Ao mapear minerais na superfície de Marte, usando a sonda europeia Mars Express, cientistas descobriram três eras da história geológica de Marte - anunciadas na edição de 20 de Abril da revista Science - e encontraram pistas valiosas no que respeita a locais onde a vida poderia ter-se desenvolvido.
O novo trabalho mostra que grandes corpos de água poderão ter estado presentes em Marte apenas num passado remoto, há mais ou menos 4 mil milhões de anos atrás, se de todo. Em cerca de meio milhar de milhão de anos, estas condições tinham praticamente desaparecido.
Os resultados vêm do instrumento OMEGA (Observatoire pour la Mineralogie, l'Eau, les Glaces et l'Activite) a bordo da Mars Express. Num ano marciano de operação (687 dias), a OMEGA mapeou 90% da superfície, permitindo a identificação de uma variedade de minerais e os processos pelos quais foram alterados durante o curso da história Marciana. Os mapas permitiram que uma equipa de cientistas, liderada pelo Professor Jean-Pierre Bibring, do IAS (Institut d'Astrophysique Spatiale), em Orsay, França, identificasse três eras geológicas para Marte.
A mais antiga, chamada pelos autores de era 'phyllosian', ocorreu há 4.5-4.2 mil milhões de anos atrás, pouco depois da formação do planeta. O ambiente era possivelmente quente e húmido nesta altura, permitindo a formação de leitos de barro a larga-escala, muitos dos quais ainda hoje sobrevivem.
A segunda era, a 'theiikian', teve lugar entre 4.2 e 3.8 mil milhões de anos atrás. Foi uma época de erupções vulcânicas a nível planetário que alteraram dramaticamente o clima global. Em particular, o enxofre que estas erupções libertaram para a atmosfera reagiram com a água para produzir chuva ácida, que alterou a composição das rochas à superfície onde esta caía.
Finalmente, existiu a 'siderikian', a mais longa das eras marcianas. Começou há volta de 3.8-3.5 mil milhões de anos e continua ainda hoje. Existe pouca água nesta era; ao invés, as rochas parecem ter sido alteradas durante uma lenta erosão pela ténue atmosfera marciana. Este processo deu a Marte a sua cor avermelhada.
As eras têm o seu nome derivado das palavras gregas dos minerais predominantes em cada. A que estava mais apta a suportar vida era a phyllosian, quando os leitos barrentos se poderiam ter formado no fundo de lagos ou mares, providenciando condições húmidas onde os processos de vida poderão ter começado.
No entanto, ainda existem muitas questões por responder. A equipa aponta que estes leitos podem ter-se formado debaixo da terra, em vez de em lagos ou mares.
"A actividade hidrotermal por baixo da superfície, o impacto de asteróides que transportavam água, até mesmo o arrefecimento natural do planeta, todos estes factores poderão ter induzido a formação de barro por baixo da superfície de Marte. Se for este o caso, as condições à superfície deverão ter sido sempre frias e secas," disse Bibring.
Após este período inicial, a água desapareceu quase por completo da superfície do planeta, quer por infiltrações subterrâneas, ou por perdas para o espaço. À excepção de alguns efémeros eventos aquáticos, Marte tornou-se o deserto frio e seco que as sondas vêm hoje. Esta nova identificação de leitos de barro em Marte apontam para alvos de alta-prioridade para futuros "landers" que procurem investigar se Marte alguma vez teve vida.
"Se organismos vivos realmente existiram em Marte, o material barrento seria onde este desenvolvimento bioquímico ocorreria, oferecendo locais excitantes para a futura exploração devido às frias condições marcianas poderem ter preservado a maioria dos registos de moléculas biológicas até hoje," concluíu Bibring.
Links:
Notícias relacionadas:
ESA (comunicado de imprensa)
Universe Today
PhysOrg.com
Space Ref
Astrobiology Magazine
Mars Express:
Página oficial da ESA
Wikipedia
Marte:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia