Ao fim de mais de três e meio de operação, os rovers gémeos da NASA continuam a prosperar, e não mostram sinais de o fazer muito cedo, à medida que enviam quantidades ricas em dados para a Terra sobre o passado, presente e futuro do Planeta Vermelho.
A NASA anunciou no passado dia 15 de Outubro que extendia, pela quinta vez, as actividades destes dois robots - Spirit e Opportunity - talvez até 2009.
Os veículos, do tamanho de um carro de golfe e com seis rodas, que constituem o projecto MER (Mars Exploration Rover), têm estado imparáveis, literamente, no que toca aos aspectos mecânicos e científicos, desde que aterraram em lados opostos de Marte em Janeiro de 2004. Continuam a funcionar bem, dizem os controladores da NASA, embora cada um tivesse uma garantia de 90 dias para levar a cabo as suas respectivas missões.
Os rovers, movidos a energia solar, conseguem alcançar uma velocidade máxima de 5 centímetros por segundo, em solo liso e duro. "Quando utilizamos estes veículos no dia-a-dia, parecem excruciantemente lentos," disse Steve Squyres, cientista do projecto MER na Universidade de Cornell em Ithaca, Nova Iorque, EUA, acrescentando: "É esta maravilhosa aventura que se desenrola a uma velocidade incrivelmente lenta."
A longevidade dos rovers traduziu-se num saldo científico inesperado, particularmente no caso da Spirit, disse Squyres. "A Spirit só fez a sua maior descoberta ao fim de 1200 dias marcianos da sua missão." Quando a Spirit analisou um pedaço de solo marciano que era muito rico em sílica, providenciou algumas das mais fortes provas até à altura que o passado de Marte tinha sido muito mais molhado do que é agora. Os processos que produziram tal depósito concentrado de sílica necessitam da presença de água.
A Spirit está agora ocupada a explorar um local intrigante com o nome de "Home Plate," disse William Bruce Banerdt, cientista do projecto MER no JPL da NASA em Pasadena, Califórnia, EUA. "Não diria que existe algo parecido a um consenso, mas existe a opinião que esta é uma característica vulcânica," disse. Banerdt disse que as imagens de satélite obtidas pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter da NASA mostraram outras características na vizinhança que parecem ser de origem vulcânica. "Se o rover nos permitir mais tempo para mais observações destas outras características, esperamos ser capazes de construir a história desta área e a sua evolução... talvez num ambiente vulcânico muito activo," disse.
"À medida que os rovers continuam a sobreviver, a história tem-se tornado cada vez mais excitante," disse Larry Crumpler, conservador de pesquisa para a vulcanologia e ciências espaciais no Museu de História Natural e Ciência do Novo México, em Albuquerque, e membro da equipa científica do projecto MER. Crumpler sugeriu que a actual zona de exploração da Spirit dentro da cratera Gusev - numa cordilheira de montes situado no distante horizonte do seu local de aterragem - é uma área rica para novas descobertas. "Existe aqui provas abundantes, não apenas para a água, mas água que aí esteve presente durante um tempo considerável, ou água que estava morna, mesmo até quente. Todos estes factores auguram bem para algumas descobertas climáticas," explicou Crumpler. Ele disse que os membros da equipa científica do projecto MER estão felicíssimos. "Alguns de nós ficarão com os rovers até ao fim, quão distante no futuro possa ou não ser. Tenho a certeza que uma grande questão científica estará mesmo do outro lado da encosta," acrescenta.
"Antes da missão MER, era surpreendente a dificuldade que tínhamos em convencer as pessoas do valor da mobilidade na superfície marciana," acrescenta Squyres. "Mas foi preciso um par de rovers extremamente capazes e alguns locais bastante interessantes em Marte para convencer o mundo disso."
Por exemplo, o rover Opportunity encontra-se agora dentro do limite da Cratera Victória, uma característica com cerca de 800 metros de diâmetro e com mais de 70 de profundidade, escavada por um impacto de meteoro há milhões de anos atrás. Para alcançar esse local dentro de Meridiani Planum, o robot teve que viajar 6 km desde o seu local de aterragem.
"A longevidade da missão permitiu-nos examinar a Cratera Victória fora do seu limite e agora aí dentro," disse William Farrand, cientista do Instituto de Ciência Espacial em Boulder, Colorado, EUA, e também membro da equipa dos rovers. "Estamos apenas começando com as nossas observações da estratigrafia de Victória... por isso é ainda demasiado cedo para retirarmos algum resultado dessas investigações. Mas nunca teríamos tido esta oportunidade se os rovers não tivessem durado tanto tempo." Farrand disse que, potencialmente, os cientistas de Marte ganharão uma melhor compreensão de como as rochas sedimentares em Meridiani Planum se formaram. "Nós sabemos que a água desempenhou aqui um papel importante," disse, mas acrescentou que muitos dos detalhes ainda precisam de ser trabalhados, com as investigações na Cratera Victória a providenciar informações adicionais para melhor compreender a história dos sedimentos.
Squyres disse que dentro de pouco será decidido quão mais fundo irá a Opportunity se aventurar na Cratera Victória. A decisão terá em conta considerações científicas e de segurança, disse. "Se perdermos uma roda dentro da cratera, não garanto que consigamos de lá saír," disse Squyres. "Há muita motivação em arrumar os nossos estudos aqui e voltar para as planícies," disse. "O rover Spirit está com alguns problemas devido a uma avaria na sua roda direita da frente," aponta Squyres.
Ele diz que a longevidade dos rovers é devida a vários factores.
"O primeiro é que nós construímos um hardware extremamente bom. Os componentes foram seleccionados com extremo cuidado e tudo foi testado muito, muito rigorosamente." Além do mais, os veículos foram desenhados com manutenção remota em mente, imbutidos com a capacidade dos controladores terrestres de resolver os problemas e fazer manutenção dos robots à distância, disse, como por exemplo, utilizando aquecedores para combater as mudanças de temperatura em Marte.
Os operadores dos rovers maricanos também já tiveram alguma sorte. Em particular, pequenas rajadas de vento repetidamente limparam o pó que se acumulava nos painéis solares, disse Squyres.
Outra razão para a sobrevivência a longo-termo dos rovers tem sido a capacidade de conduzir e "estacionar" os veículos em terreno íngreme, inclinando os painéis solares na direcção do Sol. "Sobrevivemos dois invernos no planeta dessa maneira... e o terceiro está a chegar... e vamos tentar sobreviver a essa também," disse Squyres.
Em Julho passado, a Spirit e a Opportunity foram sujeitas a tempestades globais de areia que reduziram a luz solar que alcançava os rovers. Essa situação elevou a preocupação no que respeita à sobrevivência dos componentes eléctricos e mecânicos a bordo dos robots. Os controladores terrestres utilizaram procedimentos de baixo consumo de energia que fez com que as máquinas sobrevivessem as severas tempestades. Com céus limpos, os rovers foram novamente ligados e continuaram a recolher dados.
Mas, no fim, os rovers não são imortais, disse Squyres. "Se Marte não os matar, vamos nós desgastá-los. Já os puxámos muito para lá das suas capacidades," afirma. A chave agora, acrescenta, é continuar cada dia e encontrar aquele balanço entre segurança e agressividade, bem como espremer a quantidade máxima de ciência dos rovers quanto possível.
"Quando me sento e olho para as dificuldades que a Opportunity e a Spirit ultrapassaram, os dados que recolhemos, as descobertas que fizémos e os trabalhos científicos que foram escritos... durmo bastante bem à noite," exclama Squyres. "Serei o último a saír da sala, a desligar as luzes quando o último rover morrer. Tenho que ficar lá até ao fim."
Links:
Marte:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia
Google Mars
Vídeo sobre a presença de água em Marte (formato Quicktime)
As descobertas em Marte
Rovers marcianos da NASA:
Página oficial
Wikipedia
Vídeo da entrada da Opportunity na Cratera Victória (formato Quicktime) |
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Vistas espectaculares a Sul de "Home Plate", vistas aqui em 3D, terão que esperar até à próxima Primavera, isto é, se o rover Spirit sobreviver até lá. O objectivo actual deste rover é descobrir um local ideal para aí ficar "estacionado" durante o Inverno que se aproxima, de modo a ficar inclinado na direcção do Sol e assim receber a maior quantidade possível de energia solar.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Cornell
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O promontório de nome "Cabo Verde" pode ser observado nas paredes da Cratera Victória, nesta imagem de cores verdadeiras aproximadas, tirada pelo rover Opportunity. A foto foi tirada a 20 de Outubro (sol 1329), mais de um mês depois de ter começado a descer o limite da cratera. A qualidade enevoada da imagem é resultado da luz espalhada devido à poeira na câmara do rover.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Cornell
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