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AS DISTÂNCIAS NO CÉU NOCTURNO
4 de Maio de 2010

 

Por vezes, a distância aparente entre dois objectos celestes - a distância que podemos realmente ver no céu - é indicada em termos de ângulos. Mas estas descrições podem ser como uma língua estrangeira para quem não está habituado. Por isso, aqui fica uma ajudinha.

Se medíssemos a distância em torno do círculo de todo o horizonte - de Norte, passando por Este, Sul, Oeste e Norte outra vez -, totalizávamos 360 graus.

Do horizonte ao ponto directamente por cima das nossas cabeças (o zénite), vão 90 graus; de um ponto no horizonte, passando pelo zénite, e continuando até ao lado do oposto do céu, são 180 graus.

Também pode usar o seu punho fechado como um sextante para medir a altura da Lua, de uma estrela ou planeta por cima do horizonte. Um punho fechado, à distância de um braço esticado, mede aproximadamente 10 graus. Por isso pode usar o seu punho para fazer uma razoável estimativa, quer horizontalmente quer verticalmente.

As próprias estrelas podem servir de réguas no céu. A famosa cintura de Orionte, por exemplo, mede coisa de 3 graus e as estrelas gémeas de Gémeos (Pollux e Castor) estão separadas por pouco mais de 4.

Esta semana, a constelação de Leão situa-se convenientemente alta no céu a Sul ao pôr-do-Sol. O padrão estelar em forma de "ponto de interrogação invertido" forma a cabeça de Leão e mede, de cima para baixo, 14 graus. A distância entre as duas estrelas mais brilhantes de Leão, Régulo e Denébola, é de 24 graus.

Ocasionalmente, dois planetas ou uma estrela e um planeta, parecem excepcionalmente perto um do outro no céu; a sua distância é menor que um grau.

Em tão invulgares casos, podemos medir a distância entre os dois objectos em décimas de grau ou, em casos mais extremos, em segundos de arco. Um grau, por exemplo, equivale a 60 arco-minutos. Meio grau, o tamanho aparente médio da Lua, é equivalente a 30 arco-minutos.

Na Ursa Maior, a estrela no meio da pega da frigideira é Mizar, e tem uma companheira mais ténue com um quinto do seu brilho, conhecida como Alcor.

Mizar e Alcor em tempos medievais testavam a vista dos arqueiros reais (caso conseguissem ver duas estrelas e não apenas uma, seriam aceites), mesmo embora pessoas com falta de vista consigam observá-las. Estão separadas por apenas 0,11º ou 6,6 arco-minutos (396 arco-segundos); se quiser pode observá-las esta noite. De facto, dois planetas brilhantes ou um planeta e uma estrela, separadas por esta distância ou menos, proporcionam uma esplêndida vista astronómica.

Nos próximos 20 anos terão lugar algumas conjunções muito próximas, nas quais dois objectos - ou dois planetas brilhantes ou uma estrela brilhante e um planeta - vão estar separados por menos de 12 arco-minutos. Na tabela abaixo encontram-se cinco exemplos.

DATA OBJECTOS SEPARAÇÂO ALTURA DE OBSERVAÇÂO
03/10/2012 Vénus / Régulo 0,07º Antes do nascer-do-Sol
27/08/2016 Vénus / Júpiter 0,09º Depois do pôr-do-Sol
21/12/2020 Júpiter / Saturno 0,06º Depois do pôr-do-Sol
28/07/2023 Mercúrio / Régulo 0,16º Depois do pôr-do-Sol
02/10/2028 Vénus / Régulo 0,27º Antes do nascer-do-Sol

Os estudiosos da Bíblia e da História terão certamente um interesse especial em observar a conjunção de Vénus/Júpiter em Agosto de 2016, pois há quem teorize que uma aproximação deste género, no céu a Este ao lusco-fusco do dia 3 de Agosto do ano 3 AC, poderia ter sido o que os reis Magos comunicaram ao Rei Herodes como sendo a famosa Estrela de Belém.

Ainda mais intrigante é a conjunção de Júpiter e Saturno no dia 21 de Dezembro de 2020.

As conjunções entre Júpiter e Saturno ocorrem à média de uma a cada 20 anos. Mas a de 2020 será invulgar porque é raro os planetas estarem tão próximos um do outro. Já alguma vez quis observar Júpiter e seus satélites a passarem pelo mesmo campo de visão telescópica que Saturno e o seu sistema de anéis?

Pois bem, será nessa noite! De facto, a última vez que estiveram tão perto foi em Julho de 1623 e só o estarão novamente em Março de 2080. Marque no seu calendário!

Dado que mede meio-grau em tamanho aparente, há quem pense que a Lua pode ser utilizada para medir distâncias angulares, mas tal não é o caso.

Em primeiro lugar, há a famosa ilusão de que o nosso satélite natural parece muito maior em tamanho quando está perto do horizonte. De facto, a Lua ao nascer pode por vezes parecer enorme, e uma ou duas horas depois parecer ter diminuído consideravelmente em tamanho. Este estranho efeito intrigou artistas e confundiu psicólogos durante muitos anos, e encantou pessoas desde tempos longínquos, até personagens famosas como Aristóteles, entre outros.

Ninguém parece saber com exactidão o porquê disto acontecer, embora a explicação mais popular é que a ilusão da Lua é uma ilusão óptica relacionada como a denominada ilusão de Ponzo, na qual a mente humana julga o tamanho de um objecto com base em objectos no pano da frente e de trás, como árvores ou casas, enganando o nosso cérebro a pensar que a Lua é muito maior do que na realidade é.

Mas mesmo quando está alta no céu, a Lua parece "demasiado grande" para medir meio-grau em diâmetro. E esta ilusão não está confinada ao céu, é ainda mais evidente no "Universo faz-de-conta" de um planetário.

Quandos os primeiros projectores foram desenhados e projectaram a imagem da Lua com meio-grau na cúpula de um planetário, tal como aparece no céu, descobriu-se que aparecia demasiado pequena para ser realista, embora tivesse o tamanho angular correcto em relação ao céu de fundo.

Para rectificar este problema, os engenheiros duplicaram o tamanho da imagem projectada da Lua para um grau, o que representa uma aparência muito mais realista; um dos únicos lugares onde a precisão foi sacrificada a favor do realismo.

Similarmente, a Lua parece muito maior contra um céu verdadeiro. Tente esta experiência mental uma destas noites, quando puder ver a Ursa Maior e a Lua no céu ao mesmo tempo.

Primeiro observe Dubhe e Merak, as duas estrelas usadas para apontar para a Estrela Polar. Agora, olhando para a Lua e novamente para Dubhe e Merak, tente estimar quantas Luas caberiam entre as duas estrelas.

Tenha em atenção que estas duas estrelas estão separadas por qualquer coisa como cinco graus e meio. E como já se disse, a própria Lua parece medir meio-grau em diâmetro.

Isto significa que conseguiria encaixar à volta de 11 Luas entre as duas estrelas. É um facto muito difícil de aceitar. Talvez caibam quatro Luas no espaço entre as duas estrelas; cinco no máximo.

Mas 11? O céu nocturno está cheio de surpresas.

Links:

Distâncias angulares:
Wikipedia

Ilusão da Lua:
Wikipedia

 


A esfera celeste e o horizonte.
Crédito: Universidade de Berkeley


A ilusão de Ponzo. As barras amarelas têm o mesmo tamanho, mas dá a impressão que a de cima é maior que a de baixo.
Crédito: Tony Philips

 
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