DIA 31/12: 366.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...
Em 2011, a NASA consegue colocar em órbita lunar a primeira das duas sondas GRAIL. HOJE, NO COSMOS:
Depois dos festejos e fogos-de-artifício do Ano Novo, saia à rua, para a escuridão silenciosa e fria. Sirius brilha alta a sul. Sirius é a estrela inferior do brilhante e equilátero Triângulo de Inverno. As outras duas estrelas são Betelgeuse, no ombro de Orionte, para cima e para a direita de Sirius, e Procyon, à mesma distância, para cima e para a esquerda de Sirius. O Triângulo apoia-se em Sirius, quase em equilíbrio.
Este ano, para cima e para a direita de Betelgeuse, está o planeta
Júpiter. E para cima e para a esquerda de Procyon está o planeta Marte. São extensões dos lados do triângulo. Com ele formam uma espécie de "face" das Híades, só que 15 vezes maior no céu.
DIA 01/01: 1.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...
No ano 45 AC, começa o calendário Juliano.
Em 1801, Giuseppe Piazzi, monge italiano, descobre Ceres, o primeiro asteroide observado entre Marte e Júpiter, agora classificado como planeta anão.
Em 1925, numa reunião da Sociedade Astronómica Americana e da Associação Americana para o Desenvolvimento da Ciência em Washington, D.C., Edwin Hubble reporta que encontrou cefeidas nas "nebulosas espirais", o que levaria ao declínio da hipótese que dizia que a nossa Via Láctea seria o todo do Universo.
A descoberta de Hubble levaria também à descoberta que vivemos numa de muitas galáxias.
Em 2012, a NASA consegue colocar em órbita lunar a segunda das duas sondas GRAIL.
Em 2014, o primeiro asteroide descoberto nesse ano, designado 2014 AA, colide com a Terra por cima do Oceano Atlântico. HOJE, NO COSMOS:
Já estamos em janeiro, e o Triângulo de Verão ainda é visível - se observar ao início da noite. Vega é a estrela mais brilhante baixa a noroeste. A estrela brilhante por cima, e um pouco para a esquerda, é Deneb. Procure Altair para a esquerda de Vega, um pouco mais baixa.
DIA 02/01: 2.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...
Em 1860 é anunciada a descoberta teórica do planeta Vulcan, numa reunião da Academia de Ciências em Paris.
Em 1959, é lançada a sonda soviética Luna 1, a primeira a alcançar a vizinhança da Lua e a orbitar o Sol.
Em 2004, a Stardust passa com sucesso pelo Cometa Wild 2, recolhendo amostras que são posteriormente enviadas para a Terra. HOJE, NO COSMOS:
Estas noites, para a direita de Júpiter, brilha Aldebarã com o largo enxame das Híades no plano de fundo. Os binóculos são instrumentos ideais para observar este enxame, tendo em conta o seu tamanho: as estrelas mais brilhantes (de magnitude 3,5 a 5) abrangem uma área com aproximadamente 4º de diâmetro. Mais acima, as Plêiades têm pouco mais de 1º de diâmetro, contando apenas as estrelas mais brilhantes.
As estrelas principais das Híades formam um V, atualmente de lado. Aldebarã forma a mais baixa das duas pontas do V. Com binóculos, siga o ramo inferior do V para a direita de Aldebarã. A primeira "coisa" a que chega é o asterismo da Casa: um padrão de estrelas parecido a um desenho de uma criança de uma casa com um telhado. A casa está atualmente direita e inclinada para a direita como se tivesse sido empurrada.
A Casa inclui três estrelas duplas binoculares que formam um triângulo equilátero, com cada par virado para o centro. O par mais brilhante é Theta1 e Theta2 Tauri. Talvez consiga resolver o par Theta à vista desarmada.
Parker Solar Probe da NASA faz história ao passar o mais perto do Sol
Ilustração da Parker Solar Probe.
Crédito: NASA/JHUAPL
As equipas de operações confirmaram que a missão da NASA para "tocar" o Sol sobreviveu à sua aproximação recorde da superfície solar no passado dia 24 de dezembro de 2024.
Batendo o seu recorde anterior ao voar apenas 6,1 milhões de quilómetros acima da superfície do Sol, a Parker Solar Probe da NASA atravessou a atmosfera solar a uma velocidade de quase 700.000 quilómetros por hora - mais depressa do que qualquer objeto feito pelo homem. Um sinal sonoro recebido no final do dia 26 de dezembro confirmou que a sonda tinha realizado o encontro em segurança e que estava a funcionar normalmente.
Esta passagem, a primeira de outras a esta distância, permite à nave espacial efetuar medições científicas sem paralelo, com potencial para mudar a nossa compreensão do Sol.
"Voar tão perto do Sol é um momento histórico na primeira missão da humanidade a uma estrela", disse Nicky Fox, que lidera o Diretorado de Missões Científicas na sede da NASA em Washington, EUA. "Ao estudar o Sol de perto, podemos compreender melhor os seus impactos em todo o nosso Sistema Solar, incluindo na tecnologia que usamos diariamente na Terra e no espaço, bem como aprender mais sobre o funcionamento das estrelas em todo o Universo para ajudar na nossa busca por mundos habitáveis para além do nosso planeta natal".
A Parker Solar Probe passou os últimos seis anos a preparar-se para este momento. Lançada em 2018, a sonda utilizou sete "flybys" por Vénus para a orientar gravitacionalmente para cada vez mais perto do Sol. Com a sua última passagem por Vénus, a 6 de novembro de 2024, a nave espacial atingiu a sua órbita ideal. Esta órbita ovalada coloca a nave espacial a uma distância ideal do Sol de três em três meses - perto o suficiente para estudar os processos misteriosos do nosso Sol, mas não demasiado perto para ser dominada pelo calor e pela radiação nociva da estrela. A sonda permanecerá nesta órbita durante o resto da sua missão principal.
A distância recorde de 6,1 milhões de quilómetros da sonda pode parecer longe, mas à escala cósmica é incrivelmente perto. Se o Sistema Solar fosse encolhido e a distância entre o Sol e a Terra fosse de 1 metro, a Parker Solar Probe estaria a apenas 4 cm da nossa estrela - perto o suficiente para passar dentro da ténue atmosfera exterior do Sol, conhecida como coroa.
Crédito:
NASA/APL
"A Parker Solar Probe está a enfrentar um dos ambientes mais extremos do espaço e a exceder todas as expetativas", disse Nour Rawafi, cientista do projeto Parker Solar Probe no JHUAPL (Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory), que concebeu, construiu e opera a nave a partir do campus em Laurel, no estado norte-americano de Maryland. "Esta missão está a inaugurar uma nova era de ouro da exploração espacial, aproximando-nos mais do que nunca de revelar os mistérios mais profundos e duradouros do Sol".
Perto do Sol, a nave espacial conta com um escudo de espuma de carbono para a proteger do calor extremo da atmosfera solar superior, chamada coroa, que pode ultrapassar os 550.000 graus centígrados. O escudo foi concebido para atingir temperaturas de mais de 1400 graus Celsius - quente o suficiente para derreter aço - mantendo os instrumentos por detrás dele à sombra, a uma confortável temperatura ambiente. Na coroa quente, mas de baixa densidade, espera-se que o escudo da nave espacial aqueça até aos 980º C.
"É monumental conseguir colocar uma nave espacial tão perto do Sol", disse John Wirzburger, engenheiro de sistemas da missão Parker Solar Probe, também do JHUAPL. "Este é um desafio que a comunidade científica espacial tem querido enfrentar desde 1958 e passou décadas a desenvolver a tecnologia para o tornar possível".
Ao voar através da coroa solar, a Parker Solar Probe pode efetuar medições que ajudam os cientistas a compreender melhor como é que a região se torna tão quente, descobrir a origem do vento solar (um fluxo constante de material que escapa do Sol) e descobrir como é que as partículas energéticas são aceleradas até metade da velocidade da luz.
"Os dados são muito importantes para a comunidade científica porque nos dão outro ponto de vista", disse Kelly Korreck, cientista de programas na sede da NASA e heliofísico que trabalhou num dos instrumentos da missão. "Ao obter relatos em primeira mão do que está a acontecer na atmosfera solar, a Parker Solar Probe revolucionou a nossa compreensão do Sol".
As passagens anteriores já ajudaram os cientistas a compreender o Sol. Quando a sonda passou pela primeira vez pela atmosfera solar em 2021, descobriu que o limite exterior da coroa solar está enrugado com "picos" e "vales", ao contrário do que se esperava. A Parker Solar Probe também identificou a origem de importantes estruturas em forma de ziguezague no vento solar, chamadas "switchbacks", na superfície visível do Sol - a fotosfera.
Esta ilustração mostra a Parker Solar Probe prestes a entrar na coroa solar.
Crédito:
NASA/JHUAPL/Ben Smith
Desde essa passagem inicial pelo Sol, a sonda tem passado mais tempo na coroa, onde ocorre a maior parte dos processos físicos críticos.
"Agora compreendemos o vento solar e a sua aceleração para longe do Sol", disse Adam Szabo, cientista da missão Parker Solar Probe no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, Maryland, EUA. "Esta aproximação vai dar-nos mais dados para compreendermos como é acelerado mais perto [do Sol]".
A Parker Solar Probe também fez descobertas no Sistema Solar interior. As observações mostraram como as explosões solares gigantes, chamadas ejeções de massa coronal, "aspiram" poeira à medida que varrem o Sistema Solar, e outras observações revelaram descobertas inesperadas sobre as partículas energéticas solares. Os "flybys" por Vénus documentaram as emissões naturais de rádio da atmosfera do planeta, bem como a primeira imagem completa do seu anel de poeira orbital.
Até agora, a nave espacial apenas transmitiu que está em segurança, mas em breve estará num local que lhe permitirá enviar os dados recolhidos durante esta última passagem solar.
"Os dados que serão transmitidos pela nave espacial serão informações novas sobre um lugar onde nós, como humanidade, nunca estivemos", disse Joe Westlake, diretor da Divisão de Heliofísica na sede da NASA. "É um feito espantoso".
As próximas passagens solares da nave espacial estão planeadas para 22 de março de 2025 e 19 de junho de 2025.
Será que o exoplaneta TRAPPIST-1 b tem, afinal, uma atmosfera?
Uma impressão artística de TRAPPIST-1 b pouco antes de passar por detrás da estrela anã vermelha fria TRAPPIST-1. Estas estrelas são conhecidas pela sua atividade, com grandes manchas estelares e erupções. TRAPPIST-1 b pode sofrer vulcanismo intenso.
Crédito: Thomas Müller (HdA/Instituto Max Planck de Astronomia)
Medições recentes com o JWST (James Webb Space Telescope) lançam dúvidas sobre a atual compreensão da natureza do exoplaneta TRAPPIST-1 b. Até agora, presumia-se que se tratava de um planeta rochoso escuro sem atmosfera, moldado por um impacto cósmico de radiação e meteoritos ao longo de mil milhões de anos. O oposto parece ser verdade. A superfície não mostra sinais de meteorização, o que poderia indicar atividade geológica como o vulcanismo e a tectónica de placas. Em alternativa, um planeta com uma atmosfera enevoada composta por dióxido de carbono também é viável. Os resultados demonstram os desafios de determinar as propriedades de exoplanetas com atmosferas finas.
TRAPPIST-1 b é um dos sete planetas rochosos que orbitam a estrela TRAPPIST-1, localizada a 40 anos-luz de distância. O sistema planetário é único porque permite aos astrónomos estudar sete planetas semelhantes à Terra a uma distância relativamente próxima, estando três deles na chamada zona habitável. Esta é a área num sistema planetário onde um planeta pode ter água líquida à superfície. Até à data, dez programas de investigação visaram este sistema com o Telescópio Espacial James Webb durante 290 horas.
O estudo atual, no qual estão significativamente envolvidos investigadores do Instituto Max Planck de Astronomia em Heidelberg, Alemanha, foi liderado por Elsa Ducrot do CEA (Commissariat aux Énergies Atomiques) em Paris, França. Este estudo utiliza medições da radiação infravermelha térmica - essencialmente radiação de calor - do planeta TRAPPIST-1 b com o MIRI (Mid-Infrared Imager) do JWST e foi agora publicado na revista Nature Astronomy. A publicação inclui os resultados do ano passado, nos quais se basearam as conclusões anteriores, que descrevem TRAPPIST-1 b como um planeta rochoso escuro sem atmosfera.
A crosta de TRAPPIST-1 b poderá ser geologicamente ativa
"No entanto, a ideia de um planeta rochoso com uma superfície muito desgastada e sem atmosfera é inconsistente com as medições atuais", diz o astrónomo do Instituto Max Planck de Astronomia, Jeroen Bouwman, que foi corresponsável pelo programa de observação. "Por isso, pensamos que o planeta está coberto por material relativamente inalterado". Normalmente, a superfície é desgastada pela radiação da estrela central e por impactos de meteoritos. No entanto, os resultados sugerem que a rocha à superfície tem, no máximo, cerca de 1000 anos, significativamente menos do que o próprio planeta, que se estima ter vários milhares de milhões de anos.
Isto poderia indicar que a crosta do planeta está sujeita a mudanças dramáticas, que poderiam ser explicadas por vulcanismo extremo ou tectónica de placas. Apesar de tal cenário ser atualmente hipotético, não deixa de ser plausível. O planeta é suficientemente grande para que o seu interior possa ter retido calor residual da sua formação - tal como acontece com a Terra. O efeito de maré da estrela central e dos outros planetas pode também deformar TRAPPIST-1 b de modo a que a fricção interna resultante gere calor - semelhante ao que vemos na lua Io de Júpiter. Para além disso, seria concebível um aquecimento indutivo pelo campo magnético da estrela vizinha.
Poderá TRAPPIST-1 b ter, afinal, uma atmosfera?
"Os dados também permitem uma solução completamente diferente", diz Thomas Henning, diretor emérito do Instituto Max Planck de Astronomia. Ele foi um dos principais arquitetos do instrumento MIRI. "Contrariamente às ideias anteriores, há condições em que o planeta pode ter uma atmosfera espessa e rica em dióxido de carbono (CO2)", acrescenta. Um papel fundamental neste cenário é a neblina de hidrocarbonetos, ou seja, smog, na atmosfera superior.
Os dois programas de observação, que se complementam no presente estudo, foram concebidos para medir o brilho de TRAPPIST-1 b em diferentes comprimentos de onda na gama do infravermelho (12,8 e 15 micrómetros). A primeira observação foi sensível à absorção da radiação infravermelha do planeta por uma camada de CO2. No entanto, não foi medido qualquer escurecimento, o que levou os investigadores a concluir que o planeta não tem atmosfera.
Representação do brilho infravermelho emitido por TRAPPIST-1 b a 12,8 e 15 micrómetros para diferentes cenários envolvendo rocha nua e atmosfera. Os quatro casos indicam quais os que estão de acordo com os dados atuais e quais os que não estão. (a) A rocha nua e escura produz um brilho infravermelho superior ao observado; (b) O brilho infravermelho observado é bem compatível com uma superfície de rocha magmática que tem pouco ou nenhum intemperismo; (c) Uma atmosfera de dióxido de carbono e um elevado véu de neblina poderiam também explicar os dados das medições, na medida em que uma grande parte da radiação infravermelha provém das camadas superiores da atmosfera; (d) Atmosferas semelhantes à da Terra absorvem parte da radiação infravermelha gerada pela superfície, o que levaria a intensidades não observadas em TRAPPIST-1 b.
Crédito: Elsa Ducrot (CEA)/Instituto Max Planck de Astronomia
A equipa de investigação efetuou cálculos de modelos que mostram que a neblina pode inverter a estratificação da temperatura de uma atmosfera rica em CO2. Normalmente, as camadas inferiores, ao nível do solo, são mais quentes do que as superiores, devido à pressão mais elevada. À medida que a neblina absorve a luz estelar e aquece, aqueceria as camadas atmosféricas superiores, apoiada por um efeito de estufa. Como resultado, o dióxido de carbono emite ele próprio radiação infravermelha.
Vemos algo semelhante a acontecer na lua de Saturno, Titã. A sua camada de neblina forma-se, muito provavelmente, sob a influência da radiação ultravioleta (UV) do Sol, proveniente dos gases ricos em carbono da atmosfera. Um processo semelhante pode ocorrer em TRAPPIST-1 b devido ao facto da sua estrela emitir uma radiação UV substancial.
É complicado
Mesmo que os dados se ajustem a este cenário, os astrónomos continuam a considerá-lo menos provável em comparação. Por um lado, é mais difícil, embora não impossível, produzir hidrocarbonetos que formam uma neblina a partir de uma atmosfera rica em CO2. A atmosfera de Titã, no entanto, é constituída principalmente por metano. Por outro lado, o problema continua a ser que as estrelas anãs vermelhas ativas, que incluem TRAPPIST-1, produzem radiação e ventos que podem facilmente corroer as atmosferas de planetas próximos ao longo de milhares de milhões de anos.
TRAPPIST-1 b é um exemplo da dificuldade atual em detetar e determinar as atmosferas de planetas rochosos - mesmo para o Webb. São finas quando comparadas com as dos planetas gasosos e produzem apenas fracas assinaturas mensuráveis. As duas observações para estudar TRAPPIST-1 b, que forneceram valores de brilho em dois comprimentos de onda, duraram quase 48 horas, o que não foi suficiente para determinar sem margem para dúvidas se o planeta tem uma atmosfera.
Eclipses e ocultações como ferramenta
Esta ilustração mostra a observação de TRAPPIST-1 b durante um trânsito. Diferentes regiões da sua superfície são reveladas ao longo da sua órbita. O lado virado para a estrela é muito mais quente e emite luz infravermelha térmica brilhante. O sinal completo é captado imediatamente antes e depois da ocultação do planeta, com apenas o brilho da estrela registado durante o evento. No painel inferior, o gráfico mostra as medições de brilho da estrela isoladamente e em combinação com o lado diurno do planeta, enfatizando as mudanças de brilho ao longo do tempo.
Crédito: Elsa Ducrot (CEA)/Instituto Max Planck de Astronomia
As observações tiraram partido da ligeira inclinação do plano dos planetas em relação à nossa linha de visão de TRAPPIST-1. Esta orientação faz com que os sete planetas passem à frente da estrela e a escureçam ligeiramente durante cada órbita. Consequentemente, isto permite aprender sobre a natureza e as atmosferas dos planetas de várias formas.
A chamada espetroscopia de trânsito provou ser um método fiável. Trata-se de medir o escurecimento de uma estrela pelo seu planeta, consoante o comprimento de onda. Para além da ocultação pelo corpo planetário opaco, a partir da qual os astrónomos determinam o tamanho do planeta, os gases atmosféricos absorvem a luz da estrela em comprimentos de onda específicos. A partir daí, podem deduzir se um planeta tem uma atmosfera e em que consiste. Infelizmente, este método tem desvantagens, especialmente para sistemas planetários como TRAPPIST-1. As estrelas anãs vermelhas e frias apresentam frequentemente grandes manchas estelares e fortes erupções, afetando significativamente a medição.
Os astrónomos contornam em grande parte este problema observando o lado de um exoplaneta aquecido pela estrela na luz infravermelha térmica, como no estudo atual com TRAPPIST-1 b. O brilhante lado diurno é particularmente fácil de ver imediatamente antes e depois do planeta desaparecer atrás da estrela. A radiação infravermelha que o planeta liberta contém informação sobre a sua superfície e atmosfera. No entanto, estas observações são mais demoradas do que a espetroscopia de trânsito.
Dado o potencial destas medições do chamado eclipse secundário, a NASA aprovou recentemente um extenso programa de observação para estudar as atmosferas de planetas rochosos em torno de estrelas próximas de baixa massa. Este programa extraordinário, "Rocky Worlds", inclui 500 horas de observação com o Telescópio James Webb.
Certezas sobre TRAPPIST-1 b
A equipa de investigação espera poder obter uma confirmação definitiva utilizando outra variante de observação. Regista a órbita completa do planeta em torno da estrela, incluindo todas as fases de iluminação, desde o lado noturno, quando passa em frente da estrela, até ao brilhante lado diurno, pouco antes e depois de ser coberto pela estrela. Esta abordagem permitirá à equipa criar a chamada curva de fase, que indica a variação do brilho do planeta ao longo da sua órbita. Como resultado, os astrónomos podem deduzir a distribuição da temperatura da superfície do planeta.
A equipa já efetuou esta medição com TRAPPIST-1 b. Ao analisar a forma como o calor se distribui pelo planeta, podem deduzir a presença de uma atmosfera. Isto porque uma atmosfera ajuda a transportar o calor do lado diurno para o lado noturno. Se a temperatura mudar abruptamente na transição entre os dois lados, isso indica a ausência de uma atmosfera.
Genealogia dos buracos negros: uma nova forma de descobrir os "antepassados" destes fenómenos cósmicos
Representação da fusão de buracos negros que despoletou a onda gravitacional conhecida como GW190521, cujos dados foram utilizados no artigo científico.
Crédito: LIGO/Caltech/MIT/R. Hurt (IPAC)
Uma equipa de investigadores do IGFAE (Instituto Galego de Física de Altas Enerxías) e da CUHK (Chinese University of Hong Kong) publicou um artigo científico na revista The Astrophysical Journal propondo um novo método para reconstruir a "árvore genealógica" dos buracos negros. A abordagem desta investigação oferece uma forma de inferir as propriedades dos buracos negros "progenitores" destas fusões, um dos eventos mais brutais que podem ser observados no Universo. Como resultado destas fusões, são geradas ondas gravitacionais, uma espécie de "rugas" no espaço-tempo que viajam à velocidade da luz e que podem atualmente ser detetadas através dos instrumentos desenvolvidos por colaborações internacionais como o Virgo, Kagra ou LIGO.
Desvendando a árvore genealógica dos buracos negros
Através da análise das ondas gravitacionais, é possível obter informações sobre a fusão de buracos negros, tais como as suas massas, a direção da sua rotação e outras pistas sobre as suas origens. Na maioria dos casos, os buracos negros formam-se a partir dos remanescentes de estrelas massivas que colapsaram sob a sua própria gravidade depois de esgotarem o seu combustível nuclear.
No entanto, de acordo com as teorias astrofísicas, existe um tipo de "vácuo" no qual os buracos negros não se podem formar diretamente a partir do colapso estelar, e que é conhecido como o "intervalo de massa de instabilidade do par". Pensa-se que os buracos negros dentro deste intervalo têm origem em fusões hierárquicas, ou seja, fusões sucessivas de buracos negros "ancestrais" mais pequenos, cada uma das quais forma um buraco negro progressivamente mais massivo. Formam assim uma espécie de árvore genealógica na qual esta investigação pretende mergulhar.
Embora esta explicação pareça simples, o processo não é trivial. Para que um buraco negro possa participar em sucessivas fusões, tem de permanecer ligado ao seu ambiente hospedeiro, como uma galáxia ou um enxame denso de estrelas. No entanto, os buracos negros produzidos em fusões adquirem uma velocidade de recuo, ou "coice", que pode atingir milhares de quilómetros por segundo, o suficiente para os expulsar da maioria dos ambientes hospedeiros. Por exemplo, nos enxames globulares, que são considerados hospedeiros chave para fusões de buracos negros, a velocidade de escape é apenas de cerca de 50 km/s. Embora a rotação e a massa dos buracos negros possam ser medidas diretamente a partir de sinais de ondas gravitacionais, a velocidade de recuo depende das propriedades dos "antepassados" dos buracos negros em fusão, que não podem ser observados diretamente.
"Com este tipo de estudo, podemos não só adivinhar os antepassados dos buracos negros que observamos. Podemos também adivinhar em que tipo de ambiente (se é que existe algum!) este processo pode ter ocorrido. Se nenhum ambiente for viável e estes buracos negros não puderem ser o resultado de fusões anteriores, poderemos ter de repensar a evolução estelar ou considerar que talvez nem sequer estejamos a observar buracos negros", afirma o professor Juan Calderón Bustillo, bolseiro Ramón y Cajal do IGFAE, centro conjunto da Universidade de Santiago de Compostela e da Junta da Galiza, coautor do estudo.
Análise do misterioso sinal GW190521
A equipa aplicou esta técnica ao misterioso sinal de ondas gravitacionais GW190521, que envolve um buraco negro que cai no "intervalo proibido de massa". "Descobrimos que, de acordo com as propriedades que certos grupos encontraram para este buraco negro, é improvável que se tenha formado num enxame globular devido aos grandes pontapés que este buraco negro pode ter herdado", diz Carlos Araujo, estudante de mestrado no Instituto de Astrofísica das Canárias e antigo aluno na Universidade de Santiago de Compostela.
"De facto, ambientes com maiores velocidades de escape, como os NGAs (Núcleos Galácticos Activos) ou nos enxames de estrelas no núcleo de uma galáxia, parecem mais plausíveis, devido à sua capacidade de reter buracos negros com grandes 'pontapés'. Isto alinha-se com os estudos existentes que sugerem que GW190521 ocorreu num NGA", diz Henry Wong, antigo aluno da CUHK e agora cientista de dados no setor privado.
"Descobrimos que podemos aceder ao impulso de nascimento do buraco negro porque este está intimamente ligado à sua rotação. Infelizmente, hoje em dia não podemos medir as rotações com muita precisão, o que é um dos fatores limitantes do nosso estudo. À medida que o LIGO e o Virgo continuam a aumentar a sua sensibilidade e que os novos detetores de terceira geração entram em funcionamento, o nosso método fornecerá informações mais pormenorizadas sobre a genealogia dos buracos negros que observamos", afirma Ania Liu, coautora do estudo e estudante de doutoramento na CUHK.
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: ESA/Hubble e NASA
Vista de frente, a grande galáxia espiral NGC 5643 tem um aspeto festivo neste colorido retrato cósmico. A cerca de 55 milhões de anos-luz de distância, a galáxia estende-se por mais de 100.000 anos-luz, situada dentro dos limites da constelação austral de Lobo. Os seus 40.000 anos-luz interiores são aqui mostrados em grande pormenor nesta composição de dados obtidos pelo Telescópio Espacial Hubble. Os magníficos braços espirais da galáxia partem de uma região central amarelada, dominada pela luz de estrelas velhas, enquanto os próprios braços espirais são rastreados por faixas de poeira, jovens estrelas azuis e regiões avermelhadas de formação estelar. O núcleo compacto e brilhante de NGC 5643 é também conhecido por ser um forte emissor de ondas rádio e raios X. De facto, NGC 5643 é um dos exemplos mais próximos da classe Seyfert de galáxias ativas, onde se pensa que grandes quantidades de poeira e gás estão a cair num buraco negro massivo central.
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