De acordo com um novo estudo, ao invés dos vizinhos de longa data que se pensava serem, as duas companheiras mais conhecidas da Via Láctea são imigrantes recentes. A Pequena e Grande Nuvem de Magalhães são um par de galáxias anãs próximas que se pensava orbitarem a nossa Galáxia há já milhares de milhões de anos. Mas essa imagem foi alterada em Janeiro de 2007 quando uma equipa de astrónomos anunciou novas medições do movimento galáctico do par feitas pelo Telescópio Espacial Hubble.
Localizada a cerca de 160.000 anos-luz da Terra, a Grande Nuvem de Magalhães (GNM) tem apenas 1/12 do diâmetro da nossa Galáxia e contém um décimo das estrelas da Via Láctea. A Pequena Nuvem de Magalhães (PNM) situa-se a 200.000 anos-luz da Terra e é cerca de 100 vezes mais pequena que a Via Láctea.
Essas observações sugeriram que as duas galáxias estão a mover-se demasiado depressa para serem satélites de longa data da Via Láctea e, pelo contrário, estão a aproximar-se da nossa vizinhança galáctica pela primeira vez. Este cenário, no entanto, aumentou o cepticismo de alguns astrónomos, porque parece deixar muito pouco tempo para produzir uma longa corrente de hidrogénio gasoso visto como uma espécie de cauda das duas galáxias, resultado de interacções com a nossa Galáxia.
Agora, novos cálculos, usando um modelo actualizado da gravidade da Via Láctea, reforçam a conclusão que as Nuvens de Magalhães são visitantes recentes. O estudo foi liderado por Gurtina Besla do Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica em Cambridge, Massachusetts, EUA.
Os cientistas usaram um modelo actualizado da distribuição de matéria escura na Via Láctea - a misteriosa substância que corresponde à maioria da massa no Universo. Estudos anteriores assumiram que a nuvem de matéria escura em torno da Via Láctea tinha permanecido relativamente densa a grandes distâncias do Centro Galáctico. A grande quantidade de matéria escura fez com que a Via Láctea se agarrasse mais facilmente a objectos na sua vizinhança.
Mas estudos de outras galáxias sugerem que as nuvens de matéria escura não são na realidade assim tão densas a grandes distâncias. A equipa de Besla fez novos cálculos para as Nuvens de Magalhães, assumindo que o mesmo era verdadeiro para a Via Láctea.
Combinando medições de velocidade adquiridas recentemente pelo Hubble, o novo modelo providencia o quadro alguma vez mais detalhado da relação entre as duas galáxias e a Via Láctea. Isto providencia novas provas que as galáxias não estão gravitacionalmente ligadas à nossa e devem, sim, ser pela primeira vez visitantes, entrando na nossa vizinhança galáctica entre mil milhões e 3 mil milhões de anos atrás.
Mesmo antes do novo estudo e do anterior publicado em Janeiro de 2007, medições prévias determinaram as suas velocidades: perto da necessária para escapar à gravidade da Via Láctea, sugerindo que estavam viajando em órbitas muito elongadas em vez de outras mais circulares e estáveis, previamente assumidas.
"Muitas pessoas não querem acreditar nos nossos dados [do Hubble]," disse Besla. "Quero salientar que existem aqui alguns resultados que não têm nada a ver com os novos dados." Mas Martin Weinberg da Universidade de Massachusetts em Amherst, EUA, diz que é demasiado cedo para dizer com certeza há já quanto tempo as Nuvens de Magalhães andam aqui por perto. "As provas, de um ou outro modo, acho, não são seguras," afirma.
Se o novo estudo estiver correcto, é difícil de conciliar com a largura da corrente de hidrogénio que persegue as galáxias, diz. As Nuvens de Magalhães estão perdendo esta corrente como resultado de puxos gravitacionais da Via Láctea e de colisões com as suas nuvens de gás.
Mas estes efeitos devem só acontecer perto da Via Láctea e, se as galáxias nos visitam pela primeira vez, não teriam tido muito tempo para produzir as correntes. "Não é claro se a corrente cobriria uma área tão angularmente grande," diz Weinberg. Besla concorda que as correntes apresentam dificuldades, mas diz que podem ser produzidas a distâncias maiores da Via Láctea se eventos violentos como supernovas empurrarem o gás para fora das Nuvens de Magalhães.
Observações futuras pelo Hubble deverão ajudar a confirmar se as maiores velocidades estão correctas, diz.
Para onde irão então as galáxias no futuro? A velocidade e trajectória da Pequena Nuvem de Magalhães são demasiado incertas para saber, diz Besla. Mas ela afirma que a fricção irá provavelmente diminuir tanto a velocidade da Grande Nuvem de Magalhães que será capturada para uma órbita em torno da Via Láctea. "[A PNM] Provavelmente voltará novamente, mas será numa órbita realmente excêntrica, por isso é provável que não volte durante muito, muito tempo," conclui.
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Notícias relacionadas:
CfA de Harvard-Smithsonian (comunicado de imprensa)
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Pequena Nuvem de Magalhães
Grande Nuvem de Magalhães
Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA
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