Os anéis e satélites de Saturno são mais estranhos que qualquer cientista podia ter imaginado, mas ainda permanece muito por responder à medida que a sonda Cassini conclui a sua missão primária e começa uma nova.
"Uma das maiores surpresas sobre os resultados científicos da Cassini é que a maioria das previsões mais extremas verificaram-se correctas," disse Bob Pappalardo, geólogo do JPL (Jet Propulsion Laboratory) da NASA em Pasadena, Calfórnia, que recentemente começou a trabalhar como cientista no projecto Cassini.
Entre as descobertas dos quatro anos da missão primária estão lagos líquidos na lua de Saturno, Titã, plumas geladas expelidas pela lua Encelado, e gigantescas tempestades em Saturno parecidas às de Júpiter. Pappalardo e outros cientistas esperam que Saturno lhes reserve ainda mais surpresas durante a nova missão de dois anos da Cassini que começou no dia 30 de Junho - e talvez algumas respostas.
Os anéis de Saturno foram detalhadamente observados aquando da chegada da Cassini a Saturno. Parecem-se menos com linhas ordeiras de trânsito e mais com autoestradas do inferno, com pequenas luas do tamanho de estádios de futebol a viajar pelos detritos gelados e puxando correntes de material devido à sua gravidade. "Ver os efeitos gravitacionais entre as luas e as partículas anulares é algo revolucionário na compreensão de como os anéis funcionam," disse Pappalardo. A descoberta destas pequenas luas sugerem que os anéis de Saturno são os restos de uma lua despedaçada pela colisão com um cometa ou um asteróide.
Mesmo assim, os esplêndidos anéis de Saturno quase tomaram segundo plano no que respeita à estranha meteorologia do planeta gasoso. Uma tempestade parecida com um furacão apareceu no pólo sul do planeta, enquanto a Cassini confirmava uma bizarra forma hexagonal que circulava o pólo norte e que ainda hoje confunde os cientistas. A Cassini também testemunhou várias tempestades eléctricas, incluindo uma prolongada que apareceu pela primeira vez quase no fim de 2007. Esta monstruosa tempestade produziu relâmpagos 10.000 vezes mais poderosos do que quaisquer dos produzidos na Terra, prolongando-se por milhares de quilómetros.
Os cientistas também descobriram um equivalente fascínio pelo que se situa para lá do planeta e dos seus anéis. Saturno agora tem mais de 60 grandes luas, em comparação com as 18 conhecidas quando a Cassini foi lançada em 1997.
A Cassini lançou a sonda Huygens na direcção de Titã e aí descobriu a primeira meteorologia e efeitos meteorológicos tipo-Terra no começo de 2005, mas combinados com blocos químicos totalmente diferentes. Chove metano e etano em vez de água, para formar lagos e rios. Um oceano escondido também parece encontrar-se por baixo da crosta da lua.
Mais recentemente, a Cassini voou em Março de 2008 por um "geyser" gelado que emanava da lua Encelado e descobriu moléculas orgânicas como o dióxido de carbono e metano. Isto sugere que a lua possa ter condições para a vida, embora os cientistas tenham ainda que confirmar a existência de água líquida. Pappalardo descreveu Encelado como "uma pequena lua incrivelmente activa" não obstante o seu tamanho de 500 km. As influências gravitacionais de Saturno perturbam a lua e produzem um aquecimento que pode permitir a existência de um oceano líquido por baixo da superfície de Encelado, um assunto ainda em debate pelos cientistas. "Parece que um oceano aí deveria congelar rapidamente," disse Pappalardo, acrescentando que os efeitos de maré e as impurezas dentro do oceano podem fazer com que permaneça líquido. "É um grande mistério, e está a ensinar-nos mais sobre como os satélites gelados funcionam."
A missão prolongada da Cassini inclui mais visitas a Titã e a Encelado, e não apenas porque a Cassini usa Titã para os seus impulsos gravitacionais durante voos rasantes. Ambas as luas parecem indicar uma possibilidade de vida no Sistema Solar exterior, bem como na lua de Júpiter, Europa.
Os cientistas também esperam observar o equinócio de Saturno em Agosto de 2009, quando o Sol "se puser" nos anéis e passar o plano anular. Este evento permite uma visão sem precedentes do sistema anular. "Podemos estudar uma pequena curvatura dos anéis, efeitos térmicos e efeitos de sombras," disse Pappalardo. "Pode não ser um disco perfeitamente achatado."
A missão prolongada da Cassini também pode resolver um grande mistério sobre a duração exacta do dia em Saturno. A medição da rotação de Saturno tem por base a rotação do campo magnético do planeta, mas essa velocidade de rotação magnética mudou entre a altura das Voyager nos anos 80 e a chegada da Cassini em 2004.
Pappalardo comparou a Cassini com um navio a flutuar no oceano magnético de Saturno - uma metáfora que pode bem ser aplicada à missão, pois continua a desvendar os segredos de Saturno. "Com o passar do tempo, atravessamos o oceano em diferentes alturas, dias e estações," disse Pappalardo. "Eventualmente ficamos com uma boa ideia do que se passa à nossa volta."
Links:
Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
New Scientist
SpaceRef
Titã:
Solarviews
Wikipedia
Encelado:
Solarviews
Wikipedia
Saturno:
Solarviews
Wikipedia
Cassini:
Página oficial (NASA)
Vìdeo da missão prolongada (formato Quicktime)
As imagens favoritas de Carolyn Porco (vídeo em formato Flash)
Wikipedia |
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A mais detalhada imagem de Saturno com as suas cores naturais, obtidas pela composição de uma série de imagens.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute
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Uma bizarra característica hexagonal no pólo norte de Saturno perto da latitude 78.
Crédito: NASA/JPL/Universidade do Arizona
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Esta imagem mostra corpos líquidos perto do pólo norte de Titã e características regularmente associadas com lagos na Terra, como ilhas, baías, cabos e canais.
Crédito: NASA/JPL
(clique na imagem para ver vídeo em formato Quicktime)

Imagem em cores-falsas que ilustra os jactos de finas partículas geladas expelidas da região polar sul de Encelado.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute
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