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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1965  
  06/01 a 09/01/2023  
     
 

APRESENTAÇÃO ÀS ESTRELAS
Os planetas mais próximos

Data: 12 de janeiro de 2023
Hora: 18:30-20:30
Que planeta fica mais próximo da Terra? Esta pergunta pode ter várias interpretações e, por isso, vamos dar várias respostas nesta sessão! E para cada uma vamos dizer onde no céu os podemos procurar!
Adulto:
 4€
Jovem: 2€
Menores de 12 anos: gratuito.
A observação astronómica depende de condições meteorológicas favoráveis.
Inscrições obrigatórias (info@ccvalg.pt)
Pré-inscrições válidas até às 17:00 do dia anterior à realização da atividade. Após a hora referida o lugar pode não ser garantido.
Telefone: 289 890 920
E-mail: info@ccvalg.pt

 
     
 
EFEMÉRIDES

DIA 06/01: 6.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1912, o geofísico alemão Alfred Wegener apresenta pela primeira vez a sua teoria da deriva continental.

HOJE, NO COSMOS:
Lua Cheia, pelas 23:08. A Lua nasce a este-nordeste logo antes do pôr-do-Sol. Após o anoitecer, podemos ver que brilha entre os corações das figuras dos gémeos, se usar binóculos para ver a constelação através do luar.
A Lua forma um bonito triângulo, quase isósceles, com Castor e Pollux, as estrelas das cabeças dos gémeos, para a sua esquerda. Observe o triângulo a mudar de forma ao longo da noite à medida que o nosso satélite natural se desloca para este ao longo da sua órbita. A Lua move-se contra o fundo estelar mais ou menos o tamanho do seu próprio diâmetro a cada hora que passa.

 

DIA 07/01: 7.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1610, Galileu Galilei observava pela primeira vez as quatro maiores luas de Júpiter, Ganimedes, Calisto, Io e Europa, mas só é capaz de discernir as últimas duas no dia seguinte.

Em 1968, lançamento da Surveyor 7, a última do programa Surveyor.
Em 1985, a agência espacial japonesa, JAXA, lança a Sakigake, a primeira sonda interplanetária lançada por um país que não os Estados Unidos ou a União Soviética.
Em 1998, era lançada a Lunar Prospector.
HOJE, NO COSMOS:
A Lua brilha hoje por baixo de Pollux e Castor.
À hora de jantar, o enorme complexo de Andrómeda-Pégaso começa perto do zénite e desce até oeste.
Perto do zénite, aviste o pé de Andrómeda: a estrela de segunda magnitude, Gamma Andromedae (Almach), ligeiramente alaranjada. Andrómeda encontra-se de cabeça para baixo. A estrela que corresponde à sua cabeça (a estrela de segunda magnitude Alpheratz) é o canto do topo do Grande Quadrado de Pégaso. Para baixo do canto inferior do Quadrado situam-se as estrelas que correspondem ao pescoço e cabeça de Pégaso, terminando no seu nariz: Enif, de magnitude 2, também ligeiramente alaranjada.

 

DIA 08/01: 8.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1587 nascia Johann(es) Fabricius, astrónomo alemão, descobridor das manchas solares (em 1610), independentemente de Galileu.
Em 1942 nascia Stephen Hawking, físico teórico, cosmólogo e autor.

Entre os seus importantes trabalhos científicos, destacamos os teoremas da singularidade gravitacional no contexto da relatividade geral, a previsão teórica que os buracos negros emitem radiação e a união da teoria geral da relatividade com a mecânica quântica.
Em 1973 era lançada a missão espacial soviética Luna 21
Em 1994, o cosmonauta russo Valeri Polyakov parte para a Mir a bordo da Soyuz TM-18. Permaneceria na estação espacial até 22 de março de 1995, completando um recorde de 437 dias no espaço.
HOJE, NO COSMOS:
À hora de jantar, vire-se para norte e olhe para cima. Cassiopeia é agora um "M" achatado. As constelações que passam perto do zénite parecem girar mais depressa em relação à direção "cima".

 

DIA 09/01: 9.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1839, a Academia Francesa de Ciências anuncia o processo de fotografia por daguerreótipo. No mesmo dia, o astrónomo escocês Thomas Henderson é o primeiro a medir a distância até uma estrela (Alpha Centauri) que não o Sol usando paralaxe.

Em 1986, Stephen Synott (em imagens obtidas pela Voyager 2) descobre Cressida, uma lua de Úrano.
Em 1990, lançamento da missão STS-32 do vaivém Columbia.
HOJE, NO COSMOS:
As Plêiades brilham alto a sudeste por estas noites, não muito maiores do que a ponta de um dedo à distância do braço esticado. Quantas estrelas deste enxame aberto consegue contar à vista desarmada? Tenha calma e olhe durante algum tempo. A maioria das pessoas consegue contar 6. Com uma boa visão e um bom céu escuro, poderá ser capaz de discernir 8 ou 9.

 
     
 
CURIOSIDADES


O espelho de 39 metros do ELT (Extremely Large Telescope) é composto por 798 segmentos principais - um pouco à semelhança do Telescópio Espacial James Webb, que é composto apenas por 18 - e terá uma precisão de alinhamento, entre segmentos, na ordem das dezenas de nanómetros (10.000 vezes mais fino do que um cabelo humano).

 
 
   
Hubble descobre que luz fantasmagórica entre galáxias estende-se muito para trás no tempo

Em enxames gigantescos com centenas ou milhares de galáxias, inúmeras estrelas vagueiam entre as galáxias como almas perdidas, emitindo uma névoa fantasmagórica de luz. Estas estrelas não estão gravitacionalmente ligadas a nenhuma galáxia num enxame.

A questão que se coloca aos astrónomos tem sido: como é que as estrelas se espalharam tanto pelo enxame em primeiro lugar? Várias teorias concorrentes incluem a possibilidade de as estrelas terem sido retiradas das galáxias de um enxame, ou de terem sido atiradas para fora após fusões de galáxias, ou de terem estado presentes nos primeiros anos de formação de um enxame, há muitos milhares de milhões de anos atrás.

Um levantamento infravermelho recente pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA, que procurava esta chamada "luz intraenxame", lança nova luz sobre o mistério. As novas observações do Hubble sugerem que estas estrelas já vagueiam há milhares de milhões de anos e que não são um produto de uma atividade dinâmica mais recente dentro de um enxame galáctico, atividade esta que as retiraria das galáxias normais.

 
Estas são imagens, pelo Telescópio Espacial Hubble, de dois enxames massivos de galáxias chamadas MOO J1014+0038 (painel esquerdo) e SPT-CL J2106-5844 (painel direito). A cor azul artificialmente adicionada é traduzida a partir dos dados do Hubble que captaram um fenómeno chamado "luz intraenxame". Este brilho extremamente fraco traça uma distribuição suave da luz de estrelas errantes espalhadas pelo enxame. Há milhares de milhões de anos atrás, as estrelas eram libertadas das suas galáxias-mãe e agora vagueiam pelo espaço intergaláctico.
Crédito: NASA, ESA, STScI, James Jee (Universidade Yonsei); Processamento de Imagem - Joseph DePasquale (STScI)
 

O levantamento incluiu 10 enxames de galáxias tão distantes quanto quase 10 mil milhões de anos-luz. Estas medições têm que ser feitas a partir do espaço porque a fraca luz intraenxame é 10.000 vezes mais fraca do que o céu noturno, visto do solo.

O levantamento revela que a fração da luz intraenxame em relação à luz total no enxame permanece constante, olhando para trás no tempo há milhares de milhões de anos. "Isto significa que estas estrelas já não tinham abrigo nas fases iniciais da formação do enxame", disse James Jee da Universidade Yonsei em Seul, Coreia do Sul. Os seus resultados foram publicados na edição de 5 de janeiro da revista Nature.

As estrelas podem ser espalhadas para fora do seu local de nascimento galáctico quando uma galáxia se move através de material gasoso no espaço entre galáxias, à medida que orbita o centro do enxame. No processo, a resistência empurra gás e poeira para fora da galáxia. Contudo, com base no novo levantamento do Hubble, Jee descarta este mecanismo como a causa primária da produção de estrelas intraenxame. Isto porque a fração de luz intraenxame iria aumentar ao longo do tempo até ao presente caso o despojamento fosse o principal responsável. Mas não é esse o caso nos novos dados do Hubble, que mostram uma fração constante ao longo de milhares de milhões de anos.

"Não sabemos exatamente o que as tornou sem-abrigo. As teorias atuais não conseguem explicar os nossos resultados, mas de alguma forma foram produzidas em grandes quantidades no Universo inicial", disse Jee. "Nos seus primeiros anos de formação, as galáxias podem ter sido bastante pequenas e ter 'sangrado' estrelas com bastante facilidade devido a um domínio gravitacional mais fraco".

"Se descobrirmos a origem das estrelas intraenxame, isso ajudar-nos-á a compreender a história da 'montagem' de todo um enxame de galáxias, e elas podem servir como rastreadores visíveis da matéria escura que envolve o enxame", disse Hyungjin Joo da Universidade Yonsei, primeiro autor do artigo. A matéria escura é o andaime invisível do Universo, que mantém galáxias e enxames de galáxias juntas.

Se as estrelas errantes fossem produzidas através de um jogo de pinball entre galáxias, comparativamente mais recente, não teriam tido tempo suficiente para se dispersarem por todo o campo gravitacional do enxame e, por conseguinte, não rastreariam a distribuição da matéria escura do enxame. Mas se as estrelas nasceram nos primeiros anos do enxame, terão sido completamente dispersas por todo o enxame. Isto permitiria com que os astrónomos utilizassem as estrelas sem-abrigo para mapear a distribuição da matéria escura em todo o enxame.

Esta técnica é nova e complementar ao método tradicional de mapeamento da matéria escura, medindo como todo o enxame distorce a luz de objetos de fundo devido a um fenómeno chamado lente gravitacional.

A luz intraenxame foi detetada pela primeira vez no enxame de galáxias de Coma em 1951 por Fritz Zwicky, que relatou que uma das suas descobertas mais interessantes era a observação de matéria luminosa e intergaláctica ténue no enxame. Dado que o enxame de Coma, contendo pelo menos 1000 galáxias, é um dos enxames mais próximos da Terra (330 milhões de anos-luz), Zwicky foi capaz de detetar a luz fantasmagórica até com um modesto telescópio de 18 polegadas.

A capacidade e sensibilidade, no infravermelho próximo, do Telescópio Espacial James Webb da NASA, irá alargar em muito a procura de estrelas intraenxame no Universo, ajudando, portanto, a resolver o mistério.

// NASA (comunicado de imprensa)
// ESA/Hubble (comunicado de imprensa)
// Hubblesite (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)
// Artigo científico (PDF)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
29/01/2021 - Medições da luz intraenxame sugerem possível ligação com a matéria escura
28/12/2018 - Ténue luz estelar revela distribuição da matéria escura
31/10/2014 - Hubble observa "luz fantasma" de galáxias mortas

Enxames galácticos:
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

 
   
Observatório IoIO descobre grande erupção vulcânica na lua de Júpiter, Io

Foi descoberto um grande surto vulcânico na lua de Júpiter, Io, por Jeff Morgenthaler do PSI (Planetary Science Institute), usando o observatório IoIO (Io Input/Output) do mesmo instituto.

Morgenthaler, cientista sénior do PSI, tem vindo a utilizar o IoIO, localizado perto de Benson, no estado norte-americano do Arizona, para monitorizar a atividade vulcânica em Io desde 2017. As observações mostram algum tipo de erupção quase todos os anos, mas a maior foi vista no outono de 2022.

 
Imagem da nebulosa joviana de sódio durante um surto de atividade em Io.
Crédito: Jeff Morgenthaler, PSI
 

Io é a mais interior das quatro grandes luas de Júpiter e é o corpo mais vulcânico do Sistema Solar, graças ao stress das marés que sente de Júpiter e de outros dois dos seus grandes satélites, Europa e Ganimedes.

O IoIO utiliza uma técnica coronográfica que escurece a luz proveniente de Júpiter para permitir a observação de gases ténues perto do planeta muito brilhante. Um aumento de brilho de dois desses gases, sódio e enxofre ionizado, começou entre julho e setembro de 2022 e durou até dezembro de 2022. O enxofre ionizado, que forma uma estrutura semelhante a um donut que rodeia Júpiter é chamada de "toro de plasma de Io", curiosamente não foi tão brilhante neste surto como nos vistos anteriormente. "Isto pode estar a dizer-nos algo sobre a composição da atividade vulcânica que produziu o surto ou pode estar a dizer-nos que o toro é mais eficiente a livrar-se de material quanto mais material é atirado para ele", disse Morgenthaler.

 
Sequência, pelo IoIO, de enxofre ionizado no toro de plasma de Io, que mostra como a estrutura gira com o poderoso campo magnético de Júpiter que, tal como o da Terra, não está perfeitamente alinhado com o eixo de rotação do planeta.
Crédito: Jeff Morgenthaler, PSI
 

As observações têm profundas implicações para a missão Juno da NASA, que orbita Júpiter desde 2016. A Juno passou por Europa durante o surto e está gradualmente a aproximar-se de Io para um "flyby" em dezembro de 2023. Vários dos instrumentos da Juno são sensíveis às mudanças no ambiente de plasma à volta de Júpiter e Io, que podem ser rastreadas diretamente ao tipo de atividade vulcânica observada pelo IoIO. "As medições da Juno podem ser capazes de nos dizer se esta atividade teve uma composição diferente das anteriores", disse Morgenthaler.

"Uma das coisas excitantes sobre estas observações é que podem ser reproduzidas por quase qualquer universidade ou astrónomo amador ambicioso", disse Morgenthaler. "Quase todas as peças usadas para construir o IoIO estão disponíveis numa loja de fotografia topo de gama ou numa loja que se especialize na venda de telescópios".

 
História do brilho da nebulosa joviana de sódio a três distâncias diferentes de Júpiter (topo) e do toro de plasma de Io (em baixo), mostrando vários surtos modestos e um grande surto no outono de 2022.
Crédito: Jeff Morgenthaler, PSI
 

Ter uma ou mais cópias do IoIO a funcionar noutro local seria muito útil para evitar lacunas climáticas e poderia, potencialmente, fornecer mais tempo de cobertura, a cada noite, do altamente dinâmico toro de plasma de Io e da nebulosa de sódio. "Seria ótimo ver outro IoIO a entrar na campanha antes da Juno chegar a Júpiter no próximo mês de dezembro", disse Morgenthaler.

Para além de observar a nebulosa joviana de sódio, o IoIO também observa a cauda de sódio de Mercúrio, cometas brilhantes e exoplanetas em trânsito.

// PSI (comunicado de imprensa)
// Pequeno vídeo de imagens do IoIO (em formato MP4)

 


Quer saber mais?

Io:
NASA
CCVAlg - Astronomia
Nine Planets
Wikipedia

Júpiter:
NASA
CCVAlg - Astronomia
Nine Planets
Wikipedia

Toro de gás:
Wikipedia
Toro de plasma de Io (Wikipedia)

 
   
A vida em mundos alienígenas
 
Impressão de artista do ELT (Extremely Large Telescope), atualmente em construção no deserto chileno do Atacama.
Crédito: ESO/L. Calçada
 

Há vinte e sete anos atrás, na Universidade de Genebra, Michel Mayor e Didier Queloz - agora professor na ETH Zurique - descobriram o primeiro exoplaneta em órbita de uma estrela parecida com o Sol. Muito aconteceu desde essa descoberta inicial: os astrónomos já identificaram mais de 5000 exoplanetas, muitos de tamanho semelhante ao da Terra, em mais de 3700 sistemas planetários diferentes. Com apenas uma minúscula porção do Universo analisada até agora, parece certamente plausível sugerir que poderá existir vida noutros planetas para lá do nosso Sistema Solar.

No entanto, como qualquer cientista dirá, uma hipótese plausível não é o mesmo que evidências. Isto levou muitos investigadores a perguntarem-se como podemos ser capazes de demonstrar a existência de vida para lá do nosso Sistema Solar. Uma abordagem promissora é a análise da atmosfera dos exoplanetas. Ao estudar linhas de absorção no espectro ótico de uma estrela hospedeira, os cientistas podem determinar que moléculas estão presentes na atmosfera de um exoplaneta, pelo menos no caso de planetas maiores.

Para além da caça aos sinais de metano, dióxido de carbono, oxigénio ou vapor de água, estão também interessados em identificar as combinações em que estas substâncias ocorrem. "Tanto o metano como o oxigénio estão presentes na atmosfera da Terra", diz Sascha Quanz, professor de Exoplanetas e Habitabilidade na ETH Zurique. "Este é um desequilíbrio químico que não existiria sem organismos vivos". Por outras palavras, a vida deve ter causado este desequilíbrio. A descoberta de tal desequilíbrio na atmosfera de um exoplaneta semelhante à Terra seria um forte indicador da presença de vida.

O ideal seria, naturalmente, que pudéssemos capturar imagens diretas de exoplanetas em vez de os observarmos indiretamente à medida que passam em frente da sua estrela hospedeira. No entanto, isto é mais fácil de dizer do que de fazer, porque os exoplanetas estão quase completamente escondidos pelo brilho das suas estrelas-mãe. Para enfrentar este problema, Quanz juntou-se a outros investigadores para desenvolver um instrumento para o ELT (Extremely Large Telescope). A construção do ELT, no deserto chileno do Atacama, está atualmente em curso e, uma vez operacional, o espelho de 39 metros do telescópio irá aumentar em muito a capacidade dos astrónomos de espreitarem mais profundamente no espaço. "Com o ELT, seremos então capazes de, pela primeira vez, capturar imagens diretas de um planeta semelhante à Terra em órbita de uma estrela próxima, porque este novo instrumento irá bloquear a luz dessa estrela", diz Quanz.

Surpresa após surpresa

Mas para onde devem os investigadores orientar a procura da vida? E que sinais devem eles procurar? Algumas pistas podem ser encontradas em modelos físicos, tais como os desenvolvidos por Judit Szulágyi, professora assistente de Astrofísica Computacional, e pelo seu grupo. Estes modelos podem ser utilizados para reconstruir a forma como os planetas se formam ao longo do tempo a partir do disco protoplanetário inicial de gás e poeira que gira em torno de uma estrela recém-formada e também ajudam a determinar quais os objetos que merecem uma inspeção mais atenta através de um telescópio. Szulágyi constrói modelos que têm em conta toda uma série de fatores, incluindo forças gravitacionais, magnetismo, o movimento do gás e a forma como a luz estelar interage com o material do disco. Ao calcular inúmeras combinações diferentes destes parâmetros, podemos ter alguma ideia da diversidade de mundos planetários que podem existir no Universo.

No entanto, a experiência mostra repetidamente que a natureza tem frequentemente mais na manga do que os modelos preveem. Por exemplo, os primeiros exoplanetas apanharam de surpresa a comunidade científica porque os astrónomos nunca tinham suspeitado que planetas gigantes do tamanho de Júpiter pudessem orbitar tão perto da sua estrela hospedeira. Os investigadores ficaram igualmente intrigados com a existência das chamadas super-Terras, que são rochosas como a Terra, mas cerca de uma vez e meia maiores.

Szulágyi reconhece que os seus modelos se revelam regularmente imprecisos e exigem novos cálculos, no entanto ela permanece otimista: "Empurra-nos constantemente a repensar as nossas ideias sobre o modo como os planetas se formam". Uma das questões-chave que Szulágyi espera responder com os seus modelos diz respeito à origem da água. "A vida na Terra requer água", diz. "Daí o nosso interesse em lugares que mostram evidências de água". Tais corpos podem mesmo ser encontrados no nosso próprio Sistema Solar, e os astrónomos estão interessados em saber mais sobre eles nos próximos anos. Incluem a lua de Júpiter, Europa, que provavelmente hospeda um oceano sob a sua espessa crosta gelada, e a lua de Saturno, Encélado, onde os cientistas observaram fontes de partículas de gelo em erupção a partir da superfície.

Mundos totalmente diferentes

A geologia também pode fornecer pistas úteis para a composição de mundos alienígenas noutros sistemas planetários. Paolo Sossi, professor assistente de Planetologia Experimental, investiga os minerais, líquidos e gases exóticos que compõem o interior e a atmosfera de outros planetas. "Simulamos uma vasta gama de condições nas nossas experiências", diz. "Ajudam-nos a construir uma imagem do que está a acontecer na superfície de um planeta e do que se passa no seu interior".

O nosso conhecimento da composição química de outros planetas é ainda incompleto, o que torna a tarefa de Sossi mais desafiante. "A análise do espectro ótico da estrela hospedeira dá-nos uma ideia inicial da composição química de um planeta", disse Sossi. "Isso fornece a base para compreender que elementos estão presentes e em que quantidade". Ao combinar informação sobre a massa e o diâmetro dos vários planetas com os resultados dos modelos, os cientistas podem então deduzir como os diferentes elementos estão distribuídos pelo sistema planetário em torno da estrela. O nosso próprio Sistema Solar é uma referência útil, porque 60 a 70 por cento de todos os sistemas estelares estudados até agora têm uma composição química semelhante. Sossi está, portanto, a utilizar modelos numéricos para tentar compreender melhor como a Terra e os seus planetas vizinhos foram formados. Isto dá-lhe a informação de que necessita para reconstruir as massas, o número e a distribuição dos planetas em torno de outras estrelas.

No entanto, há também estrelas que têm uma composição química totalmente diferente da do nosso Sol. Por exemplo, uma estrela pode conter mais carbono e menos oxigénio, o que pode significar que os planetas que a orbitam são compostos de minerais diferentes dos da nossa Terra. "Os minerais predominantes em tais planetas ricos em carbono podem ser carboneto de silício e carboneto de titânio, ou mesmo diamantes", diz Sossi. Isto, por sua vez, teria um impacto na atmosfera do planeta - por exemplo, a chuva em tal planeta poderia consistir de gotas de grafite em vez de água.

Uma visão a longo prazo

Em última análise, o sucesso da nossa busca por vida extraterrestre depende de uma combinação de diferentes fatores. Observações telescópicas, experiências de laboratório e modelos numéricos são, sem dúvida, elementos chave em qualquer programa de investigação. Mas vamos precisar também de algoritmos inteligentes que possam recolher o máximo de informação científica possível a partir de grandes quantidades de dados, bem como de instrumentos que forneçam os dados precisos de que os investigadores necessitam. "O desenvolvimento de instrumentos é uma prioridade máxima para investigadores planetários como eu", diz Quanz. "Nós, investigadores, precisamos de compreender como os instrumentos funcionam, a fim de saber que tipo de informação podemos obter com eles".

Uma perspetiva a longo prazo é também essencial, razão pela qual Quanz já está a pensar um passo à frente. Está encarregue de uma iniciativa internacional que visa fazer grandes progressos na procura por vida extraterrestre. Isto faz parte de uma das grandes missões científicas que a ESA quer lançar entre 2035 e 2050. "Estamos a atingir o limite do que podemos alcançar com telescópios terrestres, porque todas as moléculas que procuramos também aparecem na atmosfera terrestre e a temperatura da Terra é semelhante à dos exoplanetas que nos interessam", diz. "Se quisermos escapar ao tremendo ruído de fundo criado pela Terra, temos de ir para o espaço. Pode ser a única forma de detetar vestígios de vida nas atmosferas dos exoplanetas".

Infelizmente, porém, não há forma de instalar telescópios no espaço que sejam tão grandes como os do Deserto do Atacama. Quanz e colegas propuseram assim um projeto ousado, conhecido como LIFE (Large Interferometer for Exoplanets). A ideia é posicionar mais quatro pequenos telescópios no segundo Ponto de Lagrange, que é onde o Telescópio Espacial James Webb obteve as espetaculares imagens que recentemente impressionaram o mundo. "Ao combinar sinais de medição de vários telescópios pequenos, podemos alcançar uma resolução semelhante à de um único e maior telescópio!", diz Quanz. "Isto permitir-nos-á, pela primeira vez, observar diretamente e caracterizar quimicamente dezenas de planetas semelhantes à Terra".

Antes que isto possa acontecer, os cientistas terão de resolver toda uma série de desafios técnicos: os telescópios têm de voar numa formação muito precisa que muda de cada vez que um novo sistema planetário é observado; os sinais de medição dos satélites individuais têm de ser sincronizados com uma precisão tremenda; e os telescópios têm de ser equipados com sensores extremamente sensíveis concebidos para captar a pouca luz que emana do planeta. Igualmente crítica é a questão de como os satélites serão alimentados, uma vez que o seu reposicionamento requer quantidades substanciais de combustível.

Tudo isto é tecnicamente viável, diz Quanz, embora exija um grande esforço não só por parte dos cientistas, mas também a nível de política de investigação. "Em última análise, é uma questão de prioridades", diz. "Pela primeira vez, temos a oportunidade de oferecer uma resposta empírica à questão da vida extraterrestre. Essa resposta transformaria fundamentalmente a nossa visão do mundo - não é uma oportunidade que devamos perder".

// ETH Zurique (comunicado de imprensa)

 


Quer saber mais?

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

ELT (Extremely Large Telescope):
ESO
ESO - 2
Wikipedia

LIFE (Large Interferometer For Exoplanets):
Página principal
Wikipedia

 
   

Álbum de fotografias
Cascata de Kemble

(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Tommy Lease
 
Esta linha de estrelas é real. Um pouco fraca demais para ser observada a olho nu, a Cascata de Kemble inspira admiração quando vista através de binóculos. No entanto, tal como a "frigideira" da Ursa Maior, a Cascata de Kemble é um asterismo, não uma constelação. O asterismo é visível no céu do hemisfério norte na direção da constelação de Girafa. Esta cadeia de aproximadamente 20 estrelas não relacionadas, cada uma de brilho semelhante, estende-se por mais de cinco vezes a largura angular da Lua Cheia. Esticando-se diagonalmente da parte superior esquerda para a parte inferior direita, a Cascata de Kemble foi popularizada no século passado pelo astrónomo Lucian Kemble. O objeto brilhante perto da parte superior esquerda da imagem é o relativamente compacto enxame aberto de estrelas "Jolly Roger", oficialmente designado como NGC 1502.
 
   
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