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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
 
  Astroboletim #2032  
  29/08 a 31/08/2023  
     
 
Astronomia no Verão pelo Centro Ciência Viva de Tavira
 

Observação noturna do céu em Tavira
Local: Forte do Rato
01/09/2023, 20:30 - Data esgotada - lista de espera

 

Programa em atualização
Consulte sempre a página das atividades para informações mais detalhadas como o itinerário, ponto de encontro, coordenadas GPS, etc., e para fazer a sua inscrição caso seja obrigatória.
Todas as atividades estão dependentes de condições meteorológicas favoráveis.
Não dispensa a consulta do FAQ no site da Ciência Viva no Verão

 
     
 
EFEMÉRIDES

DIA 29/08: 241.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1965, a nave Gemini V regressa à Terra, aterrando no Oceano Atlântico.

Em 1975, o japonês Kentaro Osada descobre V1500 Cygni, uma das mais rápidas novas de que há registo.
HOJE, NO COSMOS:
Depois do Sol se pôr a oeste-noroeste, vire-se e olhe para o lado oposto do céu à procura da Lua, baixa, pouco mais de um dia antes da sua fase Cheia. À medida que anoitece e o nosso satélite natural fica mais alto, quão cedo consegue ver Saturno para a sua esquerda?

 

DIA 30/08: 242.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1983, missão STS-8 do vaivém Challenger. Foi o primeiro lançamento noturno do programa do vaivém espacial.
Em 1984, o vaivém Discovery fazia a sua viagem inaugural, a missão STS-41-D.

Em 1991, lançamento do observatório espacial solar Yohkoh do Japão.
Em 2012, lançamento das sondas gémeas Van Allen da NASA, a bordo de um foguetão Atlas V. O seu propósito era recolher dados sobre as duas cinturas de radiação que rodeiam a Terra e revelar detalhes da influência do Sol sobre o nosso planeta.
HOJE, NO COSMOS:
Uma antevisão do inverno - saia à rua antes do amanhecer esta semana (cerca de duas horas antes do nascer do Sol) e o céu apresenta o mesmo panorama estrelado que apresenta à hora do jantar, por altura do Ano Novo. Orionte está a subir a este-sudeste, com Aldebarã e depois as Plêiades por cima. Os Gémeos estão deitados de lado à esquerda de Orionte, a este. Capella brilha alta a este-nordeste. Vega está baixa a noroeste.

 

DIA 31/08: 243.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1913 nascia Bernard Lovell, físico e radioastrónomo inglês. Foi o primeiro diretor do Observatório Jodrell Bank, desde 1945 até 1980.
Em 1998, a Coreia do Norte lança, alegadamente, o seu 1.º satélite, chamado Kwangmyŏngsŏng-1.

HOJE, NO COSMOS:
Lua Cheia, pelas 02:36. É a terceira superlua de 2023 e será também a maior do ano. Duas superluas no mesmo mês é relativamente raro: a última vez foi em 2018, a próxima será em 2037.
Saturno acompanha a Lua no céu.

 
 
   
Solar Orbiter descobre pequenos jatos que podem alimentar o vento solar
 
Este mosaico de imagens mostra uma multiplicidade de pequenos jatos de material que escapam da atmosfera exterior do Sol. As imagens são da nave espacial Solar Orbiter da ESA/NASA. Neste mosaico, aparecem como riscas escuras sobre a superfície solar. As imagens são "negativas", o que significa que embora os jatos sejam apresentados como escuros, são flashes brilhantes contra a superfície solar. Cada jato dura entre 20 e 100 segundos e expele partículas carregadas, conhecidas como plasma, a cerca de 100 km/s. Estes fenómenos podem ser a fonte, há muito procurada, do "vento solar", o fluxo constante de partículas carregadas que vem do Sol e atravessa o Sistema Solar. Nesta coleção de imagens, o polo sul do Sol está à esquerda.
Crédito: ESA e NASA/Solar Orbiter/Equipa EUI; reconhecimento - Lakshmi Pradeep Chitta, Instituto Max Planck para a Investigação do Sistema Solar
 

A sonda espacial Solar Orbiter da ESA/NASA descobriu uma multiplicidade de pequenos jatos de material que escapam da atmosfera exterior do Sol. Cada jato dura entre 20 e 100 segundos e expele plasma a cerca de 100 km/s. Estes jatos poderão ser a fonte, há muito procurada, do vento solar.

O vento solar é constituído por partículas carregadas, conhecidas como plasma, que escapam continuamente do Sol. Propaga-se para o exterior através do espaço interplanetário, colidindo com tudo o que se encontra no seu caminho. Quando o vento solar colide com o campo magnético da Terra, produz as auroras.

Embora o vento solar seja uma caraterística fundamental do Sol, a compreensão de como e onde é gerado perto do Sol tem-se revelado ilusória e tem sido um foco chave de estudo durante décadas. Agora, graças à sua instrumentação superior, a Solar Orbiter deu um importante passo em frente.

Os dados provêm do instrumento EUI (Extreme Ultraviolet Imager) da Solar Orbiter. As imagens do polo sul do Sol, obtidas pelo EUI no dia 30 de março de 2022, revelam uma população de características ténues e de curta duração que estão associadas a pequenos jatos de plasma ejetados da atmosfera do Sol.

"Só foi possível detetar estes pequenos jatos graças às imagens de alta resolução e alta cadência sem precedentes produzidas pelo EUI", afirma Lakshmi Pradeep Chitta, do Instituto Max Planck para a Investigação do Sistema Solar, Alemanha, e principal autor do artigo que descreve este trabalho. Em particular, as imagens foram obtidas no canal ultravioleta extremo do gerador de imagens de alta resolução do EUI, que observa plasma solar com milhões de graus a um comprimento de onda de 17,4 nanómetros.

De particular importância é o facto de a análise mostrar que estas características são provocadas pela expulsão de plasma da atmosfera solar.

Há décadas que os investigadores sabem que uma fração significativa do vento solar está associada a estruturas magnéticas chamadas buracos coronais - regiões onde o campo magnético do Sol não se volta para o Sol. Em vez disso, o campo magnético estende-se até às profundezas do Sistema Solar.

O plasma pode fluir ao longo destas linhas "abertas" do campo magnético, dirigindo-se para o Sistema Solar, criando o vento solar. Mas a questão era: como é que o plasma é lançado?

O pressuposto tradicional era que, devido ao facto da coroa solar ser quente, se expandiria naturalmente e uma parte dela escaparia ao longo das linhas de campo. Mas estes novos resultados analisam o buraco coronal situado no polo sul do Sol e os jatos individuais revelados desafiam o pressuposto de que o vento solar é produzido apenas num fluxo contínuo e constante.

"Um dos resultados aqui é que, em grande medida, este fluxo não é realmente uniforme, a ubiquidade dos jatos sugere que o vento solar dos buracos coronais pode ter origem num fluxo altamente intermitente", diz Andrei Zhukov, do Observatório Real da Bélgica, um colaborador do trabalho que liderou a campanha de observação da Solar Orbiter.

A energia associada a cada jato individual é pequena. No extremo superior dos fenómenos coronais estão as erupções solares de classe X e no extremo inferior estão as chamadas nanoerupções. Há mil milhões de vezes mais energia numa erupção de classe X do que numa nanoerupção. Os minúsculos jatos descobertos pela Solar Orbiter são ainda menos energéticos do que isso, manifestando cerca de mil vezes menos energia do que uma nanoerupção e canalizando a maior parte dessa energia para a expulsão do plasma.

A ubiquidade destes jatos, que as novas observações denotam, sugere que estão a expulsar uma fração substancial do material que vemos no vento solar. E podem haver eventos ainda mais pequenos e mais frequentes que forneçam ainda mais.

"Penso que é um passo significativo para encontrar algo no disco que está certamente a contribuir para o vento solar", diz David Berghmans, do Observatório Real da Bélgica e investigador principal do instrumento EUI.

Atualmente, a Solar Orbiter ainda está a orbitar o Sol perto do seu equador. Por isso, nestas observações, o EUI está a olhar para o polo sul num ângulo rasante.

 
Impressão de artista da Solar Orbiter numa órbita interior à de Mercúrio.
Crédito: ESA/ATG medialab
 

"É mais difícil medir algumas das propriedades destes jatos minúsculos quando os vemos de lado, mas dentro de alguns anos vamos vê-los de uma perspetiva diferente da de qualquer outro telescópio ou observatório, o que, em conjunto, deverá ajudar muito", diz Daniel Müller, cientista do projeto Solar Orbiter na ESA.

Isto porque, à medida que a missão prossegue, a nave espacial irá inclinar gradualmente a sua órbita em direção às regiões polares. Ao mesmo tempo, a atividade do Sol irá progredir ao longo do ciclo solar e os buracos coronais começarão a aparecer em muitas latitudes diferentes, fornecendo uma nova perspetiva única.

Todos os envolvidos estarão ansiosos por ver que novos conhecimentos podem recolher, porque este trabalho vai para além do nosso próprio Sistema Solar.

O Sol é a única estrela cuja atmosfera podemos observar com tanto pormenor, mas é provável que o mesmo processo funcione também noutras estrelas. Este facto transforma estas observações na descoberta de um processo astrofísico fundamental.

// ESA (comunicado de imprensa)
// Instituto Max Planck para a Investigação do Sistema Solar (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Science)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Buraco coronal no Sol (ESA via YouTube)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
15/08/2023 - "Impressões digitais" do Sistema Solar encontradas nas memórias da flotilha da ESA
20/05/2022 - O Sol como nunca o vimos antes
21/12/2021 - Solar Orbiter publica um "tesouro" de resultados científicos da sua fase de cruzeiro
22/12/2020 - Solar Orbiter prepara-se para sobrevoo festivo a Vénus
18/12/2020 - Solar Orbiter: transformar imagens em física
17/07/2020 - As primeiras imagens da Solar Orbiter revelam "fogueiras" no Sol
02/06/2020 - Solar Orbiter atravessa as caudas do Cometa Atlas
11/02/2020 - Descolagem da Solar Orbiter, a missão da ESA que olhará o Sol de frente
04/02/2020 - Nova missão da ESA para estudar o Sol
22/05/2018 - Duas novas sondas serão as mais próximas do Sol

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Sol:
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Vento solar (Wikipedia)

Solar Orbiter:
ESA
NASA
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Misteriosa mancha escura de Neptuno detetada pela primeira vez a partir da Terra
 
Esta imagem mostra Neptuno observado com o instrumento MUSE, montado no VLT (Very Large Telescope) do ESO. Para cada pixel de Neptuno, o MUSE separa a luz nas suas cores, ou comprimentos de onda, constituintes. Este processo é semelhante a obter imagens de milhares de comprimentos de onda todos ao mesmo tempo, o que fornece aos astrónomos uma enorme quantidade de informação preciosa.
A imagem da direita combina todas as cores capturadas pelo MUSE numa vista "normal" de Neptuno, onde podemos ver a mancha escura em cima à direita. Seguidamente vemos imagens para comprimentos de onda específicos: 551 nanómetros (azul), 831 nm (verde) e 848 nm (vermelho); note que as cores são indicativas, apenas para efeitos de apresentação.
A mancha escura torna-se mais proeminente para comprimentos de onda mais pequenos (mais azuis). Mesmo ao lado desta mancha escura, o MUSE capturou também uma pequena mancha brilhante, que podemos ver apenas na imagem do meio de 831 nm e que se situa em profundidade na atmosfera. Este tipo de nuvem brilhante profunda nunca tinha sido identificada no planeta anteriormente. As imagens mostram também, nos maiores comprimentos de onda, várias manchas brilhantes menos profundas, em direção à periferia de Neptuno, em baixo à esquerda.
A obtenção de imagens da mancha escura de Neptuno a partir do solo, foi apenas possível graças à Infrastrutura de óptica adaptativa do VLT, a qual corrige a turbulência na atmosfera terrestre e permite ao MUSE obter imagens muito nítidas. Para destacar melhor as ténues estruturas escuras e brilhantes do planeta, os astrónomos trataram cuidadosamente os dados MUSE, obtendo o que aqui vemos.
Crédito: ESO/P. Irwin et al.
 

Com o auxílio do VLT (Very Large Telescope) do ESO, os astrónomos observaram uma enorme mancha escura na atmosfera de Neptuno com um inesperado ponto brilhante adjacente mais pequeno. Trata-se da primeira vez que uma mancha escura neste planeta é observada com um telescópio a partir da Terra. Estas estruturas ocasionais no fundo azul da atmosfera de Neptuno são um mistério para os astrónomos e estes novos resultados dão-nos pistas adicionais sobre a sua natureza e origem.

As manchas grandes são estruturas comuns nas atmosferas dos planetas gigantes, sendo a mais famosa a Grande Mancha Vermelha de Júpiter. Em 1989, a sonda Voyager 2 da NASA descobriu pela primeira vez uma mancha escura em Neptuno, a qual desapareceu alguns anos mais tarde. "Desde a primeira descoberta de uma mancha escura que tive curiosidade em saber o que seriam estas estruturas escuras elusivas de curta duração," diz Patrick Irwin, professor na Universidade de Oxford e investigador principal do estudo publicado na revista Nature Astronomy.

Irwin e a sua equipa utilizaram dados do VLT do ESO para excluir a possibilidade das manchas escuras serem causadas por uma "abertura" nas nuvens. Em vez disso, as novas observações indicam que as manchas escuras são provavelmente devidas ao escurecimento de partículas de ar numa camada abaixo da camada principal de neblina visível, à medida que os gelos e as neblinas se misturam na atmosfera de Neptuno.

Chegar a esta conclusão não foi tarefa fácil, já que as manchas escuras não são estruturas permanentes da atmosfera de Neptuno e os astrónomos nunca tinham conseguido estudá-las com detalhe suficiente. A oportunidade surgiu depois do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA ter descoberto várias manchas escuras na atmosfera de Neptuno, incluindo uma no hemisfério norte do planeta, observada pela primeira vez em 2018. Irwin e a sua equipa aproveitaram esta oportunidade para a estudar a partir do solo, fazendo uso de um instrumento ideal para estas difíceis observações.

 
Esta imagem mostra Neptuno observado pelo instrumento MUSE montado no VLT do ESO. Para cada pixel de Neptuno, o MUSE separa a luz nas suas cores, ou comprimentos de onda, constituintes. Este processo é semelhante a obter imagens de milhares de comprimentos de onda todos ao mesmo tempo, o que fornece aos astrónomos uma enorme quantidade de informação preciosa. Esta imagem combina todas as cores capturadas pelo MUSE numa vista "normal" de Neptuno, onde podemos ver a mancha escura em cima à direita.
Crédito: ESO/P. Irwin et al.
 

Com o auxílio do instrumento MUSE (Multi Unit Spectroscopic Explorer) montado no VLT, os investigadores conseguiram separar a luz solar refletida por Neptuno e pela sua mancha nas cores, ou comprimentos de onda, que a compõem, e obter assim um espectro tridimensional, o que significa que conseguiram estudar a mancha com mais pormenor do que o que era possível até à data. "Estou bastante contente por termos sido capazes de obter não só a primeira deteção de uma mancha escura a partir do solo, mas também de registar pela primeira vez o espectro de reflexão de uma tal estrutura", diz Irwin.

Uma vez que diferentes comprimentos de onda sondam diferentes profundidades na atmosfera de Neptuno, a obtenção de um espetro permitiu aos astrónomos determinar melhor a altitude a que se encontra a mancha escura na atmosfera do planeta. O espetro forneceu também informações sobre a composição química das diferentes camadas da atmosfera, o que deu à equipa pistas sobre a razão pela qual a mancha nos aparece escura.

Estas observações levaram também a um resultado surpreendente. "Neste processo, descobrimos um tipo raro de nuvem brilhante e profunda que nunca tinha sido identificado anteriormente, mesmo a partir do espaço," diz o coautor do estudo, Michael Wong, investigador na Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA. Este tipo raro de nuvem mostrou-se-nos como uma mancha brilhante mesmo ao lado da mancha escura principal. Os dados do VLT mostram que a nova "nuvem brilhante profunda" se encontra na atmosfera ao mesmo nível que a mancha escura principal. Isto significa que se trata de um tipo de estrutura completamente nova sem relação com as pequenas nuvens "companheiras" de gelo de metano observadas anteriormente a grande altitude.

Com a ajuda do VLT do ESO, os astrónomos podem agora estudar estruturas como estas manchas a partir da Terra. "Este é um aumento espantoso da capacidade da humanidade para observar o cosmos. No início, só conseguíamos detetar estas manchas com o auxílio de sondas espaciais enviadas para o local, como a Voyager. Depois, conseguimos distingui-las à distância com o Telescópio Espacial Hubble. Agora, a tecnologia avançou para permitir fazer o mesmo a partir do solo", conclui Wong, antes de acrescentar, na brincadeira: "Como observador Hubble, isto pode levar-me ao desemprego!"

// ESO (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Misteriosa mancha escura de Neptuno detetada da Terra (ESO via YouTube)
// Estudando Neptuno em várias cores com o MUSE (ESO via YouTube)

 


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Discos de acreção: quão grandes são, realmente?
 
Os buracos negros supermassivos encontram-se no centro das galáxias, devorando o gás e a poeira que são puxados para o seu forte campo gravitacional. Estão rodeados por um disco de acreção de material quente e rodopiante.
Crédito: NOIRLab/AURA/NSF/P. Marenfeld
 

Recorrendo ao telescópio Gemini North, uma metade do Observatório Internacional Gemini, operado pelo NOIRLab da NSF, os astrónomos detetaram pela primeira vez evidências da presença de um disco de acreção no núcleo galáctico ativo da galáxia III Zw 002. Utilizando duas linhas de emissão raras e peculiares no infravermelho próximo, estas observações colocam limites firmes na dimensão do disco de acreção da galáxia e lançam nova luz sobre a sua geometria e comportamento.

Nada evoca uma perspetiva espiral existencial como olhar para a imagem de uma galáxia. À primeira vista, estas estruturas sublimes podem parecer bastante serenas. Mas, na verdade, o centro de muitas galáxias é um ambiente turbulento que contém um buraco negro supermassivo que se alimenta ativamente. A orbitar estes objetos incompreensivelmente densos estão discos de acreção rodopiantes de gás e poeira, que alimentam o buraco negro e emitem quantidades imensas de energia ao longo de todo o espetro eletromagnético - desde raios gama e raios X altamente energéticos, passando pela luz visível, até às ondas infravermelhas e de rádio.

O estudo dos discos de acreção pode melhorar a compreensão dos astrónomos sobre os buracos negros e a evolução das galáxias que os hospedam. A maior parte dos discos de acreção, no entanto, são impossíveis de observar diretamente devido às suas distâncias extremas e tamanhos relativamente pequenos. Em vez disso, os astrónomos utilizam os espectros da luz emitida no interior do disco para caracterizar o seu tamanho e comportamento. Usando esta abordagem, os astrónomos que usam o telescópio Gemini North, uma metade do Observatório Internacional Gemini, operado pelo NOIRLab da NSF, fizeram a primeira deteção de sempre de duas linhas de emissão, no infravermelho próximo, no disco de acreção da galáxia III Zw 002, colocando um novo limite no tamanho destas magníficas estruturas.

Para compreender estas observações, comecemos por discutir o que são linhas de emissão e o que nos dizem sobre as regiões em torno de buracos negros supermassivos.

As linhas de emissão resultam quando um átomo num estado excitado cai para um nível de energia mais baixo, libertando luz no processo. Uma vez que cada átomo tem um conjunto único de níveis de energia, a luz emitida tem um comprimento de onda discreto que atua como uma impressão digital que identifica a sua origem. As linhas de emissão aparecem normalmente nos espetros como picos finos e nítidos. Mas no vórtice rodopiante de um disco de acreção, onde o gás excitado está sob a influência gravitacional do buraco negro supermassivo e se move a velocidades de milhares de quilómetros por segundo, as linhas de emissão alargam-se em picos mais rasos. A região do disco de acreção onde estas linhas têm origem é designada por região de linhas largas.

Como já foi referido, é extremamente difícil obter imagens diretas dos discos de acreção, tendo apenas sido obtidas imagens de duas fontes graças à capacidade de alta resolução angular do EHT (Event Horizon Telescope). Assim, se não houver acesso a uma rede global de radiotelescópios, como é que os astrónomos sabem quando um buraco negro supermassivo tem um disco à sua volta? Acontece que a evidência de um disco de acreção pode ser encontrada num padrão específico de linhas de emissão largas chamado perfil de pico duplo.

Dado que o disco está a girar, o gás de um lado está a afastar-se do observador, enquanto o gás do outro lado está a mover-se na direção do observador. Estes movimentos relativos esticam e comprimem as linhas de emissão para comprimentos de onda mais longos e mais curtos, respetivamente. O resultado é uma linha alargada com dois picos distintos, cada um originário de cada lado do disco em rápida rotação.

 
Uma impressão artística de um buraco negro supermassivo com um disco de acreção em órbita. As anotações mostram um perfil hipotético de pico duplo com setas indicando onde, na região de linhas largas, cada pico tem origem.
Crédito: NOIRLab/NSF/AURA/P. Marenfeld
 

Estes perfis de pico duplo são um fenómeno raro, uma vez que a sua ocorrência está limitada a fontes que podem ser observadas quase de face. Nas poucas fontes em que foi observado, o pico duplo foi encontrado nas linhas H-alfa e H-beta - duas linhas de emissão de átomos de hidrogénio que aparecem na gama de comprimentos de onda do visível. Com origem na zona interior da região de linhas largas perto do buraco negro supermassivo, estas linhas não fornecem qualquer evidência sobre a dimensão do disco de acreção na sua totalidade. Mas observações recentes no infravermelho próximo revelaram uma zona da região exterior de linhas largas que nunca tinha sido vista antes.

Denimara Dias dos Santos, aluna de doutoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais no Brasil e autora principal do artigo, em colaboração com Alberto Rodriguez-Ardila, Swayamtrupta Panda e Murilo Marinello, investigadores do Laboratório Nacional de Astrofísica no Brasil, fez a primeira deteção inequívoca de dois perfis duplos no infravermelho próximo na região de linhas largas de III Zw 002. A linha Paschen-alfa (hidrogénio) tem origem na zona interior da região de linhas largas e a linha O I (oxigénio neutro) tem origem na periferia da região de linhas largas, uma região que nunca tinha sido observada antes. Estes são os primeiros perfis de duplo pico a serem encontrados no infravermelho próximo e surgiram inesperadamente durante as observações com o GNIRS (Gemini Near-Infrared Spectrograph).

Observações de 2003 de III Zw 002, no visível, revelaram evidências de um disco de acreção e um estudo de 2012 encontrou resultados semelhantes. Em 2021, Rodriguez-Ardila e a sua equipa propuseram-se complementar estas descobertas com observações no infravermelho próximo utilizando o GNIRS, que é capaz de observar todo o espetro do infravermelho próximo (800-2500 nanómetros) de uma só vez. Outros instrumentos exigem que o utilizador alterne entre vários filtros para cobrir a mesma gama, o que pode ser moroso e pode introduzir incertezas, uma vez que as condições atmosféricas e as calibrações mudam entre as observações.

Tendo em conta que o GNIRS é capaz de fazer observações simultâneas em várias bandas de luz, a equipa conseguiu captar um único espetro limpo e consistentemente calibrado, no qual foram revelados vários perfis de pico duplo. "Não sabíamos anteriormente que III Zw 002 tinha este perfil de pico duplo, mas quando reduzimos os dados vimos o pico duplo muito claramente," disse Rodriguez-Ardila. "De facto, reduzimos os dados muitas vezes pensando que podia ser um erro, mas de todas as vezes vimos o mesmo resultado excitante."

 
Linhas de emissão de Paschen-alfa e O I com os perfis de pico duplo claramente visíveis. Note-se a diferença de forma, em que a Paschen-alfa tem um pico central acentuado e O I não. Esta diferença resulta do facto de as linhas terem origem em raios diferentes dentro da região de linhas largas.
Crédito: Dias Dos Santos et al.
 

Estas observações não só confirmam a presença teorizada de um disco de acreção, como também fazem avançar a compreensão dos astrónomos sobre a região de linhas largas.

"Pela primeira vez, a deteção de tais perfis de picos duplos coloca restrições firmes sobre a geometria de uma região que de outra forma não é possível resolver," disse Rodriguez-Ardila. "E agora temos evidências claras do processo de alimentação e da estrutura interna de uma galáxia ativa."

Comparando estas observações com os modelos existentes de disco, a equipa conseguiu extrair parâmetros que fornecem uma imagem mais clara do buraco negro supermassivo de III Zw 002 e da região de linhas largas.

O modelo indica que a linha Paschen-alfa tem origem num raio de 16,77 dias-luz (a distância que a luz percorre num dia terrestre, medida a partir do buraco negro supermassivo), e a linha O I tem origem num raio de 18,86 dias-luz. Também prevê que o raio exterior da região de linhas largas é de 52,43 dias-luz. O modelo também indica que a região de linhas largas de III Zw 002 tem um ângulo de inclinação de 18 graus em relação aos observadores na Terra e que o buraco negro supermassivo no seu centro tem 400-900 milhões de vezes a massa do nosso Sol.

"Esta descoberta dá-nos informações valiosas sobre a estrutura e o comportamento da região de linhas largas nesta galáxia em particular, lançando luz sobre os fenómenos fascinantes que ocorrem em torno de buracos negros supermassivos em galáxias ativas," disse Rodriguez-Ardila.

Na sequência desta descoberta, Dias dos Santos, Rodriguez-Ardila, Panda e Marinello estão agora a monitorizar III Zw 002, uma vez que se espera que o seu disco de acreção siga um padrão de precessão em torno do buraco negro supermassivo. Querem ver como os perfis das linhas mudam com o tempo, uma vez que a precessão causa diferentes intensidades nos picos azul e vermelho. Até agora, o modelo mantém-se consistente com as observações. Estes resultados também abrem a possibilidade de usar a deteção no infravermelho próximo para estudar outros NGAs.

// NOIRLab Stories (blog)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Quer saber mais?

III Zw 2:
Wikipedia

Buraco negro supermassivo:
Wikipedia

NGAs (Núcleos Galácticos Ativos):
Wikipedia

Disco de acreção:
Wikipedia

Espetro eletromagnético:
Wikipedia
Espetro de emissão (Wikipedia)

Linha H-alfa:
Wikipedia

Linha H-beta:
Série de Balmer (Wikipedia)

Espetro do hidrogénio:
Wikipedia
Série de Paschen (Wikipedia)

Observatório Internacional Gemini:
Página principal
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  Molécula "termómetro" confirmada no exoplaneta WASP-31b (via Universidade de Cornell)
O hidreto de crómio (CrH), uma molécula relativamente rara e particularmente sensível à temperatura, é útil como "termómetro para as estrelas", segundo a astrónoma Laura Flagg, porque só é abundante numa faixa estreita entre 1200 e 2000 graus Kelvin. Flagg, investigadora associada em astronomia, utilizou este e outros hidretos metálicos para determinar a temperatura de estrelas frias e anãs castanhas. Em teoria, disse, o hidreto de crómio poderia fazer o mesmo com os Júpiteres quentes, que são comparáveis em temperatura às anãs castanhas - se estas moléculas específicas estiverem presentes nas atmosferas dos exoplanetas. Investigações anteriores, em baixa resolução, sugeriram que sim. Ler fonte
 
   

Álbum de fotografias
Três Galáxias e Um Cometa

(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Miloslav Druckmuller (Universidade Técnica de Brno)
 
A luz difusa das estrelas e as nebulosas escuras ao longo da Via Láctea meridional cruzam o horizonte e espalham-se diagonalmente por esta deslumbrante paisagem noturna. O mosaico de cortar a respiração estende-se por 100 graus, com o terreno acidentado da região da Patagónia, Argentina, em primeiro plano. Para além da visão privilegiada da nossa própria Galáxia, a imagem apresenta a nossa perspetiva exterior de duas galáxias satélites irregulares - a Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães. A cena também capta a cauda larga e a cabeleira brilhante do Cometa McNaught, o Grande Cometa de 2007.
 
   
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