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  Astroboletim #2221  
  20/06 a 23/06/2025  
     
 
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EFEMÉRIDES

DIA 20/06: 171.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1944, o foguetão V-2 torna-se no primeiro objeto artificial a atravessar o limite do espaço, a Linha de Kármán, com o lançamento V-177.
Em 1976, o módulo de aterragem da Viking 1 pousava em Marte.
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Em 1990, era descoberto o asteroide Eureka.
HOJE, NO COSMOS:
A partir de hoje e durante as próximas semanas, observe Marte e Régulo a ficarem mais separados à medida que se põem a oeste durante e após o lusco-fusco. Esta noite estão separados por cerca de 2º. Daqui a uma semana por 6º e um pouco mais baixos no céu.

 

DIA 21/06: 172.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1863, nascia Max Wolf, astrónomo alemão e pioneiro no campo da astrofotografia.
Em 2003, quase 20 anos depois da sua viagem ao espaço, Sally Ride entra para o Corredor da Fama dos Astronautas, tornando-se na primeira mulher a ser honrada por esta instituição. 
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Em 2004, o SpaceShipOne torna-se no primeiro avião espacial privado a voar no espaço.
Em 2006, as recém-descobertas luas de Plutão são oficialmente denominadas Nix e Hydra.
HOJE, NO COSMOS:
Feliz solstício! O verão começa pelas 03:42. É quando o Sol está mais para norte no ano (no céu da Terra) e começa a sua viagem de seis meses para sul.
Começa o inverno no hemisfério sul.
Para nós, no hemisfério norte, é o dia mais longo do ano. É também o dia (para latitudes norte) em que o Sol do meio-dia passa o mais perto do zénite, quando a sombra se torna a mais pequena possível no local onde o observador se encontra. Isto ocorre ao meio-dia solar aparente, provavelmente não o mesmo que o meio-dia horário. Se tiver um horizonte desimpedido a oeste-noroeste, marque cuidadosamente o ponto onde o Sol se põe. Daqui a alguns dias poderá detetar que o Sol começou novamente a pôr-se um pouco para sul (esquerda) desse ponto.

 

DIA 22/06: 173.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1633, a Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, força Galileu a retirar a sua visão que o Sol, não a Terra, era o centro do Universo.
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Em 1675 era fundado o Observatório Real de Greenwich
Em 1978 James Christy, do Observatório Naval dos Estados Unidos em Flagstaff, Arizona, descobre o satélite de PlutãoCaronte. Plutão foi também descoberto em Flagstaff (no Observatório Lowell) em 1930.
HOJE, NO COSMOS:
Olhe para este-nordeste pelo menos uma hora antes do nascer-do-Sol e aviste a Lua a passar por Vénus. É uma passagem razoavelmente distante: o nosso satélite natural não estará a menos de 6º, no céu, do planeta.

 

DIA 23/06: 174.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
HOJE, NO COSMOS:
Depois do anoitecer, olhe para sudeste e encontre a alaranjada Antares, a "Betelgeuse do Verão" (ambas são supergigantes "vermelhas" de primeira magnitude). À volta e para cima e para a direita de Antares estão as outras estrelas mais esbranquiçadas de Escorpião, formando o seu familiar e distinto padrão. O resto de Escorpião está situado para baixo e para a esquerda de Antares. Quanto para mais para norte o observador estiver, mais baixo Escorpião estará.
Também logo após o anoitecer, aviste Arcturo bem alta a sudoeste. Três punhos à distância do braço esticado, para baixo de Arcturo, está a estrela Espiga. Punho e meio à distância do braço esticado, para baixo e para a direita de Espiga, está a pequena constelação de Corvo, formada por apenas quatro estrelas.

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Astrónomos obtêm a imagem de milhares de cores mais detalhada de uma galáxia
 
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Imagem detalhada, com milhares de cores, da Galáxia do Escultor, capturada com o instrumento MUSE, montado no VLT do ESO. Vemos espalhadas por todo este retrato galáctico áreas de luz rosa, que provêm de hidrogénio ionizado existente em regiões de formação estelar. Estas áreas foram sobrepostas a um mapa de estrelas já formadas na Galáxia do Escultor, criando-se assim a mistura de rosas e azuis que aqui vemos.
Crédito: ESO/E. Congiu et al.
 

Os astrónomos criaram uma obra prima galáctica: uma imagem extremamente detalhada que revela características da Galáxia do Escultor que nunca tinham sido observadas anteriormente. Com o auxílio do VLT (Very Large Telescope) do ESO, os investigadores observaram esta galáxia próxima de nós em milhares de cores simultaneamente. Com a obtenção de uma enorme quantidade de dados em cada local da galáxia, foi possível criar um retrato da vida das suas estrelas.

"As galáxias são muitíssimo complexas e ainda estamos a tentar compreendê-las", diz Enrico Congiu, investigador do ESO, que liderou um novo estudo sobre a Galáxia do Escultor publicado na revista Astronomy & Astrophysics. Com centenas de milhares de anos-luz de diâmetro, são sistemas extremamente grandes, mas a sua evolução depende do que se passa a escalas muito menores. "A Galáxia do Escultor está num ponto ideal", explica Congiu. "Encontra-se suficientemente perto da Terra para podermos observar a sua estrutura interna e estudar os seus blocos constituintes com um detalhe extraordinário, mas, ao mesmo tempo, é suficientemente grande para a podermos ainda ver como um sistema completo".

Os elementos constituintes de uma galáxia — estrelas, gás e poeira — emitem radiação a diferentes comprimentos de onda, ou cores. Por isso, quanto mais tons de cor tivermos numa imagem duma galáxia, mais poderemos aprender sobre o seu funcionamento interno. Enquanto as imagens convencionais apresentam apenas algumas cores, este novo mapa da Galáxia do Escultor mostra-nos milhares, dando assim aos astrónomos todas as informações necessárias relativas às estrelas, ao gás e à poeira existente no seu interior, tais como idade, composição e movimento.

Para criar este mapa da Galáxia do Escultor, situada a 11 milhões de anos-luz de distância da Terra e também conhecida como NGC 253, os investigadores observaram-na durante mais de 50 horas com o instrumento MUSE (Multi Unit Spectroscopic Explorer) montado no VLT do ESO. A equipa juntou mais de 100 exposições para cobrir uma área da galáxia com cerca de 65.000 anos-luz.

 
Esta imagem mostra a Galáxia do Escultor sob uma nova luz. Esta composição de cores falsas mostra comprimentos de onda específicos correspondentes a radiação emitida pelo hidrogénio, azoto, enxofre e oxigénio. Estes elementos existem sob a forma de gás em toda a galáxia, mas os mecanismos que fazem com que este gás brilhe variam ao longo da galáxia. A luz rosa representa gás excitado pela radiação emitida por estrelas recém-nascidas, enquanto que o cone de luz mais branca que vemos no centro é causado por emissão de gás do buraco negro que se situa no núcleo da galáxia.
Crédito: ESO/E. Congiu et al.
 

De acordo com a coautora Kathryn Kreckel, da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, é exatamente isso que faz deste mapa uma importante fonte de trabalho: "Podemos aproximar-nos, quase à escala das estrelas individuais, e estudar regiões onde as estrelas se formam, mas também podemos afastar-nos e estudar a galáxia como um todo".

Durante a primeira análise dos dados obtidos, a equipa descobriu cerca de 500 nebulosas planetárias, regiões de gás e poeira libertadas por estrelas semelhantes ao Sol que estão a morrer na Galáxia do Escultor. O coautor Fabian Scheuermann, estudante de doutoramento na Universidade de Heidelberg, contextualiza este número: "Para além da nossa vizinhança galáctica, lidamos normalmente com menos de 100 deteções por galáxia".

Devido às suas propriedades, as nebulosas planetárias podem ser usadas como marcadores de distância das galáxias que as acolhem. "Encontrar nebulosas planetárias permite-nos determinar a distância à galáxia que as alberga — uma informação crucial da qual dependem os restantes estudos levados a cabo sobre essa galáxia", afirma Adam Leroy, professor na Universidade do Estado do Ohio, EUA, e coautor do estudo.

Futuros trabalhos de investigação utilizarão este mapa para explorar a forma como o gás flui, altera a sua composição e forma estrelas em toda a Galáxia do Escultor. "Para nós é ainda um mistério como é que processos tão pequenos podem ter um impacto tão grande numa galáxia cuja dimensão total é milhares de vezes maior que esses processos", conclui Congiu.

// ESO (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (PDF)
// Astrónomos capturam galáxia a milhares de cores (ESO via YouTube)
// Animação da rotação da Galáxia do Escultor (ESO via YouTube)

 


Quer saber mais?

Galáxia do Escultor (NGC 253):
SEDS
Wikipedia

VLT (Very Large Telescope):
ESO
Wikipedia
MUSE (ESO)

 
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O primeiro eclipse solar artificial da Proba-3
 
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A coroa interna do Sol aparece esverdeada nesta imagem obtida no dia 23 de maio de 2025 pelo coronógrafo ASPIICS a bordo da Proba-3, a missão de voo em formação da ESA capaz de criar eclipses solares totais artificiais em órbita.
Esta imagem, captada no espetro da luz visível, mostra a coroa solar de forma semelhante à que um olho humano veria durante um eclipse através de um filtro verde. As estruturas semelhantes a cabelos foram reveladas utilizando um algoritmo especializado de processamento de imagem.
Crédito: ESA/Proba-3/ASPIICS/algoritmo WOW
 

A missão Proba-3 da ESA revelou as suas primeiras imagens da atmosfera exterior do Sol - a coroa solar. Os dois satélites da missão, capazes de voar como uma única nave espacial graças a um conjunto de tecnologias de posicionamento a bordo, conseguiram criar o seu primeiro "eclipse solar total artificial" em órbita. As imagens coronais resultantes demonstram o potencial das tecnologias de voo em formação, ao mesmo tempo que fornecem dados científicos de valor incalculável que irão melhorar a nossa compreensão do Sol e da sua enigmática atmosfera.

Duas naves espaciais a voar como uma só

No passado mês de março, a missão Proba-3 conseguiu o que nenhuma outra tinha conseguido antes - as suas duas naves espaciais, a 'Coronagraph' e a 'Occulter', voaram a 150 metros de distância em formação perfeita durante várias horas sem qualquer controlo a partir do solo.

Enquanto estiveram alinhadas, as duas naves mantiveram a sua posição relativa até um único milímetro - um feito extraordinário possibilitado por um conjunto de tecnologias inovadoras de navegação e posicionamento.

Demonstrando o grau de precisão alcançado, as duas naves espaciais utilizam o seu tempo de voo em formação para criar eclipses solares totais artificiais em órbita - alinham-se com o Sol de modo a que o disco de 1,4 m de diâmetro transportado pela nave 'Occulter' cubra o disco brilhante do Sol para a nave 'Coronagraph', projetando uma sombra de 8 cm de diâmetro sobre o seu instrumento ótico, o ASPIICS.

Este instrumento, abreviatura de "Association of Spacecraft for Polarimetric and Imaging Investigation of the Corona of the Sun", foi desenvolvido para a ESA por um consórcio industrial liderado pelo Centro Espacial de Liège, na Bélgica. Quando a sua abertura de 5 cm está coberta pela sombra, o instrumento capta imagens da coroa solar sem ser interrompido pela luz brilhante do Sol.

 
Para formar um eclipse solar estável da 'Occulter' para a 'Coronagraph' durante as seis horas planeadas, o par tem de manter a formação com uma precisão de um milímetro, aproximadamente a mesma espessura de uma unha comum.
O par faz isto de forma autónoma, empregando um conjunto de sensores. Os rastreadores estelares e a navegação por satélite são complementados por ligações rádio intersatélite, câmaras óticas que rastreiam LEDs, um laser refletido através de retrorefletores e, finalmente, sensores de sombra que rodeiam a abertura do ASPIICS.
Crédito: ESA-F. Zonno
 

A observação da coroa é crucial para revelar o vento solar, o fluxo contínuo de matéria do Sol para o espaço exterior. É também necessária para compreender o funcionamento das ejeções de massa coronal (EMCs), explosões de partículas enviadas pelo Sol quase todos os dias, especialmente durante períodos de grande atividade.

Estes eventos podem criar auroras espantosas no céu noturno, mas também representam sérias ameaças à tecnologia moderna. Podem perturbar significativamente as comunicações, a distribuição energética e os sistemas de navegação na Terra, como aconteceu em maio de 2024.

As imagens coronais resultantes das primeiras rondas de observações do ASPIICS fornecem um vislumbre dos dados valiosos que podemos esperar desta missão produtora de eclipses.

O misterioso halo

A ardente coroa do Sol atinge temperaturas superiores a um milhão de graus Celsius, muito mais quente do que a superfície por baixo dela. Esta contraintuitiva diferença de temperatura há muito que é objeto de discussão na comunidade científica.

O ASPIICS da Proba-3 está a resolver este mistério estudando a coroa muito perto da superfície do Sol. Também consegue ver mais pormenores, detetando características mais ténues do que os coronógrafos tradicionais, graças a uma redução drástica da quantidade de luz "dispersa" que chega ao detetor.

Joe Zender, cientista do projeto Proba-3, acrescenta: "Ver os primeiros dados do ASPIICS é incrivelmente excitante. Juntamente com as medições efetuadas por outro instrumento a bordo, o DARA, o ASPIICS contribuirá para desvendar questões de longa data sobre a nossa estrela natal".

O DARA (Digital Absolute Radiometer) medirá a irradiância solar total - exatamente a quantidade de energia que o Sol emite em cada momento. Um terceiro instrumento científico da missão Proba-3, o 3DEES (3D Energetic Electron Spectrometer), irá detetar eletrões nas cinturas de radiação da Terra, medindo a sua direção de origem e níveis de energia.

 
A enigmática coroa - muito mais quente do que o próprio Sol - é onde nasce o clima espacial. Já dispomos de instrumentos que podem estudar o Sol, a baixa coroa e a alta coroa. No entanto, entre a baixa coroa e a alta coroa existe uma região - uma divisão - onde as observações são difíceis. Esta região, até três raios solares, permanece largamente inexplorada.
Normalmente, só é possível observar esta região durante os eclipses solares terrestres. O instrumento ASPIICS da Proba-3 aumentará a nossa visão de perto do Sol e da sua coroa de três raios solares para apenas 0,8 raios solares, permitindo um estudo sustentado do vento solar e das ejeções de massa coronal.
Crédito: ESA-F. Zonno
 

Como criar um eclipse solar

"Fiquei absolutamente entusiasmado ao ver as imagens, especialmente porque as obtivemos à primeira tentativa", comenta Andrei Zhukov, investigador principal do ASPIICS no Observatório Real da Bélgica. "Agora estamos a trabalhar para aumentar o tempo de observação para seis horas em cada órbita".

Andrei explica: "Cada imagem completa - cobrindo a área desde o Sol oculto até ao limite do campo de visão - é efetivamente construída a partir de três imagens. A diferença entre elas é apenas o tempo de exposição, que determina quanto tempo a abertura do coronógrafo é exposta à luz. A combinação das três imagens dá-nos a visão completa da coroa.

"As nossas imagens do 'eclipse artificial' são comparáveis às obtidas durante um eclipse natural. A diferença é que podemos criar o nosso eclipse uma vez em cada órbita de 19,6 horas, enquanto os eclipses solares totais só ocorrem naturalmente uma vez, muito raramente duas vezes por ano. Para além disso, os eclipses totais naturais duram apenas alguns minutos, enquanto a Proba-3 pode manter o seu eclipse artificial até 6 horas".

O diretor da missão Proba-3, Damien Galano, salienta: "O facto de duas naves espaciais formarem um coronógrafo gigante no espaço permitiu-nos captar a coroa interior com níveis muito baixos de luz dispersa nas nossas observações, exatamente como esperávamos.

"Embora ainda estejamos na fase de comissionamento, já conseguimos um voo de formação precisa com uma exatidão sem precedentes. Foi isto que nos permitiu captar as primeiras imagens da missão, que serão sem dúvida de grande valor para a comunidade científica.

"Os voos em formação que conseguimos até agora foram realizados de forma autónoma, mas sob a supervisão da equipa de controlo em terra, que estava pronta a intervir para corrigir quaisquer potenciais desvios. A única tarefa que nos resta é alcançar a autonomia total, altura em que a nossa confiança no sistema será tal que nem sequer faremos uma monitorização de rotina a partir do solo".

// ESA (comunicado de imprensa)
// O primeiro eclipse solar artifical no espaço (ESA via YouTube)

 


Quer saber mais?

Cobertura da missão Proba-3 pelo CCVAlg - Astronomia:
13/05/2025 - Proba-3 atinge objetivo de voar em formação precisa
06/12/2024 - Lançamento da missão Proba-3

Proba-3 (Project for On-Board Autonomy 3):
ESA
ESA - 2
Kit para os media (PDF)
Wikipedia

Sol:
CCVAlg - Astronomia 
Wikipedia
Coroa solar (Wikipedia)

 
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A nossa água é mais velha do que o Sol? Astrónomos encontram pistas no gelo em torno de uma jovem estrela
 
Imagem, obtida pelo Webb, do sistema protoestelar L1527 IRS. A protoestrela está embebida numa nuvem de poeira, gás e gelo (incluindo água gelada semipesada) que alimenta o seu crescimento.
Crédito: NASA, ESA, CSA e STScI, J. DePasquale (STScI)
 

Uma equipa liderada por astrónomos da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, e do NRAO (National Radio Astronomy Observatory), na Virgínia (EUA), detetou, pela primeira vez, água gelada semipesada em torno de uma jovem estrela semelhante ao Sol. Os resultados reforçam a hipótese de que parte da água no nosso Sistema Solar se formou antes do Sol e dos planetas. Os investigadores utilizaram o Telescópio Espacial James Webb e publicaram os seus resultados na revista The Astrophysical Journal Letters.

Uma das formas de os astrónomos descobrirem a origem da água é através da medição do seu rácio de deuteração. Esta é a fração de água que contém um átomo de deutério em vez de um dos hidrogénios. Assim, em vez de H2O, é HDO, que também é chamada água semipesada. Uma fração elevada de água semipesada é um sinal de que a água se formou num local muito frio, como as nuvens escuras primitivas de poeira, gelo e gás de onde nascem as estrelas.

Nos nossos oceanos, nos cometas e nas luas geladas, uma em cada dois milhares de moléculas de água é constituída por água semipesada. Este valor é cerca de dez vezes superior ao esperado com base na composição do nosso Sol. Por isso, os astrónomos colocam a hipótese de parte da água do nosso Sistema Solar ter tido origem como gelo em nuvens escuras, centenas de milhares de anos antes do nascimento do nosso Sol. Para confirmar esta hipótese, têm de medir o rácio de deuteração da água gelada nessas regiões de formação estelar.

Uma equipa internacional de astrónomos detetou agora uma proporção muito elevada de água gelada semipesada num invólucro protoestelar. Esta é a nuvem de material que rodeia uma estrela na sua fase embrionária.

Uma assinatura muito clara

Os astrónomos utilizaram o Telescópio Espacial James Webb. Antes do seu lançamento, o rácio de deuteração da água em regiões de formação estelar só podia ser medida de forma fiável na fase gasosa, onde pode ser quimicamente alterada. "Agora, com a sensibilidade sem precedentes do Webb, observamos uma assinatura muito clara de água gelada semipesada na direção de uma protoestrela", diz Katie Slavicinska, estudante de doutoramento da Universidade de Leiden (Países Baixos) que liderou o estudo.

A protoestrela em questão é L1527 IRS, localizada na constelação de Touro, a cerca de 460 anos-luz da Terra. "Em vários aspetos, é semelhante ao que pensamos que o nosso Sol era quando começou a formar-se", diz John Tobin, do NRAO no estado norte-americano da Virgínia, que lidera um dos programas Webb responsáveis pelas observações.

O rácio de deuteração da água em L1527 é muito semelhante ao rácio de alguns cometas, bem como ao do disco protoplanetário de uma estrela jovem mais evoluída, o que sugere origens químicas antigas e frias semelhantes para a água encontrada em todos estes objetos.

"Esta descoberta vem juntar-se às evidências crescentes de que a maior parte da água gelada faz a sua viagem praticamente inalterada desde as primeiras até às últimas fases da formação estelar", diz a coautora Ewine van Dishoeck, professora de astronomia na Universidade de Leiden, que passou grande parte da sua carreira a seguir a viagem da água através do espaço.

30 protoestrelas e nuvens a caminho

No entanto, o rácio de deuteração da água gelada medido em L1527 IRS é ligeiramente superior aos rácios medidos em alguns cometas do nosso Sistema Solar e ao rácio de água na Terra. Uma variedade de fatores pode causar esta diferença. Por exemplo, alguma da água nesses cometas e na Terra pode ter sido quimicamente alterada no disco. Ou a nuvem escura que formou o nosso Sol pode ser diferente da nuvem escura onde L1527 IRS se formou.

Estão planeadas mais observações de água gelada semipesada para investigar possíveis razões para estas diferenças. Slavicinska e o coautor Tom Megeath, professor de astronomia na Universidade de Toledo (EUA), lideram vários programas Webb que irão expandir a procura de HDO gelado a 30 novas protoestrelas e nuvens escuras primitivas. Entretanto, Tobin lidera observações complementares com o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) que procurará gás HDO em vários dos mesmos alvos.

// Universidade de Leiden (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)
// Webb revela a protoestrela L1527 IRS - visualização (STScI via YouTube)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
18/11/2022 - Webb observa "ampulheta" incandescente e o nascer de uma nova estrela
08/01/2019 - ALMA descobre protoestrela com disco reformado
17/02/2017 - ALMA revela a estrutura de um sistema protoestelar de baixa massa

Água semipesada:
Wikipedia

Nuvem molecular de Touro:
Wikipedia

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
STScI (website para o público)
ESA
ESA/Webb
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Blog do JWST (NASA)
NIRISS (NASA)
NIRCam (NASA)
MIRI (NASA)
NIRSpec (NASA)

 
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Também em destaque
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exemplo   Novo estudo fornece uma dosa dupla de "Júpiteres quentes" (via Universidade de Yale)
Astrónomos poderão ter descoberto a história da origem de um dos fenómenos mais deslumbrantes do Universo - o "Júpiter quente" duplo - bem como um plano para encontrar mais. Os Júpiteres quentes são planetas grandes e intensamente quentes (mais de 1600 graus Celsius) que têm aproximadamente o tamanho de Júpiter ou Saturno. Orbitam tão perto da sua estrela natal que, para eles, uma viagem à volta do Sol pode ser completada em menos de um dia. Ler fonte
     
exemplo   Espessas camadas de argila em Marte podem ter sido um local estável para a vida antiga (via Universidade do Texas em Austin)
O planeta Marte é o lar de espessas camadas de argila que podem atingir dezenas de metros. Uma vez que necessitam de água para se formarem, estes afloramentos há muito que são do interesse dos cientistas que procuram sinais de vida passada no Planeta Vermelho. Num novo estudo publicado na revista Nature Astronomy, cientistas da Universidade do Texas em Austin e colaboradores analisaram mais de perto estes terrenos argilosos e descobriram que a maioria se formou perto de massas de água à superfície, que eram comuns em Marte há milhares de milhões de anos. Ler fonte
     
  O notável progresso na compreensão da evolução dos planetas terrestres (via SwRI)
O SwRI (Southwest Research Institute) colaborou com a Universidade de Yale para resumir os progressos notáveis da comunidade científica na compreensão da formação e evolução dos planetas rochosos interiores, os chamados planetas terrestres. O seu artigo científico na revista Nature Review centra-se no papel da acreção tardia na evolução a longo prazo dos planetas terrestres, incluindo as suas propriedades geofísicas e químicas distintas, bem como a sua potencial habitabilidade. Ler fonte
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Álbum de fotografias
Silhueta da Estação Espacial na Lua

exemplo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Eric Holland
 
O que é aquela mancha invulgar na Lua? É a Estação Espacial Internacional. Usando um "timing" preciso, a plataforma espacial em órbita da Terra foi fotografada em frente a uma Lua gibosa parcialmente iluminada em 2019. A imagem em destaque foi tirada a partir de Palo Alto, Califórnia, EUA, com um tempo de exposição de apenas 1/667 de segundo. Em contraste, a duração do trânsito da ISS por toda a Lua foi de cerca de meio segundo. Uma inspeção atenta desta silhueta invulgarmente nítida da ISS revelará os contornos de numerosos painéis solares e módulos. A brilhante cratera Tycho é visível no canto inferior esquerdo, bem como o terreno comparativamente acidentado e de cor clara conhecido como terras altas e áreas relativamente lisas e de cor escura conhecidas como mares. Existem aplicações para o seu telemóvel que podem dizer-lhe quando a Estação Espacial Internacional será visível a partir da área onde vive.
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