Por vezes, a distância aparente entre dois objectos celestes - a distância que podemos realmente ver no céu - é indicada em termos de ângulos. Mas estas descrições podem ser como uma língua estrangeira para quem não está habituado. Por isso, aqui fica uma ajudinha.
Se medíssemos a distância em torno do círculo de todo o horizonte - de Norte, passando por Este, Sul, Oeste e Norte outra vez -, totalizávamos 360 graus.
Do horizonte ao ponto directamente por cima das nossas cabeças (o zénite), vão 90 graus; de um ponto no horizonte, passando pelo zénite, e continuando até ao lado do oposto do céu, são 180 graus.
Também pode usar o seu punho fechado como um sextante para medir a altura da Lua, de uma estrela ou planeta por cima do horizonte. Um punho fechado, à distância de um braço esticado, mede aproximadamente 10 graus. Por isso pode usar o seu punho para fazer uma razoável estimativa, quer horizontalmente quer verticalmente.
As próprias estrelas podem servir de réguas no céu. A famosa cintura de Orionte, por exemplo, mede coisa de 3 graus e as estrelas gémeas de Gémeos (Pollux e Castor) estão separadas por pouco mais de 4.
Esta semana, a constelação de Leão situa-se convenientemente alta no céu a Sul ao pôr-do-Sol. O padrão estelar em forma de "ponto de interrogação invertido" forma a cabeça de Leão e mede, de cima para baixo, 14 graus. A distância entre as duas estrelas mais brilhantes de Leão, Régulo e Denébola, é de 24 graus.
Ocasionalmente, dois planetas ou uma estrela e um planeta, parecem excepcionalmente perto um do outro no céu; a sua distância é menor que um grau.
Em tão invulgares casos, podemos medir a distância entre os dois objectos em décimas de grau ou, em casos mais extremos, em segundos de arco. Um grau, por exemplo, equivale a 60 arco-minutos. Meio grau, o tamanho aparente médio da Lua, é equivalente a 30 arco-minutos.
Na Ursa Maior, a estrela no meio da pega da frigideira é Mizar, e tem uma companheira mais ténue com um quinto do seu brilho, conhecida como Alcor.
Mizar e Alcor em tempos medievais testavam a vista dos arqueiros reais (caso conseguissem ver duas estrelas e não apenas uma, seriam aceites), mesmo embora pessoas com falta de vista consigam observá-las. Estão separadas por apenas 0,11º ou 6,6 arco-minutos (396 arco-segundos); se quiser pode observá-las esta noite. De facto, dois planetas brilhantes ou um planeta e uma estrela, separadas por esta distância ou menos, proporcionam uma esplêndida vista astronómica.
Nos próximos 20 anos terão lugar algumas conjunções muito próximas, nas quais dois objectos - ou dois planetas brilhantes ou uma estrela brilhante e um planeta - vão estar separados por menos de 12 arco-minutos. Na tabela abaixo encontram-se cinco exemplos.
| DATA |
OBJECTOS |
SEPARAÇÂO |
ALTURA DE OBSERVAÇÂO |
| 03/10/2012 |
Vénus / Régulo |
0,07º |
Antes do nascer-do-Sol |
| 27/08/2016 |
Vénus / Júpiter |
0,09º |
Depois do pôr-do-Sol |
| 21/12/2020 |
Júpiter / Saturno |
0,06º |
Depois do pôr-do-Sol |
| 28/07/2023 |
Mercúrio / Régulo |
0,16º |
Depois do pôr-do-Sol |
| 02/10/2028 |
Vénus / Régulo |
0,27º |
Antes do nascer-do-Sol |
Os estudiosos da Bíblia e da História terão certamente um interesse especial em observar a conjunção de Vénus/Júpiter em Agosto de 2016, pois há quem teorize que uma aproximação deste género, no céu a Este ao lusco-fusco do dia 3 de Agosto do ano 3 AC, poderia ter sido o que os reis Magos comunicaram ao Rei Herodes como sendo a famosa Estrela de Belém.
Ainda mais intrigante é a conjunção de Júpiter e Saturno no dia 21 de Dezembro de 2020.
As conjunções entre Júpiter e Saturno ocorrem à média de uma a cada 20 anos. Mas a de 2020 será invulgar porque é raro os planetas estarem tão próximos um do outro. Já alguma vez quis observar Júpiter e seus satélites a passarem pelo mesmo campo de visão telescópica que Saturno e o seu sistema de anéis?
Pois bem, será nessa noite! De facto, a última vez que estiveram tão perto foi em Julho de 1623 e só o estarão novamente em Março de 2080. Marque no seu calendário!
Dado que mede meio-grau em tamanho aparente, há quem pense que a Lua pode ser utilizada para medir distâncias angulares, mas tal não é o caso.
Em primeiro lugar, há a famosa ilusão de que o nosso satélite natural parece muito maior em tamanho quando está perto do horizonte. De facto, a Lua ao nascer pode por vezes parecer enorme, e uma ou duas horas depois parecer ter diminuído consideravelmente em tamanho. Este estranho efeito intrigou artistas e confundiu psicólogos durante muitos anos, e encantou pessoas desde tempos longínquos, até personagens famosas como Aristóteles, entre outros.
Ninguém parece saber com exactidão o porquê disto acontecer, embora a explicação mais popular é que a ilusão da Lua é uma ilusão óptica relacionada como a denominada ilusão de Ponzo, na qual a mente humana julga o tamanho de um objecto com base em objectos no pano da frente e de trás, como árvores ou casas, enganando o nosso cérebro a pensar que a Lua é muito maior do que na realidade é.
Mas mesmo quando está alta no céu, a Lua parece "demasiado grande" para medir meio-grau em diâmetro. E esta ilusão não está confinada ao céu, é ainda mais evidente no "Universo faz-de-conta" de um planetário.
Quandos os primeiros projectores foram desenhados e projectaram a imagem da Lua com meio-grau na cúpula de um planetário, tal como aparece no céu, descobriu-se que aparecia demasiado pequena para ser realista, embora tivesse o tamanho angular correcto em relação ao céu de fundo.
Para rectificar este problema, os engenheiros duplicaram o tamanho da imagem projectada da Lua para um grau, o que representa uma aparência muito mais realista; um dos únicos lugares onde a precisão foi sacrificada a favor do realismo.
Similarmente, a Lua parece muito maior contra um céu verdadeiro. Tente esta experiência mental uma destas noites, quando puder ver a Ursa Maior e a Lua no céu ao mesmo tempo.
Primeiro observe Dubhe e Merak, as duas estrelas usadas para apontar para a Estrela Polar. Agora, olhando para a Lua e novamente para Dubhe e Merak, tente estimar quantas Luas caberiam entre as duas estrelas.
Tenha em atenção que estas duas estrelas estão separadas por qualquer coisa como cinco graus e meio. E como já se disse, a própria Lua parece medir meio-grau em diâmetro.
Isto significa que conseguiria encaixar à volta de 11 Luas entre as duas estrelas. É um facto muito difícil de aceitar. Talvez caibam quatro Luas no espaço entre as duas estrelas; cinco no máximo.
Mas 11? O céu nocturno está cheio de surpresas.
Links:
Distâncias angulares:
Wikipedia
Ilusão da Lua:
Wikipedia |