Top thingy left
 
ASTRÓNOMOS VÊM NOSSAS ORIGENS EM EXPLOSÃO COM 20 ANOS
18 de Julho de 2006
 

Em 1987 uma estrela massiva explodiu numa galáxia vizinha, num evento chamado supernova. Foi a supernova mais perto da Terra desde a invenção do telescópio há séculos atrás. Os maiores observatórios e milhões de pessoas por todo o mundo acompanharam com atenção a morte desta estrela.

Agora, quase 20 anos depois, a explosão está a revelar sinais de vida - na forma de partículas de poeira, blocos de construção de planetas rochosos e de todas as criaturas vivas. E os astrónomos estão outra vez cativados.

"A Supernova 1987A está a mudar mesmo em frente aos nossos olhos," disse o Dr. Eli Dwek, especialista de poeira cósmica do Centro Aerospacial Goddard da NASA em Greenbelt, Maryland. Durante vários anos, Dwek acompanhou esta supernova, com o nome de 1987A porque foi o ano em que foi descoberta na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia anã vizinha. "O que estamos a ver agora é um marco na evolução de uma supernova."

Usando telescópios infravermelhos, Dwek e seus colegas detectaram poeira de silicatos, criada pela estrela antes de explodir. Esta poeira sobreviveu a intensa radiação da explosão. Quase 20 anos depois, a onda de choque da supernova passando pelos detritos libertados pela estrela antes da sua espectacular morte está agora a "varrer" esta poeira, tornando o material "visível" aos detectores infravermelhos.

A poeira - partículas químicas e cristais mais finos que areia da praia - é tanto uma frustração como um fascínio para os astrónomos. A poeira pode obscurecer a observação de estrelas distantes. Mas mesmo assim a poeira é o material do qual todos os corpos sólidos são formados. É por isso que o estudo da poeira, por mais desinteressante que soe, é um dos mais importantes tópicos na Astronomia e na Astrobiologia.

A poeira é fabricada nas estrelas e projectada para o espaço pelos ventos estelares e supernovas, e encontra-se em qualquer lado do Universo. Mas pouco é sabido acerca da sua origem e dos processos que a afectam. Quanta poeira é criada numa estrela? E quanta sobrevive a explosão de uma estrela e subsequente viagem pelo espaço interestelar? E como é que estas insignificantes nuvens de poeira formam planetas e, no fim, vida?

Estas são as questões que cientistas como Eli Dwek e seu colega Dr. Patrice Bouchet do Observatório de Paris esperam responder. Com 1987A, têm um laboratório perfeito para observar como este processo se desenrola.

Este território é novo para os astrónomos, disse Bouchet, cuja equipa de pesquisa tem feito observações no infravermelho de SN 1987A com o telescópio Gemini Sul no Chile. A equipa de Bouchet está a testemunhar processos nunca antes vistos. Esta é a primeira vez que os cientistas têm provas directas que a poeira de uma grande estrela sobreviveu a uma supernova; a primeira vez que detectam poeira fria junta a gás, emitindo raios-X e com temperaturas na ordem dos milhões de graus; e a primeira vez que observam precipitação, o processo no qual a poeira sofre erosão por colisões com gás quente.

Muito sinceramente não sabem o que esperar, e já tropeçaram nalgumas surpresas.

Os telescópios infravermelhos são cruciais para este tipo de observação. A poeira tem pouco mais que 100 graus acima do ponto de solidificação da água e é demasiado fria para emitir luz no visível. A radiação infravermelha é uma forma de radiação menos energética que a luz visível. Por isso, enquanto os telescópios ópticos como o Hubble podem ver gás, os instrumentos infravermelhos, parecidos com binóculos de visão nocturna, são necessários para ver a poeira escura e fria.

Através de imagens infravermelhas de alta-resolução com o telescópio de 8 metros Gemini Sul, a equipa científica determinou que a poeira encontra-se na região do anel gasoso equatorial em torno de SN 1987A. Isto sugere que o anel foi libertado pela estrela cerca de 600,000 anos antes de explodir, e que a poeira no anel foi formada pelo vento estelar e não na posterior explosão de supernova.

A onda de choque da explosão da estrela alcançou agora o anel. A colisão chocou o gás e elevou a sua temperatura aos 10 milhões de graus, que aquece a poeira, fazendo-a brilhar nos comprimentos de onda infravermelhos.

"Isto já se esperava," disse Bouchet. "A colisão entre o material ejectado da supernova 1987A e o anel equatorial foi prevista ocorrer algures entre 1995 e 2007, e está agora a acontecer."

Com a localização da poeira já determinada, os cientistas usaram o fino olho do Telescópio Espacial Spitzer da NASA para determinar a composição desta poeira. Para sua grande surpresa, a poeira é composta por puras partículas de silicatos.

Outro achado importante é a equipa ter detectado muito menos poeira do que o esperado. Uma estrela tão massiva como foi esta, provavelmente produziu mais poeira de silicatos nos anos antes da supernova. A sub-abundância de poeira detectada pelo Spitzer e pelo Gemini Sul poderá significar que a onda de choque da supernova destrói mais poeira do que se pensava. A confirmar, isto terá largas implicações na determinação da origem da poeira pelo Universo.

No entanto, este trabalho está ainda em progresso. "Resumindo, estamos a observar a interacção da onda de choque da supernova com o seu meio vizinho, criando um ambiente rapidamente em mudança a todos os comprimentos de onda," disse Bouchet.

Por essa razão os cientistas estão a planear uma nova série de observações no infravermelho, óptico e raios-X de SN 1987A com o Spitzer, Hubble e Chandra, os três grandes observatórios da NASA, agora que a supernova se tornou novamente muito interessante. Quem sabe o que irá ser revelado uma vez que a poeira assente?

Links:

Notícias relacionadas:
NASA (fonte)
USA Today

SN 1987A:
SEDS
Wikipedia
The Electric Universe

 

Imagem de SN 1987A combinada com dados do Chandra e do telescópio Gemini Sul. Os raios-X detectados pelo Chandra têm aqui a cor azul. O infravermelho do Gemini tem vermelho e verde. O que resta do núcleo da estrela não é aqui visível. O anel é produzido por gás quente (na sua maioria raios-X) e poeira fria (na sua maioria radiação infravermelha) da estrela interagindo com a região interestelar.
Crédito: Gemini/NASA
 
Top Thingy Right