É a missão para uma vez mais puxar os limites do quão profundo no espaço e quão longe no tempo a Humanidade pode ver. É uma viagem para novamente melhorar o que pode já ser o mais importante satélite alguma vez lançado. E, para o vaivém espacial, é a última visita a um querido amigo de longa data.
A missão STS-125, com lançamento previsto para 8 de Outubro, irá levar o vaivém espacial até ao Telescópio Espacial Hubble, por uma única vez mais, antes que a frota de vaivéns espaciais seja retirada de serviço em 2010. Ao longo de 11 dias e cinco passeios espaciais, a tripulação do vaivém Atlantis reparará e melhorará o telescópio, deixando-o melhor que nunca e pronto para outros cinco anos - ou mais - de pesquisa.
O vaivém Discovery lançou o Hubble em 1990, deixando-o numa órbita 560 km acima da Terra. Desde então, deu a volta ao nosso planeta mais de 97.000 vezes e providenciou a mais de 4000 astrónomos um acesso às estrelas não possível de acontecer dentro da atmosfera da Terra. O Hubble ajudou a responder a algumas das questões-chave da Ciência e providenciou imagens que deslumbraram e inspiraram o mundo. "Vimos realmente um objecto que emitiu a sua luz há cerca de 13 mil milhões de anos atrás," disse o cientista sénior do Hubble, Dave Leckrone. "Dado que o Universo tem 13,7 mil milhões de anos, é a sua infância, o berçário. Desde as partes mais próximas do nosso Sistema Solar até tão longe no tempo, levámos as pessoas numa viagem pelo Universo."
Mas o Hubble não alcançou este feito sozinho. A tripulação do Atlantis - Comandante Scott Altman, o Piloto Gregory C. Johnson e os Especialistas da Missão Andrew Feuster, Michael Good, John Grunsfeld, Mike Massimino e Megan McArthur - será a quinta tripulação do vaivém a viajar até ao telescópio. Os seus antecessores substituíram e repararam componentes avariados e defeituosos e acrescentaram novas e melhores câmaras e equipamentos científicos. A tripulação do STS-125 não será diferente.
O mais excitante são os novos instrumentos científicos que os astronautas do Atlantis irão instalar. O Espectógrafo de Origens Cósmicas, por exemplo, vai observar a luz de quasares extremamente ténues e longínquos, e ver como a luz muda à medida que passa pelos vários gases entre as distantes galáxias. Desta maneira, os cientistas irão aprender os constituintes desses gases, como mudam com o passar do tempo e como afectam as galáxias ao seu redor. "Tem um papel importante na história de como as galáxias se formam e como a composição química do Universo tem mudado com o passar do tempo," disse Leckrone.
E a nova câmara WFC3 (Wide Field Camera 3) permitirá ao Hubble tirar imagens detalhadas, extremamente nítidas e em larga-escala ao longo de um grande intervalo de cores. Em comprimentos de onda ultravioletas e infravermelhos, o WFC3 representa um avanço drástico na capacidade das anteriores câmaras do Hubble. É também uma excelente câmara no visível, embora por desenho não tão capaz como a câmara ACS (Advanced Camera for Surveys) do Hubble. Os instrumentos WFC3 e ACS estão desenhados para trabalharem em conjunto de um modo complementar. "Se eu quiser um álbum de família completo do Universo, preciso de o observar em todos estes diferentes comprimentos de onda," disse Leckrone. "Esta será a primeira vez que teremos uma oportunidade de tirar todas estas imagens diferentes em conjunto, para ter uma qualidade comparável ao longo de toda esta banda espectral."
Antes que estas imagens há muito antecipadas sejam vistas, o equipamento tem que ser instalado - um processo que só por si é já excitante. Os passeios espaciais necessários para actualizar o Hubble serão muito diferentes dos passeios da Estação Espacial Internacional. "É mais uma operação ao cérebro do que uma construção," disse o Director de Voo Tony Ceccacci. "Nos passeios espaciais da ISS, instalam-se grandes bocados de equipamento - armações, módulos, etc. - e juntam-se como ferramentas de montagem. Não podemos fazer isto com o Hubble. Os passeios espaciais do Hubble são comparáveis a uma mesa de operações, fazendo um trabalho muito habilidoso."
Embora a instalação dos novos equipamentos e a substituição de alguns antigos - giroscópios, baterias e um sensor de orientação - seja uma tarefa árdua, são as reparações que os astronautas afirmam serem as mais complicadas. A nova câmara e o espectógrafo estão desenhados para complementar os instrumentos científicos já a bordo do telescópio - especificamente o ACS e o STIS (Space Telescope Imaging Spectrograph). Mas vários componentes destes instrumentos já falharam em anos passados - não todo o instrumento, mas peças específicas dentro deles. A tripulação irá substituir apenas as peças que falharam.
Mas esses instrumentos nunca foram desenhados para serem reparados no espaço. De facto, foram desenhados especificamente para nunca serem abertos. "Quando começámos a pensar nisto, dizíamos 'bem, talvez, talvez não,'" afirma Ceccacci. Desde aí, a equipa elaborou um plano para o trabalho e Ceccacci acredita que terá bastante sucesso. Mas não será fácil - a reparação do espectógrafo, por exemplo, requere que os astronautas do passeio espacial removam mais de 100 parafusos para aceder a uma placa que será retirada e substituída.
Mesmo assim, o comandante da missão realça que é uma boa prática para o futuro. "Penso que é um passo que precisamos tomar para sermos mais capazes de ir a lugares como Marte," disse Altman. "Não queremos levar connosco uma caixa gigante com peças sobresselentes - queremos ser capazes de levar aquele pequeno transistor que precisamos ligar quando o outro falhar. O sermos capazes de demonstrar isto no espaço é um elemento fundamental para nós crescermos como uma espécie destinada ao espaço."
Os passeios espaciais do Hubble não serão as únicas coisas diferentes entre as missões à estação espacial. Confinados apenas ao vaivém, as acomodações serão mais pequenas; com cinco passeios espaciais, o andamento será mais rápido. Sem a tripulação da estação para dar ao vaivém uma vistoria completa e fotografar o seu escudo térmico, a inspecção agora típica do escudo térmico levada a cabo um dia após o lançamento será muito mais intensiva. A tripulação irá usar o braço robótico do vaivém, a sua extensão de 15 metros e sistemas de sensores para não só inspeccionar o nariz e as pontas das asas, mas também para estudar a cabine superior da tripulação e toda a parte de baixo do vaivém.
No improvável caso de se encontrarem danos irreparáveis, a tripulação também não poderá viajar até à estação espacial para esperar boleia até casa - o vaivém Atlantis não pode alcançar a estação a partir da órbita do Hubble. Dado que a tripulação não terá acesso à estação e à ajuda que possa providenciar em caso de emergência, a missão ao Hubble requer algumas mudanças cá na Terra. Para cada missão do vaivém desde o Columbia, tem havido um plano de contingência para permitir o lançamento de outro vaivém caso seja necessário resgatar a tripulação encalhada. Por isso, para a 125.ª missão, outro vaivém estará a postos na plataforma de lançamento 39-B do Centro Espacial Kennedy. Se necessário, o vaivém espacial Endeavour, nas mãos da tripulação da missão STS-123 que voou em Março passado, estará preparado para viajar até ao Hubble e recolher a tripulação do Atlantis numa questão de dias.
O que acalma a mente de Altman, no entanto, são as mudanças que a NASA fez para impedir que aconteçam estes estragos. "Sinto que fizémos incríveis avanços no tanque externo," disse. "É essa a causa principal. Mas se algo realmente acontecer, penso que temos as ferramentas para encontrar, vermos onde está, avaliar quão séria é a questão e repará-la. E aí, nessa hipótese mínima de haver danos que nos impeçam de regressar a casa, temos a capacidade de ficar no espaço - prolongar o nosso tempo e ter outro vaivém que nos venha buscar."
Os riscos, acredita, são relativamente pequenos, e o saldo é enorme. "O Hubble junta a mais moderna ciência às imagens que agarram a imaginação do público," disse Altman. "Penso que é esse o primeiro passo na exploração. Porque o Hubble pega na luz que viajou durante milhares de milhões de anos, captura-a e mostra-nos. É como se nos levasse numa viagem a 13,5 mil milhões de anos-luz de distância enquanto estamos sentados na nossa casa e olhamos para o Universo."
Links:
Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
Núcleo de Astronomia do CCVAlg (09/01/08)
STS-125:
NASA
ESA
Documento PDF sobre a missão
Wikipedia
Filme IMAX (para 2010)
Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA
STScI
Wikipedia |
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A insígnia da missão STS-125 - a quarta missão de reparação do Huble.
Crédito: NASA

O Telescópio Espacial Hubble encontra-se agarrado do braço robótico do Columbia em Março de 2002, no começo da STS-109, a terceira missão de reparação do Hubble.
Crédito: NASA
(clique na imagem para ver versão maior)

O Telescópio Espacial Hubble, visto aqui em Março de 2002, com os seus novos painéis solares após o fim da missão STS-109, a sua terceira missão de reparação.
Crédito: NASA
(clique na imagem para ver versão maior)
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