incluem Ced 110, em forma de C, logo acima e à esquerda do centro, e a azulada Ced 111 por baixo. Também em destaque na imagem, a forma de V da alaranjada Nebulosa Infravermelha de Camaleão (Cha IRN), esculpida por um fluxo de material de uma estrela de baixa massa recentemente formada. A composição abrange 1,5 graus. São cerca de 17 anos-luz à distância estimada da nuvem molecular próxima de Camaleão I.
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