Durante décadas, os astrónomos estudaram o Cosmos assumindo que estrelas de certos tamanhos se formam em certas quantidades. Tal como as mercearias vendem melões separadamente, e as uvas em cachos [com uma dúzia ou mais], pensava-se que o Universo criava estrelas em "pacotes" específicos. Por outras palavras, pensava-se que a proporção de estrelas, de pequenas a grandes, era fixa. Por cada estrela 20 ou mais vezes massiva que o Sol, por exemplo, deveria existir 500 estrelas com a massa do Sol ou menos.
Esta suposição, baseada em anos de pesquisa, desabou com os novos dados do Galaxy Evolution Explorer (GALEX) da NASA. O telescópio ultravioleta descobriu provas que pequenas estrelas vêm em "pacotes" maiores do que o que se pensava; por exemplo, em alguns locais no Cosmos, cerca de 2000 estrelas de baixa-massa podem-se formar por cada estrela massiva. As pequenas estrelas afinal estavam aí, mas escondidas por estrelas mais massivas e brilhantes.
"O que este estudo nos mostra é que algumas das suposições base que tínhamos - que as estrelas mais brilhantes nos dizem o total da população estelar - não parecem funcionar, pelo menos de modo constante," disse Gerhardt R. Meurer, investigador principal do estudo, da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, EUA.
Os astrónomos há muito que sabem que muitas estrelas são demasiado ténues para serem observadas através do brilho das suas companheiras, mais brilhantes e massivas. Embora as estrelas mais pequenas e leves ultrapassem as suas homólogas mais pesadas em números, são mais difíceis de ver. Voltando à analogia da mercearia, os melões saltam mais à vista, embora o peso total de muitas uvas juntas possa ser maior que o de um melão.
A partir dos anos 50, os astrónomos inventaram um método para contar todas as estrelas numa região, mesmo aquelas que não conseguiam detectar. Inventaram uma espécie de orçamento estelar, uma equação chamada "função de massa estelar inicial," para estimar o número total de estrelas numa área do céu com base na luz de apenas as mais brilhantes e massivas. Por cada grande estrela formada, pensava-se que um número determinado de estrelas mais pequenas tinham sido criadas, independentemente de onde as estrelas se situavam no Universo.
"Nós tentámos compreender as propriedades das galáxias e das suas massas ao observar a sua luz," afirma Meurer.
Mas esta suposição comum tem levado os astrónomos por caminhos errados, disse, especialmente no que toca a galáxias intrinsecamente pequenas e ténues.
Para compreender o problema, imagine tentar estimar a população da Terra ao observar a luz emitida à noite. Ao observar a Europa ou a América do Norte, estas regiões onde vivem mais pessoas ficam bem iluminadas. Por exemplo, os arredores de Lisboa, Porto, ou o litoral Algarvio, são facilmente visíveis para um cientista que trabalhe na ISS. No entanto, se este método fosse aplicado às regiões onde a população tem electricidade limitada, aí essas populações seriam radicalmente subestimadas, como por exemplo em algumas partes de África.
O mesmo pode ser dito das galáxias, cujos pontos de luz no escuro do espaço, podem induzir em erro. Meurer e a sua equipa usaram imagens ultravioletas do Galaxy Evolution Explorer e cuidadosamente filtraram imagens com luz-vermelha dos telescópios do Observatório Inter-Americano em Cerro Tololo, no Chile, para mostrar que muitas galáxias não formam muitas estrelas massivas, mas mesmo assim contêm homólogas de baixa-massa. As imagens no ultravioleta são sensíveis a estrelas razoavelmente pequenas, aproximadamente três vezes ou mais a massa do Sol, enquanto as imagens ópticas filtradas são apenas sensíveis a estrelas maiores, com 20 vezes ou mais a massa do Sol.
Os efeitos são particularmente importantes em partes do Universo onde as estrelas estão espalhadas por um volume maior -- a África rural do Cosmos. Podem haver até quatro vezes mais estrelas nestas regiões, do que o estimado anteriormente.
"Especialmente nestas galáxias que parecem minúsculas, poderão haver muitas mais estrelas de baixa-massa do que se esperava, do que podíamos observar tendo em conta as estrelas mais brilhantes e jovens," acrescenta Meurer. "Mas agora podemos reduzir estes erros ao usar satélites como o Galaxy Evolution Explorer."
Este estudo foi publicado na edição de 10 de Abril do Astrophysical Journal.
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Este diagrama ilustra quanto os astrónomos têm subestimado a proporção de estrelas pequenas até grandes em certas galáxias.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
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Imagens do GALEX da NASA e do Observatório Inter-Americano Cerro Tololo, no Chile.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/JHU
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