O Telescópio Espacial Hubble da NASA descobriu o mais pequeno objecto visível na Cintura de Kuiper, um vasto anel de detritos gelados que rodeia o exterior do Sistema Solar para lá de Neptuno.
O objecto, tal como uma agulha num palheiro, descoberto pelo Hubble, mede apenas 975 metros e está a 6,7 mil milhões de quilómetros. O KBO (Objecto da Cintura de Kuiper) mais pequeno anteriormente observado no visível, media 48 km, ou quase 50 vezes mais.
Esta é a primeira prova observacional de uma população de corpos com o tamanho de cometas na Cintura de Kuiper, dilacerados através de colisões. A Cintura de Kuiper está por isso em contínua evolução, o que significa que o conteúdo gelado da região tem sido modificado ao longo dos últimos 4,5 mil milhões de anos.
O objecto detectado pelo Hubble é extremamente ténue - magnitude 35 -, 100 vezes mais que a sua capacidade de observação directa.
Então como é que o telescópio espacial descobriu um corpo tão pequeno?
Num artigo publicado na edição de 17 de Dezembro da revista Nature, Hilke Schlichting do Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena, Califórnia, EUA, e seus colaboradores, anunciam que a tantalizante assinatura do pequeno vagabundo foi extraída dos dados de calibração do Hubble, e não por observação directa.
O Hubble tem três instrumentos ópticos com a sigla FGS (Fine Guidance Sensors). Os FGSs providenciam informações navigacionais de alta-precisão para os sistemas de controlo do observatório espacial através da observação de estrelas-guia para calibração. Os sensores exploram a natureza ondulatória da luz para fazer medições precisas da localização das estrelas.
Schlichting e seus investigadores determinaram que os instrumentos FGS são tão bons que podem observar os efeitos de um pequeno objecto passando em frente da estrela. Isto provoca uma breve assinatura de ocultação e difração nos dados FGS à medida que a luz da estrela-guia de fundo é distorcida em torno do KBO à sua frente.
Eles seleccionaram 4 anos e meio de observações dos FGS para análise. O Hubble passou já um total de 12.000 horas durante este período, a observar uma faixa do céu até 20 graus do plano da eclíptica do Sistema Solar, onde habita a maioria dos KBOs. A equipa analisou as observações dos FGS, num total de 50.000 estrelas-guia.
Ao vasculhar pela gigantesca base de dados, Schlichting e a sua equipa descobriram um único evento de ocultação que durou 0,3 segundos. Isto foi apenas possível porque a amostra dos instrumentos FGS muda 40 vezes por segundo. A ocultação foi de curta duração devido em grande parte ao movimento orbital da Terra em torno do Sol.
A equipa assumiu que o KBO se encontrava numa órbita circular e inclinado 14 graus em relação à eclíptica. A distância do KBO foi estimada a partir da duração da ocultação, e a quantidade de atenuamento de luz da estrela-guia foi usada para calcular o tamanho do objecto. "Fiquei muito surpresa ao descobri-lo nos dados," afirma Schlichting.
As observações do Hubble, de estrelas vizinhas, mostra que um determinado número delas tem discos tipo-Cintura de Kuiper em seu redor. Estes discos são os restos da formação planetária. A previsão é que ao longo de milhares de milhões de anos, os detritos colidem, despedaçando os objectos tipo-KBO em objectos mais pequenos, que não faziam parte da população original da Cintura de Kuiper.
A descoberta é uma poderosa ilustração da capacidade dos dados arquivados do Hubble em produzir importantes novas descobertas. Num esforço de revelar outros KBOs pequenos, a equipa planeia alagar o seu estudo aos restantes dados dos FGS, para a quase totalidade da duração das operações do Hubble, desde o seu lançamento em 1990.
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Cintura de Kuiper:
NASA
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Telescópio Espacial Hubble:
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Diagrama que ilustra como é que o KBO foi detectado.
Crédito: NASA, ESA e A. Feild (STScI)
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Impressão de artista de um pequeno KBO a ocultar uma estrela. O Telescópio Espacial Hubble da NASA registou este breve evento, o que permitiu aos astrónomos determinar que o KBO tinha menos de um quilómetro em diâmetro, um novo recorde do mais pequeno objecto da Cintura de Kuiper já descoberto.
Crédito: NASA, ESA e G. Bacon (STScI)
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