Talvez Frank Drake tenha razão. Há quase meio século atrás, o astrónomo americano postulou que, com base em pura probabilidade estatística, a Via Láctea podia estar repleta de planetas tipo-Terra. Agora, observações de antigas estrelas como o nosso Sol, apelidadas de anãs brancas, sugerem que a esmagadora maioria delas abrigou pelo menos um mundo rochoso. Dado que as estrelas que terminam a sua vida como anãs brancas constituem bem mais de metade da população estelar da Via Láctea (certos estudos apontam para uma percentagem superior a 90%), isto significa que centenas ou até milhares de civilizações podem habitar na nossa Galáxia.
A questão de quantos mundos rochosos existem na Via Láctea desorienta os astrónomos há já quase cem anos. Mesmo hoje em dia, a tecnologia dificulta a pesquisa. Os astrónomos estão ainda a anos de serem capazes de fotografar directamente outra Terra. Os dois métodos de detecção de planetas extrasolares envolvem ou o estudo de pequenas oscilações no movimento de uma estrela, provocado pelo puxo gravitacional dos seus planetas em órbita, ou a observação da diminuição da luz da estrela quando um planeta passa entre esta e o observador terrestre. Ambos os métodos já revelaram centenas de planetas tipo-Júpiter, mas não um gémeo da Terra - embora já tenham sido avistados alguns planetas rochosos gigantes.
Hoje, numa reunião da Sociedade Astronómica Real em Glasgow, Reino Unido, uma equipa de investigadores apresenta um novo método para estimar quantos planetas rochosos podem existir. O estudo centra-se nas anãs brancas. Estes sóis moribundos já brilharam como o nosso, mas no final da sua vida de 9 mil milhões de anos, cresceram e transformaram-se em gigantes vermelhas, estrelas com diâmetros até 200 vezes o do nosso Sol (se isto acontecesse no nosso Sistema Solar, o Sol crescia até para lá da órbita da Terra). Então, gradualmente, estas estrelas inchadas murcham até metade do seu tamanho original, lentamente diminuindo de brilho e ficando rodeadas por uma grande mas fina atmosfera.
De acordo com os cientistas, estas atmosferas podem ser um sinal fácil de ler, um sinal indicador da existência prévia de planetas rochosos em órbita de estrelas mortas. Normalmente, estas atmosferas são dominadas por elementos leves, como o hidrogénio e hélio, pois os elementos mais pesados tendem a caír para o interior da estrela. Mas cerca de 20% das anãs brancas estão poluídas por elementos mais pesados. Uma teoria afirma que estas estrelas recolheram esta poluição ao absorver gás interestelar e poeira. "Esta teoria já existe há muito tempo," afirma Jay Farihi da Universidade de Leicester, Reino Unido. "Mas eu suspeitava que era falsa."
A equipa de Farihi estudou o espectro, assinaturas químicas da luz, em 146 anãs brancas localizadas até várias centenas de anos-luz da Terra, com o SDSS (Sloan Digital Sky Survey). De entre estas estrelas, 109 exibiram espectros que indicavam a presença atmosférica de elementos mais pesados como o cálcio. Os planetas rochosos são as únicas fontes prováveis destes elementos pesados, por isso o espectro mostra que estas estrelas devem ter consumido tais planetas durante o seu estágio de gigante vermelha.
Com base nos dados, a equipa extrapolou que pelo menos 3,5% de todas as estrelas como o Sol na Via Láctea actualmente contêm planetas rochosos. Através de outro cálculo grosseiro, isto significa que a nossa Galáxia teve já, a dada altura, um máximo de mil milhões de planetas rochosos. Uma pequena fracção destes, por sua vez, podem ter sido do tipo Terra, o que significa que preenchiam determinados critérios, como a existência de água e presença na zona habitável do sistema estelar.
O estudo reforça a ideia de que a formação de planetas em torno de outras estrelas "é um resultado comum," afirma o cientista planetário Jonathan Fortney da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, EUA. Tão comum, salienta, que o número de estrelas com planetas rochosos é "provavelmente muito maior" que o valor de 3,5% estimado pelos autores. Pode até ser superior a 20%, dado que alguns sistemas planetários são inteiramente destruídos e não deixam traços para poluir a anã branca com elementos mais pesados.
Também interessante é o indício que algum deste material rochoso, poluidor de anãs brancas, continha água. As anãs brancas estudadas tinham atmosferas de hélio, mas mostraram traços de hidrogénio, um dos dois elementos que constituem a água. Se o hidrogénio e os metais forem oriundos de fontes diferentes, as estrelas que contêm ambos devem ser raras, explicou Farihi. Mas na realidade são bastante comuns, sugerindo que o hidrogénio e os metais têm a mesma fonte.
"As rochas que forneceram os metais provavelmente forneceram o hidrogénio," afirma Farihi. O hidrogénio sugere que os minerais que continham metais também continham água, um elemento essencial para a vida como a conhecemos. A descoberta de uma assinatura de oxigénio nas atmosferas destas anãs brancas poderá ajudar a melhorar esta interpretação, mas Farihi afirma que a equipa precisa do Hubble para a descobrir. Pediram tempo de observação e estão à espera da decisão.
Links:
Notícias relacionadas:
SPACE.com
New Scientist
Science
MSNBC
Planetas extrasolares:
Wikipedia
Wikipedia (lista)
Wikipedia (lista de extremos)
Catálogo de planetas extrasolares vizinhos (PDF)
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares
Exosolar.net |
|

Impressão de artista de uma gigantesca cintura de asteróides em órbita de uma estrela. O novo estudo com dados do SDSS mostra que entulhos semelhantes em torno de muitas anãs brancas contaminam estas estrelas com material rochoso e água.
Crédito: NASA/JPL/Caltech/T. Pyle (SSC)
(clique na imagem para ver versão maior) |