Um grupo de astrónomos descobriu uma sistema estelar duplo de características únicas que representa uma fase que é o "elo perdido" em que eles acreditam ocorrer o aparecimento do processo de formação dos objectos de rotação mais rápida do Universo: os pulsares de milisegundo.
"Temos pensado desde há algum tempo que sabíamos de que forma é que estes pulsares são acelerados até girarem tão rapidamente, e este sistema parece que está a mostrar-nos o processo em acção ", disse Anne Archibald, da Universidade McGill, de Montreal, no Canadá.
Os pulsares são estrelas de neutrões superdensas, os restos de explosões de estrelas massivas sob a forma de supernovas. A interacção de partículas carregadas com os seus poderosos campos magnéticos geram feixes de luz e ondas de rádio farol (radiação de sincrotão) que giram como a estrela. A maioria roda algumas a dezenas de vezes por segundo, abrandando ao longo de milhares de anos.
No entanto, algumas estrelas de neutrões, apelidadas de pulsares de milisegundo, rodam centenas de vezes por segundo. Os astrónomos acreditam que a rápida rotação é causada pela acreção de material de uma estrela companheira que provoca a aceleração da rotação. O material do companheiro teria uma forma plana, girando como um disco em torno da estrela neutrões e, durante esse período, as ondas de rádio de características do pulsar provenientes do sistema não seriam vistas. A medida que a quantidade de matéria acretada pela estrela de neutrões diminuisse e parasse, as ondas de rádio surgiriam e o objeto seria reconhecido como um pulsar.
Foi esta sequência de eventos que aparentemente aconteceu com um sistema estelar binário a cerca de 4000 anos-luz da Terra. O pulsar de milisegundo deste sistema, chamado J1023, foi descoberto pela Telescópio Green Bank (GBT) da National Science Foundation (NSF) na Virgínia Ocidental, em 2007, num estudo liderado por astrónomos em West Virginia University e do National Radio Astronomy Observatório (NRAO).
Inicialmente, em 1998, o objecto foi visto no visível, em 2000, o objecto havia mudado drasticamente apresentando um disco de acreção, disco esse que em 2002 já não foi observado.
As observações de 2007 com o GBT, mostraram que o objecto é um pulsar de milissegundo que gira 592 vezes por segundo.
Os cientistas têm estudado em detalhe J1023 com o GBT, com o rádiotelescópio de Westerbork nos Países Baixos, com o rádiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, e com o rádio telescópio Parkes, na Austrália. Os resultados indicam que a companheira da estrela de neutrões tem menos de metade da massa do Sol, e orbita a estrela de neutrões uma vez a cada quatro horas e 45 minutos.
"Este sistema dá-nos um "laboratório cósmico" sem paralelo para estudar como é que os pulsares de milisegundo evoluem", disse Ingrid Stairs da University de British Columbia. Maura McLaughlin, da West Virginia University, concorda: "As observações futuras deste sistema, no rádio e noutros comprimentos de onda, vão, de certeza, trazer muitas surpresas."
Os autores da descoberta fazem parte de uma equipe científica internacional com representantes da McGill University, a University de British Columbia, o NRAO, a West Virginia University, e outros. Os cientistas anunciaram a sua descoberta na edição on-line de 21 Maio da revista Science.
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Fonte:
NRAO
Animações:
Órbitas durante a fase de transferência de massa da companheira
Animação apresentando a fase de transferência de massa seguida do início da visibilidade do pulsar |
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A transferência de massa da estrela companheira para a estrela de neutrões
Crédito: NRAO
(Clique na imagem para ver maior) |