Está a caminho um projecto internacional para reanimar os planos de envio de uma missão de retorno de amostras a Marte, no qual os cientistas estão a avaliar as prioridades e estratégias científicas para maximizar o retorno científico de tal empreendimento.
Ao longo dos últimos anos, uma autêntica esquadra de missões orbitais e de superfície têm revelado que Marte é surpreendentemente mais complexo do que se pensava, impregnado com uma variedade de ambientes distintos - cada com valor em termos de possíveis ganhos científicos, dado um esforço de retorno de amostras.
O retorno de amostras de Marte até aos laboratórios mais avançados aqui na Terra é considerado por muitos como a única maneira de deslindar uma série de perguntas sem resposta acerca do Planeta Vermelho. Uma missão de recolha de amostras é também vista por muitos como uma ferramenta-chave que poderá ajudar as agências espaciais a prepararem-se para futuras expedições humanas a Marte.
Cientistas que estudam Marte, engenheiros espaciais e gestores dos programas juntaram-se entre os dias 21 e 23 de Abril para debaterem o tema. As discussões focaram-se no tipo de dados científicos que podem ser extraídos de uma missão de recolha de amostras marcianas. Outro tópico importante foi o empacotamento, a cautela e o manuseamento de materiais marcianos que serão necessários para garantir que as amostras ofereçam grande retorno do seu potencial em ordem a revelar as condições, passadas e presentes, do Planeta Vermelho. A reunião foi iniciada pela Equipa de Planeamento de Análise e Conservação para Materiais Extraterrestres, um comité permanente que aconselha a NASA.
Embora nenhuma nação ou grupo de nações se tenha comprometido em custear o que provavelmente será um programa de recolha de amostras marcianas que custará milhares de milhões de Euros, os cientistas sentem que as bases estão já a ser construídas, embora aos bocados.
O trabalho dos rovers Spirit e Opportunity, por exemplo, tem sido cientificamente estelar, disse Doug Ming, cientista espacial do Gabinete de Pesquisa de Astromateriais e de Exploração Científica do Centro Espacial Johnson da NASA em Houston. "Ficámos surpreendidos quando alcançámos a superfície e vimos uma enorme diversidade de materiais. Apanhou-nos completamente de surpresa," disse Ming. Os dois robots geólogos têm explorado independentemente a Cratera Gusev e Meridiani Planum há já mais de quatro anos, recolhendo uma "enorme quantidade de informação que pode ser aplicada numa missão de recolha de amostras," afirma.
Ming e outros cientistas na conferência sugeriram que uma missão de recolha de amostras envolvendo qualquer dos dois locais de estudo dos rovers pode ser vista como a primeira jornada de uma missão com duas partes de enviar amostras para a Terra.
A sonda MSL (Mars Science Laboratory) da NASA, com lançamento previsto para 2009, transporta um contentor para recolher bocados de várias amostras marcianas. Este pequeno contentor poderia ser guardado até que possa ser transportado para a Terra como parte de uma futura missão de recolha de amostras, disse John Karcz do Instituto SETI e do Centro de Pesquisa Ames da NASA em Mountain View, Califórnia, EUA.
Este grande rover movido a energia nuclear está sendo desenhado para percorrer Marte durante um ano marciano, o equivalente a dois anos terrestres. O pequeno contentor poderia armazenar entre 5 e 10 ou até mais amostras, disse Karcz, "se tivéssemos o tempo, recursos e inclinação durante o percurso."
As amostras seriam armazenadas num contentor desenhado para permitir foto-documentação das amostras ao longo do percurso da missão do MSL. O contentor, com o tamanho de um disco de hóquei, está desenhado para ser removido facilmente por uma missão futura de recolha de amostras, disse Karcz, para subsequente transporte para a Terra.
Entretanto, os poderosos olhos de várias sondas já em órbita de Marte - a Mars Odyssey e a Mars Reconnaissance Orbiter da NASA, em conjunto com a Mars Express da ESA - estão a examinar áreas promissoras na pesquisa por vida marciana, extinta ou existente, e a estudar a evolução do planeta.
O lander Phoenix da NASA, que se espera que aterre em Marte no dia 25 de Maio, foi desenhado para estudar a história da água e os usos potenciais do solo rico em gelo do ártico marciano em relação ao suporte da vida e outras necessidades para futuras tripulações humanas que irão explorar o planeta.
Em muitas maneiras, os cientistas da NASA encontram-se numa loja de doces científicos - vários locais candidatos parecem ideais para uma missão de recolha de amostras.
Por exemplo, a poderosa lente a bordo da Mars Reconnaissance Orbiter foi usada para identificar duas possíveis antigas nascentes hidrotermais que poderão ter sido um bom ninho que providenciava água líquida e quente às possíveis formas de vida, à medida que o Planeta Vermelho se tornava mais frio e seco, disse Carlton Allen, conservador e gestor de Astromaterais do Gabinete de Pesquisa de Astromateriais e de Exploração Científica do Centro Espacial Johnson da NASA.
Allen e Dorothy Oehler, sua colega de pesquisa, vêm estas possíveis nascentes como uma área potencial de grande importância para a astrobiologia. "Este pode bem ser o tipo de local que teria grande prioridade para uma missão de recolha de amostras," disse Allen. "Se isto for o que pensamos... pode bem ser um dos melhores e mais importantes locais astrobiológicos do planeta."
Não há dúvida que uma missão de recolha de amostras será uma iniciativa bastante cara e arriscada e as opiniões no encontro variaram muito quando chegou a altura de discutir a melhor maneira de maximizar o retorno científico consoante o custo mais baixo.
"Nós não queremos gastar balúrdios nisto e torná-la numa missão de 10 mil milhões de dólares. Nunca mais iremos ter amostras. Temos que ser realistas," disse Clive Neal, professor de Engenharia Civil e Ciências Geológicas da Universidade de Notre Dame em Indiana.
"Uma missão de recolha de amostras marcianas será bastante mais cara do que qualquer outra missão a Marte. Não é uma hipótese... penso que é um facto," disse David Mittlefehldt do Gabinete de Pesquisa de Astromateriais. "O estudo orbital está sendo cada vez mais sofisticado. Mesmo assim, não providencia uma descrição detalhada da geologia da superfície. E é isso que precisamos de modo a planear uma missão deste género," afirma. "Por isso, penso que devemos ir para algum local onde as rodas providenciem esse contexto geológico."
Uma ambiciosa missão deste tipo precisa de muitos impulsos, muita energia e de muitas pessoas a explicar o porquê de ser importante, disse Carl Agee, co-assessor da reunião e director do Instituto de Meteorítica da Universidade do Novo México em Albuquerque.
Agee disse que a altura para começar a pensar numa missão deste calibre é agora, para podermos "fazer decisões inteligentes sobre onde ir, em ver de aterrar às escuras." Um programa marciano sinergístico - um que não anula uma missão de recolha de amostras vs. uma missão orbital vs. um estudo no local - irá "mostrar que tudo se complementa no planeamento da estratégia de exploração," disse.
"Penso que estamos à beira de tentar alcançar demasiado com a nossa primeira missão de recolha de amostras e há o perigo de acertamos no nosso pé," disse Derek Sears, director do Centro Espacial e de Ciências Planetárias do Arkansas e líder do Grupo Cosmoquímico da Universidade do Arkansas em Fayetteville.
O objectivo será o de alcançar Marte e obter as mais simples e óbvias rochas de um local sensível, e enviá-las para a Terra, aconselhou Sears. "Não se preocupem se perturbamos a rocha um bocado no caminho de volta. Apenas as tragam de volta. Metam-nas num laboratório e aí vamos descobrir tudo. Não se preocupem demasiado com o problema porque isso no fim irá apenas destruir-nos," afirma.
Uma missão de recolha de amostras que levante voo em 2020 é de grande interesse para a NASA e para a ESA, disse David Beaty, líder científico do Directorado da Exploração de Marte no JPL da NASA em Pasadena, Califórnia, e também um dos assessores da conferência. Existe um desejo crescente de criar uma versão internacional de uma missão de recolha de amostras, não apenas nos EUA e na Europa, mas também no Japão e Canadá, disse Beaty.
Beaty afirma que já existe um grupo, o IMARS (International Mars Architecture for Return of Samples), com representantes de mais de meia-dúzia de países, em conjunto com a NASA, ESA, a agência espacial canadiana e a JAXA.
"Estão a tentar desenvolver um possível plano para uma missão de recolha que pode ser apresentado separadamente aos diferentes países para gerar um orçamento," disse Beaty. "No fim, precisamos de apresentar o mesmo plano em vários lugares."
Links:
Notícias Relacionadas:
Universidade do Novo México
Yahoo
Conferência:
Página oficial
Marte:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia
Marte e ESA (vídeo em formato Flash)
Procurar água nos locais certos (vídeo em formato Flash) |